A prova de aula
No segundo semestre, cada aluno recebia um capítulo do livro e as aulas seriam basicamente só praticando para a prova de aula no fim do ano. Mais uma vez, não era uma aula inteira, só a apresentação do diálogo e explicação deste. Foi nessas alturas de minha vida que os sintomas da fobia social e do pânico começaram a se agravar cada vez mais e a ficarem praticamente incontroláveis. Tanto nas aulas de piano quanto na faculdade e nessas aulinhas práticas no curso, sentia calafrios no estômago, cólicas (e, muitas das vezes, diarréia), tremor intenso das mãos, boca seca e, o pior de tudo, aquela sensação de dormência se espalhando pelo corpo todo e me deixando a beira de um desmaio. Tentava disfarçar o máximo, mas, principalmente nas aulas de piano e no curso, a coisa ia de mal a pior. Sandra chegava a ficar apavorada de me ver com as mãos e a voz trêmulas, dizia que ficava nervosa por mim... mas continuava me incentivando a persistir sempre! Como a turma era grande, fomos divididos em grupos menores e a cada grupo coube uma diretora ou diretor que seria o avaliador e daria a nota na prova de aula. Disse o nome da diretora encarregada do meu grupo e que, consequentemente, iria me avaliar e senti que Gabriel hesitou um pouco quando perguntei se conhecia e se era "boazinha". Disse que a conhecia "vagamente" e que "parecia legal". Gabriel não queria que eu ficasse ainda mais em pânico, por isso me escondeu o fato dessa professora ter fama de "carrasco", uma das mais rigorosas do curso e temida por quase todos, o verdadeiro terror do curso. Realmente, acho que se ele tivesse me dito isso, teria desistido. Se bem que nunca consegui desistir das coisas assim no meio do caminho. De certa forma, invejava o colega de faculdade Hélio que, quando não estava gostando de uma matéria ou de uma aula, simplesmente "fugia", saía rapidamente da sala e desaparecia na maior. Não conseguia ser assim. Para mim, dever era dever, mesmo que auto-imposto. Quantas vezes, antes de ir para um exame de piano ou para uma apresentação oral qualquer, etc, enquanto esperava o ônibus, tive ímpetos de simplesmente pegar um para a zona sul e ir passear na praia, abandonando tudo e "sumindo" do curso. Mas nunca tive coragem de fazer isso. Com a permissão da diretora da filial perto lá de casa, (e levei dias e dias tomando coragem para pedir...), praticava sempre que podia numa sala vazia. Pegava um slide e uma fita com um dos "operadores" e lá ficava dominando a arte de repetir as frases na fita, apontar figuras nos slides, falando sozinha e também praticando um pouco no quadro-negro, a fim de melhorar a letra que era sempre horrorosa. Para auto-incentivo (e sempre inspirada no que Sandra nos dizia), praticava escrevendo frases do tipo "Sou uma pessoa capaz e vou dar minha aula prática sem problema algum", "Sou uma professora gabaritada e capaz, não tenho o que temer e nem razão para ficar nervosa", "Vou conseguir, vou vencer!". Mas vinha o frio no estômago só de pensar que o dia da prova de aula se aproximava, era o único pensamento martelando em minha cabeça dia e noite sem parar. Como iria passar aqueles momentos de agonia lá na frente, como iria manter o controle e operar aquelas máquinas sem me atrapalhar toda? E se gaguejasse? Gabriel tentava me acalmar, mas em vão. Como podíamos usar recursos visuais (fotografias, cartazes) para explicar o vocabulário e as situações do diálogo, resolvi usar o mesmo recurso das aulas práticas no Colégio de Aplicação. Desenhei vários cartazes com personagens de histórias em quadrinhos para ilustrar as situações do diálogo. Assim, pensei, desviaria a atenção: as pessoas iam olhar mais para os cartazes do que para minha mão trêmula. E como todo dia chega, chegou o dia da aula prática. Fui vendo os alunos se apresentando, a maioria parecia tensa mas com bom domínio da técnica. Silvia foi impecavel e parecia totalmente tranquila, como se nunca tivesse feito outra coisa na vida. O bolo no estômago aumentava e chegou em fim a minha vez. Achei que seria de impacto começar mostrando um cartaz e fazer umas perguntas sobre a figura (o que o método permitia), mas me atrapalhei toda e já não sabia qual cartaz usar e em qual ordem, todos deslizando das minhas mãos, caindo pelo chão e pela mesa. E chegou a hora de usar o gravador e começar a aula propriamente dita. Toquei o diálogo inteiro e ouvi algumas das outras candidatas reagirem com um "ah!!!!" ou "oh!!!!. Nesse momento, percebi o terrível erro que cometi. A primeira coisa era repetir a primeira frase três vezes e, no pânico, esqueci-me completamente disso! Era o fim!!! Estava acabada!!! Era um erro imperdoável. Senti um calafrio percorrer meu corpo e parei, com os olhos arregalados e lutando para conseguir algum fôlego, pois sentia uma tremenda falta de ar. Com um fio de voz, olhei para a avaliadora (com cara muito séria e um tanto rabujenta) e perguntei se podia começar de novo. Ela aquiesceu com a cabeça (mas sem dizer nem uma palavra de incentivo ou pelo menos sorrir). Comecei tudo de novo e desta vez, meio que anestesiada, fiz tudo certo. Mas aquele erro inicial era um problema e tanto, até as outras alunas temiam pela minha sorte. Pensei que ia tirar um zero e que nunca me dariam turma alguma e assim fiquei, sentindo-me a mais ridícula e desajeitada das pessoas e só contei para Gabriel o terrível vexame que passei. Ele comentou que essas coisas aconteciam, que muitos professores se atrapalhavam uma vez ou outra... Mas eu tinha me atrapalhado justamente quando não podia me atrapalhar!!! Pensava. No final, tirei uma nota baixa, 7, o que não significava reprovação mas diminuía muito as chances de me darem alguma turma. Mas a professora Sandra ainda apostava na minha capacidade e provavelmente "mexeu os pauzinhos" pois depois de uns dias recebi telefonema do Departamento de Ensino perguntando se eu queria uma turma de crianças numa filial perto do centro da cidade. Angelica trabalhava nesta filial se sempre me dizia que a diretora era muito boa. Aceitei toda contente. Dias depois, ligaram de novo perguntando se eu queria duas turmas em uma filial mais para a Zona Sul - uma de crianças e outra de adultos, nos sábados de manhã. Era um pouco longe mas aceitei toda alegre. Para quem pensava que não ia conseguir nada, estar já com 3 turmas garantidas era uma vitória e tanto!
Por ocasião do Natal, recebi um cartão muito carinhoso de Sandra (que já tinha avisado que enviaria cartões para todos os queridos alunos dos quais ela sentiria tantas saudades). Resolvi responder com uma cartinha de agradecimento por toda a força que sempre me deu, acrescentando que nunca esqueceria suas palavras de encorajamento. Mais tarde ela comentou que recebeu algumas respostas carinhosas e chorou muito lendo cada uma delas. Creio que foi a primeira vez em minha vida que realmente demonstrei carinho por uma professora. Sempre quis demonstrar, mas nunca consegui. Mesmo que tenha sido só por carta, já era um progresso.
Mas, antes das aulas começarem, recebi outra chamada do Departamento de Ensino dizendo que, "só para constar", era preciso que todos os novos professores fossem lá fazer um pequeno teste. Já fiquei apreensiva. Será que esses "processos de seleção" não terminam nunca? Será que os diretores nunca confiam nos professores que eles mesmo selecionaram e precisam ficar aplicando testes por toda a eternidade? Mas, conversando com Angelica, Gabriel e demais colegas, contaram-me que era coisa bem básica: só uma redação e algumas perguntas de respostas um tanto óbvias. Realmente, devíamos escrever uma redação cujo tema era mais ou menos "Quais são as qualidades que, na sua opinião, um professor deve ter". Obviamente que a gente escrevia o que eles queriam ler: o professor deve ser totalmente dedicado aos alunos, paciente, compreensivo, ter domínio da turma, etc, etc. As perguntas eram do estilo "situações simuladas". Uma das perguntas era: "O diretor te chama porque alguns dos pais de alunos reclamaram que você só fala Português com eles na classe, o que você diz?". Obviamente, tínhamos que nos mostrar totalmente chocados com tal acusação e negar veementemente, salientando que a política do curso era falar Inglês o tempo todo (o que, na prática, não é possível, ainda mais se tratando de iniciantes... mas, na "turma ideal" e na "aula ideal" que só existe na cabeça do pessoa do Dep de Ensino, tem que ser assim. Outra pergunta era: "Um determinado aluno não presta atenção e fica conversando com os outros o tempo todo, atrapalhando a aula. O que o professor deve fazer?". Fiquei meio hesitante nessa... O que será que "eles" queriam que eu respondesse? A teoria é sempre outra na prática... Disse que chamaria a atenção do aluno. Depois de todos terminarem, a supervisora resolveu ler as respostas e comentar conosco na hora. Comecei a me sentir muito pouco a vontade com a situação. No geral, elogiou as respostas de todos, principalmente a atitude de todos, chocados por terem sido acusados injustamente de terem falado Português com os alunos, "coisa impensável"... Mas chegou a vez de comentar a questão sobre como disciplinar o aluno. Ela disse que todas as respostas tinham sido boas, menos a minha! (a essas alturas já devia estar vermelha de embaraço). Não se devia NUNCA chamar atenção do aluno, dar broncas, etc. Deveria-se fazer-lhe perguntas sobre a lição, tentando fazê-lo voltar a se interessar na aula (num mundo ideal com alunos perfeitos, pode ser que isso funcione... pensei eu cá comigo...). Lamentou não ter outros supervisores com tempo livre no momento para que fizéssemos uma "dinâmica de grupo" a respeito dessa e outras questões (e eu dando graças a Deus de que eles estavam ocupados... dinâmica de grupo, só me faltava essa!!). Enfim, disse que estava tudo bem e nos desejou felicidades e boa sorte com as turmas. Todas as estapas vencidas, só restava mesmo aguardar o início das aulas.