Quando o príncipe vira sapo...
Passamos a sair juntos com frequência e, depois de certa resistência, ele me apresentou à sua família, "como uma amiga muito especial". Cheguei até a participar de uma reunião com toda a parentada na época do Natal, na casa de um tio dele e gostei muito. Sempre quis ter uma família assim unida, descontraída, alegre. Todos me tratavam muito bem e muitos parentes batiam no ombro de Sérgio e cochichavam "para quando é o casório", só para implicar com ele. Este sempre dizendo que eu era só uma amiga, mas eles piscavam o olho maliciosamente. Sentia-me um pouco nervosa nessas reuniões, por conta da FS, mas nada que me causasse desconforto intenso, ainda mais porque Sérgio tinha a fama de estanho e assim não prestavam tanta atenção no fato de que eu também era. Só uma vez a fobia se manifestou de maneira mais intensa quando uma tia de Sérgio estava me mostrando uma pequena foto 3X4 de seu esposo já falecido (junto com outras fotos da família, incluindo Sérgio quando criança, etc). Na hora de pegar a foto, meus dedos tremeram e ela caiu num vão do sofá, e foi um custo para conseguirem "pescá-la" de volta, o que me deixou muito sem graça. Fora isso, embora não falasse muito, sentia-me bem. Uma vez, ele até deitou a cabeça no meu colo, numa demonstração explícita de que eu "não era só uma amiga" e gostei muito disso.
Mas nem tudo eram flores - ou melhor dizendo - astros e estrelas. Ele era super nervoso e se irritava em demasia por qualquer motivo e isso aumentava o meu nervoso. Uma pessoa como eu precisava de um cara tranquilo e não de alguém que ainda piorasse a minha ansiedade. Tudo era motivo para explosões de raiva desmedidas. Se um professor lhe dava uma nota baixa, ficava por horas a fio comentando que tal professor era um "calhorda, um imbecil, um miserável". Meu coração vivia aos sobressaltos. Íamos ao cinema e, se a fila demorava um pouco, já começava o rosário de reclamações: bilheteiro lerdo, gente calhorda (gostava muito de usar essa palavra), que dava vontade de sair socando todo mundo e por aí afora. E eu me sentindo totalmente mortificada, o que era para ser um programa agradável, acabava se tornando uma verdadeira tortura. Essa atitude dele me irritava tanto que, um dia comentando com mamãe sobre isso, disse nessas horas tinha vontade de jogá-lo no chão e sair dando chutes - a agressividade dele me contagiava. Felizmente nunca foi agressivo comigo, muito pelo contrário, chamava-me de "Lucinha", o que me agradava muito. Só uma vez deu um escândalo na estação do metrô só porque estávamos conversando sobre a irmã dele e comentei que "precisávamos arranjar um namorado para ela". Ele largou minha mão e gritou, se afastando: "não admito que você se meta nos assuntos da minha família desse jeito"! Tive que correr para alcançá-lo, explicando que não tinha falado por mal, que era só um comentário inocente, uma brincadeira, ainda mais que a irmã dele não era nenhuma criancinha. Nunca imaginei que ele tivesse tal ciúme da irmã!
Mas o pior não era esses ataques de mau-humor constrantes. O que mais me arrazava eram os "bolos" que ele me dava constantemente. Sempre saíamos umas duas ou três vezes por semana, visitando amigos (adorei fazer amizade com alguns amigos e amigas dele, alguns eram ex-colegas da astronomia, gente inteligentíssima e de papo muito agradável), indo ao cinema, etc. Só que NUNCA saíamos nos fins de semana e isso me frustrava um bocado. Cheguei até a chamar de "a maldição de sábado à noite". Era frustrante ter um namorado e passar os sábados sozinha, ainda mais nas férias de verão! Ele simplesmente sumia. Mas o que realmente me deixava arrazada é que, quando nos víamos durante a semana, ele combinava algo para o sábado e dizia "esteja pronta às 7 que vou te buscar". Eu me aprontava e ficava esperando... cada minuto parecia durar séculos... e, de olho pregado no relógio, via dar 7 e meia, depois 8, 9 e lá pelas 10 ele me ligava dizendo que o irmão saíra com o carro sem ele ver, ou então que um amigo tinha aparecido para visitar sem avisar, ou qualquer outra desculpa esfarrapada. Na maioria das vezes, o "culpado" era o irmão, que sempre pegava o carro antes dele. Por dentro, odiava esse irmão com todas as minhas forças e reclamava com Sérgio por deixar o irmão ser tão folgado assim, afinal ele era o mais velho! Devíam, pelo menos, negociar os dias que cada um iria usar o carro, não era justo o irmão monopolizar assim. Sempre tive verdadeiro horror a ficar esperando pelos outros, ainda mais assim em vão. Se não conhecesse sua família e frequentasse a casa, até podia pensar que ele era casado, tal era o mistério que envolvia aqueles fins-de-semana. Vivia num estado de nervos beirando o insuportável, numa tensão constante. E Sérgio se irritava pois, "não gostava de cobranças" e, afinal de contas, nós não tínhamos nenhum compromisso de namoro sério. Mas sentia-me traída, enganada. No mês de janeiro, a família toda resolveu passar umas duas semanas numa cidade no interior do estado, onde tinham parentes, e me senti arrazada, pois esperava que me convidassem para ir também. Não conseguia suportar a idéia de ficar aquele tempo todo sem os beijos, aquele verdadeiro vício me prendia a ele, fazia com que me humilhasse, me arrastasse a seus pés, implorasse. Minha prima ia justamente passar aquelas semanas na casa do pai em São Paulo e resolvi ir com ela, pois assim o tempo passaria mais depressa e não estaria em casa sem fazer nada só esperando ele voltar. No fundo, sabia que nossa relação não tinha futuro algum e que, dia após dia, ia perdendo o pouco que me restava. Mas era preciso lutar, não iria entregar os pontos assim tão facilmente. Com o tempo, pensava, ele ia acabar me amando... onde iria achar outra mulher tão compreensiva e que aturasse seus ataques de mau humor do jeito que eu aturava? Namorado que não quer assumir compromisso, cheio de neuroses... mais um tijolo para o Muro!