Outra "turminha legal"?
Conforme já comentei, custei mais a me "enturmar" neste curso. Um dia vi um dos rapazes chegar para a aula com alguns livros de partituras e, obviamente, puxei conversa. Ele estudava piano num curso bastante rigoroso e estava muito mais adiantado do que eu mas, mesmo assim, começamos a bater longos papos sobre música. Mais extrovertido, Gabriel já conhecia praticamente todo mundo na turma e, como nos tornamos amigos quase que inseparáveis, acabei fazendo parte do grupinho mais "seleto" da turma quase que por tabela. Com o tempo, percebi que a turma era praticamente dividida em dois grupos que não se misturavam muito: aqueles mais calados, menos talentosos ou menos assíduos ao curso e o Grupo Talentoso, que, meio que por brincadeira, chamava o outro grupo de "a escória". Entre esses da "escória", havia um rapaz chamado Hélio com quem bati longos papos nos primeiros dias de aula pois ele ficava muito na varandinha do fim do corredor e a sua "casmurrice" me intrigava. Muito inteligente e de bom papo, mas um tanto excêntrico e chegado à bebida. Muitas vezes, no caminho para a faculdade, via-o num dos botequins tomando uma cachacinha e o bafo muitas vezes confirmava o vício, o que fez com que me afastasse dele completamente pois sempre tive horror a pessoas que bebem dessa maneira. O engraçado é que, quando não estava gostando de certa aula, ele pegava a mochila e saía da sala numa rapidez incrível e desaparecia no longo corredor (provavelmente pegando uma das rampas laterais), o que fazia alguns professores ficarem boquiabertos (tanto com a velocidade como com a falta de educação de sair assim sem nem pedir licença) a ponto de exclamarem: "O Hélio escapou novamente!", o que resultava numa explosão de gargalhadas na turma inteira.
Havia um outro rapaz nesse Grupo Talentoso, Pedro, que também se tornou um grande amigo. Exímio contador de piadas, talento nato para comediante. Sempre que o Grupo se reunia, ele contava piadas novas e todos insistiam para que ele recontasse outras antigas e, mesmo depois de tê-las ouvido uma dezena de vezes ainda rolávamos de rir pois ele sempre inventava detalhes novos (contava as piadas como se fosse uma história), "sonoplastia", gestos, caras e bocas. Além disso, estava sempre de bom humor e de alto astral, levando tudo na brincadeira. Com a minha tendência a depressões e pessimismo, era bom ficar perto de pessoas assim. Gabriel não tinha talento algum para piadas, muito pelo contrário, contava de maneira tão sem graça que nos fazia rir, mas também era dotado de um senso de humor dos mais refinados e a dupla me divertia um bocado com seus chistes (inventavam apelidos e imitavam colegas e professores, não "perdoavam" nada!). Aliás, esse era um dos problemas com relação à Gabriel: tinha um espírito muito crítico e, muitas vezes, sem querer, chegava a ser cruel com suas observações. Gostava também de corrigir os erros dos amigos, seja de Português ou de Inglês e isso me deixava um pouco nervosa pois sempre vi as correções como uma reprimenda, como se alguém estivesse apontando com o dedo as minhas fraquezas. Sei que nessas alturas poderia compará-lo à Julia, mas, ao contrário dessa, Gabriel não fazia isso por maldade pois sempre teve um imenso coração e uma paciência infinita comigo e com todos.
E travei conhecimento também com as meninas do Grupo Talentoso: Luisa, apelidade pelos meninos de "sebosa", realmente fazia juz ao título. Muito vaidosa e sempre altiva, com forte espírito de liderança, era aquele tipo de pessoa que "se acha o máximo" e nem se incomodava com a alcunha, pelo contrário, até concordava. Valéria era a "mau humorada", vivia de mal com o mundo, reclamando de tudo e de todos, aborrecida por qualquer razão ou mesmo sem razão nenhuma. Com tendências a ser passional, sempre achava que os outros estavam contra ela e uma de suas frases mais famosas e repetidas a exaustão era: "essas coisas sempre acontecem comigo"! Mas, nos intervalos entre uma explosão de raiva e outra, era uma pessoa divertida. Patrícia era a mais velha do grupo (até mais velha do que eu!), já casada e com filhos e tornou-se mais ou menos a "guru" do grupo por ser a mais experiente. Meus sentimentos com relação à ela se dividiam pois às vezes parecia carinhosa e compreensiva e outras horas, junto com as outras meninas, parecia imatura, debochada e até agressiva. Alternava manifestações de carinho com criticismo infundado (ou indesejado). Uma vez, por ocasião do meu aniversário, como havia comentado uns dias antes que a data sempre me frustrara pois, caindo no início do ano escolar, os colegas geralmente ainda não me conheciam ou estavam ainda em "ritmo de final de férias" e, enquanto o aniversário da maioria dos outros colegas era festejado na turma (ou pelo menos lembrado) o meu sempre ignorado )e isso somado aos problemas em família por "disputar" a data com um tio), Patrícia resolveu organizar uma festa surpresa, com bolo e tudo! Fiquei muito contente e emocionada com o carinho. Depois, virou uma tradição comemorar o aniversário dos colegas e era uma boa desculpa para ocupar a aula toda com a festa até que os professores começaram a reclamar discretamente pois se continuasse assim, ao invés de aulas, só teríamos festas. Mas em outra ocasião Patrícia me magoou e me deixou muito envergonhada. Lá pelo meio do curso, eu estava numa fase muito depressiva e, por conta disso, já não cuidava mais tanto do visual como antigamente. Deixei os cabelos crescerem e há mais de um ano não viam corte, não só por conta da depressão, mas também porque, chegada a mudanças de penteados, estava numa fase de querer o cabelo comprido até a cintura. Só que isso cria um problema: as pontas ficam quebradiças e o cabelo perde a força se não aparamos pelo menos as pontinhas. Só que a gente vai numa cabeleireira, diz que só quer mesmo que apare as pontas e elas, SEMPRE, acabam cortando pelo menos um palmo! Isso acontecia amiúde e, desse jeito, o cabelo nunca crescia tanto quanto eu desejava. Por conta disso, achei melhor ficar longe dos cabeleireiros, mesmo arriscando pontas quebradas, etc, até alcançar meu objetivo. Tinha também o problema de não me sentir à vontade nos salões, tendo que conversar o tempo todo com a cabeleireira e a sensação de alguém mexendo em meu cabelo, puxando pra lá e pra cá (muitas vezes causando dor), era bastante irritante. Como estava numa fase mais sensível, era melhor mesmo evitar. Um dia, entrando no banheiro da faculdade, esbarrei com Patrícia e Luisa lá dentro e as duas, rindo e com ar de deboche, perguntaram por quê eu não dava um corte no cabelo, que "parecia horrível assim". Desconcertada, disse que "não tinha dinheiro" (o que era bem verdade pois usava todo o dinheiro de minha mesada na compra de livros e CDs, que eram sempre minhas prioridades), elas se entreolharam e Luisa comentou com Patrícia "eu te disse que ela ia dizer isso!". Patrícia então, de forma grosseira e quase gritando comigo, disse que teria muito prazer em me levar a uma cabeleireira conhecida dela para dar um jeito naquele visual tão desleixado. Disse que não era preciso. Mas a coisa me incomodou e, como sempre tomou proporções enormes em minha cabeça, vivia "ruminando" o que elas me disseram e me ressentindo de que haviam me humilhado, trantando-me como uma criança ou uma deficiente incapaz de cuidar de si mesma. . Nunca entendi o porquê do meu cabelo ser motivo de tanta preocupação. Eu o mantinha limpo e penteado (claro que o vento, etc, desarrumavam um pouco). Sempre vi gente com cabelo "escorrido", até a cintura, nunca vi ou ouvi comentários desairosos sobre esse tipo de corte (ou falta de corte, melhor dizendo). Por quê o meu cabelo incomodava tanto as colegas? Eu nunca nem reparei no corte do cabelo das outras pessoas, era até motivos de gozação lá em casa pois se eu ia a uma festa, casamento ou qualquer evento social, mamãe sempre me perguntava como fulana estava vestida, se sicrana estava bonita ou feia e eu nunca sabia dizer. Simplesmente não conseguia reparar nesses detalhes e nunca achei isso importante, de qualquer maneira. A não ser que gostasse muito do vestido de alguém ou de certo penteado ou corte de cabelo e quisesse imitar. No mais, as pessoas poderiam estar nuas que eu nem reparava. Mas, depois dessa crítica feita pelas duas, envergonhada e me achando a pessoa mais feia do mundo, passei a prender os cabelos num rabo-de-cavalo e a colocar grampos coloridos, e elas comentaram alguns dias depois que "agora sim eu estava melhorando" Não sei se a observação foi sincera ou um mero deboche, mas a partir daquele episódio passei a ficar muito pouco à vontade com essas duas. Uma vez, já mais para o final do curso, a professora de língua Inglesa, numa aula voltada para conversação, propôs que cada aluno sorteasse o nome de um colega e desse sua opinião sobre ele ou até um apelido ou característica marcante da pessoa. Coube a Patrícia dar o seu parecer sobre mim e, nessa ocasião, tive que concordar com ela: Disse que não me entendia muito bem e que me via numa atitude de animalzinho acuado precisando de proteção (pois nessa época eu realmente chegava a cruzar os braços e encolher o corpo para a frente nos elevadores e nos corredores da faculdade). Patrícia mirou no que viu e acertou no que não viu, por assim dizer. Adriana era uma menina também um pouco tímida mas muito esforçada, batalhava muito para alcançar suas metas profissionais. Tornamo-nos boas amigas e ela até me visitou algumas vezes e nos falávamos ao telefone com frequência. Com o tempo nos afastamos um pouco pois tornou-se unha e carne com Angela.
Apesar de estar bem acima do peso ideal, Angela era muito bonita: loura de olhos verdes, se fosse mais esbelta lembraria a Xuxa. Juntamente com Gabriel, tinha pronúcia quase que perfeita e muita fluência no Inglês, assim como ele, Patrícia, Luisa, Valéria, e algumas outras colegas da turma, já lecionava há um bom tempo num curso audio visual dos mais conceituados. Era noiva de um rapaz também bonito e era obcecada por esse noivado: falava nisso há toda hora e, quando se apresentava a alguém, logo depois de dizer seu nome, dizia que era noiva (eu costumava até brincar com Gabriel e Pedro dizendo que ela se apresentava dizendo "muito prazer, sou noiva!". Era a "noivinha" da turma e vivia folheando revistas com modelos de vestidos de noiva e falando nos preparativos para o casamento, pedindo às outras amigas opiniões e conselhos. Embora não fosse totalmente explícita com relação a isso e até se mostrasse gentil, sabia que Angela me detestava: tinha uma inveja terrível de mim "porque eu não trabalhava enquanto ela dava um duro danado na vida". Vivia jogando isso na minha cara o tempo todo, a ponto de me irritar e me magoar profundamente. Se um dia eu chegasse à faculdade comentando que estava cansada, ela logo dizia com a cara fechada "cansada do quê? de não fazer nada? cansada estou eu que já dei aula à 5 turmas hoje!"; e era sempre a primeira a dizer que "era muito justo eu fazer os trabalhos de grupo sozinha pois os outros tinham que trabalhar duro enquanto eu vivia na boa vida". Eu podia ver a inveja e o ódio vibrando em seus olhos verdes, quase a me fuzilar. Na cabeça dela, eu era a "menina mimada", a "espera-marido", a "boa-vida", a "não-faz-nada", aquela que não podia se queixar de nada e que tinha que aceitar tudo, até ser explorada pelos outros colegas porque "eles davam duro e eu não". O refrão foi repetido tão exaustivamente que um dia tive até vontade de lhe escrever uma carta e cheguei a comentar isso com Gabriel, que me fez desistir da idéia dizendo que não valia a pena... Na carta, eu queria dizer a ela que, se houvesse uma mágica e se isso fosse possível, trocaria de papel com ela na maior boa vontade pois a recíproca era verdadeira: também tinha inveja dela. Ela possuía tudo que eu queria e, pensava, jamais poderia ter: era bonita (sempre me considerei feia e sempre quis ser loura e ter olhos claros), tinha um namorado que a amava, ia se casar em breve e já estava até construindo um segundo andar na casa da mãe para morar, era uma profissional das mais gabaritadas e talentosas e, com certeza, ia acabar até sendo diretora daquele ou de outro curso. Era extrovertida, tinha muitos amigos e amigas. Tinha até uma cachorrinha Poodle!!!. Eu não tinha nada. Vivia "na boa vida" sem trabalhar, às custas dos meus pais, mas por conta disso tinha que pagar um alto preço: meus pais não viveriam para sempre e o que seria de mim no futuro. Não possuía imóveis, dinheiro em poupança, não era talentosa nem bonita, dificilmente arranjaria alguém que quisesse se casar comigo, meus pais não queriam nem ouvir falar em ter um cachorro e, além de tudo, sofria daquela horrível timidez que me sufocava cada vez mais. Minha cabeça era um ninho de problemas e obcessões, e ela me invejava porquê não sabia o que se passava dentro de mim. Se soubesse, duvido que quisesse trocar de lugar comigo e viver a minha "vida folgada". As aparências enganam! Também não sei se Angela era tão feliz assim... apesar de tudo, era uma pessoa muito insegura e carente de afeto. Por conta disso, não sei se é feliz na vida pois se a gente não está feliz consigo mesmo e tem inveja dos outros, nada e ninguém vai nos trazer verdadeira felicidade, conforme aprendi mais tarde.
Engraçado, Pedro também era um dos poucos que ainda não trabalhava mas, ao contrário de mim, não tinha vergonha disso, muito pelo contrário, ele próprio fazia piadas sobre sua "vagabundagem". Era sempre motivo de piada no Grupinho mas, sentia que o pessoal falava de brincadeira e não com sentimento de despeito ou inveja como no meu caso (ou talvez eu levasse a coisa muito a sério, não sei). O caso era tão comentado que chegou até nos ouvidos das professoras que passaram a participar da gozação. Quase no final do curso, Pedro apareceu um dia na faculdade todo arrumado, calça e camisa social e gravata. Como todos estranhassem, disse que tinha arranjado um emprego num banco, para surpresa e incredulidade geral. Outra vez, uma verdadeira avalanche de piadas: "milagre!!!! o Pedro arranjou um emprego!!!" "Não vai durar nem uma semana!!!". Na aula de Inglês, as meninas foram logo comentando assim que a professora entrou em sala "temos uma novidade incrível, você nem vai acreditar!!!!: Pedro está trabalhando!!!". Gargalhadas por todos os lados, a professora também fazendo piadas e brincando com Pedro perguntando que bicho o tinha mordido. Realmente, ninguém fazia fé nesse emprego pois ele era um "preguiçoso assumido" (como eu queria levar as coisas assim na brincadeira!) e achamos que ia pedir demissão logo logo, pois emprego em banco é muito estressante (eu, que já havia estagiado em um, sabia muito bem!). Mas Pedro foi ficando, ficando, e ia levando o emprego também na brincadeira: dizia que nunca ficava nem um segundo sequer além da hora determinada. Comentei com ele que, dessa forma, seria despedido pois a gente nunca dá conta do trabalho todo e sempre tem que ficar mais um tempo no final do dia para organizar tudo e o trabalho não ficar acumulando. Mas ele disse que nem ligava, que o chefe até que reclamava mas ele não estava nem aí. Só sei que não se demitiu nem foi despedido e quando perdemos contato, algum tempo depois da formatura, ainda estava trabalhando no mesmo banco.
Menina menos chegada a panelinhas (creio eu), fiz amizade também com Angelica, uma pessoa doce e carinhosa, embora um pouco fechada e tímida. Lá em casa, foi alcunhada de "a boazinha" pois realmente era sempre a gentileza em pessoa. . Também nos visitamos algumas vezes e até nos hospedamos uma no apartamento da outra quando a turma se reuniu para assistir a alguns shows de rock (um foi bem perto do prédio dela e outro quase em frente ao meu). Muito parecida com a mãe tanto na aparência quanto no carinho e na simpatia. Também excelente profissional e muito talentosa nos estudos. Nunca vi Angelica aborrecida, criticando os outros ou fazendo fofocas e hoje em dia lamento que não fôssemos mais chegadas naqueles tempos de faculdade, pois, por conta de Gabriel, vivia quase sempre grudada com a "turminha", negligenciando um pouco a amizade com as outras colegas. Mas, no final das contas, foi a única colega com a qual mantenho contato até hoje.
No mais, por um tempo fiquei muito amiga de Camila. Bastante corpulenta e cheia de problemas de saúde (sofria terrivelmente dos nervos e tomava tranquilizantes fortíssimos que a faziam perder a firmeza e levar tombos com frequência, e muitas veze me ligava com voz quase engrolada, dopada pelos comprimidos), queria fazer um milhão de coisas ao mesmo tempo e, em consequencia disso, não fazia nada direito, era sempre tudo "aos trancos e barrancos". Começamos a bater papo naqueles primeiros dias onde procurava os meus "iguais", ou seja, pessoas meio estranhas e, por um motivo ou por outro, desenturmadas e incompreendidas (e, muitas vezes, desprezadas). A conversa dela me pareceu interessante pois adorava viajar e conhecia várias partes do mundo, principalmente os EUA e me prometeu mostrar muitas fotos de NY e da Disney (realmente acabou levando muitos álbuns e curti muito ver tanta coisa bonita, dando ainda mais água na boca para fazer uma viagem assim). Na era "pré-camelôs" (sim! existiu uma época que não havia vendedores ambulantes por toda parte, a não ser por uns poucos no centro da cidade e outras áreas de intenso comércio, Camila vendia toda a sorte de bugigangas importadas que trazia de suas viagens aos EUA ou do Paraguai - por preços totalmente extorsivos. Mas os brinquedinhos me encantavam e, juntando-se a isso a lábia de vendedora de Camila, acabava comprando (às vezes parceladamente) alguns dos bichinhos de pelúcia que dançavam e tocavam música e também algumas camisetas e tênis. Mais tarde Gabriel comentaria comigo que eles sempre me viam comprando as mercadorias e ficavam horrorizados de eu aceitar pagar aquela exorbitância por coisas que nem eram tão boas assim - e até riam às nossas custas. O Grupinho detestava Camila e a recíproca era verdadeira e ela nem escondia isso. Como ainda não sabia bem se queria pertencer ao Grupinho ou não, ficava muito tempo conversando com Camila e meio afastada dos outros. Nos trabalhos em grupo, que cada vez se multiplicavam mais, Camila sempre dava um jeito de ficar no nosso grupo e, obviamente, não contribuía muito (alías, ninguém contribuía e, de qualquer jeito, eu só confiava mesmo na competência de Gabriel e no caso, raro, de não poder fazer minha parte, só assinaria como se fosse meu um trabalho feito por ele. Uma vez, ninguém queria ou podia participar num trabalho bastante complexo e propus fazer uma espécie de rascunho, que seria então revisado pelos outros e datilografado por Camila. Na impossibilidade de nos encontrarmos para discutir idéias, quando tinha alguma dúvida colocava uma observação em parênteses no rascunho, por exemplo "(não sei se o que escrevi se aplica a esse caso específico, o que vocês acham? Creio que é necessário desenvolver um pouco mais o tema)". Terminado o rascunho, entreguei à uma das meninas e não pensei mais no assunto. O trabalho foi entregue no dia estipulado, mas muito tempo depois Gabriel me confidenciou que Camila tinha levado a máquina de escrever para a sala de aula (não me recordo porquê não estava presente nessa ocasião) e datilografou o trabalho todo assim, nas carteiras de trás, e terminou a última frase na hora que a professora estava recolhendo. Felizmente tiramos boa nota, mas quando fui reler o trabalho quase caí para trás e não sei como a professora não reclamou ou estranhou, pois as minhas observações entre parênteses estavam todas lá, intocadas, copiadas palavra por palavra com todas as interrogações. Que vergonha!!! Gabriel me disse que Camila tinha implorado aos outros para manter segredo pois eu ficaria furiosa se soubesse do episódio (principalmente a história da máquina de escrever na sala). Realmente algo surreal! De qualquer jeito, estava doida para me afastar um pouco de Camila pois estava me sentindo um tanto sufocada. Vários telefonemas todos os dias e muitas das vezes já tarde da noite só para contar algum tombo que levara ou tirar dúvidas sobre as matérias. Também aparecia lá em casa com muita frequência e aos poucos fui percebendo que estava sendo explorada com relação aos trabalhos. Outro fato digno de teatro do absurdo que me contaram é que ela nunca tinha tempo de ler os romances que seriam assunto de provas ou trabalhos e vivia desesperada procurando uma versão cinematográfica em tudo quanto é locadora de vídeos. Isso era mesmo o fim da picada! Mesmo não sendo "essas maravilhas", o melhor era ficar com o Grupinho e me afastar dela aos poucos, e nem foi tão difícil pois ela acabou desistindo de algumas matérias e, se não me engano, foi reprovada em algumas e já não estávamos juntas na mesma sala de aula o tempo todo.
A "tese" que desenvolvi sobre o comportamento de grupos baseando-se nas minhas experiências com o pessoal da Adm se aplicavam também no caso de Letras e com o agravante do Grupo ser quase só de mulheres. Quando Pedro e Gabriel não estavam por perto, as meninas só queriam falar sobre moda, penteados, marcas e cores de batom, bijuterias e, principalmente, sobre os namorados, com enfoque nas relações sexuais. Cada uma dizia o que já tinha feito, o que ainda não tinha experimentado, o que gostava, o que não gostava, a vida íntima sendo exposta ali, às gargalhadas. Sentia-me totalmente deslocada e sem saber o que dizer. Nunca me interessei muito de conversar sobre esses "assuntos femininos" e não entendia praticamente nada. Gostava de me arrumar e de me vestir bem... ou pensava que sim, pois, para evitar as boutiques (e a tortura de ter que interagir com as vendedoras, que sempre me convenciam a comprar montes de roupas que não queria e nem ficavam bem em mim e também o embaraço delas ficarem nos olhando de calcinha e sutien na cabine), a maior parte da vida comprávamos roupas que um chinês nos levava em casa e pensava serem coisa elegante, e com a vantagem de ter preço bom e a gente poder pagar parcelado, "a perder de vista". Depois de muitos anos comprando roupas do chinês, descobri que ele comprava tudo na Rua da Alfândega, ou seja, nada "de marca", nada sofisticado, nada realmente elegante... Mais tarde passamos a comprar de uma senhora que chegou a ter uma boutique no térreo do nosso prédio mas que, com a crise financeira e a inflação alta da época, resolveu fechar a loja e só vender em casa, roupas compradas na famosa Rua Teresa em Petrópolis. Bom, bonito e barato, mas longe dos padrões de elegância e de moda das meninas. E cosméticos e bijuterias eram também comprados em casa com uma senhora revendedora da Avon, considerada ultra brega a essas alturas do campeonato. Uma vez comentei com Patrícia que havia gostado do seu novo batom roxo e, tanto ela quanto Luisa, as gargalhadas, me disseram que não era "roxo", era "UVA", o que para mim parecia ser a mesma coisa, mas para elas deveria ter uma diferença incrível, a julgar pela maneira como riram e me olharam como se eu fosse a pessoa mais burra desse mundo em matéria de moda feminina. E sobre o assunto sexo, ia comentar sobre os meus beijos nos jardins da faculdade e de um único namoro que não durou nem 3 meses? Elas nem iriam acreditar!!! Além do mais, mesmo que tivesse uma vida sexual muito ativa, não me sentiria a vontade comentando o assunto assim de forma tão infantil e casual, expondo a minha intimidade e a de meu namorado à galhofa do Grupo. Outra coisa me incomodava quando estava com elas: a maioria tinha namorado mas não podia ver um rapaz passar sem se catucarem, trocarem olhares cobiçosos e depois comentarem sobre "que tesão" era aquele que tinha passado. Só as casadas não se comportavam assim (pelo menos que eu visse). Nesse ponto sempre fui um pouco moralista, achava uma traição terrível a pessoa ter namorado e ficar olhando e paquerando todo cara que passava e, de qualquer jeito, quando estava apaixonada, só tinha olhares para o objeto de minha paixão e ficava cega para o resto. Uma vez, Adriana, Luisa e Angela estavam conversando comigo no corredor e de repente começaram a trocar olhares e a fazer comentários que eu não entendia. Quando perguntei do que se tratava, Luisa e Angela comentaram entre dentes e tentando segurar o riso: "ah, ela não entende dessas coisas....". Como continuasse sem entender do quê se tratava, Adriana me explicou que elas estavam comentando sobre o "gato" que tinha passado por nós e eu nem tinha reparado. Tinha visto um cara passar sim, mas nada que chamasse atenção, muito pelo contrário, um cara até bastante sem graça (segundo meus padrões de beleza, é claro). Fiquei totalmente embaraçada e sem saber o que fazer ou dizer e muito magoada com o comentário pois parecia que elas estavam insinuando que eu "não entendia de homens" e que, consequentemente, era lésbica. Para piorar ainda mais as coisas, numa outra dessas reuniões no hall da faculdade em que as meninas comentavam sobre o que faziam e não faziam com os namorados, sempre às gargalhadas, resolvi que era melhor inventar alguma coisa para não me sentir tão deslocada (e também para que elas não ficassem insinuando que eu era sapatão, pois não era verdade), só que nunca fui boa em mentiras e comentei alguma coisa sobre o meu namorado (não me recordo o que falei), só na hora de falar "namorado", minha voz ficou meio baixa e falhada, fazendo com que elas entendessem "namorada". Pronto! Muitas gargalhadas e eu tentando desfazer o mal entendido em vão, sentindo-me totalmente humilhada (não que ache vergonhoso ser sapatão, mas não era verdade!).
Quando os meninos estavam presentes, o assunto mudava mas, de qualquer jeito, era insuportável. Era só as meninas fazendo charminho para os rapazes, encostando-se neles, fazendo observações maldosas ou de duplo sentido. Até hoje acho estranho como é que o Grupo torna-se esse "monstro insuportável" pois quando estava conversando com qualquer um dos integrantes em particular ou em duplas, a coisa mudava totalmente de figura. Mesmo Angela, que tinha tanta inveja de mim e gostava de me alfinetar o tempo todo quando estávamos com o Grupo, costumava me tratar bem e ter um bom papo caso estivéssemos sozinhas. Sempre que podia, procurava a companhia dos meninos que tinham um papo muito melhor, mas mesmo eles se tornavam superficiais e infantis no Grupo. Como é que o Grupo transforma assim as pessoas? Gente que, numa conversa em particular, é inteligente, sensível, amável, junta-se em Grupo e toma outra personalidade ficando superficial, tola, infantil, até cruel. Nunca consegui entender esse fenômeno. O pior era quando inventavam brincadeiras: uma vez resolveram arranjar uma mesa e brincar de "escravos de jó". Os jogos sempre me deixam muito nervosa e, com medo de dar vexame, me concentrei tanto no jogo que parecia estar hipnotizada. Acabei ganhando e, de qualquer jeito me sentia embaraçada por ter ganhado quando via a decepção dos outros jogadores e me desculpava dizendo que tinha bastante treino nesses movimentos rápidos de braços e mãos por causa das aulas de piano. Em jogos sempre foi assim, se perdia, ficava envergonhada pelo "vexame", se vencia, ficava embaraçada pela despeita que podia ver nos olhos dos perdedores, de qualquer jeito, não me divertia e não sentia prazer nenhum em tais competições, pior ainda se fossem jogos de um time (ou de uma dupla) contra outro pois aí o grupo (ou a outra pessoa) poderia perder por minha culpa e o jogo se tornava coisa de vida ou morte e chegava muitas vezes a bater os dentes de nervoso e tensão. Como é que um simples jogo sem importância nenhuma e só para passar o tempo e divertir pode ser levado assim tão a sério e causar tanta tensão num fóbico social? Hoje em dia nem vou mais em festas que possam ter jogos de salão para evitar essa situação de estresse e muitas vezes até de pânico.
Mas, de qualquer jeito, nesta época ainda participava das atividades do Grupo e fomos assistir a peças de teatro (recomendadas por professoras que, muitas vezes, iam também conosco) e a shows de Rock no Maracanã ou na Praça da Apoteose. De vez em quando também fazíamos reuniõezinhas na casa de uma de nós. Uma vez foi em casa de Patricia e ela me serviu licor numa daquelas tacinhas de cristal minúsculas e muito delicadas. Na hora de pegar a taça, cheia até a borda, minha mão deu uma tremida e quase derrubei tudo no chão e Patricia e as outras meninas gritaram "Opa!!!!! ainda nem bebeu e já está assim!!! e devo ter ficado totalmente ruborizada. Por conta disso, passei a evitar ao máximo me servir de bebidas ou refrigerantes em copos pequenos e delicados e mesmo quando serviam em copinhos de papel em uma bandeja, era complicado pegar o copo sem tremer e arriscar derrubar o conteúdo. Sentia-me melhor se colocassem as garrafas em uma mesa para que as pessoas se servissem, pois aí poderia esperar uma ocasião em que ninguém estivesse por perto olhando para então encher o copo. Uma vez, tentei ressuscitar os "velhos tempos" da Adm, quando fazíamos reuniõezinhas lá em casa e eu preparava bolo de chocolate e sanduíches de presunto picado e queijo prato ralado esquentados no forno. Mas Luisa chegou cedo, enquanto eu estava ainda começando a ralar o queijo e o ralador estava muito velho, fiquei embaraçada e não conseguia ralar. Ela foi logo dizendo que eu era uma desajeitada e "tomando conta da cozinha", se encarregou, sem cerimônias, de picar o queijo e o presunto, passando-me um "atestado de incompetência" que me deixou mortificada. Mas as reuniões não eram tão frequentes quando às da Adm e nem tão interessantes pois não tinha mais aquela aura de novidade...
Engraçado. Quando reflito sobre o meu comportamento em grupo, sempre noto que me ressentia de não ser o centro das atenções, de ser relegada a um segundo plano. Mas isso é totalmente contraditório, pois os fóbicos sociais temem exatamente serem o centro das atenções e a exposição que isto acarreta. Mas quando alguém se destacava e era a "queridinha" do grupo (na Adm, geralmente a Amanda, na Letras, a Luisa) eu sempre me sentia enciumada e diminuída. A mesma coisa nas salas de aula. Desde o primário, sempre quis ser a queridinha de alguma professora, mas nunca fui. Tivemos uma professora que era muito carinhosa com os alunos e adorada por estes, a ponto de algumas alunas a chamarem de mamãe. Morria de vontade de fazer o mesmo, e de cobrir a professora de beijinhos e abraços como as outras faziam, mas não tinha coragem e me sentia triste e desprezada pois, sendo assim "tão invisível", a professora nunca percebia o quanto eu gostava dela... O mesmo acontecia nos grupos. Parece um misto de tremenda necessidade de amar e ser amada mas ao mesmo tempo temer essa relação tão íntima e expor assim os sentimentos na frente de todo mundo. O fóbico social precisa desesperadamente ser amado mas, ao mesmo tempo, não consegue conquistar o amor por ser tão retraído. Creio que há necessidade de amar e ao mesmo tempo medo de ser amado - e de se entregar ao amor.