Chá de panela

 

Depois de tanto ouvir falar no noivado e nos planos do casório durante o curso todo, finalmente chegou o "final feliz" e Angela foi gentil: levou o convite pessoalmente lá em casa e fez questão de que eu comparecesse ao chá de panela que, além do propósito tradicional de dar presentes e fazer brincadeiras, serviria para mostrar a todos como o apartamento (um segundo andar acrescentado à casa da mãe) havia ficado bonito com tudo já prontinho. Escolhido o presente, combinei um lugar para um grupo de nós pegarmos o ônibus pois Angela morava num bairro bastante distante da zona norte, uma viagem e tanto e muita gente não saberia chegar lá sozinha. Eu estava nervosa pois nunca tinha ido a um chá de panela, mas pela amostra que tive de algumas noivas todas pintadas como se fossem calouras de faculdade pedindo dinheiro a carros que passavam e com um grupo de outras meninas a seguindo, gritando piadinhas e batendo tampas de panelas, a coisa me parecia desagradável. O único outro convite que tive na vida foi para o de Debora, mas arranjei uma desculpa qualquer para não ir pois não conhecia ninguém além dela, que obviamente estaria muito ocupada sendo o centro das atenções e vítima dos trotes, e eu me sentiria totalmente deslocada e sem graça. Mas desta feita não deu para arranjar desculpas e, no final das contas, não era grande sacrifício pois, mesmo achando a coisa toda um bocado ridícula, eu não seria o alvo dos trotes e, além disso, conhecia muitas das outras meninas. Sendo assim, não via muito risco na coisa e estava mesmo curiosa para ver o tão falado apartamento e também para conhecer a cachorrinha Poodle.

Lá chegando, ficamos um tempo batendo papo com a mãe de Angela, algumas tias e outras parentas de idade, que estavam no primeiro andar da casa. Depois, fomos levadas para conhecer o segundo andar (que seria a casa de Angela) e nos foi mostrado o apartamento, realmente muito bonitinho e caprichado, chão de tábua corrida recém envernizado e brilhando feito espelho, banheiro de azulejos delicados, a cachorrinha realmente uma graça, sempre nos acompanhando. Disseram para deixarmos nossas bolsas num quarto e assim fizemos. Eu, como sempre, carregava uma mochila de jeans que me acompanhava para todo o lado. Não era nem um pouco elegante e já estava um bocado velha, mas tinha preguiça de ficar trocando as "tralhas" (que eram muitas: chaveiro, carteira, santinhos, caderninho de endereços, etc) de uma bolsa para a outra o tempo todo. De vez em quando ficava um pouco envergonhada de estar sempre assim de mochila, mas não abandonava o hábito, tão prático que era.

Fomos então para um quarto ainda totalmente disprovido de móveis, só com uma cadeira no centro, para Angela ser alvo das brincadeiras. Conforme a tradição, devia pegar cada embrulho e tentar adivinhar seu conteúdo, caso acertasse, nada acontecia, mas errando, tinha que receber a "punição". Claro que Angela estava adorando a brincadeira e aposto até que errava quase tudo só para receber o trote. Cada uma de nós tinha direito a pintar alguma coisa usando um batom no rosto ou em qualquer outra parte exposta do corpo de Angela. O pessoal estava se comportando bem, pois pintavam flores, círculos e coisas no gênero, e já vi muitas noivas com os órgãos sexuais masculinos pintados pelo corpo todo. Algumas outras inventavam uma tarefa e lembro de uma delas: Amarraram um barbante na cintura de Angela com uma pequena folha de papel pendurada na ponta. Colocaram uma vela no gargalo de uma garrafa e a acenderam no chão, e a tarefa de Angela era apagar a vela agaichando as pernas e fazendo movimentos com a cintura de forma a fazer o papel balançar e, desta maneira, fazer vento e "soprar" a vela. Todos rolavam de rir e as piadinhas se multiplicavam "Vai tentando!!! Assim você vai treinando os movimentos para a hora H!!! e por aí afora. Mas apagar a vela daquela maneira provou-se impossível e acabaram desistindo, partindo para outras brincadeiras das quais não me recordo agora. Eu estava ficando nervosa pois estava chegando a vez de abrir o meu presente e aí teria que ficar ali no centro, junto com Angela, e pintar alguma coisa em seu corpo ou dar-lhe alguma tarefa (mas não conseguia pensar em nenhuma, é claro). Ela não adivinhou o meu presente e, como tinha fama de boa pintora, as meninas gritavam "capricha!!! capricha!!!" (vai ver pensavam que eu ia desenhar algo fálico ou no gênero, mas isso nem me passou pela cabeça. Desenhei uma flor em volta dos olhos dela, sempre com o braço e a mão muito tensos com medo de tremer com todos assim me observando.

Passada essa fase, fomos convidadas para descermos novamente para tomar um lanche. Quando fomos até o quarto pegar nossas bolsas, surpresa! Haviam desaparecido! A mãe de Angela dava risinhos, tinha sido provavelmente a autora da brincadeira. Angela estava um pouco sem graça e toca de todas nós procurarmos as bolsas por todos os lados. Aos poucos, todas foram sendo encontradas (dentro de armários ainda vazios, atrás da porta do banheiro, embaixo da cama e por aí afora) e, no final, só a minha não foi encontrada. Angela parecia embaraçada e pedia mil desculpas e, embora estivesse me sentindo um bocado irritada, fingi não me importar e estar levando a coisa na esportiva. "Não tem problema, Angela, qualquer hora ela aparece". E lá fomos nós lanchar, mas eu sempre olhando para todos os lados procurando ver se encontrava a mochila e já com vontade de ir embora, tal o mal estar que essa situação me causava. Quando terminávamos de comer uns pedaços de bolo e beber um refrigerante, uma das tias de Angela entrou na sala com a minha mochila nas costas, perguntando (de brincadeira, óbvio), se alguém tinha perdido uma mochila. Solucionado o mistério, mas fiquei me sentindo bastante envergonhada de ter sido assim o alvo das atenções e me perguntando o porquê de terem escolhido justamente a minha mochila. Seria só obra do acaso? Seria uma velada "vingança" de Angela, que sempre se ressentia tanto de eu não fazer nada enquanto ela trabalhava tanto? Seria para me humilhar porque eu carregava uma mochila ao invés de uma bolsa moderna e elegante como a das outras meninas? Será que a minha mochila era motivo de piadas entre as colegas sem que eu soubesse? Mil interrogações vinham à minha cabeça e não conseguia mais me sentir a vontade e nem mesmo prestar muita atenção ao que acontecia a minha volta. Nessas alturas, decidiram que era hora de Angela, já toda pintada, com "chuquinhas" por todo o cabelo e algumas roupas improvisadas, ir para a rua (ela morava numa vila) pedir umas moedinhas aos carros que passavam. Quando saímos da casa e íamos seguindo Angela em "procissão" (ela morava numa vila) até a rua, a mãe e as tias começaram a jogar farinha em cima dela mas, não satisfeitas, nos bombardearam também um monte e, mais uma vez, fui o alvo principal. As outras só levaram uma borrifada, eu fiquei com o cabelo e a roupa toda cheia de farinha. Voltei para a casa a fim de me limpar (e com isso não vi Angela na rua pedindo dinheiro aos passantes). Por dentro, sentia uma raiva terrível e uma vontade quase incontrolável de xingar todo o mundo. Nunca vi uma coisa dessas, quem leva os trotes é a noiva, nunca vi as convidadas serem tratadas desse jeito! A essas alturas já tinha decidido que este seria o primeiro e o último chá de panela do qual participaria pois e a gente não podia saber se ia ser também alvo de brincadeiras, melhor não arriscar mais. Algumas das meninas até ficaram com pena de mim e Angela sempre se desculpando pelas brincadeiras da mãe, mas me senti muito humilhada e considerava injusto este tratamento pois, afinal das contas, estava ali prestigiando a noiva, tinha levado presente como todo mundo e não sei por que cargas d`água acabei virando assim objeto de chacotas quase rivalizando com a noiva. No caso dela, era esperado e ela havia aceitado o jogo. Sei que a maioria das noivas gosta disso e curte muito as brincadeiras. Mas eu sempre tive horror a esse tipo de coisa e sempre dizia que nunca aceitaria ter chá de panela se me casasse pois como poderia sair na rua daquele jeito! Quando voltei para casa, ainda sacodia farinha dos cabelos e obviamente tive que lavá-los imediatamente. A partir de então, passei a sempre arranjar uma desculpa para não comparecer a chás-de-panela ou de bebês (que acabaram sendo inventados também para as grávidas). O que era para ser uma tarde agradável havia se tornado mais uma tortura, mais um tijolo no Muro!

 

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