A arte de ser medíocre...

 

A nossa professora de língua Inglesa e fonética americana, de quem gostávamos tanto, por "razões obscuras" (provavelmente algum desentendimento com a diretoria ou outros professores do curso), resolveu largar o curso, para tristeza geral. Também a professora de Literatura Inglesa estava de partida para fazer doutorado nos EUA. Pelo visto, se este curso não era muito abandonado pelos alunos, tinha sua contraparte nos professores e, de qualquer jeito, sempre me causava frustração essa instabilidade e esse problema de me apegar, seja a colegas ou a professores, só para vê-los desaparecerem, uma lástima. A professora que iria cursar doutorado nos EUA estava, com razão, muito nervosa com a mudança de vida, os exames que enfrentaria no exterior e tudo o mais e acabava transmitindo esse nervoso para os alunos na sala de aula. Estava sem paciência nenhuma, tendo explosões de mau-humor a cada momento e distribuindo broncas a torto e a direito se os alunos não faziam os exercícios pontualmente. Estávamos estudando poesias e ela pedia que preparássemos uma lista das palavras mais complicadas e procurar seus significados para que na aula pudéssemos nos concentrar mais nos aspectos relacionados a gênero literário, interpretação, parafrases (mais ou menos como "traduzir" para linguagem comum cada verso, utilizando-se de uma frase equivalente, mas mais simples e compreensível para os leigos). No início da aula, fazia uma "sabatina", revisando o significado de cada palavra. Quase ninguém tinha pesquisado e preparado o vocabulário e, na maioria das vezes, o silêncio reinava na sala, deixando a professora furiosa. Eu sempre preparava tudo, mas estava sem um bom dicionário Inglês-Inglês e não eram aceitas traduções e sim sinônimos ou explicações em Inglês do significado de cada palavra. Por esse motivo, mesmo tendo preparado tudo, ficava calada. Podia, a partir da tradução, encontrar algum sinônimo em Inglês, mas ficava acanhada e também me sentia um pouco mal de ser a única a ter preparado o trabalho (sempre receando ser rotulada de CDF e de despertar inveja e despeito nos colegas). Acabava levando as broncas por tabela e os colegas a meu lado ficavam me instigando a falar alguma coisa - e até irritados porque eu me calava, uma verdadeira tortura.

Terminado o curso de fonética, que era só de um ano, Língua Inglesa ficou dividida entre duas professoras para cobrir todos os aspectos de gramática, conversação e também técnicas de ensino. Uma era novata, estava começando Mestrado e fomos sua primeira turma universitária. No princípio, como é muito natural, estava um pouco nervosa e insegura, mas, com a ajuda da turma, foi se "enturmando" e se revelou muito boa professora, paciente e amiga dos alunos. A outra professora era a que alguns já conheciam pois se encarregava da fonética britânica. Aliás, nada mais apropriado, pois era fria e distante, no bom estilo "realeza britânica". Não tinha paciência nenhuma com os alunos menos talentosos e não tinha nenhum escrúpulos em criticá-los e apontar suas falhas na frente de toda a turma. Ao contrário da maioria dos outros membros do corpo docente de letras, não fazia uma "roda de carteiras" e se sentava conosco nos tratando quase de igual para igual (pois, afinal de contas, a maioria dos alunos já lecionada e, consequentemente, professores e alunos eram colegas de profissão). Lembrando o estilo dos professores da Adm, chegava muito elegantemente vestida e, com ar altivo, sentava-se na "grande mesa" criando aquela impressão de distância e superioridade do professor para com os alunos. Desnecessário dizer que ela me intimidava um bocado e meu coração ficava aos pulos toda vez que me perguntava alguma coisa. Pedro e Gabriel, como sempre, gostavam de imitar seus trejeitos e o sotaque britânico, fazendo-nos rolar de rir, e também fizeram muita graça quando uma vez a professora, na hora de distribuir as provas, foi chamando aluno por aluno e, fazia uma cara de nojo que nos fazia pensar que o aluno chamado tinha tirado um zero ou uma nota baixíssima e, no final, a nota era 9 e meio ou coisa parecida. Se não era dez, ela fazia cara de quem não tinha gostado e isso divertia muito os meninos, que passaram a fazer uma pantomima nas nossas reuniõezinhas. Pedro fazia o papel da professora e ia chamando: "Gabriel!". Fazia então uma cara de nojo e dizia: "9.8!". "Patrícia!". Pedro fingia vomitar: "9.6!". Chorávamos de rir. Certa feita a professora comentou que Pedro tinha um "sotaque indiano", o que também deu margens a muitas piadas durante o curso inteiro, até as outras professoras se riam quando os meninos contavam essas histórias ou simulavam o sotaque britânico, com Gabriel perguntando a Pedro: "Que horas são, Pedro?" e este respondendo: "TUTUTU" (significando 2 para as 2 em sotaque britânico). Mas mesmo com esses momentos de descontração proporcionados pelos nossos comediantes natos, sentia-me cada vez mais insegura e nervosa, principalmente nas aulas de conversação. Tirando o curso intensivo de 2 anos, não tinha prática nenhuma e, comparado-me com a maioria dos outros alunos que vinham quase todos do mesmo curso audio-visual (de 8 anos de duração ou até mais) e até já lecionavam, achava minha pronúncia péssima e não tinha fluência nenhuma. Uma vez, tentando falar a palavra "culture", pronunciei o "u" como na palavra "cute" e fui imediatamente corrigida por alguns alunos na frente de toda a turma, o que me deixou mortificada e sem conseguir continuar direito, gaguejando e hesitando nas frases.

 

Sempre fui tida na família como a "menina prendada", a "quase-gênio". Nos cursos de Inglês, era sempre a primeira da turma e na Adm existiam alunos mais inteligentes do que eu, mas a maioria era preguiçosa demais ou cansada de um longo e estafante dia de trabalho e estress nas empresas  para deixar seu talento aparecer de forma evidente. Mas agora, no meio de tantos alunos brilhantes, ia percebendo que havia muita gente muito melhor do que eu - em tudo - e minha mediocridade aparecia cada vez mais, me deixando exposta à humilhação de e a decepção de descobrir que nunca fui tão especial quanto pensei - ou quanto os outros me disseram que era. Esse problema de falta de fluência no Inglês era um exemplo. Existia alunas ainda mais fracas do que eu, mas estava longe de ser uma das melhores. Aquela professora que nos deixou sempre me incentivou muito e elogiava o meu empenho, mas agora, nas aulas de conversação, a professora "britânica" torcia o nariz e a outra me dava notas, se não baixas, discrepantes com a coleção de dez e noves das outras matérias. Mais para o final do curso, a "britânica" distribuía temas para os alunos, individualmente, desenvolverem e apresentarem à turma. Uma vez tratava-se de artigos de jornais Ingleses. Chegada a minha vez de falar, mesmo estando sentada numa carteira ao lado da "grande mesa", voltada para a turma, enquanto falava comecei a sentir o corpo todo ficando dormente, começando com os pés, passando pelos braços e chegando até ao couro cabeludo. Além disso, a vista foi ficando turva e os ouvidos zumbiam, com certeza  por conta de um aumento de pressão muito brusco. Pensei que ia desmaiar mas tentei disfarçar ao máximo a sensação de pânico e terminei de falar, mesmo sem ouvir direito ou mesmo enxergar os colegas, procurando até colocar algum senso de humor na apresentação para descontrair (a mim mesma!). A partir dessa apresentação, comecei a sentir essa dormência quase sempre que tinha que falar alguma coisa na frente da turma ou até mesmo ao responder alguma pergunta dos professores. Era uma sensação horrível e que me assustava um bocado. E a coisa virou um círculo vicioso. A sensação de pânico era causada pela apresentação oral mas, a certa altura, tinha tanto medo de me sentir mal daquele jeito que, com isso, acabava mesmo ficando em pânico e lá vinha aquela sensação horrível.

 

O pior é que isso estava acontecendo também nos execrados exames de piano. Chegava a hora de tocar, às vezes até começava bem mas, no meio de uma música ou escala, os dedos começavam a ficar dormentes e a certa altura eu já não os sentia mais. Sem sentir os dedos, como poderia controlá-los e tocar? Impossível. Só me restava parar e olhar para a banca examinadora com os olhos cheios de lágrimas. A essas alturas a minha professora já sabia que eu "ficava nervosa" nos exames e sempre dava um jeito de participar da banca - ou então estar só lá ajudando - e nessas horas subia no palco e, tentando me tranquilizar, começava a cantarolar as notas da música a fim de que eu "esquecesse" da banca e terminasse os pontos do exame. Geralmente surtia algum efeito, mas os resultados eram sempre desastrosos, ou, na melhor das hipóteses, notas trôpegas e trechos pulados. Acabava sempre passando só porque os professores me conheciam e sabiam que, dez minutos depois do exame eu conseguiria tocar todo o programa dos dois pontos com perfeição (ou, pelo menos, com erros mínimos em trechos mais complicados). Notei, com certo alívio, que não era a única. Alguns dos alunos mais velhos também ficavam nervosos, tremiam e, muitas vezes, se saíam ainda pior do que eu, não conseguindo tocar um compasso sequer. Mas não sei se isso os marcava e traumatizava tanto quanto ou se eles ficavam em agonia por meses seguidos em antecipação aos exames, nunca conversei com nenhum aluno sobre isso pois, terminado o exame, sentindo-me aliviada de tudo ter passado (apesar do vexame) e queria esquecer tudo pelo menos por um mês ou dois, até a professora começar a escolher os pontos para o próximo semestre e começar a agonia novamente.

 

Já comentei anteriormente que me sentia feliz no curso (tirando o terror dos exames) pois os alunos mais velhos gostavam de me ouvir tocar e, como preparava sempre as músicas com rapidez razoável, pensei que tinha certo talento, que só era limitado pelo nervosismo. Mais uma vez descobri que estava enganada. Gabriel estava estudando piano a o mesmo tempo do que eu, mais ou menos,  e já tocava sonatas de Beethoven e até alguns dos concertos mais simples deste e de Mozart, enquanto eu só tocava "peças facilitadas" e  a "anos luz" de conseguir tocar alguma sonata no original, que diria um concerto! Logo depois que nos conhecemos, houve um daqueles dias de aulas vagas e de professores faltando, e Gabriel se queixando que tinha que esperar passar a hora do rush para pegar o ônibus para casa (morava bem perto mas no sentido zona norte, com os ônibus  lotados nessa direção no fim da tarde). Convidei-o então para ir lá em casa "fazer hora" e dar uma "palhinha" no piano. Aceitou prontamente e acabou virando um hábito. Ficamos muito próximos e, mesmo fora do horário das aulas, passava muitas tardes lá em casa "batucando" no piano, tocava o meu livro de peças facilidadas praticamente do início ao fim (e eu ainda nem chegara no meio!). Gostava muito de ouvi-lo tocar, mas com isso me dava conta de que não tinha talento algum. Meus pais também gostavam dessas audições e só reclamavam que ele nunca "tocava uma música inteira". Realmente, era só uma "amostra" e alguns dos concertos e sonatas ele ainda estava estudando e só sabia o início e alguns dos trechos mais fáceis de cada movimento. Ressentia-me do fato que meus pais nunca me elogiaram, nunca disseram que eu tocava bem ou que gostavam de me ouvir tocar. Pelo contrário, muitas vezes, começava a tocar uma peça complicada (pelo menos para os meus padrões) e minha mãe comentava: "Por quê você não toca Despedida do Roberto Carlos, você nunca mais tocou!", como quem diz "aquela sim você tocava bem!". Esta versão de Despedida era para iniciantes, foi uma das primeiras peças que aprendi, totalmente básica. Sentia-me irritada quando ela fazia este comentário, era a mesma coisa (considerando-se as proporções, obviamente) que um pianista famoso acabar de tocar um dos mais difíceis concertos para piano no Teatro Municipal e alguém gritar: "Seria melhor você tocar o Bife!". Gabriel, sempre com sua sinceridade e com a personalidade de professor nato, também criticava a minha maneira de tocar, dizia que eu ficava muito tensa (o que era verdade, mas só sabia tocar assim!) e fazia pouco caso das peças "facilitadas" (embora gostasse de ficar tocando o álbum inteiro repetidas vezes). Fui ficando cada vez mais desencorajada, não me esforçava mais, ficava "empacada" nos mesmos exercícios e músicas por meses e meses, o que nunca tinha acontecido antes. Para quê tanto trabalho para aprender as músicas se Gabriel tocava todas para mim e no meu próprio piano? Quanto à reação dos meus pais, creio que tinha a ver com o fato deles me ouvirem todos os dias. Uma coisa é ouvir um estudante de piano (ou até mesmo um pianista famoso) no processo de estudar uma música, outra bem diferente é chegar alguém que já estudou muito certa peça e tocá-la sem hesitações ou, pelo menos, sem muitos erros evidentes. Estudar piano é gostoso para o estudante e tortura para a família (e creio que seja assim com qualquer instrumento). No começo, temos que "catar milho", nota por nota e mãos separadas. Nada faz sentido, a música fica totalmente irreconhecível. Depois, ir juntando as mãos muito devagar, compasso por compasso, e ficar repetindo cada um inúmeras vezes até os dedos "decorarem" e tornarem o processo de tocar a música automático. Quando se chega ao resultado final, todos (incluindo o próprio estudante) já estão mais ou menos saturados de tanto ouvir a peça e de forma tão fragmentada ou repetida. Comecei a achar que até nisso era uma jovem com comportamento de velho, estudava música "para terceira idade" pois só os idosos lá do curso gostavam de me ouvir tocar...

Mas, independente disso, eu e Gabriel éramos unha e carne nessa época e foi muito bom pois tinha boa companhia para sair sem ter que aturar os "Grupos". Foi uma fase de muitos concertos e audições no Teatro Municipal, na Escola de Música, e também cinema, teatro, restaurantes, lanchonetes ou passeios pela praia. Por insistência minha, começou a me dar aulas de flauta-doce (havia feito vários cursos, mais voltados para música antiga, renascentista e medieval) e me exasperava pois era um professor perfeccionista e muito exigente. Mas aprendi o suficiente para fazer o exame final do curso técnico no curso de música e fazer um ano de especialização com a diretora.

Com o tempo, sem outros amigos tão chegados (ou, pelo menos, tão dispostos a sair comigo), comecei a sufocar Gabriel e a querer a presença dele o tempo inteiro. Ele, obviamente, ressentiu-se disso e procurou se afastar um pouco. Mas eu ficava desesperada, totalmente dependente de sua companhia e muitas vezes, num sábado de sol, ligava chorando e implorando para que ele saísse comigo pois não aguentava passar um dia assim tão bonito trancada em casa (e me sentia deprimida passeando sozinha e também tinha um pouco de medo de andar por certos lugares onde não tinha costume de ir como a Zona Sul e arredores). Apelava para tudo, algumas vezes era agressiva, outras horas procurava despertar piedade. Mas Gabriel foi firme e não se deixou dominar. Na época, fiquei muito magoada e caí numa depressão terrível, mas hoje em dia penso que ele foi sábio pois nossa amizade se tornou algo saudável (e que dura até hoje) ao invés de uma relação doentia de dependência e chantagens emocionais. Com ele, aprendi que amizade não depende de presentes, puxa-saquismo ou chantagens, que está muito acima de tudo isso. E também não se baseia em interesses (Gabriel não precisava de cola ou ajuda na faculdade pois era melhor do que eu na maioria da matérias).

 

 

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