Formatura
Estávamos na reta final, muito estresse e até desespero. Começaram os preparativos para a formatura e foi feita a lista dos formandos para coletar o dinheiro para convites e cerimônia. Começamos uma brincadeira: quando uma prova parecia muito difícil, dizíamos "tira meu nome da lista!!" e virou uma piada para descontrair um pouco aquele clima pesado de final de curso. "pode me botar na lista, vou passar!", "não vou passar! tira meu nome da lista!" eram os refrões mais repetidos por todo lado. A turma se reuniu para escolher quem seria o patrono, paraninfo, orador da turma e leitor do juramento. Decidiram que caberia a mim fazer a leitura, Tiago seria o Orador. A princípio recusei, pensando em como seria difícil estar ali na frente de toda a turma e da mesa de professores, diretores, etc, ainda por cima falando no microfone, coisa que nunca havia feito na vida. Mas me disseram que "era uma justa homenagem" por eu ter sido sempre tão prestativa emprestando meus cadernos, etc. Lisongeada, acabei aceitando. No final das contas, creio que era só um "jogo de empurra" e que se serviram desse artifício para me convencer. Recebida a nota da última prova, dei um profundo suspiro de alívio: estava tudo acabado. Agora era "partir para outra" pois já estava fazendo uma revisão nas matérias para prestar o vestibular no mês seguinte. Já considerava a Adm uma página virada em minha vida, todos os meus sonhos voltados para o curso de Letras e para ser professora de Inglês, esquecendo todo aquele pesadelo de custos, dividendos, estatísticas, economia, finanças, empresas, auditoria, diretoria, entrevistas torturantes e tudo o mais. Agora sim iria fazer algo que realmente gostava e quase todos os dias dava uma repassada na lista de matérias que me aguardavam, tudo parecia tão atraente! Mas primeiro teria que passar pela agonia de ter que ler o juramento. Como era típico, pensava nisso dia e noite, tanta coisa podia dar errado! Podia gaguejar, podia pronunciar mal alguma palavra, a mão estendida podia tremer e todos perceberem... e todos estariam ali olhando, inclusive meus pais, alguns outros membros da família e também minhas amigas desde o primário! Esperei o dia com misto de alívio pelo dever cumprido e tensão antecipando aquele momento e agonia. Mas havia muita coisa para me distrair: estava revisando algumas matérias e iria prestar o vestibular novamente antes mesmo da formatura. Letras não era um curso tão concorrido quanto Adm de Empresas e precisava de menos pontos, mas mesmo assim, passar para uma universidade pública não era tarefa fácil. Mas, como as matérias nas quais eu era mais fraca não tinham tanto peso, prestei exames com tranquilidade e com a superioridade de quem já havia passado por isso e se considerava veterana. Acertei todas as questões das provas de Português e Inglês, além de tirar nota máxima na redação, o que me garantiu, junto com as notas nas outras matérias (e me saí melhor do que esperava pois, afinal de contas, já estava com mais prática em matemática), uma excelente colocação. Assim, com a garantia de que estaria naquela universidade por mais 4 anos, chegou finalmente o dia da formatura. Aquele frio no estômago, aquele aperto no peito, sensação de tontura. Como sempre fiz neste curso, procurei esconder a tensão o máximo possível, mas tinha o problema de ter que ficar com a mão erguida enquanto lia o juramento e não queria que me vissem tremendo. Pensei que minha voz não ia sair, mas me concentrei no papel colocado à minha frente e fui lendo devagar com a mão erguida. A princípio estranhei muito ouvir minha própria voz assim amplificada. O som não era dos melhores e soava um pouco estridente e metálica, mas procurei empostar a voz o mais que podia, lembrando minhas aulas de declamação passados tantos anos. Para que a mão não tremesse, apertei os dedos uns contra os outros e nas fotos pode-se constatar que ao invés de espalmada e reta, minha mão estava em formato de concha devido a tensão dos dedos. Não ficou muito bonito esteticamente, mas pelo menos garantiu que não houvesse tremedeira. Felizmente o juramento era curto e a agonia logo terminou: pude suspirar aliviada e curtir o resto da cerimônia mais descontraída pois antes disso nem estava prestando atenção ao que acontecia à minha volta, tão preocupada estava com a leitura. Da turma original, só uns 4 se formaram, os outros se juntaram a nós ao longo do curso ou tinham começado antes de nós e só agora terminavam todas as matérias (atrasos provavelmente devidos a reprovações). O Grupo e demais amigos e colegas estavam todos lá, mas só como convidados, o que era triste de se ver (convidei Gustavo que, como sempre, garantiu que iria e me deu um bolo). Amanda desistira do curso há tempos. Rita se atrasou por conta da gravidez, Orlando, Débora, Claudio e outros amigos e amigas foram reprovados em algumas matérias e ainda iam continuar na Universidade por alguns semestres. Nunca mais vi a maioria desses colegas que se formaram comigo, alguns dos outros, principalmente os do Grupo, ainda vi nos corredores da faculdade e trocamos telefonemas e algumas poucas visitas. Aos poucos, fui perdendo contato com todos, só ligava de vez em quando para Rita e Tiago, que a essas alturas já tinham outra filha, mas com o tempo, fiquei cansada de ser sempre eu a ligar e, como nunca me ligaram, nunca mais soube deles. Um único colega permaneceu sempre em contato e se tornou um daqueles amigos para a vida toda, e hoje é inclusive padrinho de meu filho: o primeiro com quem tive contato, no dia da matrícula, quando me pediu uma caneta emprestado. De vez em quando essa vida parece mesmo uma novela!