Estréia como professora
Logo no segundo semestre, Adriana me contou que estava estudando Alemão num curso extra-curricular oferecido na própria universidade aos sábados (3 horas de aula pela manhã). Mostou-me os livros e me entusiasmei para aprender, era uma língua difícil, com declinações, vocabulário intrincado, mas queria enfrentar o desafio, ainda mais que o o preço do curso era bem razoável. Mais para o fim do ano, descobri que este mesmo curso oferecia também aulas de Francês e Inglês e estava num processo de seleção de professores, mas aceitavam também estagiários. Resolvi me inscrever nas provas escritas e passei sem dificuldades. Houve então uma fase de treinamento com um professor bastante divertido, braço-direito do diretor e criador do curso, que tinha certas peculiaridades. Ao contrário da quase totalidade dos outros cursos, não havia problemas em traduzir as palavras para o Português, pelo contrário, antes de cada lição, o professor fazia os alunos repetirem uma lista de palavras com a respectiva tradução. Depois, explicava por meio de gestos um diálogo (com as palavras aprendidas) que os alunos deveriam também memorizar e encenar na aula. O curso era, por assim dizer, um experimento científico do diretor, e baseava-se no fato de que o aprendizado se faz com base em brincadeiras e jogos (do jeito que as crianças aprendem tudo), dava-se muita ênfase aos sentimentos dos alunos, criando um ambiente descontraído e de mínimo de tensão. Até as provas eram em papel especial, com figuras relaxantes (praias, montanhas) nas margens. E antes dos exames os alunos ouviam fitas de relaxamento. Realmente muito louvável essa preocupação com a parte emocional dos alunos pois, ainda mais no estudo de línguas estrangeiras, a tensão é muito grande (os fóbicos sociais que o digam!). Para selecinado e se tornar professor do curso, havia uma "aula prática" após o treinamento: o candidato a professor aplicava a técnica de fazer os alunos repetirem o vocabulário e a tradução (procurando se o mais criativo e menos monótono possível, mudando intonação, fazendo gaiatices, etc) e apresentava o diálogo - em frente a dois coordenadores do curso e do resto dos candidatos. Fiquei bastante tensa, mas a coisa era bastante simples. Fiz caras e bocas na hora do vocabulário e procurei ser o mais engraçada possível, e notei o sorriso aprovador do coordenador-chefe. Na semana seguinte ele me telefonou dizendo que "não havia vagas disponíveis" curso na faculdade, mas que precisavam de professores numa "filial" em outra universidade (um pouco contra-mão mas relativamente perto). Expliquei a ele que estava justamente começando o curso de Alemão no sábado pela manhã mas ele disse que não era problema, tranferia este para a tarde e eu daria aulas de manhã nesta universidade. Com isso, os meus sábados ficariam um bocado ocupados, mas, afinal de contas, nunca fui de fazer grandes coisas nos fins de semana mesmo...
As aulas começaram primeiro na nossa universidade e achei isso bom pois podia me basear no que via a professora de Alemão fazer (pois o sistema era o mesmo) e ver o que dava certo, o que não dava, enfim, a melhor maneira de usar o método. A "filial" estava ao encargo de uma coordenadora que resolveu fazer mais ou menos um outro "processo de seleção". Primeiro, marcou para conversar com as professoras indicadas pelo outro coordenador e fazer uma espécie de "palestra". Lembro que, no caminho, como a faculdade era numa área de muitas árvores e montanhas, caiu um "lacerdinha" no meu olho, um daqueles bichinhos que ficam grudado na parte de dentro da pálpebra e nos fazem esfregar os olhos sem parar, e lacrimejar muito. Assim que cheguei fui ao banheiro tentar me livrar do bichinho, mas sem espelho de aumento e uma lanterna o processo era complicado pois o inseto era minúsculo e se agarrava mesmo na parte de dentro do olho. Assim, tive que conversar com a coordenadora (que só falava conosco em Inglês, ao contrário dos outros coordenadores) e ouvir a palestra toda naquela agonia. Depois, resolveu que precisávamos fazer um outro treinamento e marcou umas sessões na nossa universidade para ficarmos novamente apresentando as mesmas coisas (vocabulário e diálogos), sendo que a coordenadora, Silvana, ficava se comportando como "aluno-problema" para ver como nos comportaríamos frente a tais situações. Foi ódio a primeira vista. Detestei Silvana desde o primeiro momento que a vi. Achei que era esnobe, convencida, autoritária e gostava demasiadamente de aparecer. Ela me intimidava com seu modo altivo e vivia apontando erros em tudo que fazíamos. Comecei a achar que seria insuportável tê-la como "chefe" e fui ficando cada vez mais insegura e nervosa. Estava muito tensa no primeiro dia de aula pois não sabia o que me esperava, como eram os alunos, se eu saberia explicar as coisas, se não iria cometer erros (pois não era muito fluente). Felizmente, a turma era toda de adultos e fiquei muito a vontade com eles. No final das contas, mesmo se eu cometesse alguns erros e não fosse muito fluente, eles não iriam perceber pois estavam começando do zero, não era como dar "aulas simuladas" para outros professores. A turma era boa e cooperativa. A princípio, fiquei meio sem graça de propôr certos jogos que constavam no livro do professor pois achava que eles iriam achar muito infantil e ridículo, mas eles se divertiam um bocado com tais jogos (felizmente a professora de Alemão não se valia dos jogos pois a matéria era muito mais extensa - ainda mais num curso de 4 anos - e não havia muito tempo de sobra, as explicações gramaticais ocupando a aula quase toda). Como aluna, teria que participar dos jogos, o que não me agradava nem um pouco. Como professora, era só curtir os alunos jogando. No caso do curso de Inglês, era justamente o contrário, havia tempo de sobra e tinha que me desdobrar em jogos e mais jogos para encher o tempo. Os alunos não me deixavam nervosa (pelo menos não muito) mas a coordenadora me causava verdadeiro horror. Marcava "mini-reuniões" quase todos os sábados antes das aulas para dar instruções e mais instruções, parecia que não confiava no trabalho da equipe. As reuniões me irritavam a ponto de, para me distrair e descarregar um pouco a tensar, ficar imaginando, enquanto ela falava e falava, maneiras de torturá-la. Em algumas ocasiões da minha vida tive esse tipo de pensamento com relação a certas pessoas que me incomodavam, ficava fantasiando em minha cabeça as torturas mais cruéis, imaginava a pessoa amarrada a uma árvore ou a um poste, e eu ia enfiando alfinetes por baixo das unhas da vítima, uma por uma, depois arrancava os cabelos, fio por fio, num processo lento de tortura. Não havia crueldade que não passasse por minha cabeça. Enquanto Silvana falava e falava, sempre com aquele ar "nojento", mal sabia que já estava a ponto de ser esquartejada na minha cabeça. Por conta das reuniões, tinha que ir mais cedo para o curso e os sábados estavam ficando realmente estafantes pois tinha que pegar dois ônibus para chegar em casa e só ter tempo de almoçar correndo e ir para o curso de Alemão, três horas de manhã e mais 3 à tarde, só mudando o papel de professora para aluna! Numa dessas reuniões, Silvana anunciou que daria aulas de conversação aos alunos, no meio da nossa aula. Fiquei totalmente chocada. Uma coisa era oferecer aulas de conversação opcionais ou depois do horário normal de aulas, outra era, em certo momento da aula (muitas vezes interrompendo um assunto no meio) chegar, fazer o professor sair e ficar meia hora passeando no pátio enquanto ela dava as aulas dela. Achei isso uma tremenda falta de ética e parecia que ela queria era espionar se os alunos estavam aprendendo, se gostavam da gente, etc. Aliás, muitas vezes via a sombra dela perto da porta tentando ouvir nossas aulas. Abominei essa forma de "invasão" que nos foi imposta e, além de tudo, fiquei me sentindo ainda mais insegura pois os alunos poderiam acabar gostando mais das aulas dela do que das minhas. Realmente, os alunos pareciam se divertir e estavam sempre alegres quando eu retornava, mas nunca fizeram nenhum comentário desfavorável com relação a mim ou cara feia quando eu voltava. Pensei que a coisa ia durar pouco, impossível que os outros professores aceitassem isso com tamanha naturalidade.Mas havia, como sempre, o bando dos puxa-sacos. No final, os outros professores nem ligavam, achavam que, no final das contas, a gente estava ganhando o mesmo e trabalhando menos, mas eu odiava tal intervenção. Nunca vi esse tipo de coisa acontecer na nossa universidade, os coordenadores deixavam os professores mais a vontade e não havia essa "marcação cerrada". Muitos dos outros professores compartilhavam minha antipatia por Silvana e diziam que ela se achava insegura e por isso queria se impor daquele jeito, queria "mostrar serviço" para o diretor e criador do curso. Pode ser. Com o tempo, notei que ela parecia ter uma certa inveja de certas professoras que eram muito queridas de suas turmas. Havia uma professora em particular que era muito ativa e engraçada. Eu diria até hiperativa, pois mesmo em Português, falava mais de "mil palavras por minuto". Uma figura!!! No final do ano, os alunos (sempre a mando da coordenadora) deveriam apresentar uma pequena peça de teatro, com o diretor assistindo. A turma desta professora foi a melhor e, além da peça, se desmancharam em elogios e homenagens para a professora, fazendo paródias com músicas famosas e declamando poesias e declarações de amor. Eu passei por maus bocados pois minha turma resolveu apresentar uma peça sobre fantasmas e vampiros e resolveram que eu iria participar, mas só no final, levando uma chuva de penas no corpo (para virar uma "alma penada") e na frente do diretor!!! Pois no outro semestre, Silvana não deu nenhuma turma para esta professora e ficou com a turma dela, provavelmente esperando receber as mesmas homenagens na frente do diretor no final do próximo semestre. Havia um curso de férias nos meses de janeiro e fevereiro, mas disse que não estava disponível pois era aula todos os dias da semana e na parte da noite (e aquela universidade ficava numa área um tanto perigosa da cidade, cercada de favelas por todos os lados). Mas fiquei na maior tensão as férias inteiras com medo que Silvana me "escalasse" para alguma coisa. Não deu outra, a professora de uma das turmas ficou doente e ela me pediu para substituí-la na última semana de aula. Sempre me sentia muito insegura de pegar assim uma turma que era de outra professora, podia ser que os alunos a adorassem e, com isso, me rejeitassem e ficassem de má-vontade para comigo. Felizmente nesse curso eram todos adultos (alguns poucos adolescentes) e não havia muito esse problema pois, mesmo se os alunos não fossem com a minha cara, não iriam me dizer isso e tentariam disfarçar a antipatia por educação. Se bem que sempre tentava ser, o mais que podia, paciente e amável. Se as turmas de adultos têm essa vantagem (educação e raros problemas de disciplina), havia dificuldade de aprendizado e muita desistência, o que era frustrante para o professor. Sempre achava que eles não aprendiam pois, tinha na cabeça aquela "turma ideal" (idéia essa sempre reforçada pelas aulas simuladas) que aprende tudo, alunos que pronunciam algo errado e que, depois do professor fazê-lo repetir outra vez, pronunciavam perfeitamente. Só que havia muitos alunos que nunca conseguiam pronunciar certo algumas palavras (principalmente o som de "th"), por mais que a gente tentasse. Outro problema do curso é que a gente não podia, de maneira alguma, corrigir um erro diretamente. Se o aluno errava, a gente não fazia nada, continuava perguntando a outros alunos até voltar àquele e fazer com que tentasse de novo. O objetivo era não humilhar o aluno e a filosofia, muito boa, "corrigir o erro, não o aluno". Mas a teoria na prática era outra e, se o erro não fosse corrigido imediatamente e se não chamássemos atenção para ele, o aluno nunca percebia que havia errado e, quando se voltava para ele, cometia o mesmo erro. E isso podia se repetir infinitamente. Por conta disso, era preciso fazermos várias "adaptações" ao método para que na prática obtivéssemos algum resultado.
No final de dois semestres, não conseguia mais nem olhar para a cara de Silvana sem me sentir enjoada. Mas, pelo visto, a recíproca não era verdadeira (ou então ela me achava uma professora competente) pois fui uma das únicas a ser chamada para assumir outra turma no próximo semestre. Disse a ela que não podia aceitar mais turmas aos sábados de manhã (não me lembro qual desculpa usei) e que só estaria disponível para turmas durante a semana na parte da tarde (pois sabia que só haviam turmas disponíveis durante a semana na minha universidade. Não me importaria de continuar lecionando no curso de fosse no mesmo lugar onde eu estudava, quase em frente à minha casa e com coordenadores simpáticos e que davam mais autonomia aos professores). Além disso, nesta outra faculdade eles não assinavam carteira profissional nem como estagiário, eu não tinha nenhum documento provando que eu havia lecionado lá, quase como se fosse algo por debaixo do pano. Silvana agradeceu e ficou de me chamar se soubesse de alguma vaga. Felizmente nunca mais ouvi falar dela. De qualquer, nem ela nem o curso haviam me agradado. Como já comentei, sempre achava que os alunos não estavam aprendendo nada, sentia-me uma fraude, perdendo o meu tempo e o deles. Embora não fosse dos piores, o curso tinha fama de "medíocre". Uma colega que começou o curso de Letras com a gente havia se formado no curso e seu Inglês era péssimo, sendo até encorajada pelas professoras a trancar a matrícula por um tempo e tentar se aprimorar mais pois, com aquele vocabulário limitado e nenhuma fluência, não iria acompanhar o pique das aulas, principalmente de Língua Inglesa e Literatura Inglesa e Americana. Estudar ou lecionar naquele curso não dava prestígio a ninguém. Mas nem isso era bom demais para a "rainha da mediocridade" que, a essas alturar, pensava ser.
Estava terminando o curso de Inglês, que a essas alturas já não acrescentava muito a não ser com preparatório ao Proficiency do Cambridge (que não pensava em tentar tão cedo). A professora, conforme já comentei, gostava muito de mim e, sabendo dos meus projetos de lecionar, disse que estavam precisando de professoras num colégio bem em frente ao curso e que era só eu ir lá me inscrever para uma aula prática, dizendo que ela havia me indicado, etc. Fui lá me inscrever e notei que a escola era mais para creche do que outra coisa, crianças muito pequenas e recém alfabetizadas. A professora que me atendeu disse que eles tinham um método todo próprio, diferente de todos os outros. Não gostavam de nada escrito e não faziam exercícios, nem em se tratando de desenhos. Apontou um piano e disse que, se eu soubesse tocar, poderia me utilizar de músicas (não disse que sabia pois, logicamente, nunca conseguiria tocar nada) ou de qualquer outra coisa. Tudo parecia muito vago e não sabia o que fazer pois nem tinha idéia de como preparar uma aula para aqueles alunos, nem sabia o nível deles nem nada e nunca havia dado uma aula de Inglês para crianças tão pequenas. De qualquer jeito, a professora agendou um dia para a minha aula prática. Na faculdade, comentei com Adriana e Angela e esta incentivou Adriana a disputar a vaga também. No dia seguinte, vi Angela chegar com uma caixa cheia de Slides de personagens da Disney, dando a maior força à Adriana e dando a ela dicas do que fazer, como lidar com as crianças, etc (Angela dava aulas para crianças quase da mesma faixa etária no Curso Audio-Visual). Senti-me um pouco enciumada pois, no meu caso, ninguém ajudava ou incentivava, muito pelo contrário, agora teria que disputar a vaga com Adriana e não sei quantos outros professores mais. Fiquei sem saber o que fazer, na maior dilema. Por mais que queimasse o cérebro, não conseguia pensar em nada criativo e interessante para a aula. Na véspera, depois de muita hesitação, resolvi ligar para o curso dizendo que tinha arranjado um outro trabalho e pedindo para cancelarem minha aula prática. Adriana foi em frente e comentou que se divertiu muito com os alunos, ao mesmo tempo que se sentiu um pouco surpresa pois, antes que ela dissesse as palavras em Inglês (coisas simples como "dog", "cat"), os alunos já iam se adiantando e já sabiam essas coisas todas, mas também não foi efetivada, preferiram uma professora meio idosa e bastante experiente, ao que parece. Mas me sentia uma covarde de ter desistido assim até de tentar. Adriana não recusava nada e tentava tudo. Já estava também dando aulas num curso no qual os professores eram enviados para dar aulas a executivos em empresas e contou que para isso teve que ouvir dezenas de fitas com os diálogos e outras coisas referentes ao método adotado pelo curso. Eu queria tentar mas, ao mesmo tempo, tinha medo, principalmente por causa do processo de seleção. Se não havia as entrevistas torturantes do tempo da Administração, tínhamos as provas de aula, o que acabava dando na mesma e o terror era praticamente equivalente (pelo menos para mim)