Mais uma vez estagiária...
A nossa universidade era a única a oferecer, no curso de Letras (Inglês e Respectivas Literaturas), bacharelado e licenciatura em separado. Dizem que fizeram esta opção por conta de muitos alunos que não desejavam ser professores, mas sim aprimorar conhecimentos para obter melhor colocação nas empresas onde trabalhavam (geralmente como secretárias). Na nossa turma só conheci umas duas ou três colegas que não lecionavam ou planejavam tornar-se professoras, sendo assim, a maioria acabou por cursar a Licenciatura de qualquer jeito. Para facilitar (a a gente se formar em 4 anos), poderíamos cursar as matérias concomitantemente (as de Licenciatura na parte da manhã) e alguns de nós resolvemos cursar nos dois últimos anos do bacharelado, só mesmo quem lecionava o dia inteiro e não tinha tempo para cursar matérias extras deixou para depois. Pedro, Gabriel e Patrícia estavam comigo. Ao contrário das matérias do bacharelado, mais voltadas para literatura e arte em geral, as da Licenciatura eram terrivelmente enfadonhas, com professores idem. Fazíamos até piadas contando quantas vezes por dia ouvíamos as palavras "educador" e "educando". Era uma batalha para não cairmos de sono devido ao tédio e ao pouco costume de acordar cedo, mas fomos levando o barco pra frente. No segundo ano, além das outras matérias relacionadas a didática, havia a Prática de Ensino. Aulas práticas, ensinando técnicas de como preparar um plano de aula, usar o quadro-negro, etc. Devíamos então marcar um horário para assistirmos aulas de Inglês no Colégio de Aplicação da Universidade, naquele mesmo bairro onde havia lecionado Inglês na faculdade particular, na subida de um morro. O colégio tinha fama de ser um dos mais rigorosos tanto na seleção quanto na qualidade das aulas, e os alunos considerados mini-gênios. Isso me preocupava um bocado, sentia-me insegura em lidar com alunos que, de repente, sabíam até mais do que eu. Além disso, também tinham fama de serem terríveis, sendo quase tarefa impossível controlar as tumas enormes. No primeiro semestre, primeiro grau, coube-me assistir as aulas de uma professora um tanto idosa e bastante séria (o que me intimidava ainda mais) e com fama de ser bastante exigente com os estagiários. A aula era uma bagunça só, professor e alunos falando ao mesmo tempo, raramente se conseguia um razoável silêncio. Por falta de horários disponíveis, fazíamos a prática de ensino duas a duas e Patrícia estava fazendo junto comigo. Até ela que já lecionava numa escola particular ficou intimidada, alunos na faixa de 12 anos já falando fluentemente Inglês, Francês e outras línguas, e, como sabiam muito, pouco se interessavam pelas aulas e, francamente, deviam se irritar de ter que assistir aulas de tantos estagiários hesitantes, e, na maioria dos casos, inexperientes (ou nervosos demais para ter um bom desempenho). Não me recordo muito bem, mas creio que assistíamos a 10 aulas e então dávamos uma pequena aula de 10 minutos, para na próxima vez dar metade de um tempo (meia hora). O método empregado era um tanto vago e difícil de se entender a "mecânica", dava muita liberdade aos alunos, não se concentrava em gramática, havia sempre um recurso audio-visual que servia de ponto de partida para explicar o vocabulário. Enfim, uma verdadeira colcha de retalhos. Vivia em tensão constante e não pensava em outra coisa a não ser as tais aulas práticas, onde seria avaliada e receberia uma nota da professora da turma. Como domar aqueles alunos? E se desse algum fora e pronunciasse mal alguma palavra? Os alunos eram espertos, iriam logo perceber o erro e apontá-lo sem dó nem piedade. Resolvi então utilizar de um recurso, fazer o que, creio eu, fazia melhor na vida: desenho. Comprei várias folhas de cartolina e ampliei desenhos do gato Garfield em várias situações, para basear minhas explicações nas figuras e, ao mesmo tempo, desviar a atenção da minha pessoa para os desenhos engraçadinhos. Esse recurso sempre provou ser uma faca de dois gumes: realmente os alunos gostavam mas, com tantos cartazes para usar, sempre me atrapalhava, deixava cair, não encontrava o que queria, não atinava na ordem certa, etc. De qualquer jeito, sempre decidia que era melhor assim. Patricia, sem nenhum escrúpulos, pediu para usar também os meus cartazes e, além disso, baseou-se também no meu plano de aula alegando "não ter tempo" para estudar bem e preparar um plano caprichado. Como sempre acontecia, não objetei, pensando que assim ela ia me respeitar e estimar mais (creio que nunca recebi nem um "muito obrigada" por tudo isso mas, enfim...). Foram tempos de tortura e ia para o colégio como quem vai para um "matadouro". Não dormia à noite, tinha diarréias, frio no estômago. Mas, o dia de dar as aulas chegou, como todo dia acaba chegando. Mostrei os cartazes e, para minha decepção, os alunos não se mostraram tão encantados e entusiasmados quanto esperava (pois meus desenhos sempre causaram bastante sensação). De qualquer jeito, dei a primeira aula e pelo menos não senti aquela dormência desagradável pelo corpo todo, só me sentia como que "fora do corpo", difícil de explicar, sensação de estar ali mas vendo tudo de forma nublada e como se estivesse acontecendo com outra pessoa, como se estivesse meio hipnotizada. Felizmente, não houve muitos problemas a não ser de disciplina, mas a própria professora da turma tinha dificuldades nesse quesito. No final, reclamou da minha escrita no quadro negro (realmente, todos os professores reclamavam pois minha letra, que no papel já era péssima, ficava quase que ilegível. Simplesmente não conseguia escrever no quadro e ainda por cima tinha alergia ao giz e ficava com os dedos rachados. Quando tentava apagar o quadro, começava a tossir, uma verdadeira tortura (e giz antialérgico não adiantava nada). O estranho é que havia tido um quadro-de-giz em casa quando era criança e fazia desenhos muito bonitos (ou, pelo menos, era o que me diziam e eu pessoalmente gostava do meu trabalho), geralmente motivos religiosos (reprodução de quadros de Nossa Senhora ou de Cristo, dependendo da época do Ano Litúrgico em que estávamos). Desenhar não era problema, mas escrever sempre foi quase que impossível. Ao final, creio que obtive nota 7, o que é considerado uma nota medíocre, só suficiente para passar e mais nada. Patrícia tirou nota bem mais alta pois já tinha prática com turmas, apesar de ter usado meus cartazes e copiado meu plano de aula. Ainda tinha pela frente a aula de meia hora e me esforcei ao máximo e no final a professora me deu nota melhor desta segunda vez, graças a Deus. A sensação de alívio só era um pouco enfraquecida pela antecipação de ter que dar aulas para o segundo-grau no semestre seguinte. Segundo indicação de colegas que já haviam feito o estágio, Patricia e eu nos inscrevemos na turma de um professor que tinha fama de ser muito tolerante com os estagiários e "facilitar a nossa vida", não exigindo perfeição. Mas os adolescentes, sempre mais cruéis, sempre mais críticos, sempre mais debochados, me intimidavam muito mais do que as crianças e sentia pavor das aulas. Mais uma vez, nas aulas que assistíamos, um pandemônio só e a turma era maior ainda do que a do Primeiro-Grau, mais de 30 alunos se não me engano. As salas de aula eram enormes e muitos dos alunos arrumavam as carteiras em pequenos grupinhos e ficavam lá conversando, lendo revistas, sem dar a mínima atenção ao professor que tentava dar broncas em vão. Se por um lado a indisciplina deles me aterrorizava, por outro lado era até bom que não prestassem atenção à aula e assim não me fizessem perguntas ou apontassem minhas falhas. Justamente às vésperas das aulas práticas, estava passando por uma fase de depressão terrível devido a mais uma decepção amorosa das mais terríveis. Não quero me deter em detalhes do episódio, mas basta dizer que a minha vida, nesse território, parecia andar em círculos e as mesmas coisas e situações se repetiam sempre e sempre, sendo que cada vez eu me envolvia com maior intensidade. Mas, de qualquer jeito, vivia de ilusões, fingia não perceber o óbvio e cismava de querer quem não me queria (ou só me queria como amiga). Minhas ilusões tinham ido por terra e nesse clima tive que dar minhas aulas. O mundo todo parecia preto-e-branco, não conseguia sentir prazer ou nem mesmo alegria em nada, parecia que a vida era um sofrer sem fim e que alguma praga me rondava para ficar sempre vivendo situações parecidas numa repetição quase mórbida, uma comédia de erros escrita pelo Destino (ou pela má sorte). Cheguei até a ficar descrente de Deus e a achar que nada existia nessa vida, já que pessoas como eu, que só queriam amar e ser amadas, que rezavam e procuravam levar uma "vida certinha" eram "recompensadas" desse jeito, tendo sempre o azar de se apaixonar pelas pessoas que não queriam ou não podiam, de alguma forma, me corresponder. Enfrentei os adolescentes num estado de torpor, quase anestesiada. Senti as dormências, mas não de forma muito intensa. Alguns alunos colaboraram, outros me ignoraram completamente. No final, o professor só comentou sobre dois erros de pronúncia e me deu uma nota boa. Mas comecei a pensar que, mais uma vez, havia errado de profissão. Adorava as aulas de literatura porque ler era um dos maiores prazeres da minha vida mas, e lecionar era aquela tortura, não tinha vocação pois não podia sofrer sempre assim (se bem que achava que o sofrimento era mais causado pelo fato de estar sendo avaliada e observada pelo professor, se estivesse sozinha com os alunos era só lhes dar uma bronca ou então ir dando a aula de forma indiferente, na base do "quem quiser prestar atenção e aprender que o faça, senão, pouco se me dá, de qualquer jeito sou paga". Patrícia teve mais problemas de indisciplina do que eu e deu a maior bronca nos alunos, coisa que não sei se teria coragem de fazer assim na frente do professor titular. De qualquer jeito, o professor gostou do seu desempenho e do controle que mostrou ter. De qualquer jeito, ambas tiramos nota boa e estávamos livres desse verdadeiro pesadelo.
Uma vez uma professora de didática interrompeu uma de nossas aulas de Língua Inglesa perguntando quem estava disponível para dar umas aulas no Colégio, substituindo uma professora que ficara doente. Adriana se prontificou, pois estava sempre atenta a todas as oportunidades, e creio que acabou até sendo professora auxiliar no colégio, cargo esse que, depois de formados, poderia significar ser efetivado. Aquela nossa professora de Língua Inglesa iniciante tinha vindo dar aulas na Universidade seguindo esse caminho, começou no Colégio de Aplicação, depois como professora-auxiliar na Faculdade (mas tendo que fazer o mestrado para ser efetivada). Era algo promissor dar aulas na Universidade, cargo dos mais cobiçados e razoávelmente bem pago, mas ter que sofrer não sei quanto tempo aturando aqueles alunos do Colégio não era coisa para mim (embora sempre tenha me lamentado de não ter tentado, hoje em dia penso que, no final das contas, o tempo passa depressa e um dia eu me livraria do Colégio, como aconteceu com nossa professora, e acabaria dando aulas na Universidade, o que tinha além de tudo a vantagem de ser tão perto. Enfim, nunca se sabe o que o futuro nos reserva e nada era garantido, teria que passar por muitas avaliações antes de ser efetivada mesmo no Colégio, quanto mais na Universidade. Este massacre do estágio acrescentou vários tijolos ao Muro.