"Ora, direis, ouvir estrelas...":

 

De qualquer jeito, tornamo-nos ótimos amigos e passava a maior parte dos tempos vagos na sala dele, onde acabei também travando conhecimento com outros rapazes, um inclusive que era seu maior amigo, noivo de outra estudante do curso. Formavam um casal muito simpático e amável. Havia uma certa "rivalidade" entre a nossa turma e a dele: uma não ia com a cara da outra. Amanda era motivo de piadinhas (considerada uma "mala") na turma dele. Como não estava mais afim de participar do Grupo, esta mudança de ares veio a calhar. Mas Claudio e os outros continuavam insistindo para que eu fosse ao menos uma vez conhecer a tão falada casa de praia. Não podia mais dar a desculpa do cursinho, pois tinha sido desmascarada. Precisava é de um namorado, pois aí era só dizer "ele não está afim" ou então "temos outros planos", etc. Arranjar um namorado unia o útil ao agradável, pois era um "álibi" perfeito, desculpa para tudo. Não queria ir à festa de aniversário de alguém, era só dizer que o namorado não estava afim de ir... e todo mundo entendia... ou não: o pessoal do Grupo detestava Sérgio. Tanto melhor, assim eu tinha ainda mais razões para me afastar! Mas, espera aí! Gustavo NÃO ERA MEU NAMORADO!!!! Em retribuição ao gentil convite para a visita ao Observatório, convidei-o para ir lá em casa ouvir uns discos. Ele levou alguns que me interessavam, para me emprestar. Quando fui à cozinha pegar algo para mastigarmos, mamãe estava lá fazendo cara feia: não que tivesse detestado Sérgio, pelo contrário, achou que era "um rapaz sério", mas o achava desajeitado, espevitado demais, "parecendo um galinho garnizé". Que raiva! Mas era sempre assim... com exceção de Roberto, mamãe nunca aprovava os "meus eleitos" e sempre arranjava algum motivo para fazer piadinhas e debochar deles. Mais uma vez, despedidas entre amigos... e eu ficando cada vez mais intrigada. Na faculdade, caprichava nos "decotes ousados" e no visual, e notava que ele não ficava indiferente a isso, notava os "olhares". Portanto, não devia ser gay. O fato de me sentir "desejada" fazia-me muito bem, pois nunca tinha sido olhada daquele jeito por nenhum rapaz (tirando alguns que "atiravam para todos os lados" e eram totalmente desagradáveis, como Ernesto e alguns outros). Tímido ele não era. Talvez fosse muito "formal", muito antiquadro, muito cavalheiro. Queria dar tempo ao tempo, fazer as coisas acontecerem na hora certa, sem pressa, devagar (pelo menos era isso que eu pensava).

Resolvi que era hora de "partir para o ataque", quer dizer, fazer charminho, dar indiretas, principalmente na frente dos amigos dele pois aí ele ficaria sem graça de não corresponder. Fiz amizade com a noiva do amigo dele e me abri com ela, dizendo que estava apaixonada mas não sabia o que acontecia pois Sérgio não se decidia. Ela falou com o noivo e os dois "abraçaram a causa". Não largavam do pé de Sérgio, tanto na faculdado quanto ao telefone, tentando convencê-lo a me namorar e sempre perguntando o que estava errado. Segundo minha amiga, Ele tinha medo de compromisso, mas ele ia acabar cedendo à pressão. Muito machista, já estava vendo sua masculinidade ser até questionada pelos colegas, coisa que não podia admitir. Mas, realmente, amava a liberdade e não queria nada com namoros. Resolveu me levar para uma conversa, nos jardins da parte de trás do campus (onde eu já havia uma vez passeado com Roberto...). Sentamos no único banco vago, os outros todos ocupados por namorados bem agarradinhos, muitos trocando beijos bem ousados. Mas era muito escuro por lá e pouco se via:  os bancos ficavam bem distantes um dos outros e parcialmente escondidos pela vegetação. Sérgio começou um discurso bastante desencorajador: gostava de mim, me achava bonita e atraente mas... me queria como uma grande amiga e nada mais. Nesse ponto, a natureza nos apresentou um espetáculo admirável. Nuvens de vagalumes nos cercaram e parecia que estávamos em meio a estrelas (sempre elas!). Ficamos lá por um bom tempo, conversando sobre amenidades e admirando o cenário etéreo a nossa volta (estrelas no céu e na terra, vultos de árvores e flores na semi-penumbra. De repente,  sentou-se mais perto e me pediu um beijo. Senti calafrios percorrendo meu corpo todo, comecei a tremer, a boca seca, falta de ar. Respondi que não sabia... que não fazia sentido, já que ele só queria ser meu amigo. Ele, insistindo, pegou minhas mãos e comentou que estavam trêmulas, o que me deixou ainda mais sem graça. Foi minha vez de começar um discurso, hesitava, queria e ao mesmo tempo não queria - tinha medo. Disse mais uma vez que amigos não se beijavam na boca, que eu só tinha visto isso acontecer em alguns filmes americanos. Ele então disse: "Pois finge que estamos nos Estados Unidos" e, sem que eu tivesse tempo de  fazer qualquer movimento para impedir, me beijou. Engraçado. Todo mundo fala do "primeiro beijo". A princípio, não gostei muito. Aquele contato de lábios por cima dos meus, sei lá, achei meio sem sentido, meio sem graça e até meio desconfortável. Era disso que as pessoas falavam tanto e com tanto entusiasmo? Era isso que cantores e poetas exaltavam há séculos? Meus lábios, se ressentiram um pouco (embora o beijo não tenha sido nada violento e nem tão longo assim), a pele parecia se soltar, sentia arder. Sérgio pediu para que eu não comentasse com ninguém sobre o beijo e voltamos para o prédio. A julgar pelos olhares maliciosos por todos os lados e os risinhos contidos, perceberam o "nosso sumiço" temporário, ou talvez eu estivesse ruborizada.

Fiquei os próximos dias naquela de não saber se, afinal de contas, tinha gostado ou não. Queria uma segunda tentativa, queria experimentar de novo, com mais calma e sem a tensão da "primeira vez". Durante uma semana, quase nem nos vimos pelos corredores, mas na sexta-feira seguinte ele me convidou para irmos novamente para o "nosso jardim" e aceitei ansiosa. Desta vez foi pra valer!!! Acabaram-se as inibições e deixei que o meu lado "Madonna" tomasse as rédeas. E adorei! Creio que ele também se entusiasmou com os resultados deste segundo encontro (onde não ouve discursos, só beijos e mais beijos), tanto que voltamos para o prédio de mãos dadas (embora ele sempre insistisse em dizer que não era um "namoro oficial"). Em menos de 10 minutos, a faculdade inteira já sabia da notícia e, por assim dizer, tornaram a coisa oficial. Confesso que estava deslumbrada com esse meu novo status de "ter um namorado". Era tão bom ser "como todo mundo", estar de mãos dadas com alguém e, também, ter uma desculpa irrefutável para não comparecer a reuniões ou festinhas - o namorado não estava a fim. Aliás, nem chegavam a nos convidar pois não escondiam a antipatia que Sérgio despertava no Grupo. E ele correspondia à altura, detestava meus amigos, com poucas exceções.

 

Depois daquele segundo encontro no jardim, comecei a me sentir "esquisita". Uma moleza, um cansaço, sentia meu corpo quente, a pele queimando. Pensei até que estava com febre. Não conseguia dormir, ou melhor, não conseguia fazer nada direito. Não pensava em nada... a não ser nos beijos. Fiquei totalmente viciada. Queria mais, mais, mais e mais, meu corpo pedia mais beijos e carícias com uma força incontrolável, a ponto até de pensar que estava ficando doida (pois nunca conversara com ninguém sobre esses assuntos e aspectos de um namoro e não sabia bem o que era considerado "normal" e o que era considerado "doença ou perversão"). Sempre que tínhamos uma chance, lá íamos nós para o jardim e passamos até duas horas nos beijando sem parar...e se deixasse por minha conta seria assim a noite inteira, ou melhor, vinte quatro horas por dia, pois quando não estava beijando, só pensava nisso e só queria isso. Isso me assustava um pouco, pois achava exagerada essa reação do meu corpo, essa fúria toda, essa vontade avassaladora de não fazer outra coisa na vida a não ser beijar. Sorte que já passara o período de provas e estávamos praticamente de férias, senão não sei como poderia ter me concentrado nas aulas e estudado as matérias, pois os beijos ocupavam minha mente por inteiro, o desejo era senhor absoluto do meu corpo e da minha mente. Escondi de mamãe o mais que pude, lembrando que ela tinha torcido o nariz naquela vez que Sérgio me visitara. Um dia, voltando do jardim e passando pela entrada da faculdade, encontramos Claudio, que veio me dizer, muito sem graça e pedindo mil desculpas, que, como não me encontrava na faculdade e queria pedir emprestado meu caderno para copiar uns exercícios, tinha ligado para minha casa e minha mãe, muito espantada, disse que eu não estava e que, supostamente, estava na faculdade. Ele tentou arranjar uma deculpa, para "livrar a minha barra". Mas resolvi contar a mamãe, que não criou caso, felizmente, só continuou dizendo que achava Sérgio "uma figura". Com o tempo, os beijos já não se restringiam ao nosso "lugar secreto". Trocávamos beijos a torto e a direito em qualquer lugar (menos no meio de uma aula, é claro), principalmente na varandinha do final do corredor, em frente às salas dos primeiros períodos, a ponto de ouvir uma vez um comentário de um colega dizendo que "a faculdade inteira estava escandalizada com os beijos de desentupir pia que a gente vivia trocando na frente de todo mundo". Eu nem ligava, até gostava que nos vissem. Com certeza reclamavam por inveja e despeito!

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