Voltando a ser "Maria Lucia"...
Começava o novo curso com grandes esperanças em termos da nova carreira e também atraída pelo fascínio que o título das matérias sugeria. Em termos de me enturmar e fazer parte de outra "turminha legal", já tinha perdido as ilusões. Por assim dizer, tinha deixado cair a máscara. Percebera que não poderia esconder a minha "timidez" e o meu "comportamento estranho", a verdade sempre viria à tona. Percebi que não podia me forçar a ser uma pessoa diferente do que era e trocar de personalidade como quem troca de roupa. Aquele plano de "começar o curso se passando por extrovertida porque ninguém ainda me rotulara e assim poderia me soltar mais" tinha provado ser um fracasso, quer dizer, na faculdade me socializei muito mais do que na escola: Era conhecida por todos, conversava com todo mundo, paquerava à torto e à direito (mesmo que a maioria dos rapazes só estivesse interessado mesmo é nos meus cadernos). Só continuei sendo totalmente retraída em relação aos professores. No mais, creio que consegui me enturmar. Mas logo perceberam que eu era "diferente", haja vista aquelas indiretas na aula de sociologia quando se comentava sobre os "cegos e surdos sociais". E depois, as desculpas arranjava para não sair mais com o Grupo e a perda de interesse no mesmo, tudo indicava um retrocesso à minha condição de solitária e arredia. E cheguei à conclusão de que não gostava de grupos: as pessoas eram maravilhosas individualmente e, com uma ou duas, podia ter conversas interessantes e agradáveis, mas, quando se formava um "grupo", os mesmos indivíduos tão inteligentes e interessantes se transformavam em um bando de crianças tontas, conversa vazia, bobagens, implicâncias, joguinhos de salão que me deixavam tensa. Sempre que estava "em grupo", procurava ficar conversando com a pessoa ao meu lado (no caso de estarmos numa mesa) ou então "me grudava" com um dos colegas que tinha conversa mais interessante e intelectual e ficávamos numa "conversa paralela", até que o Grupo reclamava que estávamos nos isolando e que queriam que nós participássemos na conversa de todos (que, geralmente, era um papo furado dos mais sem graças - abobrinhas, como se diria hoje em dia). Mas, havia percebido também que pertencer a um grupo numa escola ou faculdade era questão de sobrevivência, principalmente por conta dos inúmeros trabalhos em grupo. Sempre detestei estes trabalhos e nunca vi ninguém aprender nada com eles, sempre tive a nítida impressão (confirmada posteriormente por alguns professores de Letras que chegaram a confessar que isso era verdade) de que era só um subterfúgio usado pelos professores para não ter trabalho em preparar e dar aulas. Era muito cômodo dar uma aula inicial dando uma idéia geral sobre a matéria e logo em seguida separar a turma em grupos, dividindo entre estes a matéria inteira do semestre e marcar datas para as apresentações. Durante a fase de preparo, geralmente cediam o espaço da aula para os grupos se reunirem e para tirarem dúvidas (e, na maioria das vezes, ficavam sentados sem fazer nada), outros simplesmente "desapareciam" até a época de entrega dos trabalhos, depois, era só sentar-se numa das carteiras no fundo da sala com a ficha de presença (para dar as notas) e ficar assistindo os alunos darem as aulas que eles ganhavam para dar... e muitas vezes chegavam até a cochilar! Sempre achei que era muito cômodo e fácil ser professor assim. Lembro de meu pai trazendo livros sobre a "nova técnica utilizada em empresas dos EUA chamada dinâmica de grupo" no início dos anos 70 (quando estavam procurando implantar a técnica no Posto onde trabalhava). Trabalho em equipe: o Grupo é tudo, o indivíduo tem poder nenhum e nem capacidade para nada. A idéia foi abraçada por escolas e empresas sem nenhum questionamento, como "dogma absoluto". Quem não tem "espírito de equipe" não está apto a trabalhar numa empresa, um pontapé no traseiro dos fóbicos sociais! Por isso resolvi que seria melhor ser professora pois, afinal de contas, elas trabalham sozinhas na sala, os alunos estão lá, obviamente, mas a professora sempre está em posição superior pois detém o conhecimento e o poder de aprovar ou reprovar os alunos e em consequência disso, professor e alunos tem uma relação de natureza diferente a de funcionários de uma companhia qualquer (pelo menos era o que pensava na época). E o pior de tudo é que a coisa nem funcionava: nunca vi ninguém aprender nada com trabalhos e apresentações em grupo, sempre achei algo totalmente inútil, estéril, uma perda de tempo total (por parte dos alunos, é claro). Desde os tempos de primário e ginásio até a pós-graduação (e, pelo que ouço comentar, também em mestrados e doutorados) SEMPRE vi acontecer as mesmas coisas:
Primeiro, é preciso haver um "líder" que saiba organizar o grupo, dividir tarefas, conduzir debates, só que nem sempre existe alguém com essas qualidades e também não adianta haver um "líder nato" se os outros membros do grupo não colaboram nem aceitam suas orientações.
Segundo, é muito difícil haver tempo para reuniões. Alguns poucos professores mais racionais cedem o espaço das aulas, mas a maioria não faz isso e o grupo tem que marcar reuniões na casa de um dos membros e isso gera outro grande problema: tem que ser um lugar accessível a todos e também um horário em que todos estejam disponíveis, o que é bastante difícil e a questão de tempo disponível torna-se mais complicada à medida que as pessoas são mais velhas e, consequentemente, têm mais atividades, empregos, cursos, família e casa para cuidar e tudo o mais.
Terceiro: a não ser que o professor determine as pessoas que farão parte de cada grupo, os alunos, obviamente, preferem trabalhar com os colegas mais chegados e tanto um caso quanto outro resulta em reuniões desastrosas e improdutivas. No primeiro caso, as pessoas não se conhecem bem ou têm temperamento muito diferente e isso cria um clima tenso, fazendo com que os integrantes se sintam pouco a vontade para trocarem idéias. No segundo, os colegas têm tanta intimidade uns com os outros que, quando se reúnem, rola todo tipo de papo e, quando a gente se lembra que estamos ali para fazer um trabalho, já está na hora de todo mundo ir para casa. Em ambos os casos, a reunião é inútil e, no final, alguém acaba dividindo os capítulos entre os integrantes do grupo e cada um fica responsável por pesquisar, fazer uma síntese e preparar a apresentação daquela parte - e assim ninguém sabe nada sobre a parte do outro e, o que era para ser algo coeso, acaba virando, invariavelmente, uma colcha de retalhos muito mal costurada (pois geralmente as pessoas nem se reúnem para um "ensaio", só juntam as partes mesmo durante a apresentação, rezando para que o professor não pergunte a um aluno nada a respeito de uma parte que coube ao outro (eles sempre "ameaçam" fazer isso quando passam o trabalho, mas no final muito raramente fazem isso - provavelmente porque sabem muito bem o que acontece na elaboração desses trabalhos e, se fossem perguntar a um o assunto que outro apresentaria, ninguém saberia responder nada e todo mundo seria reprovado).
Quarto: Sempre existe alguém no grupo "menos ocupado" do que os outros e, na maioria das vezes o trabalho nem chega a ser dividido entre os membros. Aquele colega "que tem tempo" prepara tudo (refiro-me à parte escrita) sozinho e os outros só assinam no dia da entrega e, no caso de haver apresentação oral, decoram um resumo fornecido por este mesmo colega "disponível". Foi sempre o que aconteceu no meu caso pois era sempre "aquela que não trabalhava, ou seja, não fazia nada" e por isso podia me dedicar à pesquisa enquanto os outros colegas batalhavam para ganhar a vida. Mas devo confessar que gostava de fazer o trabalho sozinha e não me incomodava que os outros só assinassem. Muitas vezes até me oferecia para fazer tudo antes que solicitassem e até insistia no caso dos outros se mostrarem dispostos a colaborarem. Nunca tive muita confiança nos outros, achava que se não fizesse o trabalho sozinha este não ficaria bem feito e, no final das contas, todos ganhariam a mesma nota. Ficava com medo de outros fazerem o trabalho e acabar recebendo uma nota baixa "por tabela". Como realmente tinha tempo de sobra, achava mais conveniente e seguro ter o controle total sobre o que seria entregue ao professor, valendo nota, muitas vezes até substituindo uma prova. Não sei delegar tarefas, não sei liderar e conduzir um grupo e não confio nos colegas. Mas vez ou outra me ressentia pois os colegas acabavam me explorando demais. Já contei até casos (como o da Amanda) de colegas que até me pediam para fazer ou datilografar trabalhos que nem tinham nada a ver comigo ou com o nosso curso, tornando-me uma secretária e sem remuneração (ou seja, mais para escrava!)
Em suma: na minha modesta opinião, trabalho em grupo (acadêmico, pois não tenho experiência em trabalhos de grupo em empresas para que possa dar meu parecer a respeito) é algo inútil, injusto, estressante e, porquê não dizer, um atestado de incompetência dos professores que não querem ou não sabem preparar uma matéria e dar aulas interessantes sobre ela. Comentando com meu marido (americano) sobre o assunto, ele me disse que aqui nos EUA é muito raro um professor passar trabalhos em grupo: a nível de primeiro e segundo graus é prática quase que inexistente, pode ser que haja um trabalho desse tipo no curso inteiro. A nível universitário, há trabalhos em grupo e/ou apresentações orais em matérias especificamente voltadas isso, como por exemplo algumas do curso de Administração, Contabilidade ou Direito onde se faz necessário que o aluno aprende a apresentar uma dissertação (no caso de Direito, os advogados têm que treinar para a defenderem seus clientes num juri, etc) ou a ter espírito de equipe (no caso de Adm e Contabilidade, na maioria das vezes a nível de chefia, etc). Ao que parece, o Brasil continua sempre muito atrasado com relação aos EUA (quando eu era criança, diziam que a defasagem era de 50 anos, mas com a globalização atual, creio que não chegue a tanto!). Implementa idéias que vêm daqui, baseando-se em livros americanos, mas depois não percebem que a prática já foi descartada por aqui há muitos anos por ter provado ser totalmente ineficaz. Não sei se isso é verdade, mas é essa a impressão que tenho.
Comecei este novo curso naquele espírito de "voltar aos velhos tempos" e me comportar do mesmo jeito que na escola, ou seja, sentar numa carteira bem no fundo da sala e, exceptuando alguns colegas em carteiras próximas, não me socializar com ninguém, limitando-me a assistir às aulas e a estudar com afinco. Essa "regressão à infância" foi mais reforçada ainda pelo fato deste curso ser praticamente o oposto do de Adm: numa turma de 30, só uns 4 rapazes, o que lembrava muito o clima na escola onde cursei o primeiro grau. A essas alturas do campeonado já havia percebido que conseguia me enturmar e me sentir muito mais à vontade entre os rapazes do que entre as moças. A maioria das mulheres quer ficar o tempo todo falando sobre cortes de cabelo, moda, namorados. Com raras e louváveis excessões, o assunto nunca sái muito desse campo tão limitado. Com os rapazes, podia conversar sobre os assuntos que me interessavam mais: música, cinema, pintura, política, astronomia ou o que fosse. Isso fazia com que evitasse a companhia de pessoas do mesmo sexo o máximo possível, pois falar sobre moda era, a meu ver, totalmente desinteressante (pois, na maioria das vezes, se tinha uma determinada quantia e tinha que me decidir entre um sapado novo ou um CD, acabava comprando este último). E falar sobre namorados é bastante embaraçoso quando não se tem nenhum e quando só se teve um na vida que nem chegou a ser "namorado oficial". Mas percebi que havia ainda muito mais trabalhos em grupo do que na Adm (na qual já eram demais para o meu gosto!) e muitos professores já estavam dividindo grupos logo nos primeiros dias de aula. Assim sendo, "forcei-me" a puxar conversa com as colegas e tentar fazer amizades, mas de forma totalmente interesseira (pois tinha pavor de não conseguir um grupo ou até ser rejeitada por um e "ficar sobrando"). E o "interesse" acabou por se provar mútuo, pois, como já disse antes, no final das contas sempre acabava fazendo o trabalho sozinha. No início, como ninguém me conhecia e, consequentemente, não sabia que eu era uma "CDF", aceitavam minha presença sem mostrar entusiasmo. Quando começaram a vir os resultados das primeiras provas, passei a ser uma das "disputadas" para fazer parte do grupo. Enfim, já sem esperanças de realmente "pertencer a um Grupo" (pois, no final das contas, senti que os detestava), usava-os por conveniência.
A princípio, segui a tendência dos primeiros anos de escola também na escolha de colegas com quem conversar. Procurava os que pareciam retraídos, tímidos, pouco atraentes, em suma, por um motivo ou por outro, desenturmados e parecendo um pouco desprezados pelo resto da turma. Também ao contrário da Adm, neste curso praticamente todos estavam começando juntos, cursavam as mesmas matérias, não faziam outras faculdades e este era o primeiro curso universitário. Em consequência, a turma era mais coêsa, bem melhor do que aquela bagunça total de ter alunos novos (e os antigos largando) a cada semestre e transmitia um sentimento de estabilidade e segurança que me fazia bem. Por outro lado, eu era 4 anos mais velha do que praticamente todos na turma. No caso de Rita, isso constituiu, talvez, uma vantagem e um atrativo a mais (pelo menos para o Tiago) mas não acreditava que, no meu caso, fosse resultar em algo positivo.
Parece que até o destino conspirava para essa minha regressão ao tempo de colégio: como havia, além de mim, mais 2 Lucias na turma (e no caso das outras duas era o primeiro nome), professores e turma decidiram que, para não haver confusões, iriam me chamar de Maria Lucia e já teci comentários de como isso influi até na maneira como me vejo e muda completamente minha personalidade e, consequentemente, meu comportamento. Voltava a ser a desajeitada, tímida e estranha Maria Lucia que só consegue ter poucos amigos. Nesses primeiros dias de aula, para fugir da monotonia e da solidão nos intervalos ou tempos vagos, descia para rever alguns dos amigos que ainda estavam cursando Adm como Claudio, Rita e tantos outros e de vez em quando eles "retribuiam o favor" aparecendo no meu novo andar (décimo-segundo). O Gustavo também andava me procurando, saudoso dos nossos beijos e de vez em quando íamos relembras os velhos tempos nos jardins da universidade.