Disputando uma vaga
Nesta época, havia me inscrito também num programa de estágio da própria faculdade, bastante eficiente. A maioria dos colegas já havia arrumado estágio e muitos já estavam até sendo efetivados em empresas de médio porte. Um colega me falou que estava tentando um estágio numa empresa particular, mas subsidiária de uma estatal e resolvi enviar também uma ficha e me candidatar. Fui chamada para uma entrevista logo naquela semana que estava deixando o estágio no banco. Nesta época, pouco sabia sobre processo de seleção das empresas, entrevistas, testes, etc. Muitos contava histórias de horror, entrevistadores fazendo todo tipo de pergunta, algumas até chocantes, como por exemplo "você é virgem" só para testar a reação da pessoa e como esta se comportaria no ambiente de trabalho (onde os colegas podem fazer tais perguntas...). Não quero me deter aqui nos detalhes e nas técnicas usadas em seleção de candidatos, que são inúmeras, e nem nas técnicas de entrevistas. Um amigo meu comentou que havia feito uma entrevista numa multinacional e tinham feito "perguntas muito embaraçosas" e que o haviam deixado desconcertado. Resolvi que, a melhor coisa era ser totalmente sincera e genuína nessas entrevistas, pois os entrevistadores eram treinados e muito experientes, e sabiam detectar quando uma pessoa estava sendo artificial, falsa, mentindo, etc. Também não sabia que a gente tinha que ir muito bem vestida. Não fui "desmaselada", mas com roupa simples e moderna, nada sóbrio e tipo "tailleur" e salto alto. Sandália baixa, conjuntinho listrado de algodão, brincos e pulseiras de plástico colorido.
O metrô demorou e tive que correr muito para não chegar atrasada - o que provavelmente já iria me eliminar de cara. Fui recebida numa sala com algumas divisórias e mesas, alguns funcionários trabalhando e ao mesmo tempo me avaliando (pois, fizeram vários comentários ao longo da entrevista). Um senhor se apresentou como professor de contabilidade da faculdade onde eu cursava Adm (embora nunca o tivesse visto por lá, com certeza do turno da manhã) e disse que "iria fazer uma sabatina" sobre o assunto. E agora? Tinha cursado contabilidade há mais de um ano atrás e não me lembrava nada da matéria pois só fazia os exercícios para passar na prova e foi uma das poucas matérias nas quais passei quase de raspão. Começou a fazer perguntas sobre ativo, passivo, balanço, isso e aquilo e eu "boiava", não conseguia responder nada certo. Mas fui sincera e disse que não me recordava. Ele ficou me dando uma aula, fiz perguntas, procurei interagir com ele da melhor maneira possível. Mas começava a ficar muito nervosa com aquela "sabatina" pela qual não esperava. Volta e meia vinha alguém com uma bandeja me oferecer cafezinho e sempre aceitava - mesmo não tendo o costume de tomar café - creio que ao final da entrevista tenha tomado umas 5 xícaras por vergonha de recusar e também pela tensão - que me fazia ter o impulso de pegar a xícara e beber o café, só para não ficar com as "mãos abanando". O professor encerrou a entrevista, dizendo que, ao menos, eu tinha sido sincera dizendo que não sabia nada, enquanto o um outro candidato entrevistado naquele mesmo dia tinha "feito banca" e, mesmo sem saber nada, fingira saber tudo e se dera ares de importância. Sorri timidamente agradecendo o elogio meio duvidoso. Foi a vez de um gerente me entrevistar. Comentou logo que minha mão estava trêmula segurando a xícara de café e dizendo para eu não ficar nervosa, que era só uma conversa amigável. Falou sobre a empresa, fez perguntas sobre minha experiências anteriores (ou a falta delas, melhor dizendo) e cursos que fazia. Perguntou qual eram meus planos para o futuro. Respondi que era arrumar um emprego. Ele disse que queria saber em termos acadêmicos. Fiquei sem saber o que responder e, notando minha hesitação, ele de certa forma "deu a resposta": "pós-graduação, talvez?". Respondi, sem nenhuma convição: "É... pós-graduação" (pensando cá comigo que já estava sendo um sacrifício danado levar aquele curso até o fim, imagine se ia me animar a ir muito mais além). Comentei sobre o Inglês e sobre a datilografia. Ele disse que não fazia parte da entrevista e que não iria ser considerado contra ou a favor na avaliação, mas pediu para eu escrever uma carta de apresentação numa máquina elétrica que um dos funcionários me cedeu. Disse que não havia pressa. Tinha estudado em máquina diferente e já há mais de dois anos, no início, comecei a tremer e, sem saber direito como lidar com a máquina esta dissparava, fazia tudo ao contrário do que eu queria, um desastre! Ao invés de dominar a máquina, esta me dominava, ou melhor, me dava uma verdadeira surra. Só para começar o primeiro parágrafo já foi uma luta. Depois de certo tempo, consegui ter domina-la razoavalmente e escrevi a carta (nos moldes das que havia estudado no colégio, no treinamento para auxiliar de escritório e das de alguns manuais de estilos de cartas desse gênero). Mas não atinava como usar a corretora e cometia muitos erros de datilografia - e não sabia como corrigí-los. Refletindo sobre o caso, creio que devia ter mantido a calma, pedido orientação a um dos funcionários, mas fui só escrevendo estabanadamente um texto cheio de erros datilográficos, a toda pressa, e entreguei assim mesmo. O chefe olhou e disse que os erros não tinham muita importância e até brincou comigo perguntando qual era o erro verdadeiramente sério. Como não conseguisse atinar no que era, ele disse sorrindo "você não assinou a carta!". Disse que eu era simpática perguntou a opinião dos outros funcionários da sala. Fiquei muito nervosa de estar assim "na berlinda". Todos me comparavam com o "candidato anterior", dizendo que eu era mais simpática, mais sincera, mais realista, etc (mas ninguém disse que eu era eficiente). Ao final, já fazendo menção de nos despedirmos, o chefe disse que queria fazer uma última pergunta: "O que eu achava do Rock in Rio". Achei a pergunta muito estranha. O que tinha o Rock in Rio a ver com tudo isso? Pensei cá comigo que tinha realmente ficado irritada por eles terem marcado esta entrevista para cedo na parte da manhã e justamente no dia seguinte ao primeiro dia do festival de rock mais esperado de todos os jovens. Comentei com ele que era um show como outro qualquer, que gostava de alguns dos grupos e tinha ido no primeiro dia, e tinha ingresso para ir no último. Ele insistiu e perguntou se eu não achava que aquele festival representava mais do que um simples show de rock. Achei que ele queria ouvir a "opinião da esquerda", pois tinha havido uma forte campanha contra o festival e o governador tinha até colocado artigos no jornal fingindo que se travava de transcrições de versos do profeta Nostradamus. Tinha sido uma loucura, os versos, naquele estilo metafórico, havia mais ou menos decrito um festival no gênero, com chuvas torrenciais e que todo o show era uma coisa diabólica e que o mundo iria se acabar bem no meio dos shows. Os temporais de janeiro contribuíram para que o boato se espalhasse e algumas pessoas realmente se mostraram alarmadas. Disse que fez isso porque, justamente naquela época, estava havendo uma votação importante na câmera dos Deputados a respeito de haver eleições diretas (pois estávamos no tempo pós ditadura militar) e que o festival era só para alienar os jovens. Comentei, sem nenhuma convicção, que o show supostamente alienava os jovens e que ninguém iria prestar atenção à votação da Câmera. Mas o entrevistador deve ter notado que não estava sendo sincera na minha opinião desta vez. Outro mistério, nunca consegui atinar no que ele queria que eu respondesse. Era a favor ou contra o festival? E o que tinha um festival a ver com um emprego naquela empresa? Já se despedindo de mim, no corredor, perguntou se eu "tinha medo de computadores pois muita gente parecia ter certa fobia". Tentei ser sincera e disse que sim, que tinha um pouco de receio (mas não disse que tinha verdadeiro horror, traumatizada pelas aulas de informática. A porta do elevador se abriu, ele apertou minha mão e nos despedimos. Nunca fui chamada para o estágio e nunca tive esperanças de que fosse.
Uma conhecida de meu pai disse que uma prima estava estagiando na empresa YM (vamos chamar assim...), uma poderosa multinacional e que tinha ouvido falar que havia uma vaga na fábrica. Resolvi ligar para lá e marcaram uma entrevista. O lugar era um pouco distante, na zona norte, num trecho meio perigoso e cercado de favelas. Resolvi ir com meu pai, mas ele só me deixaria na porta e na volta eu pegava o ônibus bem em frente. Já ouvira falar do caso de uma menina que foi eliminada numa entrevista de emprego (aliás, nem chegou a fazer a entrevista) porque chegou acompanhada do pai e isso, segundo esse pessoal, indica falta de iniciativa e de independência (no RJ creio que isso indique é medo da violência urbana, coisa que todos nós tememos). A sede era enorme, com muitos prédios e fui um custo encontrar o escritório onde fariam a entrevista. Ninguém sabia me informar nada. Depois de mais de meia hora andando feito barata tonta, consegui encontrar a sala (ainda bem que tinha chegado muito cedo), onde o entrevistador (chefe do departamento) me aguardava. Olhou para mim com cara desapontada, dizendo: "Mas você é uma menina! Falei ao pessoal de Recursos Humanos que queria um homem para este cargo, pois é para trabalhar no controle de estoque do almoxarifado, lugar sujo e barulhento, não é adequado para mulheres. Mas, de qualquer jeito, vou te entrevistar". Pensei cá comigo que estava perdendo meu tempo, pois se ele foi tão claro dizendo que não queria "meninas"... A entrevista foi rápida e simples, só conversamos basicamente sobre o meu histórico escolar e ele reparou que as minhas notas em matérias ligadas a matemática não eram tão boas quanto as outras e fui sincera dizendo que realmente não gostava de matemática e não tinha muito jeito para a coisa. Ele apontou o meu zero em Matemática Especial. Expliquei a história: que tinha desistido da matéria pois estava sobrecarregada na época mas que o professor marcava presença e me reprovou por nota, embora eu não tenha feito nenhuma prova, e mostrei a minha nota boa na mesma matéria cursada novamente no semestre seguinte. Ele pareceu não acreditar muito na minha história. Mas foi gentil e, no final, apertou a minha mão e disse para aguardar notícias de qualquer jeito, mas sempre dizendo que não achava o trabalho apropriado para mulheres.
"Pelo menos você ganha experiência fazendo entrevistas nessas empresas!", comentaram os colegas. Alguns dias depois, a Débora, que estava estagiando numa boa empresa e com boas perspectivas de ser efetivada (e que servira de "pistolão" para algumas outras colegas) me ligou e disse que não havia vagas na empresa dela no momento, mas que tinha ficado sabendo de uma vaga na empresa YNJ, outra grande multinacional, e como a coisa era urgente, tinha ligado para lá fingindo que era eu, para marcar uma entrevista. Disse que a encarregada foi relutante e disse que o processo de seleção já estava encerrado pois já havia entrevistado 10 candidatos e já tinha um para a vaga, mas que tinha como política sempre dar chance a todos e, levada também pela lábia de Débora (que era muito boa em negociações e também bastante despachada), aceitou marcar uma hora para "me" entrevistar. Comentei com Débora que isso era uma loucura pois a nossa voz e o nosso jeito de falar (e também o estilo) era completamente diferente, que a entrevistadora ia perceber mas ela disse que era bobagem e que eu devia tentar assim mesmo pois, afinal de contas, não custava nada. E lá fui eu, mais uma vez meu pai me levando até a frente da fábrica, que ficava próxima daquela outra e, consequentemente, na mesma região perigosa da cidade. Atendeu-me uma estagiária, provavelmente do curso de Psicologia, bastante antipática. Se notou a diferença na voz e no estilo, não disse nada. A entrevista foi complexa e me senti bem pouco à vontade. Era aquele tipo de "perguntas de psicólogos", por exemplo: "como você se vê?", "como você se define?". Perguntas complicadas e bastante complexas. Disse que era basicamente uma pessoa que adorava estudar. Perguntou também se eu tinha namorado, se desejava casar, ter filhos (ainda bem que não perguntou se eu era virgem!), como era a minha relação com meus pais, etc. Depois perguntou "como eu me via trabalhando naquela empresa". Achei a pergunta estranha e não sabia o que responder. Disse que me via dando o melhor de mim para desempenhar minhas tarefas e aprendendo e adquirindo prática. Creio que ela não gostou muito da minha resposta, pois fez mais algumas perguntas do mesmo gênero e, após atender a um telefonema, fez a mesma pergunta "como você se vê trabalhando aqui?". Eu, ingenuamente, tive ímpetos de avisar-lhe que já havia feito esta pergunta e que já havia respondido, mas fiquei sem graça (não sabia que era uma técnica muito usada esta fingir esquecer que já fez uma pergunta e perguntar novamente para ver se a pessoa caía em contradição.. ou então no caso da pessoa ter dado uma resposta meio "vaga", como havia sido o meu caso, ver se a pessoa desenvolvia mais o tema). Respondi basicamente a mesma coisa mas estava muito reticente pois não sabia bem o que ela queria que eu dissesse. Queria que eu descrevesse um imaginário dia de trabalho na empresa? Queria que eu me desmanchasse em elogios dizendo que era o lugar ideal para se trabalhar, uma das mais importantes empresas do mundo? Fui falando o que me vinha na cabeça e, em certo momento, já nervosa, acabei falando: "Creio que seria muito bom trabalhar numa empresa do porte de uma YM". Ela fez uma de espanto bastante exagerada e me perguntou, quase gritando: "YM????????". Foi aí que notei, completamente sem graça, que tinha trocado o nome da empresa, que gafe terrível!!! Pensei logo que, se tinha alguma chance, estava tudo acabado. Muito envergonhada, tentei explicar que havia feito uma entrevista há pouco tempo na empresa YN e sendo os nomes tão parecidos, e ambas empresas multinacionais das mais conceituadas, havia me confundido. Reforcei dizendo que seria muito bom trabalhar na empresa YNJ, enfatizando bem o nome. A partir de então ficou o tempo todo de cara feia, mas continuou fazendo algumas perguntas, mas nessa hora eu já me sentia meio "fora do ar", com a boca seca, trêmula e já nem sabia o que estava respondendo. Ela comentou que, conforme tinha me dito ao telefone, o processo de seleção já estava encerrado mas que sempre gostava de dar chance a todos, que de qualquer jeito enviariam uma carta me avisando se eu seria contratada para o estágio ou não. Estendi a mão, ela apertou frouxamente, virou de costas e se afastou sem olhar para trás ou sem nem dizer "até logo". Desnecessário dizer que, umas duas semanas depois, recebi uma carta dizendo que, infelizmente, já haviam escolhido outro candidato mas que manteriam minha ficha para contatos posteriores no caso de haver vagas, etc. Lógico que nunca iriam me chamar. Por muito tempo fiquei remoendo aquele vexame de ter falado o nome da empresa errada. Mas, também, ela estava me confundindo tanto com tantas perguntas "esquisitas" e os nomes soavam parecidos. Sei que em termos de uma entrevista, ainda mais para uma multinacional (mesmo que seja para estágio) era uma falta imperdoável mas, fazer o quê... a coisa tinha sido toda errada desde o princípio, com a Débora fingindo que era eu ao telefonar para a empresa.
Tempos depois comentei sobre esses meus "dois fracassos" com um amigo e ele disse que eu não devia ter ficado tão traumatizada por causa disso (pois, realmente, esses dois episódios me fizeram tomar horror a entrevistas e nunca mais tentei me candidatar a empresas deste porte) pois eu "estreado" justamente nas empresas de maior porte e, consequentemente, as mais rigorosas e que acabara me baseando nessas experiências e generalizando a coisa, pois muitos conseguiram estágio e emprego em outras empresas de médio porte sem tantas "frescuras". Não sei. Ouvi falar de histórias muito piores do que a minha, com provas teóricas, testes psicotécnicos, exames grafológicos (neste então eu ia me sair muito mal pois minha letra sempre foi péssima, "letra de analfabeto", dizia mamãe, e realmente até hoje parece letra de pessoa que está aprendendo a escrever, o que parece estranho considerando-se que eu tenho certo talento para desenho e pintura, não sei porquê minha letra sái tão ruim.. vai ver os exames grafológicos iriam indicar algo, sempre fiquei curiosa de saber... se bem que nessas empresas nunca nos dizem os resultados dos exames), dinâmica de grupo (com debates, simulação de situações do dia-a-dia da empresa, elaboração de projetos simulados) e todo tipo de coisa que, só de ouvir falar já me apavorava e tinha certeza de que nunca me sairia bem e nunca seria a "escolhida", ainda mais que havia sempre muitos candidatos disputando cada vaga num país onde o nível de desemprego é dos mais altos.