A morte
Durante estes primeiros meses de estágio, outro problema vinha me deixando bastante deprimida: o relacionamento com Gustavo, que se deteriorava a cada dia. Cada vez me ligava menos e quase não saíamos mais. Excetuando aquela ida ao observatório e mais umas duas vezes, nunca mais saímos de carro e a desculpa era sempre de que o irmão o "monopolizava". Marcava algo para o fim de semana e sempre aquela história de ficar pronta esperando horas e horas e ele não aparecer - muitas vezes sem nem dar uma satisfação. Uma vez, saímos numa quarta-feira e ele combinou uma saída para o sábado, dizendo para eu estar pronta às 7 que "desta vez não falharia". E lá fiquei eu esperando, esperando, esperando... por volta das 9 ele me liga, dizendo que sentia muito mas que um amigo tinha insistido tanto e eles tinham ido ao Jóquei Club ver e apostar nas corridas de cavalo. Era o fim da picada!!! Primeiro que odeio gente que vive apostando nessas coisas e depois, ser "trocada" por cavalos? Era demais!!! Comecei a gritar com ele ao telefone, dizendo que o queria ver ainda naquela noite, que ele viesse de qualquer jeito pois tínhamos que ter uma conversa série. Depois de reclamar um pouco, concordou em aparecer. Conversamos, discutimos, xinguei muito, nos beijamos, chorei. Ele me disse que não estava mais a fim de "compromisso", que sempre havia deixado claro que queria ser livre e que não queria assumir nenhum namoro e eu nem podia contestá-lo neste ponto. Mas, ao mesmo tempo que o odiava pela maneira como vinha me tratando, não queria perdê-lo. Estava com uma idéia fixa na cabeça: se ele me deixasse, nunca mais arranjaria outro namorado, nunca mais beijaria, nunca mais... nunca mais...nunca mais!!! Insisti com ele, me humilhei, implorei. Concordei em "darmos um tempo" e disse a ele que pensasse bem, que refletisse na maneira como estava me tratando (eu tinha esperanças de que ele pensasse bem e visse que não seria tão fácil "arranjar outra mulher tão tolerante, paciente e compreensiva). Ele disse que ia pensar...
As aulas recomeçaram em março e ainda fomos ao "nosso jardim" umas poucas vezes. Uma vez, insisti que voltássemos para o nosso andar de mãos dadas e ele largou minha mão. No desespero, agarrei a mão dele com brutalidade e, depois, dei-lhe um empurrão. Todo mundo viu, que vergonha! Estava me humilhando em público e por um cara que nem era nenhum galã de novela e nem sequer disputado pelas meninas (como no caso de Fernando e outros). Senti-me um lixo, rejeitada e jogada fora assim publicamente. Mas ainda insisti e no dia de meu aniversário saímos juntos (meus pais também) para um passeio no Pão de Açúcar (pois eu só havia ido uma vez). O passeio foi legal, mas na volta ele disse que estava tudo acabado. Amigos e nada mais, sem mãozinha dada, sem jardim, sem beijos ou estrelas. Era o fim.
Fiquei alguns dias "em choque", como que anestesiada, vivendo "no piloto automático". Um dia, "caiu a ficha". Estava em casa e desandei a chorar convulsivamente, desesperadamente. Minha mãe, assustada, veio ver o que se passava. Disse a ela "Gustavo não me quer mais!!!!". Ela fez com que deitasse minha cabeça em seu colo, como quando era pequenina, me acariciou e disse "Ora, você não precisa sofrer por tão pouco, sempre te disse que ele não valia a pena". Chorei mais ainda, gritando "Vou morrer sozinha!!!! Vou morrer sozinha!!! Vou morrer sozinha!!!!". Engraçado. Não chorava exatamente por amar Gustavo e o ter perdido, pois creio que nunca cheguei a amá-lo, chorava porque achava que não iria encontrar mais ninguém e veio a tona o maior dos meus medos: morrer. E morrer sozinha. Vou falar sobre isso em outra página (Inteligência Artificial). Os colegas não demonstraram ter percebido minha humilhação. Muitos até me "parabenizaram" por "ter me livrado de tal mala sem alça que era o Gustavo". Tive ímpetos de dizer que não tinha me livrado dele, ele é que havia me deixado, mas achei que era melhor deixar que eles pensassem assim, sentia-me menos humilhada desse jeito.
Outro semestre começava. Matérias, como sempre, áridas. Professores, duros, frios e exigentes em demasia. Desânimo total. Mas tinha que continuar tentando, não podia desistir e jogar tudo fora. Depois do verdadeiro pesadelo que foi passar em Contabilidade e em Cálculo Diferencial e Integral, veio a Introdução à informática. Naquela época, estava começando a se ouvir falar em micro computadores - coisa para poucos. O professor disse que a gente ia ouvir falar muito em "Apple" no futuro... O segundo andar da faculdade era todo tomado pelo departamento de informática do Estado, os computadores eram aqueles enormes, com aqueles discos girando, listagens e mais listagens que eram "cuspidas" pela máquina. Ar condicionado no máximo para não esquentar demais frágeis e delicados componentes. Os dados eram enviados à máquina por meio de cartões perfurados. A gente datilografava o programa numa máquina que se encarregava de perfurar os cartões numa espécie de código (mas as máquinas viviam com defeito e, não raro, perfuravam tudo errado). Não existiam Windows, Linux, nenhum programa "de interface amigável" como hoje em dia. Existia linguagens de programação chamadas Fortran e Basic (esta mais moderna e mais simples do que a primeira). Peguei o último semestre onde se ensinou a linguagem Fortran nesta faculdade... Primeiro era preciso aprender a fazer um fluxograma, na base de números, letras e respostas "sim ou não". "A" é igual a "B"? Se "sim", vá para a opção de número 3, se "não", vá para o número 1. Entendeu? Nem eu! Lógica pura, e minha cabeça sempre foi muito "subjetiva", gostava de ler textos e discorrer sobre eles, mas raciocínio lógico dava um verdadeiro nó no meu cérebro. Depois de fazer o fluxograma todo certinho de acordo com as coordenadas que o professor dava, era preciso escrever tudo na tal linguagem. Tudo tinha que ser determinado, até o formato do texto na hora de imprimir, dando valores para o tamanho das fontes, espaços, parágrafos, centralização, quantos centímetros de margem aqui, quantos ali, tudo detalhadamente e toma de barras, vírgulas, pontos, e se uma vírgula fosse colocada fora do lugar, o computador não processava nada. As chances de errar eram inúmeras. Ou se errava no fluxograma, ou se errava na linguagem, ou se errava na escrita da mesma, ou se errava datilografando na tal maquininha de perfurar cartões, ou os cartões eram perfurados de forma defeituosa, ou tudo isso junto! Nossa vida passou a ser levar cartões para os funcionários do processamento de dados (pois não tínhamos acesso aos computadores) e pegar a listagem no dia seguinte... incompleta, acusando mil erros. Que pesadelo!!! Amigos que tinham talento para isso e que já trabalhavam no ramo foram a minha salvação (incluindo Tiago e Orlando, os "experts" na matéria). Eles faziam o fluxograma para mim e me orientavam na linguagem. Confesso que nunca teria conseguido fazer nada daquilo sozinha e teria sido reprovada. Ainda bem que a prova era, além de responder a algumas perguntas teóricas, entregar a listagem de um programa, com todos os resultados, tudo completo (os amigos fizeram para mim, mas mesmo assim tive que fazer rodar inúmeras vezes por conta dos defeitos da máquina de perfurar cartões). Tomei pavor de computadores e não queria nem chegar perto! Nunca aprenderia a programá-los enquanto a linguagem e os procedimentos fossem tão complicados!
Outro pesadelo foi cursar Matemática Especial com um professor bastante excêntrico: Barba e cabelos longos, fumando charuto o tempo todo (e me fazendo ter crises alérgicas terríveis), era também professor de filosofia (da linha Marxista, é claro, o visual já indicava). Faltava muito e, para "compensar", marcava aulas para os sábados de manhã (que coisa mais agradável, né....). A aula era sempre igual: demonstração de fórmulas. Enchia o quadro negro inteiro umas 20 vezes por aula e a gente só copiando - e tentando entender aqueles cálculos complicados para se chegar a uma determinada fórmula matemática. Enchemos cadernos inteiros com aquelas demonstrações. Quase no final do curso, muita gente desistiu, incluindo Claudio e, como o professor não fazia chamada (e dava presença para todo mundo), negociaram com ele para serem reprovados por falta (e assim a média final não sofria). Eu fui resistindo, mas não conseguia saber como iria dar conta de estudar tudo aquilo, ainda mais que estava cursando 7 matérias, todas elas bem difíceis, e as provas eram praticamente uma atrás das outras. Pouco antes de começar a maratona de provas, peguei uma gripe terrível, com crises de sinusite e rinite alérgica. A fumaça do charuto do professor me sufocava e creio que contribuiu para o agravamento dos meus problemas respiratórios. Depois de mais de uma semana sem saber o que ia fazer - e vivendo aquele conflito interno "faço a prova - não faço - faço a prova - não faço", como estava mesmo doente, resolvi não fazer. No final, os poucos que fizeram me contaram que não foi tão difícil pois o professor deu uma lista de algumas demonstrações que "poderiam cair" e aí só decoraram aquelas. Ainda pensei em fazer segunda chamada, mas desisti. Tinha pavor de ser reprovada e não estava segura de passar naquela matéria. O problema é que, sem fazer as provas e abandonando assim o curso na última hora, o professor não quis me reprovar por falta e fiquei com zero na média, o que refletiu na média geral. Dois semestres mais tarde cursei a matéria com uma professora bastante razoável e que não demonstrava fórmulas: apresentava-as e ensinava como aplicá-las na prática (muito melhor e mais racional). Passei com boa média, mas sempre ficou aquele estigma do "reprovada por nota" no histórico escolar. Parecia óbvio que não era um caso real de reprovação pois, se a pessoa considerasse as minhas outras notas em todas as matérias, iria concluir que, mesmo que eu fosse reprovada, não tiraria zero (era muito difícil não acertar nada de nada numa prova). Mas mesmo assim fui cobrada várias vezes em entrevistas por conta disso...
No meio disso tudo, os problemas no estágio se acumulando. Um dia o gerente reuniu todos os funcionários e estagiários para dizer que esperavam para o dia seguinte umas 5 pessoas que seriam efetivadas pelo banco, pois eram funcionárias de um outro, particular, que faliu e foi "incorporado" ao Estado. Pediu para que fôssemos gentis com eles e os ajudassem da melhor maneira possível. No dia seguinte, aquele bando de pessoas novas no banco, meio perdidas e sem saber o que fazer. O meu chefe me apresentou a uma moça, dizendo que eu devia ensiná-la a fazer o meu serviço. Ela era simpática e fui explicando tudo, dando uma idéia geral das tarefas que desempenhava. Em certo momento ela, quase chorando, me pediu para parar pois estava muito confusa, não entendia nada e achava que era muito serviço ao mesmo tempo. Acalmei-a dizendo que com o tempo ela iria adquirir prática, que no começo era assim mesmo, a gente sempre achava que não ia conseguir dar conta de nada, mas com o tempo ia se acostumando.
Meu período de 6 meses já estava no fim e perguntei ao gerente sobre a renovação (pois todos os estagiários ficavam um ano, o estágio era sempre renovado por mais 6 meses depois destes 6 iniciais). Ele disse que estava tentando mas que não garantia nada, pois com essa leva de funcionários novos, havia gente de sobra e ainda não se sabia se os estagiários iriam continuar. Mas me garantiu que não estava medindo esforços para que meu estágio fosse renovado. Fiquei nesse "suspense" por algumas semanas e, acabado o meu "tempo oficial", ainda permaneci umas duas semanas trabalhando (sem remuneração), pois o gerente sempre me pedia para aguardar. No final, disse para eu não trabalhar mais e aguardar um telefonema que, obviamente, nunca veio. Até hoje não sei qual foi o verdadeiro motivo do meu estágio não ser renovado. Disse a todo mundo que não renovaram porque eu não usava mini-saia como o gerente gostava e porque não aceitava ser paquerada por ele e pelos funcionários. Realmente, era um fato, mas creio que foi mesmo a minha incompetência que fez com que não me quisessem mais. Eu tinha cometido erros demais e mancadas demais durante aquele período no qual o chefe não estava por perto e ninguém me orientava em nada...e tendo que fazer tanta coisa ao mesmo tempo. Estava claro que não confiavam mais em mim pois sabia que a estagiária da tarde conferia todo o meu trabalho. Nunca me criticaram abertamente, pelo contrário, sempre elogiaram meu trabalho (enquanto comentavam comigo sobre outros estagiários terrivelmente incompetentes) mas, fico achando que foi essa a razão. Pode ser também que o gerente tenha dito a verdade, pois era um tempo confuso e a administração do banco ainda não sabia bem o que ia fazer com os funcionários extras. Mas soube na faculdade de outros estagiários que tiveram seus estágios renovados uns meses depois. Fora só um golpe de má sorte dos 6 meses terminarem justamente na época da chegada dos novos funcionários? Creio que nunca saberei qual foi a verdadeira razão e sempre me senti humilhada pois, que eu saiba, fui a única a não ter o estágio renovado. Derrotada na vida amorosa e na profissional... mais dois grandes e pesados tijolos para o Muro!