"Os Proscritos"
Não sei se começou só com algumas coincidências, mas uma das professoras de Literatura Americana e Britânica, mais para o final do curso, sempre acabava selecinando poesias, peças de teatro e romances onde o ou personagens principais eram sempre "outcasts" (traduzindo: proscritos), ou seja, pessoas "diferentes", que não se ajustavam ao padrão considerado aceitável e normal pela sociedade e, por conta disso, eram banidos - viviam marginalizados, desprezados, incompreendidos e, por isso mesmo, sofriam muito. A solidão acabava, na maioria das vezes, matando-os ou então a própria sociedade, representada por algum personagem "certinho" e totalmente dentro dos padrões, dava cabo deles. O fim era sempre solidão, sofrimento, loucura, morte. O tema despertou interesse e, a partir de então, para motivar a turma, a professora passou a escolher de propósito personagens desse tipo, o que realmente tornou o estudo um bocado interessante e, por que não dizer, apaixonante. Franquenstein, o monstro sofrido, procurando desesperadamente uma companheira igual a ele, causando repugnância até em seu criador. No teatro: Blanche Dubois do "Trem chamado Desejo", que acaba indo para um hospício e dizendo "sempre precisei contar com a boa vontade de estranhos", incompreendida pela irmã, apaixonada pelo cunhado e sendo abusada por este. O protagonista da "Morte do Caixeiro Viajante". Na poesia, Frost e seu poema "The two roads" que fala justamente da pessoa que, em certo momento da vida, se viu obrigada a optar por seguir um determinado caminho e resolveu escolher o menos percorrido, arcando com todas as consequências dessa decisão. "The hollow man" ("O Homem Oco"), a vida moderna transformando o homem em apenas mais "uma peça na engrenagem". Fiquei maravilhada com as peças de Teatro do Absurdo, principalmente "Esperando Godot" e "Zoo Story". Esta última é um monólogo de um cara que não consegue se ajustar aos padrões e por isso vive de forma marginal - e senta-se num banco onde um homem "normal", aquele que tem casa, trabalho, mulher, filhos, animais domésticos, rotinas, enfim, o "padrão do sonho americano" tem que ouvir a história do "marginal" num confronto rico de significados e de fim trágico. Identifiquei-me muito com o personagem "marginal" desta peça, li inúmeras vezes e acho que poderia escrever uma tese sobre ela, tanta coisa a ser comentada. A mesma coisa com "Esperando Godot" (sobre esta acabei escrevendo uma monografia no curso de pós-graduação). Minha vida era "esperar Godot". E quem é Godot? É a felicidade, é Deus, é a purgação de culpas, é a cura, é tudo que esperamos desesperadamente, é o sentido de nossas vidas. Mas Godot nunca chega! A vida acaba sendo uma repetição sem fim de fatos que não parecem fazer nenhum sentido. Nesta época, realmente sentia que minha vida parecia um disco arranhado, a mesma coisa se repetindo até o infinito. Já comentei que, no campo sentimental, acabava cometendo sempre os mesmos erros, sendo vítima das mesmas ilusões, etc. Pensava estar condenada a só me apaixonar por gays a vida inteira - só para não ser correspondida, é claro - pois, a essas alturas do campeonato, já tinha descoberto que não se pode "converter um gay" ou seduzi-lo para que se torne heterossexual. Cada um é o que é, não se pode ir contra a própria natureza. Eu eu com pretenções de mudar a natureza alheia, eu que nem conseguia mudar a minha própria (a fobia, o nervoso, a timidez, etc). As psicólogas disseram que eu fazia isso de propósito para evitar um "relacionamento de verdade". Não creio que fosse o caso, na minha opinião, estava apenas tentando "colher laranjas em macieiras". Como tinha fixação em músicos desde pequena (identificação com papai, vontade frustada de ser uma pianista - e projetando meus desejos no companheiro que elegia, influência de romances e filmes, etc), procurava um companheiro justamente nas escolas de música. Não sei exatamente o porquê, mas a maioria dos pianistas clássicos é homossexual. Não é preconceito meu, pois aprendi a respeitar-los e amá-los (todos extremamente cavaleiros, sensíveis, carinhosos, pacientes, geniais), mas é simples constatação e muitos me confirmaram isso. Não digo que TODOS seja, mas pelo menos a maioria. Excelentes como amigos, mas o que eu queria era romance! Procurava no lugar mais errado possível. Mas a gente aprende pelo menos algumas lições nessa vida e acabei conseguindo romper o "círculo vicioso", desafiando o "mito do eterno retorno" que me assombrava a tal ponto de quase me enlouquecer. Antes de me conscientizar do meu erro, achava que era vítima de um destino cruel, punida por Deus sem razão alguma ou vítima de uma praga rogada por algum inimigo ou inimiga.
Enfim, voltando ao tema principal desse "capítulo da minha história". Embora fizéssemos parte do "Grupinho Legal", muitos de nós nos identificávamos com os "proscritos", por um motivo ou por outro. A própria opção pelo magistério fazia de nós peixes nadando contra a maré. Profissão difícil, estressante e terrivelmente mal paga. Muitas vezes me disseram "Você tem é que arranjar um trabalho sério" pois o que a Sociedade considera "trabalho" é a tradicional jornada de 8 horas semanais, terno-e-gravata (ou tailleur para as mulheres), relógio de ponto, escritório. Professor tem horários flexíveis, que acabam mudando de um semestre para o outro. Tem mais de um mês de férias por ano. Não é mais considerada uma "profissão de futuro". O próprio ensino estava se tornando totalmente desvalorizado, escolas e universidades virando empresas do "pagou-passou". Os professores perderam todo o respeito dos alunos e isso com respaldo dos pais que, afinal, "estavam pagando". Triste realidade, triste destino. Mas todos estavam seguindo seus sonhos (ou pelo menos tentando)! A maioria dos professores só persevera na carreira por amor e vocação. Trabalhar por amor? Amar o trabalho? Isso é ser diferente! Isso é ser proscrito! Isso é ser incompreendido até mesmo pela família e pelos amigos mais chegados.
E chegamos ao final do curso. Gabriel foi eleito orador, mas não aceitou de jeito nenhum fazer o discurso sozinho, preferiu que fosse "meio a meio" com Patricia. Os "mestres de cerimônia", Pedro e Luisa! Decidiram escolher um nome para a turma e não foi preciso pensar muito. Por decisão unânime, o nome era "The Outcasts". As meninas decidiram que o traje da cerimônia seria bem simples. Na hora de escolher, numa boutique, apaixonei-me novamente por um vestido semelhante ao que usei na formatura de Administração. Estilo romântico, saia bem rodada. O da Adm era estilo rendado, este era de setim branco com flores pintadas à mão. Era um pouco espalhafatoso, se comprarado com a sobriedade dos trajes das colegas. Pensei que "ia abafar" e no final das contas, acabei ficando muito envergonhada. Gabriel me contou que as meninas, ao me verem andando com meus pais pela calçada em direção à Universidade, começaram a me chamar de "A mulher de branco". Isso por causa de uma novela que estava passando na época, na qual havia uma "assombração" e só se sabia que era uma mulher vestida de branco. Pronto, eu sendo comparada a uma assombração! Tentando ser bonita e elegante, acabei caricata e motivo de piadinhas mais uma vez! Pelo menos não implicaram com meu cabelo. Tinha passado a maior parte da manhã no cabeleireiro, corte, escova e bastante fixador, já que meu cabelo sempre foi muito pesado e os penteados geralmente não duravam muito, acabava tudo "despencando" muito antes da festa. A despeito de tudo isso, a formatura foi muito bonita e emocionante. O discurso de Gabriel quase me leva às lágrimas, justamente falando sobre os "proscritos" desse mundo. Nos últimos dias de aula andara muito deprimida e abatida (e muitos até estranharam). Já sentia saudades da universidade onde passei 8 anos de minha vida. Se nem tudo foram flores e as decepções foram muitas, foi lá que comecei realmente a "viver" em sociedade, a ter amigos, a paquerar, a interagir com grupos. Aquelas paredes de concreto tão frias e sem graças, aquelas rampas, aquele ambiente sombrio mas com corredores apinhados de alunos, os jardins, sentiria falta de tudo aquilo, até mesmo das horas de desespero as vésperas de provas e exames. Aquela Universidade tinha se tornado quase que parte de mim mesma. E agora, onde fazia amigos, onde iria me socializar (ainda que de forma precária), onde tentaria encontrar a minha "cara-metade"? Minha vontade era continuar lá para sempre, emendar um curso com outro e mais outro e mais outro, passar a vida inteira assim. Costumava até brincar dizendo que, se morresse, meu fantasma iria assombrar a Universidade, ficar andando pelos corredores, passeando pelos jardins, assustando os alunos e professores só para me distrair... ou fazendo-os ouvir meus gritos e lamentos... por toda a eternidade.