Mais uma vez a "CDF" da turma...

 

Os últimos semestres do curso de Adm foram um verdadeiro massacre. Todos os alunos andavam desesperados, o stress era tão grande e o ar tão tenso que quase se podia cortar com uma faca. Professores cada vez mais exigentes, provas cada vez mais em nível absurdo de exigência. Além da maratona de duas semanas inteiras de provas no final de cada semestre, havia também as apresentações dos trabalhos em grupo, que me deixavam um bocado nervosa pois sentia que não dominava os assuntos suficientemente e tinha pavor de que algum aluno me fizesse alguma pergunta que não soubesse responder (e havia muitos alunos "amigos da onça"). Meu estômago ficava sempre dando voltas e a maior tortura era esperar os outros colegas se apresentarem, enquanto esperava a minha vez. Ficava me levantando, andando na parte de trás da sala, sentando novamente, um desassossego só. E quanto me apresentava, parecia estar "hipnotizada", ia falando sem nem perceber do que falava, mas procurava esconder o nervosismo a todo custo. Como as mãos podiam tremer, cruzava os braços sempre que podia ou segurava as folhas de consulta o mais firmemente possível. Tentava falar devagar e de forma descontraída e alguns alunos até comentavam que admiravam "a minha calma nessas horas". Não podiam ver a tensão em que me encontrava.

 

Para terminar aquele curso o mais rápido possível e me livrar daquele pesadelo, só me restava prestar muita atenção às aulas e anotar TUDO o que os professores falavam. Se era algum cálculo matemático, copiava tudo e anotava as explicações dadas a cada passo, minuciosamente. Não havia caderno que chegasse! A maioria dos colegas, já trabalhando (e, portanto, já chegando cansados na faculdade) e mais interessados em tirar o diploma do que em ficar prestando atenção em aulas massantes, faltavam o máximo que podiam e até que não podiam (e depois negociavam com os professores o abono das faltas), chegavam atrasados e saíam cedo, ou seja, não assistiam às aulas. Mas sabiam que eu estava sempre ali anotando tudo freneticamente. Quando chegava a época de provas, sofria um verdadeiro assédio: todos queriam meus cadernos emprestados para tirar fotocópias. Sempre querendo "ser querida e popular" e também sem coragem de dizer "não", muitas vezes acabava quase sendo prejudicava pois, não raro, alunos levavam meu caderno e sumiam por dias sem dar nenhuma satisfação, e eu ficava com os meus estudos atrasados (ainda bem que sempre estudava tudo com muita antecedência, mas sempre gostava de fazer uma boa revisão na véspera das provas). Com a maior cara de pau, mesmo alunos que pouco me conheciam vinham me pedir os cadernos, e alguns dos amigos até brincavam dizendo que meus cadernos iam acabar ficando doentem de tanto ser expostos às radiações das copiadoras. Havia uma salinha em cada andar (e um salão no térreo) com máquinas copiadoras de qualidade um pouco duvidosa e funcionários que prestavam esse serviço e o preço era bastante razoável. Brincavam que os meus cadernos já eram conhecidos do pessoal da copiadora e que até já faziam várias cópias de cada vez pois sabiam que sempre havia alguém querendo e assim o meu caderno podia voltar às minhas mãos "de vez em quando". A coisa chegava a níveis totalmente abusivos, mas não tinha coragem de reclamar. Muitos sequer agradeciam, mas alguns até diziam que me fariam uma homenagem especial na formatura, que me dariam flores e que diriam ao microfone que deviam seus diplomas a mim (e eu acreditava que eles realmente fariam isso e já imaginava a cena e ficava fantasiando).

Certo dia, ao chegar na sala, notamos escrita em giz a frase "saída de emergência" ao lado da janela (estávamos no oitavo andar) com uma seta apontando para a mesma. Cheguei também a ver a frase do inferno de Dante escrita por cima do quadro-negro "Aqueles que aqui entram, percam as esperanças". O que parecia apenas uma brincadeira, era uma triste e trágica realidade. Por conta de tanto estresse e de tantos professores rigorosos, intolerantes e pouco abertos ao diálogo, quase todo semestre um aluno se suicidava atirando-se da janela, das varandinhas no final dos corredores ou das rampas de acesso aos andares, a maioria deles alunos de cursos de ciências exatas. O caso era muito abafado e, como acontecia dentro do campus, não era considerado acidente "na rua" e assim não era preciso por lei abrir inquérito e atrair jornalistas, etc. O caso era sempre comentado "à boca pequena", na maioria das vezes pelos ascensoristas dos elevadores, que gostavam um bocado de papear com os alunos. É claro que alguém que comete suicídio já tem algum problema psiquiátrico e provavelmente outros problemas na família ou no emprego e tudo vai se acumulando. Os fracassos na faculdade acabam sendo a gota d´água. Mas era bastante desencorajador e até mesmo revoltante que isso acontecesse com tranta frequência, sem que a administração dos cursos fizesse alguma coisa pois tinha que haver algo errado com cursos que faziam alunos se atirarem assim pelas janelas. Faculdade deveria ser símbolo de futuro e de sucesso e não de morte! O mais assombroso caso que ouvi falar foi de um aluno que estava para ser reprovado por não ter entregue certo trabalho escrito e que, já além do prazo, o entregou, implorando à professora que não o reprovasse. Mas a professora foi firme e disse que o prazo já estava esgotado e que não iria voltar atrás. Segundo contam, o aluno a agarrou pelo braço, arrastou-a pelos corredores, sempre gritando "Pois veja só o que eu vou fazer!!!" e se atirou de uma das rampas, para total desespero da professora que ficou tão traumatizada que chegou a se aposentar ou pedir demissão, não me lembro de tais detalhes. Está certo que os professores têm que ser exigentes e rigorosos, mas um pouco de compreensão, piedade e amor não fazem mal a ninguém. Tive professores que, mesmo sendo rigorosos, tratavam os alunos com respeito e delicadeza e, por conta disso, ao invés de precisar impôr respeito, simplesmente o ganhavam. Comentando sobre isso com meu pai, ele comentou que até que eu não estava numa situação tão ruim pois ele, que estudara na mesma universidade no tempo que ainda não existia esse campus mas sim um pequeno prédio no centro da cidade (e um prédio separado para direito), tinha tido um professor que, logo no primeiro dia de aula foi avisando: "O meu sistema de dar notas é o seguinte. Só Deus merece nota 10 pois só Ele é perfeito. Nota 9 só para os diretores. Nota 8 para os professores. Os alunos só mereciam receber (e ele só daria)  notas de 7 para baixo (e 7 era justamente a nota mínima para se passar direto!). É cada coisa que se vê nesse mundo!

 

Alguns professores, quando determinavam a matéria que iria cair na prova, listava praticamente um livro inteiro, de mais de 400 páginas, e com menos de um mês para que os lêssemos e assimilássemos seu conteúdo. E com tantas matérias e tantas provas ao mesmo tempo, impossível dar conta e até inventamos um método que parecia bastante eficaz: entre os colegas mais chegados, dividíamos os capítulos dos livros, um tanto para cada aluno e este ficaria encarregado de ler e resumir aqueles capítulos, destacando os pontos principais e os tópicos passíveis de serem cobrados na prova. No final, juntava-se tudo, fazia-se cópias e no final todos teriam um resumo de toda a matéria. O método parecia bastante eficaz, mas na hora de colocar em prática, muitos problemas surgiram. Alguns alunos não entregaram seus resumos e, por um engano qualquer, coube a duas pessoas o mesmo capítulo, e cada um deles afirmava que o outro nem estava fazendo parte da distribuição e que tinha entrado só para se aproveitar. Acreditar em quem? No final, alguém se sentiu injustiçado e magoado e o trabalho ficou todo incompleto por conta dos que não aprontaram a tempo. Eu, como nunca confiei em ninguém com relação a essas coisas, havia lido o livro todo e feito o meu próprio resumo, que acabou sendo copiado por todos, resolvendo o problema. Um belo sistema - na teoria - pena ter se mostrado tão desastroso na prática.

 

A coisa andava tão ruim que até eu, totalmente avessa à cola, fui praticamente obrigada a colar em algumas matérias pois tal era a quantidade de livros e de apostilas para ler e assimilar que, creio, ninguém conseguiria passar sem colar. Mas só fazia isso mesmo em último caso e com professores que, de certa forma, faziam vista grossa e a coisa chegava a ser engraçada e tinha que me segurar muito para não soltar uma gargalhada no meio de uma prova. Havia um colega que colava com muita frequência e, como havia uma pequena prateleira na parte de baixo das carteiras, ele colocava os livros (já com as páginas devidamente marcadas) na prateleira da carteira da frente e, quando professor se distraía, esticava o braço e abria o livro. Só que era desajeitado e o livro quase sempre acabava caindo no chão fazendo muito barulho, eu quase explodindo de vontade de rir, mas o professor fingia que não tinha percebido. Outras vezes, esse mesmo aluno ficava pedindo minha borracha emprestada durante a prova (para, segundo ele, estabelecer uma rotina) e em certo momento disparava baixinho "escreve a resposta da questão número 5 na borracha!!!). Sempre hesitava, mas acabava entregando a borracha com a resposta, não sem tremer um pouco de medo de ser pega e de ter a prova confiscada, levar um zero ou coisa parecida. Mas, conforme disse, só me arriscava assim com professores que não eram muito rigorosos e que, de certa forma, deixavam evidente que não se incomodavam com umas colas aqui e outras ali.

 

Houve um trabalho escrito que me deixou quase em pânico e foi motivo de muito estresse. Na matéria principal do curso, Administração, estávamos em certo semestre estudando estratégias de marketing. Pois o professor nos mandou, com base em teorias expostas em certo livro, fazer uma pesquisa sobre marcas de produtos, e deu como exemplo a margarina (e, por falta de algo melhor, foi escolhi margarina mesmo). Disse que deveríamos pedir permissão aos gerentes nos supermercados e ficar em frente às gôndolas  pedindo aos consumidores que respondessem algumas perguntas. O resultado da pesquisa devia apontar a percentagem de pessoas que escolhia a marca por causa do sabor, do preço, da marca, da propaganda ou por outro motivo qualquer. E tirar conclusões quanto aos resultados (a maioria dizia que escolhia pelo preço, mas a margarina mais vendida era uma das mais caras, portanto, pareciam ser fiéis a certas marcas provavelmente por causa de propaganda). Mas lá fiquei eu ruminando noite e dia sem saber o que fazer. Não tinha coragem de fazer isso: ir num supermercado, falar com o gerente e depois ficar abordando pessoas. Cheguei a ir a um supermercado e, mesmo sem pedir permissão ao gerente, ficar discretamente em frente à gôndola observando as pessoas e tomando coragem para abordá-las. Mas foi em vão. Meus pais sugeriram que eu então fizesse as perguntas a alguns parentes e vizinhos, e foi o que fiz e mesmo assim muito sem graça. No curso de Inglês estava sempre encontrava na sala de espera com uma grande amiga do tempo que morávamos no subúrbio, que estava morando perto de nós e levava a filha ao curso. Ela sempre papeava com as mães de outras alunas e também a "recrutei" para a pesquisa e ela me apresentou às outras mães. A amostragem estava longe de ser expressiva para os padrões de uma pesquisa, mas sem ter outra alternativa (ou, melhor dizendo, coragem para entrevistar estranhos), no papel, o número de entrevistados, de 20 passava a 100 e as percentagens eram ajustadas de acordo. No dia da entrega dos trabalhos fiquei apavorada pois alguns colegas que trabalhavam em grandes multinacionais levavam "pesquisas de verdade" elaboradas pelas próprias empresas, páginas e mais páginas com gráficos impressos, tudo parecendo bastante profissional. Achei até que seria reprovada. Mas felizmente tirei nota boa e creio que o professor até gostou mais de um trabalho de "pesquisa de campo" pois a maioria dos outros alunos tinha se limitado a copiar pesquisas já prontas e só tecer algumas poucas considerações. Minha pesquisa tinha sido "fraca", mas eu sempre arranjava um jeito de escrever muito e tecer muitas considerações sobre o tema, a "arte de enrolar", como diria alguns. Citava frases do livro e "viajava na maionese" tecendo mil comentários e quase desenvolvendo uma mini-tese sobre os assuntos. E foi assim que sempre me saí bem em trabalhos escritos e redações.

 

No próximo semestre, veio com um tema para pesquisa ainda mais ousado e complicado pois o próprio título parecia muito estranho: "Epistemologia Aplicada à Administração". Que diacho era "epistemologia"?? Nunca tinha ouvido falar nisso. Que palavra esquisita e difícil de se pronunciar!!! O professor indicou um livro (fora de catálogo e bastante difícil de ser encontrado) que explicava o assunto numa linguagem bastante elaborada, tive que ler o livro inúmeras vezes até que alguma coisa começasse a fazer sentido. Mas fiquei logo empolgada pois se tratava de filosofia! A epistemologia estudava uma determinada matéria para ver se poderia ser considerada uma ciência ou não. A proposta do professor era de que, baseando-se nos conceitos apresentados neste tal livro, filosofássemos sobre a Administração, se podia ser considerada uma ciência, explicando o porquê, dando exemplos práticos, etc. Não parecia algo muito interessante e os colegas se viram tontos, primeiramente com a dificuldade de entender o tal livro, depois porquê eram mais especialistas em cálculos e gráficos estatísticos, não sabiam simplesmente escrever um trabalho de páginas e páginas só de elucubrações filosóficas. Pensei cá comigo que seria o meu Trabalho nesse curso, uma espécie de "canto de cisne", finalmente aproximava-me um pouco da filosofia e podia desenvolver uma "mini tese", conforme o professor comentava. Que prazer para mim e que tortura para todos os outros! Depois de ler o livro inúmeras vezes e fazer anotações do que me seria útil, passei a desenvolver o assunto com base no livro de Introdução à Administração que usávamos desde o início do curso. Fiz um extenso rascunho e depois de passado a limpo, 35 páginas de elucubrações e fiquei bastante satisfeita com o resultado (e esperando que o professor também ficasse!). Como sempre, muito antes do prazo para entrega, o trabalho já estava datilografado e encapado. Orlando era um dos mais desesperados - não tinha tempo e nem talento para essas coisas de ficar lendo livros filosóficos e ficar escrevendo páginas e páginas a respeito de um assunto vago. Como esta matéria "puxava" as outras do núcleo central de todo o curso, uma reprovação seria atrasar pois, para cursar novamente à noite, era preciso esperar um semestre inteiro. Orlando simplesmente não conseguia escrever uma linha! Recorreu a mim, pedindo ajuda: queria, basicamente, copiar o meu trabalho "mudando algumas frases aqui e ali". Tinha me dedicado muito e, desta vez, não estava disposta a me "deixar explorar", já estava cansada disso tudo. Além do mais, como copiar um trabalho tão subjetivo assim, mesmo mudando algumas frases? O professor poderia acabar descobrindo e eu também seria prejudicada. Resolvi que era a vez de seguir os conselhos de Débora e aprender a dizer "não". Como Orlando insistisse muito (estava realmente desesperado, ainda mais que já estávamos às vésperas do prazo estipulado pelo professor para a entrega e, mesmo se ele pudesse e quisesse, não haveria tempo de ler o livro e desenvolver o tema). Disse a ele que não emprestaria meu trabalho para ele copiar, mas, sempre coração mole, disse a ele que lhe cederia os meus rasculhos. Havia uma boa síntese do livro, destacando os conceitos principais e também as minhas idéias ainda em fase embrionária. Mas ele não se convencia, insistia que queria tirar uma cópia do meu trabalho para se basear. Não parava de me ligar um só instante, pedia e pedia, quase chorava. Eu também insistia que os rascunhos seriam mais do que suficientes para ele desenvolver um bom trabalho, mas ele não se conformava. Sempre estimei muito Orlando e o considerava um grande amigo. Minha mãe não se conformava, pois achava que ele "era o namorado ideal para mim" e vivia reclamando que eu "não dava nenhuma chance a ele". Mas Orlando teve algumas namoradas ao longo do curso e, realmente, nunca me senti atraída por ele. Era um rapaz atraente e até charmoso, destes que a gente tem vontade de dar colo, mas não me despertava aquelas "paixões", aqueles suspiros, aquele arrepio, pernas bambas e eu queria paixões fortes. Hoje em dia penso que foi por isso que não cedi aos apelos e lhe emprestei o trabalho pronto, pois se estivesse apaixonada não resistiria e não lhe negaria nada, como já havia acontecido antes e como aconteceria ainda muitas vezes no futuro. Fiquei inflexível. Orlando ligava e eu dizia a minha mãe para "dizer que eu não estava". Chegou a aparecer lá em casa, mas eu tinha saído (não me lembro se havia saído de propósito pois sabia que ele iria aparecer ou se foi só coincidência). Por fim, ele desistiu. Chegou o dia da entrega e ele não entregou trabalho algum. Levou um zero na nota, foi reprovado e não se formou na mesma turma que eu. Tirei nota boa, mas podia ter sido melhor e esperava mais peço meu esforço (pensava que iria tirar nota dez): nota 8. Creio que um aluno tirou nota mais alta, mas no final, o resultado me garantiu a aprovação e era isso o que mais importava no final das contas. Depois disso, comecei a me sentir culpada da reprovação dele e também triste porque depois disso nossa amizade nunca mais foi a mesma. Orlando não reclamou, não brigou comigo e nem me criticou, não disse mais uma palavra sobre o assunto. Mas eu podia ver a mágoa em seu olhar. Aos poucos, foi se afastando.... ficamos cada vez mais distantes (ainda mais que já não cursávamos muitas matérias em comum) e, após a formatura, algumas trocas de telefonemas e simplesmente perdemos contato um com o outro. Até hoje me sinto dividida. Ao mesmo tempo penso que estava certa pois o trabalho era meu e tinha me custado muitas horas de estudo e esforço e que Orlando podia ao menos ter se esforçado por escrever algo - e aceitado o meu rascunho para servir de base - sinto que podia ter me compadecido mais deste meu amigo que, afinal de contas, sofreu só porque eu não "tinha nenhuma queda" por ele. E também me sinto triste que uma coisa dessas possa abalar assim uma amizade (pois provavelmente ele me considerou injusta e cruel). É sempre triste perder bons amigos, costumo dizer que as amizades são mais preciosas do que os amores pois esses vão e vêm, enquanto os verdadeiros amigos são (ou deveriam ser) para sempre. Esse episódio me fez chegar à conclusão de que, quando um fóbico social finalmente diz "não", perde um amigo ou, de qualquer jeito, as pessoas ficam profundamente chocadas ou magoadas. Todo mundo pode dizer "não", menos a gente. Já li em alguns sites a respeito do distúrbio que isto acontece porque os fóbicos sociais nunca dizem "não" e aí, quando aprendem a dizer, as pessoas não estão acostumadas e pensam que estamos sendo muito agressivos. O que é um comportamento natural da maioria das pessoas (às vezes dizer "sim", às vezes "não) e que geralmente não causa muitas mágoas, no nosso caso, vira algo fora das proporções pois não é esperado que tenhamos esse comportamento. De qualquer jeito, sofremos se não sabemos dizer "não" e sofremos também se aprendemos a dizer pois alguém vai ficar muito magoado. Parece que não tem jeito, de um jeito ou de outro, somos destinados a sofrer e a fazer outros sofrerem. E não é só nesse caso que "chocamos" as pessoas. Sempre notei, desde pequena, que as pessoas nos rotulam de um jeito e esperam de nós um certo comportamento como sendo "padrão" de nossa personalidade. Se fugimos um pouco que seja deste "padrão" estabelecido, as pessoas se chocam terrivelmente. Sempre fui muito católica e frequentadora de Igreja. Sempre tive a minha "coleção de santos" e isso fazia as pessoas acharem que eu era uma santa (ao contrário do que aquela primeira neurologista dizia - que o meu problema era querer ser santa - creio que o problema era justamente o contrário: as pessoas me viam como santa). Um simples mau humor ou palavra ríspida de minha parte, sempre provocou olhares arregalados e a frase: "Mas você, tão religiosa, fazendo isso?". Todos podiam ter suas explosões ou fazer coisas erradas a torto e a direito, ninguém sequer ficava surpreso. Mas se eu falasse um palavrão dos mais banais e corriqueiros, parecia que o mundo estava vindo abaixo. Sempre me ressenti dessa verdadeira "pressão" sobre mim e das pessoas se chocarem tanto quando eu estava só me comportando "como todo mundo".

 

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