Mozart...
Costumo chamar os anos 80 de "era Amadeus" por causa do filme de mesmo nome do Milos Forman. Assisti pelo menos 5 vezes no cinema e depois, em vídeo, já perdi a conta. Sei todos os diálogos do filme de cor. Fiquei totalmente apaixonada por Mozart. Obviamente Milos Forman apresenta sua própria versão dos fatos, por sua vez baseando-se numa peça de teatro de Peter Shaffer, mas isso não importa: o filme fez com que descobríssemos um Mozart até então desconhecido da maioria. Eu, que passei a infância ouvindo música clássica, principalmente óperas e sinfonias, só fui mesmo me dar conta da profundidade - e dramaticidade - da obra de Mozart por causa do filme, realmente impactante e uma das maiores obras-primas do cinema na minha opinião. Começa apoteoticamente e termina nos levando às lágrimas. Conhecia as sinfonias mais populares, aquelas bem de estilo clássico e "arrumadinho", aquele Mozart dos salões Vienenses e dos Imperadores assistindo a audições acompanhados de toda a côrte. Parecia superficial, bonito, mas nada apaixonante. Mas a sinfonia logo na abertura do filme me revelou um outro Mozart, um compositor realmente divino, genial, que conseguiu ancançar um grau de profundidade e de paixão inimagináveis e ainda insuperados até hoje. Fiquei fã e passei a comprar todas as sonatas e concertos para piano, além de algumas das sinfonias e outras obras fenomenais para todo tipo de instrumento de orquestra. Mozart compôs para todos os intrumentos, em todos os gêneros, para todos os gostos. Claro que foi incompreendido e até levou um pontapé no traseiro, mas, como pessoa a frente de seu tempo, não poderia ser diferente. O mundo sempre teme as novidades, o ser humano custa muito a se adaptar ao que é novo e a tudo que não consegue entender muito bem. Mozart era um "rockeiro", pulava em cima dos pianos, virava cambalhotas, tocava de cabeça para baixo, com as mãos cruzadas, todo tipo de acrobracia (e isso não é invenção do filme não, é relatado em suas biografias). Claro que essa "Mozartmania" me atacou em cheio e só dava Mozart (e fotos de cenas do filme pelas paredes). Para "piorar" as coisas, o artista que interpretou o compositor me lembrava muito Roberto, tanto fisicamente quanto no comportamento que emprestou ao Mozart: a mesma irreverência, o mesmo bom-humor e ao mesmo tempo, a mesma sensibilidade. Fiquei apaixonada por Mozart.
Logicamente, essa paixão fez com que me dedicasse ainda mais às aulas de piano recém-começadas. Como aprendia as música com rapidez e facilidade, a professora resolveu que eu poderia "pular" o curso básico, cursar só um ano preparatório e prestar exames para o curso técnico. Obviamente isso significava provas mensais com a professora e exames semestrais com uma banca examinadora formada por professoras do curso e, se esta aparecesse, pela inspetora do Ministério da Educação. Confesso que isso me preocupava um bocado. A essas alturas, os exercícios e as músicas já estavam muito complexas e estava ficando impossível treinar no meu piano tão desafinado, onde só uma oitava soava "mais ou menos" como algo reconhecível e nem podia tocar na posição certa e me guiando pelo "dó central", o que acabava me confundindo no curso. Com dó da situação, a grande amiga que tinha ido comigo comprar o meu pianinho se ofereceu para emprestar o dela por um tempo. Meu pai estava para receber um aumento e uma grana de atrasados retroativos aos anos que ele fazia juz a esse aumento que nunca lhe foi conferido (e foram conseguidos depois de 10 anos de ação na justiça, uma verdadeira novela!) e disse que queria me dar um piano novo. Enquanto aguardávamos o desfecho da ação e o pagamento devido, aquela nossa grande amiga que havia me ajudado a comprar meu pianinho, com dó de mim, ofereceu o piano dela emprestado enquanto não comprasse um melhor. Fiquei totalmente emocionada com a oferta, nunca vi em minha vida alguém que emprestasse um piano!!! Restava vender o meu velhinho desafinado! O que fazer? Ninguém iria querer comprar um piano assim (só eu mesmo!), o jeito era "pagar" para alguém levá-lo. Notei nos classificados que aquela "máfia de Copacabana" tinha uma "filial" noutro bairro (pois os telefones se alternavam entre um lugar e outro), uma loja de piano onde, supostamente, o "cunhado" daquela moça que me vendera o piano trabalhava (na verdade o cara deveria ser marido dela e, obviamente, não havia sobrinha nenhuma na história). Resolvi me fazer de desentendida (fingindo não perceber que estava lidando com o mesmo pessoal) e ligar para esse outro lugar (que, segundo o anúncio, comprava pianos usados) dizendo que queria vender meu piano. Quando disse a marca e as características, houve um momento de silêncio (obviamente o cara se deu conta de que se tratava do mesmo piano que, feito batata quente, vivia pulando de um lugar para o outro e sempre voltando para eles). Ele perguntou então se o piano tinha cupim. Respondi que "havia umas marquinhas" (mentira total, obviamente, e ele sabia disso) mas que o problema estava resolvido há muito tempo (realmente havia meses que não via o pózinho se espalhar pelo chão). Ele perguntou quanto eu queria pelo piano e, por minha vez, perguntei quando ele oferecia. Nesse ponto ficou um pouco agressivo (técnica de vendedor experimentado) e disse que eu deveria ligar quando tivesse um preço determinado. Chutei um preço bem baixo, mas que pelo menos não me deixaria em perda total (não sei como relacionar o valor com tantas mudanças de moeda acontecendo nesse meio-tempo) e ele ainda pechinchou. Sem ter alternativa, aceitei o negócio, que só cobriria mesmo o preço do transporte. O piano estava tão ruim, eu estava já com o piano de minha amiga para chegar e com a perspectiva de um piano novo no futuro próximo, mas mesmo assim fiquei muito deprimida e chorava toda vez que olhava para o meu querido pianinho. Nele aprendi as primeiras notas, as primeiras canções! Foi comprado com fruto do meu trabalho, o primeiro salário que recebi na vida! E era um piano bonitinho! Chorava e chorava, tirei fotos, toquei umas músicas e gravei e comentei que parecia estar vendendo um filho. Alisava as teclas do piano com carinho, despedindo-me do meu querido amigo e companheiro cujo destino, dali para a frente, deveria ser provavelmente o lixo (ou então servir de decoração em alguma loja). O "cunhado" enviou dois caras que eu não conhecia e vi os olhares trocados, naquela verdadeira pantomima. Um, que se dizia afinador, mexeu numas cravelhas e desafinou o piano mais ainda. No final, concordaram em me dar a quantia combinada e carregaram o piano sem nenhum cuidado, o pobrezinho foi praticamente se desfazendo e caindo aos pedaços pelo caminho. Era só um instrumento, um objeto, mas foi um dos momentos muito tristes da minha vida vê-lo partir e meus pais se emocionaram também.
Durante mais ou menos um ano, pratiquei no piano de minha amiga, que ainda estava em bom estado e pegava afinação, até que meu pai ganhou a ação na justiça e fomos numa das mais conceituadas lojas do centro da cidade para escolher um piano. A intenção era comprar um novo, já que os preços não eram tão disparatados (por incrível que pareça), mas tanto vendedores como afinadores que consultei diziam que, por conta dos planos econômicos do governo, os pianos novos estavam sendo fabricados com material inferior (cravelhas de plástico, material nacional, etc) enquanto que havia pianos usados de muito melhor qualidade e mais duráveis pois as peças eram importadas e da melhor qualidade. Como tinha a impressão de que seria a única oportunidade de comprar algo tão caro e, consequentemente, queria algo que durasse a vida toda, optamos por comprar um bom piano usado. Olhei e experimentei os melhores da loja e achei a maioria de som muito abafado (até mesmo os tão famosos Fritz Dobbert). Apaixonei-me pelo som de um Maester (marca que desconhecia por completo) que era bastante encorpado e possante, embora as teclas parecessem ser mais "duras" do que as dos outros pianos. Quando comentei isso com o vendedor, este disse que era bom que fosse assim pois isso fazia com que o pianista aprimorasse mais a técnica tendo que fazer mais esforço para tocar (o que foi confirmado por muitos professores e afinadores também). Desta vez examinei bem o piano, abrindo a parte de cima e também a de baixo (cepo de metal, cordas cruzadas, 3 pedais, tudo em perfeito estado e sem "buraquinhos de cupim") e, como parecia até piano novo, decidi-me por este, e o banco vinha de brinde da loja. Ficaram de entregar em dois dias. No dia seguinte, antes das 8 da manhã, enquanto ainda estava no sétimo sono, meu pai bateu na porta do quarto e me acordou dizendo que o piano estava já na nossa porta! Foi só o tempo de vestir-me correndo para os carregadores o trazerem para o quarto (se desculparam da entrega ser tão cedo pois havia uma lei qualquer que não permitia que eles descarregasse o piano da loja para o caminhão no centro da cidade depois das 8 da manhã). Estava encantada com meu novo piano. A madeira brilhava como espelho, as teclas branquinhas (as do velhinho eram totalmente amarelas), o som tão possante e bonito! Passei o dia inteiro tocando e tocando, não me cansava de tocar.
Mas começaram famosas provas no curso! A professora assinalava um exercício, uma escala e um harpejo, uma peça de Bach e uma música para a prova de cada mês e estudava com afinco. O problema é que sempre havia uma passagem difícil, seja nos exercícios de técnica, seja na peça de Bach, seja na música, um trechinho onde a gente sempre erra. O que se deve fazer é "isolar" aquele trecho e repetí-lo inúmeras vezes em separado até que não se errasse mais, e aí então tocar tudo junto. Era o que fazia, mas algumas vezes era muito monótono ficar repetindo um mesmo trecho tantas vezes e era preferível tocar a música inteira novamente. Alguns erros persistiam e isso me deixava muito preocupada com as provas pois, mesmo que em certo momento eu conseguisse superar a dificuldade e tocar o trecho corretamente, era sempre um "ponto fraco" e o potencial de que saísse errado numa situação de prova, com todo o nervoso e o estresse envolvidos, era muito grande. As provas mensais eram no início da aula, com a própria professora, mas mesmo assim ficava nervosa e nas primeiras provas meus dedos tremiam e quase nem conseguia tocar. A professora, um anjo de paciência, dizia para eu relaxar e pensar que era uma aula normal, e começava a tocar junto comigo numa oitava acima, o que me distraía e, na maioria das vezes, surtia efeito pois acabava me saindo razoavelmente bem (embora raramente tirasse um 10). Mas, o final do semestre se aproximava e a professora assinalou o que seria matéria de exame: duas escalas, dois harpejos, duas peças de Bach, uma música de compositor brasileiro (geralmente Villa Lobos) e uma ou duas músicas do livro de coletâneas (algumas peças fáceis originais, outras facilitadas). E começou o meu pesadelo. Só pensava no exame e não conseguia me imaginar tocando para a banca examinadora, sozinha lá em cima do palco no piano usado nas audições. Não conseguia relaxar um instante sequer e estudava as peças por horas e horas pois, pensava, se conseguisse dominá-las ao ponto de tocar "automaticamente" as possibilidades de errar diminuíam muito. Mas sempre havia um trecho complicado no qual sempre empacava e isso me apavorava pois, se em casa, sem compromisso nenhum, já estava assim errando, por mais que treinasse e repetisse, imagine numa situação de pressão total como aquela que me aguardava. Contava os dias, as horas, os minutos, rezava para que o tempo passasse bem devagar para que nunca chegasse o dia do exame, e ao mesmo tempo rezava para que chegasse logo o dia e estivesse tudo terminado. Não dormia direito, aliás, não fazia nada direito pois pensava no exame dia e noite. Costumo comparar esse tipo de situação a um "veneno", pois envenena o corpo e a mente de tal maneira que não há como relaxar e pensar em outras coisas, a vida fica amarga, não há como se divertir ou simplesmente "viver". Às vésperas do exame, tudo se "estragava". Se ia a um passeio, não conseguia nem olhar a paisagem direito, se ia a um musical no teatro ou assistia a um filme, por alguns momentos prestava atenção e me sentia arrebatada pelo enredo, mas, invariavelmente, vinha o pensamento: "o exame se aproxima!" e estragava todo o prazer que poderia estar sentindo. A frase ("o exame se aproxima, vai ser um desastre!") martelava na minha cabeça dia e noite sem dar tréguas e a todo momento pensava em largar tudo, desaparecer do curso, tanta coisa. E o dia do exame chegou, inexoravelmente, como todo momento na vida chega, como a morte um dia vai chegar. Mal conseguia comer ou fazer alguma coisa e, enquanto esperava o ônibus para ir ao curso, voltar para casa ou então tomar um outro ônibus e sair sem destino, ir até a zona sul, sei lá. Mas não conseguia fazer uma coisa dessas, compromisso era compromisso e nunca fugi deles (a não ser por aquela tentativa frustada de faltar à aula onde tinha que apresentar uma música composta por mim). Chegando ao curso, fui para o grande salão onde já estavam vários alunos, a maioria crianças e adolescentes (pois a maioria dos alunos idosos fazia curso livre, sem provas e exames - mas também sem diplomas), sentados nas carteiras esperando a vez. Havia umas 5 professoras na banca e, tirando a diretora e dona do curso, a doce velhinha que a essas alturas era minha professora de teoria musical, não conhecia bem as outras e uma se destacava por estar vestida de maneira muito elegante e com um ar muito altivo. Pensei logo que se tratava da inspetora do MEC, o que ainda aumentou a minha tensão. Para piorar as coisas, a minha professora estava ocupada com outras alunas e não fazia parte da banca neste dia. Fiquei lá esperando, com a folha de papel almaço onde constava meu nome, nível e as duas listas de músicas e exercícios, pontos 1 e 2. Os alunos iam sendo chamados, sorteavam um ponto e tocavam as músicas com desenvoltura. Isso me fazia ficar ainda mais nervosa, pois se aquelas crianças pequenas se saíam tão bem, iria ser um vexame eu ali errando tudo e na frente das alunas e da banca! Não conseguia ficar quieta na cadeira, como se houvesse pregos no assento, me mexia o tempo todo e o joelho para cima e para baixo. Por fim, chamaram meu nome e já foi uma dificuldade sortear o papelzinho e abrir (sem tremer) para ver qual ponto me caberia. Subi os degraus para o palco, abri e arrumei as partituras no piano e fiquei esperando a diretora dizer o que queria que eu tocasse primeiro. Comecei com a escala e o harpejo que saíram meio trôpegos mas saíram! E veio a peça de Bach. Os primeiros compassos foram bem, mas meus dedos começaram a tremer e em certo momento me deu um "branco", não conseguia atinar com o resto da música. Olhava para a partitura sem ver, e não conseguia ler as notas que deveria tocar, embaralhava tudo. Parei de tocar, com uma vontade enorme de chorar, e olhei para a banca, que me encarava séria. Mas a diretora sorriu e disse para eu me acalmar e começar de novo. Foi o que fiz, e, novamente, o mesmo resultado, não consegui de jeito nenhum avançar. Ela disse então para eu tocar a próxima música, o que fiz com os dedos tremendo muito e quase tudo errado pois, com a tremedeira, era praticamente impossível coordenar os dedos de cada mão, e ainda por cima tocar com tempo e ritmo! Sem que a banca falasse nada, dei por terminada a minha apresentação, fechei meus livros e saí da sala, com a certeza de que havia sido reprovada. A língua estava seca, o estômago revirando, as pernas moles. Contei à professora o que havia acontecido e ela ficou espantada. E a senhora que pensei ser a inspetora do MEC era só a nora dela, também professora de música! Fiquei revendo aquele momento de horror em minha cabeça durante semanas, como se fosse um filme ou um pesadelo ruim, que fracasso! Que vergonha fazer aquele papelão, ainda mais com tantas crianças lá encarando o exame com a maior naturalidade!!! Quando fui me matricular no segundo semestre, olhei o quadro com as notas e, para minha surpresa, embora tenha tirado uma das notas mais baixas, não havia sido reprovada (afinal, a diretora e outros professoras da banca me conheciam e sabiam que, durante as aulas, eu conseguia tocar as músicas direitinho, só com uns poucos erros em trechos mais complicados e nos quais todos os alunos costumavam errar). Mas fiquei totalmente traumatizada com a experiência e tremia só de pensar que ia ter que enfrentar tudo aquilo de novo no fim do próximo semestre, e no próximo, e no próximo.... Depois de umas semanas de alívio total por ter me livrado daquela tortura, recomeçava a tensão esperando pela próxima e a vida se tornou amarga... A essas alturas, veio também a certeza de que nunca conseguiria ser uma boa pianista e concertista pois, mesmo se tivesse talento (o que ainda não tinha certeza, ainda mais tendo começado já tão tarde), como teria nervos para me apresentar num teatro cheio de gente se entrava em pânico só por ter que tocar na frente de 4 ou 5 professoras que, no final das contas, eram minhas conhecidas? Mais uma vez a Fobia Social levava a melhor e me vencia. Os exames de piano... mais pedras para o Muro...