Fama...
Conforme havia decidido e sonhado desde pequena, juntei o dinheirinho que ganhei naqueles 6 meses de estágio para comprar o meu piano. Obviamente tinha que ser usado e dos mais baratos e já vinha pesquisando nos classificados dos principais jornais há algum tempo para ter uma noção dos preços e se haveria alguma possibilidade de conseguir alguma coisa naquela faixa de preço (com tantas mudanças de moedas, não poderia agora calcular quanto poderia ser). Vi um anúncio de "piano para estudo" por um preço razoável. Engraçada essa classificação "para estudo", quer dizer que o piano é velho e não está em boas condições... será que estudante é surdo? Creio que seja até o contrário: quando a gente está se iniciando no instrumento, deveria ter o melhor e o mais afinado para acostumar o ouvido e treiná-lo para distinguir tons, notas num solfejo, etc. Enfim, resolvi ligar para a pessoa que estava anunciando o instrumento e esta, muito simpática, disse-me que o instrumento era de uma sobrinha que agora resolvera tocar teclados e por isso não se interessava mais pelo piano. Disse que era pequeno e muito bonitinho, "num tom marrom". Perguntei se tinha "cepo de metal" e cordas cruzadas, pois havia lido nos classificados que os pianos mais caros sempre tinham essas duas características, embora não fizesse a mímima idéia do que se travava. Ela disse que não, pois era um piano antigo, mas que estava em bom estado. Disse que já muitas pessoas haviam ido ver mas até agora não tinha fechado negócio e marquei de aparecer no dia seguinte para dar uma olhada. A comadre de mamãe e grande amiga nossa, que havia estudando um pouco e que sempre me deixava "batucar" em seu piano desde pequenina, prontificou-se a ir comigo para dar uma força pois eu não queria ir no lugar sozinha (pois era na zona sul) e sem entender nada de pianos. Depois de alguma dificuldade tentando encontrar o apartamento, naqueles edifícios abarrotados e nem sempre de "boa fama" bem no centro de Copacabana, uma senhora amável nos atendeu e o piano estava logo numa espécie de hall de entrada. Notei, com alguma estranheza, que havia um outro instrumento no formato de um órgão de pedaleira coberto com um pano. Ela falou novamente na sobrinha e, pretextando nos trazer um café, deixou-nos examinar o instrumento à vontade. Sentimos logo um forte cheiro de inceticida, mas abri a parte de cima e parecia em bom estado, sem buracos de cupins (não sabia como abrir a parte de baixo). Quando experimentei algumas teclas, levei um choque, pois estava completamente desafinado, nem se distinguia notas musicais, um som horrível. Mas experimentei todas as teclas e todas funcionavam (pois já havia "batucado" em pianos em casa de amigas e sempre tinha teclas que não tocavam, com cordas arrebentadas. Concordamos que estava terrivelmente desafinado, mas nossa amiga conhecia um bom afinador e, afinal, era só afinar! Achei o piano "simpático", apesar de realmente parecer muito velho (tinha até marcas indicando que em algum momento houve candelabros na parte da frente e, além disso, não havia lugar para colocar a partitura. Mas era realmente um piano bonitinho. Decidimos que eu iria pensar e nos despedimos. Ao chegar em casa, não parava de pensar no pianinho e, afobada e compulsiva do jeito que sou, resolvi voltar lá na mesma hora e fechar o negócio. A senhora escreveu um "recibo" dizendo que eu estava recebendo o piano de marca H Borg "no estado em que se encontrava", etc, etc, e me fez assinar. Disse-me então que o cunhado trabalhava com transportes de piano (que estranha coincidência... pensei eu) e perguntou se eu queria que ele se encarregasse da entrega (transporte pago em separado, é claro). Concordei, pois assim era mais prático, e ficaram de entregar em dois dias. Nesse ínterim, liguei para o afinador que minha amiga me recomendou para já deixá-lo a par de tudo e "de prontidão" para afinar o piano assim que chegasse. Durante nossa conversa ao telefone, fiquei com mais "pulgas atrás da orelha" ainda, pois ele me perguntou onde eu tinha comprado o piano e respondi que não tinha sido em loja, mas sim de particular. Ele insistiu e perguntou se era em Copacabana. Quando disse que sim, não comentou nada, mas é claro que "havia algo de podre no Reino da Dinamarca". Como é que o afinador sabia que o piano era de lá se não era loja e sim uma senhora vendendo o piano da sobrinha? Talvez por causa do serviço de transportes do cunhado... De qualquer jeito, achei a história muito estranha e senti cheiro de vigarice no ar. Mas comecei a desconfiar mais do afinador do que dos vendedores. Pensei cá comigo: "esses afinadores sempre trabalham para lojas e, na certa, vai inventar mil defeitos no piano e querer me vender outro mais caro e receber uma comissão". Com essa desconfiança na cabeça, resolvi ligar para ele novamente e inventei uma mentira dizendo que não mais precisava dos serviços dele porque o pessoal que estava me vendendo o piano havia indicado um afinador, que até viria junto para afinar logo que chegasse. Ele estranhou muito isso e parecia um bocado espantado, mas não disse nada. Meia hora depois, a senhora que me vendera o piano me ligou dizendo que o cunhado tinha um afinador que podia vir junto para afinar o piano - justamente aquele mesmo afinador. Comentei com ela que não estava gostando nada dessa história, que me parecia toda muito mal contada e, para encerrar a história, disse que um amigo pianista havia ficado de vir afinar e que por conta disso não precisava mais de nenhum afinador. Ela não insistiu mais pois notou que eu já estava desconfiada de uma trapaça.
Finalmente chegou o piano, pagamos uma boa quantia pelo transporte e ainda demos gorjeta aos carregadores. Estava muito entusiasmada com o meu pianinho e meus pais também o acharam muito bonitinho e simpático, embora todos concordassem que o som era horrível (parecia o som de alguém batendo com uma barra de metal num pinico de ágata daqueles antigos do tempo de nossos avós). Na falta da estantezinha para apoiar a partitura, improvisei com arames um suporte, que encaixei na tampa do piano por cima de uma toalha para não arranhar o piano. Também não tinha banco e os "avulsos" eram um bocado caros, as cadeiras de casa muito baixas, tinha que empilhar dois travesseiros por cima de uma delas para conseguir tocar com algum conforto. Mas era meu piano! Finalmente meu piano! Tão sonhado, tão desejado por tantos e tantos anos! Nossa amiga também ficou indignada com a maneira como o afinador me tratou e lembrou de um outro muito velhinho que costumava afinar seu antigo piano, podia ser que ainda estivesse "na ativa". Liguei para ele e realmente ainda afinava pianos e estava treinando os filhos para continuar no ramo depois que ele ficasse velho demais. No dia seguinte, veio o afinador, um senhor bem velhinho mas muito educado e gentil. Andava muito devagarzinho, com ajuda do filho, arrastando os pés, mas ainda era um mestre e me deu a impressão de ser muito honesto. Já havia me dito ao telefone que aquela marca de piano era muito antiga, provavelmente uns 100 anos de idade, mas disse que faria o melhor que pudesse, embora não garantisse bons resultados. Foram logo abrindo a parte de cima e também a de baixo, que eu nunca tinha visto. Levei um susto tremendo! O suporte de madeira onde ficavam as cravelhas parecia uma peneira de tantos furos de cupim, e faltava muitas cravelhas... e as que permaneciam lá estavam totalmente tortas. Até então eu não sabia que para cada tecla havia 3 cordas (tirando as oitavas mais graves, onde só havia uma bem grossa, chamada bordão). No meu pianinho faltavam muitas cordas, embora cada tecla tivesse ao menos uma. A primeira providência foi "dar um banho" de querosene na parte de dentro do piano, gastando uma lata inteira, para eliminar os cupins que, a julgar pelo pózinho sempre espalhado pelo chão, ainda estavam por lá. Depois pegou as alavancas para afinação das cravelhas (na parte de cima) e foi bastante honesto comigo: disse que o piano era muito velho e que não pegava mais afinação, não podia fazer grande coisa por ele. Fiquei sem saber o que pensar e o que fazer. Nunca soube que pianos "não pegavam afinação", sempre pensei que todo piano pudesse ser afinado e que piano era coisa que passava de geração em geração, coisa para durar a vida inteira e mais um pouco. Ele se desculpou por não poder ajudar muito nesse aspecto e deu a afinação por encerrada. Quando ele foi embora, experimentei o piano e vi que em nenhuma das oitavas as notas soavam conforme deveriam. As duas oitavas na parte direita, de som mais agudo, davam uma "vaga idéia" do que seriam as 7 notas musicais (e fui conferindo, solfejando o "Dó-ré-mi" da Noviça Rebelde. Creio que consegui distinguir um dó e um ré, mas o sol soava mais como um si, o lá soava como um ré e o si não soava como nota alguma conhecida, talvez um misto de várias notas da escala. Resumindo, uma desafinação só. Mas não havia o que fazer e nem como reclamar, pois havia assinado o papel dizendo que comprara o piano no estado em que se encontrava. Foi então que compreendi que havia uma verdadeira "máfia dos pianos" (e que existe até hoje!!!). Esse "grupo de Copacabana" (e deve haver outros) compra e vende pianos em seu próprio apartamento, fingindo ser "particular". Assim ficam livres de pagar os impostos e também de custos com aluguel de loja, licença, etc. As lojas "oficiais", afinadores, transportadores e todo o pessoal do ramo sabe disso e todos se aproveitam da inexperiência da maioria das pessoas que vão comprar um piano pela primeira vez. Exceptuando os que já são pianistas ou gente que realmente se interessa por se aprofundar no assunto, ninguém faz idéia de que pianos antigos não "pegam mais afinação", todos pensam que é um instrumento que dura para sempre e que, fora reparos nas teclas, no verniz do móvel e troca de cordas, vai ter um piano para sempre. As cravelhas, os pequenos pinos que seguram as cordas e as "torcem" até ficar no tom certo são presos a uma placa de madeira, que nos modelos mais modernos é forrada com uma cobertura de metal (o tal cepo de metal). O interior de um piano é muito semelhante a uma harpa, nos modelos antigos todas as cordas se inclinando para o mesmo lado e nos modelos mais modernos, bordões se inclinando para um lado e cordas para o outro (as tais cordas cruzadas). Com o tempo, mesmo que você torça as cravelhas, elas estão muito frouxas no cepo e acabam girando de volta, sendo impossível afinar. Por um tempo ainda se dá um jeito, martelando as cravelhas e as enterrando mais fundo no cepo, mas chega uma hora que não há mais o que fazer, é tocar sempre num piano todo desafinado ou jogá-lo fora (pois ninguém irá querer comprar um piano desafinado...ou melhor, os leigos vão comprar pensando que pode ser afinado, mas se não somos da "máfia", não seríamos tão desonestos assim com um comprador inocente).
Desnecessário dizer que fóbicos sociais são sempre "compradores inocentes" que, além disso, nunca vão reclamar por terem caído num verdadeiro conto do vigário.
Apesar de tudo, estava muito feliz de ter o meu pianinho e o amava mesmo sendo tão ruim. Como o pozinho do cupim continuava aparecendo no chão, todos os meses tinha que lhe dar um banho de querosene (e aturar o cheiro no quarto por vários dias). Era um trabalhão ficar encaixando e desencaixando e primitiva armação de arame para segurar a partitura, isso sem falar na pilha de travesseiros. Mas nunca fui de desistir das minhas paixões...
O próximo passo era me matricular num curso. Desde que me entendo por gente, ao visitar minhas tias e madrinha, passávamos por uma porta que dava para uma escadaria até o sobrado de um prédio de dois andares com um cartaz na porta anunciando aulas de instrumentos e teoria musical. Era um lugar bastante accessível e conveniente e não estava disposta a enfrentar um Conservatório ou a Escola de Música Estadual pois, na minha idade, por mais que se tenha talento os dedos não iriam nunca ter a flexibilidade de alguém que começara a estudar desde a infância e ainda em fase de crescimento e consolidação de ossos. E nem sabia se tinha talento! Aliás, isso me dava um pouco de medo. E se não tivesse jeito nenhum para instrumentos? Era o sonho de uma vida que se acabava! Mas, se não tentasse, nunca descobriria, e lá fui eu me inscrever no curso. A dona e diretora do curso era uma senhora bem idosa mas simpatissíssima e de uma paciência angelical, ainda muito ativa e ensinando piano, flauta transversa e doce, violino e acordeão, além de teoria musical. Estava sempre com um sorriso nos lábios e nos transmitia muita calma e confiança. Uma filha se encarregava de ensinar piano, flauta e teoria musical para as crianças e a outra, uma senhora de cabelos branquíssimos, lecionava para os adolescentes e adultos. Alguns outros professores se encarregavam das aulas de violão e também de ajudar mãe e filhas na parte administrativa (matrículas, pagamentos de mensalidade, certificados, etc). Primeiramente a dona do curso e a filha de cabelos branquinhos não conversavam entre si para decidir qual das duas se encarregaria de me dar aulas, finalmente foi decidido que seria a filha. A primeira aula foi só teoria: noções sobre pauta, nome e posição das notas musicais, notação e ritmo. Na segunda aula, finalmente a "ginástica dos dedos", primeiro mãos separadas, depois juntando muito devagarinho. A professora era muito paciente e me sentia a vontade no curso, ainda mais que havia alunos de todas as idades, incluindo muita gente idosa que só queria aprender um instrumento para realizar um velho sonho ou apenas se distrair. O curso era registrado no Ministério da Educação e Cultura mas oferecia tanto o curso regular (com provas mensais, exames semestrais, certificados, etc) quanto curso livre (sem compromisso com provas e diplomas). Não havia muitos "alunos-prodígio" pois estes preferiam a Escola de Música e os conservatórios. Estudava com afinco, praticando no mínimo duas horas por dia e devia ser muito engraçado de se ver pois eu tinha que ficar sentada na ponta direita do piano, onde havia as únicas duas oitavas que "soavam mais ou menos como notas". Isso de vez em quando me atrapalhava pois no curso tinha que me guiar pelo "dó central", enquanto que em casa a posição mudava completamente. Mas mesmo assim fui progredindo rapidamente e logo logo estava tocando valsinhas de estilo simples e bastante infantil, mas que me faziam sentir importante. Aprendi até uma música do Roberto Carlos, a valsa "Despedida" e minha mãe, fã do Rei há tantos anos, pedia para eu tocar a valsa o tempo todo. Com o tempo vieram os exercícios mais elaborados e, finalmente, minuetos de Bach para meu total deleite. Não sabia ainda se tinha talento, mas tinha certeza de que era uma aluna aplicada e que aprendia rápido, pois via outras pessoas no curso "empacadas" na mesma música ou exercício por meses a fio e eu praticamente aprendia uma musiquinha nova por semana. Uma vez até chamei os colegas do Grupo e mais algumas amigas, incluindo Julia e sua irmã, para uma reuniãozinha com direito a audição. A irmã de Julia havia estudado piano por um tempo, mas desistira há muitos anos e não me lembro de tê-la nunca ouvido tocar. Ambas ficaram logo chocadas com a desafinação do piano (o que me deixou bastante embaraçada) dizendo que era preciso comprar um melhor pois aquele não servia (sempre a Julia "acusadora", apontando o dedo para as falhas...). Como as valsinhas que sabia até então eram muito simples, não havia tanto o "medo de errar" e ia tocando sem grandes inibições, até que Claudio, que também havia estudado um pouco de piano quando criança, comentou bem alto enquanto eu tocava: "Lembro dessas valsinhas café-com-pão-café-com-pão!!!". Referia-se à simplicidade do acompanhamento com a mão esquerda. Xinguei Claudio por dentro e logo arranjei uma desculpa para fechar o piano e não tocar mais. Sentia-me humilhada: primeiro o problema do piano ser tão ruim e a vergonha de só poder comprar aquele "lixo". Segundo, Claudio me fez perceber o quanto era ridículo uma pessoa da minha idade tocando valsinhas tão bobas e primitivas. Fiquei bastante frustrada com o resultado dessa minha "primeira audição" para os amigos, sempre as críticas de todos os lados. Quer dizer, muitos elogiaram e acharam legal, mas os fóbicos sociais esquecem os elogios com muita facilidade para se concentrarem com todas as forças nas críticas negativas.
Mas, com crítica ou sem crítica, continuei estudando com afinco, ainda mais que no curso acontecia justamente o contrário. A professora me elogiava e os alunos de idade até chegavam mais cedo no curso só para me ouvir tocar (e faziam questão de vir me dizer isso e se desmancharem em elogios). No mesmo andar do sobrado, um salão era dividido em sala de espera, sala de aula para teoria musical e cabines individuais para o estudo dos instrumentos. Do outro lado, um salão com um palco de tamanho bem razoável, onde havia audições quase todos os meses. Fui assistir uma vez e gostei muito, mas os "puristas" com certeza iriam torcer o nariz. Boa parte do programa era dedicado grupos formados pelos professores tocando tangos, chorinhos e serestas. No mais, algumas alunas se apresentavam e notei que cometiam muitos erros sem se importar com isso (e eram ainda mais aplaudidas por conta disso - para incentivo). Enfim, um ambiente bem familiar, descontraído, sem aquele formalismo e rigorismo clássico. A platéia muitas vezes cantava e batia palmas acompanhando os sucessos do passado. Foi uma época feliz, da qual tenho saudades. Era bom só assistir, sabendo que não teria que ir ao palco me apresentar para aquela gente toda! No mais, fantasiava o futuro e sempre subia as escadarias com a música "Fame" na cabeça: "Fama!! Vou viver para sempre! Vou aprender a voar! Todos lembrarão do meu nome!!", lembrando do filme musical. Um dia - pensava - seria uma pianista!
Além de tudo, o curso me parecia um verdadeiro oásis, um momento de paz e beleza no meio daquele caos e aridez da faculdade. Era um alívio estar lá, praticando ou ouvindo outros alunos praticarem e se desligar um pouco de matérias tão chatas e estressantes.