Candidata a professora

 

Estava mesmo determinada a me tornar professora de Inglês. Não que a idéia me entusiasmasse muito. O afinco com que me dedicava ao curso tinha muito mais a ver com a paixão pela literatura que, a princípio, nada tem a ver com a prática do magistério. Mas, depois das tentativas fracassadas no curso de Administração e de descobrir que aquela não era definitivamente a minha praia, não estava disposta a ficar tentando e tentando a vida inteira. Ser professora parecia interessante: havia flexibilidade de horários, o processo de seleção, aparentemente, não era rigoroso como nas empresas e tinha uma vantagem: a gente estava praticamente só com os alunos, sem ter que ficar o tempo todo sob orientação e supervisão de chefes. Os alunos podiam ser intimidantes no primeiro contacto, mas a gente sempre sabia mais e, de qualquer jeito, possuía autoridade sobre eles. Mas, quando pensava no processo de ter que ficar escrevendo currículos, deixando nesse e naquele curso, ter que fazer inúmeros testes, provas de aula, etc, ficava desanimada. A falta de iniciativa sempre foi um grande foi um obstáculo a mais, provavelmente também imposto pela Fobia Social. Sempre precisava de "um empurrãozinho". O estágio no banco tinha sido por insistência de Sérgio. As aulas no cursinho foram mais "no embalo" pois a maioria dos colegas estava tentando e comentando sobre o assunto, etc, e era algo conveniente, sendo na própria universidade (mas que afinal, acabou não sendo!). Agora era a vez de Gabriel insistir. Dava aulas no curso audio-visual (onde a maioria das outras colegas estudara também e lecionava) e me dizia que não era tão ruim assim. Uma vez, chamou-me para assistir uma de suas aulas para um grupo de adolescentes, a fim de que pudesse ver que "não era lá esse bicho de sete cabeças". Realmente fui e a coisa me pareceu até divertida. A turma era pequena, uns 5 alunos. O método era bem interessante, com os slides (que sempre deviavam a atenção dos alunos da pessoa do professor para as imagens projetadas, o que, no meu caso, era muito bom), os diálogos em fita cassette, etc. Alguns alunos tinham um pouco de má vontade em participar, o que é sempre muito natural em se tratando de crianças e adolescentes que não fazem cursos por livre e expontânea vontade, na maioria das vezes, mas sim forçados pelos pais. Mas Gabriel era um excelente professor (creio que nasceu para isso!) e a aula fluiu muito bem e me causou muito boa impressão. Ele disse que eu devia tentar um emprego no curso e nem era tão difícil. Como eu já estava formada em Letras e, consequentemente, diplomada em licenciatura, não precisava fazer o curso de treinamento de professores que era oferecido geralmente aos alunos do próprio curso que terminavam o nível avançado e desejavam lecionar. Era só fazer uma prova (compreensão oral) e fazer uma entrevista com o diretor geral. Epa!!!! Entrevista com o diretor geral!!!! Isso me assustou um bocado pois ainda não me sentia nem um pouco segura em matéria de fluência e, além disso, só a palavra entrevista já me fazia tremer nas bases. Decidi então que o melhor era fazer o cursinho de treinamento como todos os outros alunos e, no final, fazer a prova de aula. Dessa forma iria me familiarizar mais com o método pois, além de tudo, estava em desvantagem com relação a quem tinha estudado lá pois não sabia os procedimentos, os personagens envolvidos nos diálogos, etc. Mesmo nesse caso, era preciso fazer uma prova e Gabriel praticamente me arrastou para a filial dele pois estava muito nervosa e não queria fazer, com medo de não passar e ser um vexame. Baseados no que diziam numa fita, tínhamos que responder perguntas de múltipla escolha. Era no mesmo estilo do exame TOEFL, um exame aplicado por americanos para certificar conhecimento de nível elevado em Inglês como segunda língua. Ou mais ou menos isso. Fiquei muito nervosa mas o secretário deixou até a cargo de Gabriel corrigir a prova e, no final, disseram que era "mais para constar". Passei, mas insisti que queria fazer o curso de treinamento (com duração de um ano). O secretário hesitava... Só faltava um ano para eu me formar na faculdade, não precisava passar por aquele treinamento todo. Havia três matérias no curso: Didática (que era justamente a parte de prática, aprendizado do método, etc), gramática Inglesa e Literatura. Achou que gramática e literatura seriam totalmente dispensáveis no meu caso mas, de qualquer jeito, disse para eu marcar uma hora e ir no departamento de ensino falar com um dos supervisores e fazer uma pequena entrevista a fim de que este me dispensasse das matérias e eu só cursasse didática. E lá fui eu, bastante nervosa. O supervisor era gentil e não havia aquele "tom formal de entrevista". Parecia mais uma conversa informal. Perguntou-me se tinha gostado do curso de letras, se gostava de ler, que livro estava lendo no momento, filmes, essas coisas. Mas senti que a coisa ia mal pois não conseguia falar com fluência. Gaguejava, hesitava, tropeçava na pronúncia, não conseguia atinar com as palavras mais adequadas. Sentia que estava sendo um desastre e que ele, provavelmente, não iria nem deixar eu fazer o curso de treinamento de professores! Mas ele foi educado, disse que eu tinha bons conhecimentos e que tinha gostado de mim mas... que realmente eu tinha "pouca prática" de conversação e, por conta disso, era melhor que fizesse, além do curso de ditática, o de gramática "só para praticar um pouco". Fui dispensada apenas do curso de literatura. Com expressão humilde, concordei com ele e disse que era por isso mesmo que não queria me candidatar ao cargo de professora do curso diretamente sem fazer o curso, etc. E assim ficou arranjado.

 

Durante um ano inteiro, cursei didática e gramática Inglesa no curso audio-visual. Como sempre, me sentia uma "estranha no ninho" pois TODOS os outros alunos haviam concluído o nível avançado e estavam para lá de familiarizados com tudo, e, além de tudo, muitos já se conheciam. Mas, de certa maneira, consegui me enturmar um pouco, mesmo sendo bastante mais velha do que a maioria. O professor de gramática era muito bonzinho e percebeu logo que não havia muito motivo para eu estar ali: tudo muito básico comparado ao que estava acostumada na faculdade. As meninas cometiam erros terríveis e totalmente básicos como, ao serem perguntadas pela idade: "How old are you?" responderem "I have 20 years old", o que é uma total "tradução" do Português "eu tenho 20 anos", enquanto que em Inglês usa-se o verbo "ser", "to be". Isso a gente aprende no primeiro ano de qualquer curso. Enfim, as aulas eram monótonas pois não havia nada de novo e os erros das colegas me davam nervoso (pois dava vontade de corrigi-las a todo momento), mas pelo menos era uma aula em que podia relaxar e não ter que me esforçar tanto para ter um bom desempenho. Aparentemente, as colegas não tinham inveja de mim pelo fato de eu já estar me formando em Letras e, evidentemente, saber mais do que elas. Muitas vezes vinham me pedir para corrigir alguma redação ou sanar alguma dúvida e sempre as atendi com boa vontade, sempre com aquela necessidade de ser querida e aceita. No mais, algumas eram amigas chegadas pois eram colegas de curso há muitos anos. Fora isso, no final das contas, éramos todos "adversários", todos disputando uma vaga de professor e, como sempre acontece nesses casos, era a lei do mais forte ou do "cada um por si". A professora de didática, Sandra, também era um anjinho, uma das pessoas mais doces que já conheci nessa profissão. Tinha aquele jeitinho materno de tratar as alunas, lembrava o meu tempo de primário com a professora que era chamada de "mamãe" pela maioria das minhas colegas. E valorizava, acima de tudo, o ser humano, não tinha aquela visão do professor apenas como um profissional eficiente. Achava que o amor e a dedicação eram a base te tudo. Dizia que um sorriso vencia o mundo e sua frase preferida era "se a gente quer, sempre encontra um jeito, se não quer, sempre arranja uma desculpa". Achei a frase bastante encorajadora e passei a repetí-la mentalmente com frequência, a fim de ver se adquiria mais auto-confiança. Mas foi justamente nesse curso que começou o meu "calvário". Depois de umas aulas iniciais de apresentação do método, os alunos deveriam passar para a prática. A primeira coisa era saber dominar perfeitamente a técnica de lidar com projetor e toca-fitas. Os candidatos a professor tinham que ir, um por um, lá na mesa do professor (onde havia um projetor e um toca-fitas encaixados), colocar o rolo de slides numa bobina, colocá-la corretamente no projetor e treinar apontar os detalhes com uma vareta daquelas de jogos "pega varetas". Parecia coisa fácil, mas não era. As chances de errar eram inúmeras: O slide deveria ficar bem preso à bobina, senão desenrolava tudo. Tínhamos que prestar muita atenção para que não ficasse de cabeça para baixo (o que seria um vexame, é claro) e, apontar os detalhes era complicado pois fazíamos encostando a varetinha diretamente no slide, nos guiando pela projeção. E a sombra da vareta era amplificada na imagem projetada, o que fazia qualquer tremorzinho parecer um terremoto ou sintomas de Doença de Parkinson. E era a vez do gravador. Era preciso rebobinar a fita até o princípio, zerar o contador, tocar a primeira frase e, no finalzinho desta, apertar imediatamente o botão "stop" com um dedo e, com o outro, rebobinar uma fração de segundo e parar novamente, algo como tocar piano com dois dedos. A frase então se repetia e isso por 3 vezes. Mas era complicado, pelo menos no início, atinar com o tempo certo e não tocar a frase muito antes de começar, causando aquele "silêncio embaraçoso" ou então pegá-la já no meio. Tudo tinha que ser na medida certa, sem erros. Quando a professora explicou todo esse procedimento e vi as primeiras colegas começarem a tentar, senti um terrível pavor. A coisa era muito precisa, muito detalhada, sem margens para erros! Eu ia tremer, eu ia fazer tudo errado!!!! Depois de tocar a frase 3 vezes, fazíamos algumas perguntas aos alunos e então tocávamos o diálogo inteiro, depois repetindo cada frase 3 vezes, do mesmo jeito, e explicando cada uma, com ênfase no vocabulário novo, etc. Sentia-me totalmente perdida. Quando chegou a minha vez de tentar o "truque do gravador", os dedos começaram a tremer terrivelmente, tentando tocar as teclas do toca-fitas. A professora reparou logo (aliás, todos repararam) e eu, muito sem graça, comentei que "era um pouco nervosa" mas que ia me esforçar o máximo. Ela foi sempre muito paciente comigo, sempre me incentivando e, de certa forma, me tratando como se eu fosse quase uma incapaz, mas eu gostava desse carinho dela e da paciência para comigo. Mas ficava até nervosa de ver o meu nervoso! Uma vez comentou que até a minha voz saía trêmula quando fazia as simulações de aula, o que eu nunca tinha reparado mas era bem verdade. Mas ela nunca me humilhou e tampouco desistiu de "apostar em mim", na minha capacidade de me tornar uma boa professora, e isso me dava ânimo de ir em frente pois, afinal de contas, ela era uma das figuras de maior prestígio no Departamento de Ensino e isso era, de certa forma, um "pistolão" para que eu conseguisse ao menos uma turminha. Mas era humilhante fazer aquele papelão enquanto a maioria das outras colegas mostrava segurança, tranquilidade e familiaridade com a técnica. Ao longo do curso, tínhamos que assistir a 10 aulas "reais" e, a certa altura, dar uma aula prática numa turma de verdade mas sem estar sendo avaliada por diretores e supervisores, só mesmo contando com a presença da professora da turma, que deveria preencher um relatório sobre o nosso desempenho. Assistir a todas essas aulas era um problema pois teríamos que pedir permissão aos professores, na maior "cara de pau" e já haviam comentado comigo na faculdade que a maioria tinha horror desses alunos que vinham "bisbilhotar" as aulas deles e ainda por cima fazer relatório, que seria visto pelos supervisores. De certa maneira, eles se sentiam avaliados por nós. Alguns até recusavam (embora não fosse permitido). Que agonia!! Dias e noites só pensando no que fazer. O jeito era apelar para as colegas da faculdade, mas algumas lecionavam em filiais que ficavam muito distantes e a maioria dava aulas ou no curso adiantado ou no de crianças, e nem um nem outro servia - tínhamos que assistir aulas do curso regular. Angelica veio em meu socorro: Assisti uma de suas aulas e ela ainda indicou algumas colegas que eram "boazinhas" e até falou com elas. Mesmo assim, assisti a essas aulas muito sem graça, ainda mais tendo que preencher aquele relatório e mostrar à professora no final (e esta sempre podia discordar de alguma coisa e não colocar o "ok", etc). Não me lembro das outras aulas que assisti, lembro de uma professora já de certa idade, meio ranzinza, que fez eu colocar algumas ressalvas no relatório pois nem sempre as coisas podiam correr exatamente conforme o figurino, etc. Mas foi um verdadeira tortura, não propriamente assistir as aulas, mas sim pedir permissão de professores relutantes e desconfiados (e eu também ficaria se estivesse no lugar deles). Ao final do primeiro semestre, a aula prática! A professora de didática, Sandra disse que tinha escolhido uma turma muito boa para mim, com uma professora muito paciente e gentil, uma grande amiga dela. Disse até que já tinha conversado com ela sobre "o meu caso" dizendo que eu era muito nervosa mas boa aluna, etc. Enfim, demonstrava curiosidade em saber como eu ia me sair numa turma de verdade. A filial era a dois quarteirões da minha casa. Fiquei em agonia esperando o "dia do suplício", mas assisti a duas aulas na turma e os alunos eram razoavalmente tranquilos (adolescentes) e a professora era realmente paciente e  muito gentil. Não era uma aula completa, se não me falha a memória, só a parte inicial (de apresentação dos slides com o diálogo, etc). Até que não me saí muito mal, chamei atenção de alguns alunos que estavam conversando, mas não dando bronca, só procurando fazê-los se interessar pela matéria por meio de perguntas dirigidas a eles, etc. Devo ter cometido alguns erros, mas por um milagre qualquer, não tremi e demonstrei certa calma e domínio da turma. Afinal de contas, eram poucos alunos, a professora era gentil e não estava sendo avaliada para fins de aprovação, notas, etc. A professora ficou até um pouco surpresa, pois Sandra havia conversado sobre mim e dito que eu "sofria dos nervos" e ela não notou esse pânico todo. Disse que dei uma boa aula. Sandra também ficou bastante surpresa. Creio que nem eu nem ela atinávamos que o problema não era a aula em si, mas sim o fato de estar sendo avaliada e, ainda por cima, na frente de outras candidatas a professora. De qualquer jeito, ela ficou bastante contente com meu desempenho e se rasgou em elogios. Havia um aluna chamada Silvia, "cria da casa" que se destacava das demais pelo empenho e pela dedicação. Parecia estar totalmente apaixonada pelo curso e pela idéia de fazer parte de seu quadro de professores. Era uma daquelas que cometia alguns erros bem básicos de gramática mas, se empenhava um bocado. A gente era obrigado a assistir 10 aulas... ela assistiu 25, só porque "ficou empolgada" (e ouvi comentários a boca pequena de que os professores andavam já bastante irritados com o assédio dela, ainda mais que geralmente os criticava e apontava mil irregularidades nos relatórios - lembro vagamente que houve até uma briga feia com relação a algo desse tipo). Não sei se realmente amava o curso ou era só puxa-saquismo mesmo (ou um misto das duas coisas). Obviamente, de tanto assistir aulas e de praticar em salas vazias, adquiriu bastante domínio do método, o que de certa forma compensava pela gramática e pronúncia meio duvidosas. Fez amizade com todo o pessoal do Departamento de Ensino e se tornou a "queridinha" de todos. Essa, pensava eu, já estava com o emprego garantido. Mas achava, de certa forma, injusto pois eu tinha um diploma universitário e estava naquela situação humilhante e inferior só por culpa dos meus nervos!

 

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