Na Corte do Rei Arthur

 

Se não me sentia muito entusiasmada com a nova turma, em contrapartida, as matérias eram verdadeiramente apaixonantes e os professores, quase todos, doces, pacientes, mais amigos do que mestres. Quase sempre formavámos uma roda de carteiras e o professor ou professora simplesmente sentava-se em uma delas, entre nós, completamente oposto daquela atitude fria, distante e formal dos professores de Adm que, quase sempre de terno e gravata, sentavam à "grande mesa" destinada ao professor e só se dignavam a se levantar para algumas anotações no quadro-negro (alguns nem isso faziam, preferindo ditar a matéria frase por frase). Gostavam de serem chamados de mestre, com todo o respeito, reverência e distância que o título inspirava. A maioria do corpo docente de Letras era formado por mulheres, mas havia alguns homens também, e todos eram chamados pelo nome e de "você", sem formalismos ou frescuras, e nem por isso eram menos respeitados (pelo contrário, costumávamos fazer muito mais piadas pelas costas dos nossos antigos "mestres" da Adm). Concordo que a natureza dos dois cursos é bastante diversa e que o curso de Adm pretende formar "executivos" que, por sua vez, deverão ser chamados de "chefes", "diretores", "doutores", naquele estilo bem "terno-e-gravata". Os professores de Letras eram tão informais que alguns até saíam com o Grupo que se formou, aos moldes do de Adm, para ir à pizzaria num dia de poucas aulas e conversar conosco de igual para igual. Confesso que isso me deixava sempre pouco a vontade, não conseguia ver os professores como "uma pessoa igual a nós" e sempre mantive certa distância. Não sei até que ponto é produtivo esta intimidade exagerada com os alunos, pois percebi que, após os primeiros semestres, os professores não estavam demonstrando ser tão imparciais e privilegiavam e protegiam os alunos mais chegados ou, como se dizia no meu tempo de escola, "os queridinhos". As aulas eram verdadeiras "viagens": literatura épica e história da Inglaterra, começando com o primeiro herói épico Anglo Saxão, Beowulf, até nos deleitarmos com os Cavaleiros da Távola Redonda conforme descritos por Thomas Malory em seu "Morte D`Arthur". Mais tarde, sonetos e peças teatrais de Shakespeare, além de tantas outras preciosidades não só da literatura iglesa, mas também da mericana, brasileira e portuguesa. Simplesmente devorava as obras literárias e, conforme as analisávamos na aula, percebiámos todos os nuances de beleza escondidos em metáforas, comparações, aliterações e outros recursos de linguagem poética. A professora de Literatura Inglesa sempre se empolgava com poesias e acabava exclamando "so beautifully written!!!" ("tão lindamente escrito!!!) e a frase se tornou quase um chavão do curso. Vale dizer que quase a totalidade das aulas eram dadas totalmente em Inglês (exceptuando-se, obviamente, as associadas à língua ou literatura brasileira e portuguesa, linguística, teoria da literatura e algumas outras. No primeiro ano, como estudávamos fonética nas aulas de Língua Inglesa, a turma se dividiu em duas, cada aluno optando pela pronúncia com a qual estivesse mais familiarizado: americana ou britânica. Embora estivesse frequentando um curso britânico, sempre tive professores com pronúncia "meio termo" e, lembrando do desastre nas provas simuladas de compreensão oral do Cambrige, optei pela fonética americana. A professora era amada por todos, uma das melhores mestras que já tive, daquelas que se interessam realmente pelos alunos e não mede esforços para que aprendam. Na parte de gramática, além de explicar minuciosamente cada uso de verbo, preposição, etc, arranjava apostilas com centenas de exercícios que eram corrigidos e comentados em sala. Na aula de fonética, também dezenas de frases "trava-língua", para que os alunos exercitassem os músculos da boca e da língua para pronunciar corretamente as palavras (principalmente sons e pronúncias que apresentam dificuldades por não serem utilizados em nossa língua, tais como o "th" e o "i" que não é pronunciado como o nosso (seria mais uma mistura entre o nosso "i" e o nosso "e"). As aulas eram divertidas pois a professora mostrava a língua para enfatizar certas pronúncias e se utilizava de vários recursos, até de folhas de papel em frente à boca para treinarmos sons "aspirados" que fariam a folha se mover com o leve sopro dos lábios, indicando a pronúncia correta. Uma vez rimos muito pois a turma toda estava assim, repetindo palavras segurando o papel na frente do rosto e pensamos que seria muito engraçado se alguém de outro curso entrasse e nos visse assim, provavelmente pensaria que éramos malucos. Essas aulas de fonética me deixavam um pouco nervosa pois havia prova oral e cada aluno tinha que ler algumas daquelas frases "trava-línguas" para a professora. Passava as noites quase inteiras (pois, a essas alturas, gostava mais de estudar tarde da noite, com silêncio e tranquilidade, tanto no apartamento quanto na rua - de trânsito intenso) repetindo em voz alta (mas com cuidado para não incomodar meus pais dormindo no outro quarto) as páginas e páginas de palavras e frases complicadas. As aulas de fonética também produziram em mim um efeito estranho pois a gente acabava chegando à conclusão que pronunciava quase tudo errado e, com isso, eu que me sentia geralmente segura e à vontade falando inglês nos cursos (e era sempre tida como uma das melhores alunas), passei a me sentir insegura e a ficar nervosa na hora de falar pois o nível na faculdade era o mais alto possível e devíamos pronunciar frases e palavras quase como nativos da língua. Fora aquele curso intensivo que fiz, tive muito pouco treino na parte de conversação e, como fui auto-didata em Inglês durante a infância inteira (traduzindo letras de músicas e estudando cursos em fascículos comprados por meu pai, já tinha alguns erros de pronúncia difíceis de se corrigir por terem sido pronunciados de maneira errada por muitos anos, ao contrário da maioria da turma, que havia feito cursos de Inglês desde criança. Apesar de um pouco nervosa, acabava me saindo muito bem e era bastante elogiada pela professora. Falando em provas, foi outra surpresa que tive pois nas primeiras não sabia bem o que me esperava, acostumada com aquelas verdadeiras "maratonas absurdas" das provas de Adm, onde a cada matéria uma grande leva de alunos acabava sendo reprovada a cada semestre. Em comparação, as provas de Letras pareciam até fáceis demais, quase ingênuas e a nível de escola. Só perguntavam o que a gente tinha estudado e exercitado exaustivamente em classe, tinham como objetivo testar o que tínhamos aprendido e não apontar com o dedo acusador o que não sabíamos - e arrazar com a gente. O terrorismo e a irracionalidade cederam lugar à doçura e à sensatez. Creio que a nota mais baixa que tirei no curso inteiro foi um 8, no mais, era sempre entre 9 e 10 e muito poucos ficavam para prova final e para ser reprovado, só mesmo se o aluno não estudasse nada e não entregasse nenhum trabalho, o que só vi acontecer umas 2 ou 3 vezes nos 4 anos de Letras. Creio que, pela primeira vez em minha vida, estava estudando verdadeiramente por PRAZER e não apenas por dever ou para me livrar logo de uma matéria chata ou muito difícil. Além de devorar todos os livros (ou trechos de livros) de leitura obrigatória, lia todos os livros que as professoras muitas vezes só mencionavam muito de passagem. Gastava toda a minha mesada com livros pois a maioria deles era importado e tínhamos encontrado uma "Disneylândia" desses livros numa livraria do centro da cidade. Passava horas por lá "namorando" todos os livros e comprando todos que podia. Alguns livros mencionados estavam fora de catálogo e também passei a visitar muitos sebos espalhados pela cidade inteira. Era fascinante ler tanta coisa bonita e, com a ajuda dos professores, descobrir tantas riquesas que muitas vezes passam despercebidas aos leigos no assunto.

 

Hosted by www.Geocities.ws

1