Novo curso de Inglês

 

Terminado o curso intensivo, percebi que ainda havia muito o que aprender e, como adorava estudar Inglês, resolvi me matricular no nível adiantado de um curso mais tradicional e mais voltado para gramática, já que o outro era mais voltado para a conversação, embora tivéssemos abordado todos os aspectos principais de forma resumida. Passei sem problemas na "prova de nivelamento". No início, estranhei um pouco pois estava já acostumada com aquele ritmo frenético do outro curso, onde a gente tinha que participar e falar várias vezes em cada aula. Neste, a professora falava o tempo todo e poucas vezes os alunos participavam, o espaço para conversação era mais limitado (havendo um curso só voltado para este aspecto que poderia ser feito em separado). De certa forma isso me aliviou pois me sentia menos tensa sabendo que podia ficar lá só prestando atenção à aula e sem os sobressaltos de nunca saber quando seria chamada para conjugar certa frase no tempo certo, etc. A professora era bastante amável, completo oposto da rigidez do professor anterior (mas mesmo assim gostava muito dele), uma daquelas professoras doces e gentis. O nível adiantado era basicamente um preparo para os exames de nível básico e de proficiência da universidade de Cambridge, bastante rigorosos e que davam aos que conseguiam obter um certificado um bom status de conhecedor da Língua Inglesa. Diziam até que mesmo nativos nem sempre passavam no exame de proficiência! Fazíamos muitas provas simuladas, mas no geral o curso era praticamente o extremo oposto do outro e me pareceu um pouco lento demais. Depois de certo tempo comecei a achar monótono e desinteressante. A turma era boa e fiz amizade com alguns colegas, inclusive uma menina que estudava piano também (mas já num nível adiantado). De vez em quando o grupo do curso se reunia na casa dela e eu gostava muito, pricipalmente porque podia tocar um pouquinho num piano "com som de verdade" (era um piano antigo também, mas ainda pegava afinação) e acho até que era isso o que mais me atraía para participar de tais encontros, vencendo um pouco a fobia. Também gostava de ouvi-la tocar, muitas das músicas constravam do livro que estava estudando e pensei cá comigo "um dia chego lá!". Um rapaz tocava violão e todos acompanhavam, lembrando-me o tempo do segundo grau quando havia a roda de colegas cantando, acompanhadas de Fernando ou outro aluno no violão ou na flauta. A professora gostava muito de mim e percebeu logo que eu era dedicada aos estudos, incentivando-me sempre que podia. De vez em quando eu me sentia um pouco "deslocada" pois era uma das poucas alunas (talvez a única, não me lembro bem) que não havia feito aquele curso desde o início, começando assim já no adiantado. A maioria do grupo já se conhecia há muitos anos, mas creio que me enturmei bem e não sentia inveja da parte dos colegas ou hostilidades. Passei no exame básico do Cambridge sem problemas, mas quando começou o treinamento para o de proficiência, senti que havia algumas dificuldades. Na parte parte escrita me saía sempre muito bem, mas havia também a compreensão e a prova oral. A compreensão oral era, na minha opinião, uma coisa injusta e bárbara. Colocavam uma fita cassette com entrevistas em programas de rádio da Inglaterra e devíamos responder a perguntas por escrito. Algumas das perguntas eram bem específicas e eu notava que havia uma "sabotagem" pois justamente na hora que a pessoa ia dizer o que nos interessava saber, tossia ou afastava-se do microfone. Assim, como entender e saber o que foi dito, que era justamente a pergunta da prova? Creio que nem em Português a gente entenderia numa situação dessas. Outras vezes era a gravação de um locutor narrando uma corrida de cavalo, naquela velocidade bem peculiar ou então um jogo de futebol. No final, perguntas como por exemplo qual time havia vencido, com quantos gols, etc. Confesso que ia chutando respostas pois não entendia praticamente nada do que falavam na fita, rapidíssimo e com o sotaque britânico ao qual eu não estava acostumada. A prova oral também era "problemática": cada aluno sorteava um tema e separavam em grupos de 5 mais ou menos. Os grupos eram chamados em separado e cada aluno devia falar um pouco sobre o tema e sustentar um debate sobre o mesmo, defendendo ou rebatendo argumentos, etc. Fóbicos sociais e debates parecem coisas totalmente incompatíveis. Pouco participava e achava injusto o fato da gente ser mais avaliado pela participação no debate do que pela fluência na língua (que contava pontos também, é claro, mas a participação no debate valia mais pontos). Num dos exames (que nesse curso eram com outros professores - enquanto que no outro fizera todas as provas escritas e orais com o nosso professor de sempre), havia uma colega que falava um bocado e dominava os debates, praticamente não deixando mais ninguém falar. Quase não disse uma palavra, me limitando a umas poucas frases aqui e ali pois sabia que era preciso falar alguma coisa senão seria reprovada. No dia seguinte, depois de dispensar a turma, minha professora pediu que eu ficasse pois queria conversar comigo. Disse que estava espantada com o meu fraco desempenho na prova oral (e comecei a tremer pensando que havia tirado nota baixíssima). A nota era 7, mais do que suficiente para passar, mas parecia algo chocante considerando-se que nas outras provas eu quase sempre tirava nota máxima ou, no mínimo, um 9. Perguntou, com ar muito preocupado, o que estava acontecendo comigo, se havia algum problema. Pensei cá comigo que ela estava fazendo muita tragédia com relação a tudo aquilo pois, afinal de contas, nem era uma nota ruim nem nada. Expliquei, muito sem graça, que a "timidez" atrapalhava pois, na hora do debate, sempre tinha alguém que liderava e nesse caso especial, uma certa aluna (disse-lhe o nome, mas não me recordo quem era) havia monopolizado o debate. Ela disse "ah, então ela te fez sombra!". A colega "tagarela" acabou sendo considerada a culpada do meu "fracasso" (pois hoje em dia seria muito fácil: era só dizer que sofria de Fobia Social e explicar as consequências disso nesse tipo de exame). A professora, muito amavalmente e de maneira até maternal, deu-me conselhos e me incentivou a fazer um esforço para participar mais. Durante as aulas, sempre encontrava uma oportunidade para me perguntar algo e me "fazer falar". Realmente admiro a boa vontade dela, uma professora daquelas que não se encontra todos os dias, daquelas que abraçam a profissão por amor e não só pelo salário (de qualquer forma, no caso de professores, sempre baixíssimo). Havia uma aluna no curso que também tirava notas muito altas, mas que faltava muito. Estava fazendo faculdade de Letras (Inglês e Respectivas Literaturas) na mesma faculdade onde eu cursava Adm. A essas alturas já estava bastante interessada no curso e, sempre que havia oportunidade, fazia-lhe algumas perguntas e ela me dizia que era ótimo! Já tinha o "fluxograma" (relação de matérias) comigo há um bom tempo, desde que aquela colega na Ginástica Localizada me disse que era possível obtê-los na secretaria geral e o estudava com carinho, admirada de ver não havia aquele massacre de 7 matérias por semestre e que estas pareciam ser muito interessantes, como por exemplo: Cultura Inglesa e Americana, fonética, Português, Língua Inglesa, Linguística e tantas outras no gênero. Passei a acalentar um sonho: após terminar o curso de Adm, "zerar o contador e começar tudo de novo", esquecendo os planos de ser alta funcionária de uma empresa e partindo para algo mais prazeiroso (assim eu pensava): ser professora de Inglês. Depois de me informar na secretaria, descobri que os cursos eram tão diferentes que não havia matérias em comum de número suficiente para se pedir "aproveitamento de estudos". Não havia outra saída a não ser cursar o vestibular novamente, mas isso não me assustava pois se já havia passado uma vez e para o curso de Adm (que era muito mais disputado e, consequentemente, os candidatos precisavam de muito mais pontos. Além disso, as provas de matemática tinham peso maior do que na de Letras, onde, logicamente, o que pesava mais era os pontos obtidos nas provas de Português, redação e Inglês.

 

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