Estagiária

 

Uma das maiores frustações de Sérgio é que não conseguia passar no concurso público para escriturário do Banco do Brasil - um dos cargos mais cobiçados e disputados naquela época. Bom salário, estabilidade, estatus de funcionário público, todo mundo queria fazer parte desse grupo de elite. Só que não era nada fácil, pois as vagas eram poucas e os candidados, centenas de milhares. Provas difíceis e era preciso praticamente acertar todas as questões para ter direito a disputar uma vaga... e sempre havia os que "corriam por fora" por conta de pistolões. Isso era motivo de mais ataques de frustação e mau humor, depressão, nervosismo. Enquanto esperava a próxima oportunidade, arranjou um estágio em outro banco também do Estado. E cismou que eu tinha que ir estagiar lá também. Realmente, era hora de começar a procurar um estágio - ainda mais que era obrigatório e não podia me formar sem ter estagiado, só eram isentos os que já trabalhavam em alguma empresa. Sérgio trabalhava na sede, um prédio enorme e muito luxuoso no centro da cidade e uma vez até me levou até lá para ver o escritório e me familiarizar com o ambiente. Ele não trabalhava no atendimento ao público, mas sim na parte administrativa. Achei que era interessante e resolvi aceitar a proposta (mesmo porque não conseguia recusar-lhe praticamente nada). O banco não tinha um processo de seleção de estagiários como a maioria das empresas (com provas e entrevistas), era na base da "indicação": um funcionário indicava um conhecido e o gerente, após uma conversa informal, o contratava por seis meses, renovando no final para completar um ano, máximo permitido pelas normas do banco. Outra vez, ao contrário da muitas empresas, não havia nenhuma chance do estagiário ser efetivado, pois só se contratava funcionários por meio do concurso público. Havia apenas uma condição: tinha que me increver num programa de integração entre empresas e escolas, com escritório também no centro da cidade, programa esse de grande utilidade para estudantes de segundo-grau ou de faculdade, e conheço muita gente que conseguiu ótimos empregos graças ao programa. Ele me levou para preencher uma ficha e, assim que cheguei em casa, estavam me ligando. Pensei que se tratava do estágio no banco, mas eles perguntaram se eu estava interessada em estagiar numa multinacional que precisava de gente que fizesse tradução de textos de Inglês para Português e vice-versa. Fiquei nervosa e desorientada, pois não esperava tal proposta. Expliquei que não tinha familiaridade com Inglês técnico e eles insistiram que a empresa treinava. Queriam por força marcar uma entrevista. Nunca tinha sido entrevistada para um emprego ou estágio, mas sempre ouvia os comentários dos colegas, amigos e parentes e sentia medo pois todos pintavam um quadro horripilante. Recusei dizendo que só tinha me inscrito no programa porque estava esperando ser chamada para um estágio no banco tal e tal e eles não mais insistiram.

O estágio de Sérgio terminou e, como sempre, teve alguns atritos com a chefia e, com isso, não conseguiu uma indicação para mim... mas falou logo com uma colega de turma que trabalhava de caixa em uma das filiais do subúrbio e, após uma conversa comigo, prontificou-se a "me indicar". Mas deu um conselho: que eu fosse conversar com o gerente usando mini-saia "pois ele gostava". Achei aquilo muito esquisito, mas como na época estava mesmo numa fase de roupas um pouco mais ousadas, fui para a entrevista com um dos meus vestidos mais curtos. Vi logo os olhos do gerente brilhando e alguns dos caixas e escriturários cochichando uns com os outros. O gerente gostou de mim e contratou para os seis meses "renováveis por mais seis". Dei sorte pois o "meu chefe", ou seja, o escriturário ao qual eu deveria ajudar, era um amor de pessoa, muito simpático, calmo e paciente. Foi me explicando o serviço todo, mas no começo me senti totalmente perdida. Parecia muita coisa (e o estágio era só de meio-expediente). Na era pré-micros, os clientes deviam preencher uma ficha de depósito ou retirada, que era devidamente registrada pelos caixas e enviada para a contabilidade ao final do dia, onde funcionários digitavam tudo nos enormes computadores e enviavam no dia seguinte, por meio de malote, as páginas e páginas com beiras perfuradas. O meu trabalho era, basicamente, checar se o número da conta e a quantia depositava tinham sido corretamente digitadas, conferindo as fichas de depósito, uma por uma (e eram centenas!). O trabalho era repetitivo e cansativo, mas não me incomodava pois podia trabalhar à vontade "quieta no meu canto". Além disso, devia somar as quantias de uns boletos da contabilidade, conferir com o total registrado na folha do computador e datilografar os resultados em fichas apropriadas, que seriam registradas pelos caixas no final do expediente. Basicamente, isso. Mas, na prática, estagiário de qualquer lugar acaba virando "pau pra toda obra" e tinha que me desdobrar fazendo de tudo um pouco, principalmente na parte da manhã, quando o movimento de clientes era muito grande... e início do mês era uma loucura, pois todos iam pegar os extratos (que não eram enviados pelo correio naquela época). Se dei sorte com "meu chefe", dei azar de começar o estágio logo nos primeiros dias do mês, e passei a maior parte do primeiro dia atendendo aos clientes, que se amontoavam atrás do balcão pedindo os estratos: que estavam em caixas de madeira, "supostamente" em ordem alfabética com o nome do cliente, mas no final da contas a gente tinha que ficar o tempo todo folheando aquelas fichas todas milhares de vezes até encontrar o extrato de cada um, uma verdadeira loucura! Havia mais dois estagiários: uma menina muito vistosa, loura de olhos azuis, que vivia flertando com os funcionários (embora fosse noiva) e um rapaz bastante lento e que arranjava qualquer pretexto para não fazer nada. Nas horas de muito movimento, tinha que ajudar no balcão. Numa área pobre da cidade, perto de muitas favelas, a maioria dos clientes eram analfabetos e com isso tínhamos que preencher as fichas de depósito ou retirada para eles (que, na maioria das vezes nem conseguiam nos explicar qual quantia queriam depositar ou até mesmo se era saque ou depósito) e ainda por cima tirar impressões digitais do polegar de cada um para colocar na ficha, no lugar da assinatura. Além disso, atender telefonemas, datilografar fichas de abertura de contas, preencher cheques administrativos, pesquisar depósitos e retiradas em microfilme e muitas outras coisas. Sentia-me totalmente perdida, feito uma barata tonta, em meio a tantas tarefas... e o que seria o meu "serviço" ficava se acumulando cada vez mais e sempre acabava tendo que ficar umas duas horas além do meu horário oficial para dar conta de tudo. Detestava lidar com o público e não tinha paciência, e tirar as digitais era uma tortura! Sempre que podia, enterrava a cabeça na máquina de escrever (que nem era elétrica) ou nas fichas de depósitos que tinha que conferir, fingindo não ver que o balcão estava cheio e que os funcionários encarregados do atendimento estavam sobrecarregados... até que o gerente me chamava a atenção e me pedia para ajudá-los. Além de tudo, depois daquela "mini saia" da entrevista, voltei às roupas mais sóbrias, ainda mais que era inverno. Os funcionários (principalmente os caixas) viviam tentando nos paquerar, dizendo mil gracinhas e dando mil indiretas - ou até mesmo diretas - e o gerente também participava do jogo. E todos eram casados. Só o meu "chefe" era sério e nunca tentou me paquerar. Isso me irritava um bocado pois não aceito paqueras em ambiente de trabalho. Creio que estamos lá para fazer o nosso serviço e pronto. Além do mais, eram todos muito velhos para mim e além de tudo, não aceitava que homens casados e com filhos se comportassem dessa maneira.  Como percebiam que eu "não entrava no jogo deles", começavam a ter má vontade para colaborar comigo. O banco oferecia almoço para os funcionários (a comida vinha de outro lugar e era requentada por uma cozinheira muito amável) numa pequena sala. Aquela colega que "me indicou" não comia muito e, gentilmente e com consentimento do gerente, convidou-me a almoçar com eles pois, de qualquer jeito, sempre sobrava muita comida. Cada dia era um prato diferente e, geralmente, muito gostoso. Só que, não raro, todos acabavam intoxicados e alguns até iam parar no pronto-socorro com diarréias terríveis e quase desidratados. Eu tinha diarréias quase que diariamente, tanto por conta da comida quanto por conta da tensão do trabalho, creio eu. E tinha que interromper o meu serviço à toda hora para ir ao banheiro. Quando não eram as diarréias, urinava constantemente. Quase que passava mais tempo no banheiro do que fazendo meu trabalho, o banheiro era pequeno e com um lavatório. Algumas funcionárias da limpeza viviam "escondidas" ali para fumar ou até para tirar um cochilo e isso ainda aumentava mais a minha agonia, pois tinha que ir ao banheiro, com aquelas diarréias terríveis e com elas ali ao lado. Por conta disso, prendia o mais que podia, o que era uma tortura a mais.

 

Para meu desespero, o meu "chefe" estava passando por tempos difíceis e vivia faltando. Primeiro teve o carro roubado e perdeu vários dias dando parte na polícia, etc. Depois ficou doente. Eu ainda não dominava o serviço inteiramente, e em meio àquela balbúrdia total, acabava me atrapalhando. A calculadora era manual, daquelas que imprimem um papel com as contas. Não comportava valores muitos altos (e aí deveríamos repartir a quantia em partes e ir calculando em separado) e estávamos em época de inflação alta, dígitos e mais dígitos. Tendo que me desdobrar em mil, não percebi que os números eram elevados e a calculadora não acusava o erro de cálculo... simplesmente dava um resultado totalmente incorreto e pronto. Não percebi o erro e datilografei as fichas com os valores calculados errados, mais de uma vez. No dia seguinte, os valores finais nunca batiam com os do papel vindo do computador e eu ia de caixa em caixa perguntando o que podia estar errado. Ninguém conseguia encontrar o erro e nem se preocupavam muito com isso. Diziam para eu deixar para lá que quando o meu chefe voltasse ele daria um jeito. Além disso, cometia muitos erros datilografando as fichas, e acabava inutilizando muitas... os estoques viviam se acabando na gaveta e tinha que ir buscar mais num armário que servia de almoxarifado.. cheio de ratos que, não raro, escapavam dali e corriam pela agência toda, arrancando gritos de algumas funcionárias. E mesmo no armário o estoque se acabava, creio que nunca viram uma estagiária desperdiçar tantas fichas...a lata de lixo ficava abarrotada de inúmeras fichas rasgadas todos os dias. Sentia-me incompetente, despreparada, distraída, atrapalhada. Não entendia bem o meu serviço e ninguém me explicava direito, assim, nada fazia muito sentido. Com o tempo, não conseguia fazer quase nada certo. Se tirava impressões digitais, eram claras demais e os caixas vinham com cara amarrada tirar de novo (até alguém me explicar que era preciso engraxar o rolo e a almofada a cada vez). Alguns funcionários ligavam dizendo que iam chegar atrasados e me pediam para "bater o ponto deles", pois o gerente deixava. E eu, distraída, batia o ponto do funcionário errado, que já tinha batido... e o gerente tinha que dar uma rubrica para corrigir o erro.

Na hora do almoço, os caixas se esbanjavam nas tentativas de paquera, conversando sobre assuntos picantes e rindo muito. Um deles, o mais ousado e com o qual eu não simpatizava, vivia dizendo que eu era muito branquinha e me convidando para ir com ele à praia um fim de semana desses. Um dia me aborreci e disse, na frente de todos os outros funcionários, que se quisesse namorar alguém, não seria um cara velho e casado como ele, pois não faltavam jovens da minha idade (e solteiros!) dando sopa na faculdade. Ele ficou lívido. E se vingou na primeira oportunidade. Outra das tarefas para a qual fui designada era abrir o malote e entregar ao caixa o pacote de cheques devolvidos, para que este escrevesse na listagem que estavam bloqueados. Um dia, entreguei os cheques para este caixa que tinha levado o fora e ele disse para eu mesma assinalar os números das contas na listagem (faziam isso com frequência, embora não fosse permitido a outros funcionários que não fossem caixas entrarem naquela parte do banco). Assim fiz, colocando a minha rubrica (como era costume fazer).

No dia seguinte me contaram que ele estava desesperado porque no fechamento o seu caixa acusava um débito de valor mais ou menos elevado, e não descobriam como o dinheiro tinha desaparecido. Depois de muito pesquisar, descobriram que, no dia anterior, o malote havia se atrasado e eu tinha bloqueado as contas na listagem antiga. Quando chegou o novo malote, as listagens foram substituídas e não havia bloqueio naquela conta: a pessoa foi lá e retirou a quantia. Foi o maior rebuliço na agência, e eu tinha sido a culpada. Sentia uma terrível vontade de chorar, mas não conseguia chorar em público. Tremia muito, mas tentava disfarçar e demonstrar que não estava muito preocupada. O caixa começou a debochar de mim e a dizer à toda hora, rindo: "Eu não tenho nada com isso, comece a chorar porque você é que vai ter que pagar a diferença, a culpa foi sua!". Fingi frieza e disse que não tinha problema, que se fosse necessário, pagaria sem problemas. Fui falar com o gerente, com voz trêmula, dizendo que ele podia me despedir se quisesse e que, além disso, eu estava disposta a arcar com o prejuízo. Ele disse para eu ficar calma, que eles iriam resolveu o problema, que não havia razão para desespero. Aquela colega que tinha me indicado para o banco também foi muito legal comigo e me deu força, dizendo para não ligar para o deboche do colega e chamando a atenção dele a toda hora quando começava a me provocar. Não dormi a noite inteira, só pensando no que iria acontecer. Eu estava juntando o pouco dinheirinho que o banco me pagava, pois mantinha a idéia de comprar um piano com o salário do meu primeiro emprego (mesmo sendo estágio, contava). Já considerava o dinheiro todo perdido para cobrir este prejuízo causado pela minha incompetência, e tendo que adiar meus planos de ter o tão sonhado e desejado piano! Aliás, durante todo esse tempo de estágio, raramente conseguia dormir bem à noite, sempre pensando em tudo que teria que enfrentar na longa e estressante manhã... e ainda ter que acordar bem cedo e enfrentar uma longa viagem de ônibus, pois a agência ficava bem distante. No dia seguinte, o gerente foi com o caixa e um segurança até a casa do cliente que tinha feito a retirada e, graças a Deus, conseguiram que ele devolvesse a quantia. Mas o episódio tinha deixado os meus nervos em frangalhos. Quando meu chefe voltou à ativa, foi verificar o que estava errado com as listagens que não batiam com a soma dos depósitos, causando um verdadeiro caos e deixando o pessoal da contabilidade (na agência central) totalmente estressado. Ele acabou descobrindo que o erro se devia a eu não ter visto que os valores eram elevados demais para serem calculados de uma vez na calculadora. Não me deu uma bronca, mas como isso havia acontecido mais de uma vez, o pessoal da contabilidade ligava para ele à toda hora reclamando e ele me disse que eles estavam furiosos. A partir de então, fui tida como "incompetente e distraída", pois designaram uma estagiária do turno da tarde para recalcular e reconferir todo o meu trabalho. Não confiavam mais em mim. Sentia-me totalmente humilhada e, ainda por cima, me ressentia do gerente ser um cara "bronco" e de um nível intelectual inferior ao meu. Sempre achei que os chefes deveriam ser mais inteligentes do que os subordinados, e a ignorância dele em outros assuntos que não fossem relacionados ao banco (como, por exemplo, música, cinema, etc) me irritava. Aliás, ninguém no banco compartilhava dos mesmos gostos artísticos do que eu e muitos achavam que eu "falava de uma maneira estranha". Aquela estagiária bonita (mas pouco dotada intelectualmente), chegou até a me perguntar um dia se eu era mesmo carioca, pois usava umas "gírias" que ela nunca tinha ouvido antes. Quando estranhei a observação, ela disse que eu usava muito "digo" nas minhas frases (provavelmente era um "linguajar de velho", conforme muitos já me disseram, mas ela nem conseguia detectar tal sutileza).

 

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