Os anéis de Saturno
Mais uma derrota e mais um vexame! Mas não ia entregar os pontos tão facilmente. O curso estava cheio de rapazes e mais rapazes, impossível que não tivesse algum que se interessasse por mim e fosse correspondido! Travei amizade com um rapazinho muito lindo, mais novo do que eu, "calouro da Amanda na Engenharia". Sentou-me ao meu lado algumas vezes (pensei que já ia começar de novo aquela história da "cadeira vazia"), mas era bastante tímido. Amanda me dava força, dizia "agarra ele! É um bom rapaz, mas muito tímido!". Imagine se eu ia agarrar um rapaz assim! Depois de umas duas semanas, ele disse que ia largar o curso pois o de engenharia estava exigindo muito dele. Lá se vai mais um!!! Amanda começou a insistir que eu deveria ligar para ele. "Mas ele nunca me deu o telefone dele!". "Mas eu tenho, por causa de um trabalho em grupo que fizemos! Você tem que ligar! Liga, na maior cara de pau, diz que está com saudades dele, marca um encontro, sei lá, mas LIGA!!!! Passei dias em agonia, sem saber se ligava ou não. Às vezes tomava coragem e pegava o telefone, mas, quando começava a discar, meus dedos tremiam e sentia aquele frio na barriga... e, afinal das contas, dizer o quê??? Depois de muito "ligo-não ligo-ligo-não ligo", prendi a respiração e liguei. Quem atendeu foi a mãe, ele não estava (e me senti aliviada por isso!). "É do grupo da engenharia?" perguntou ela. "Não... é só uma amiga.... eu ligo outra hora... obrigada". Nunca mais tive coragem de ligar de novo, mesmo tendo que aturar as reprimendas de Amanda. No outro semestre ela também deixou o curso, pelo mesmo motivo. Aliás, a turma se dispersava cada vez mais. Muitos eram reprovados e, se a matéria "puxava" muitas outras, preferia continuar no turno da manhã, que era em semestres alternados com o da noite e não se precisava esperar um ano inteiro para cursar a matéria novamente. Outros desistiam por causa de outros cursos, outros porque estavam sobrecarregados no trabalho, outros diminuíam o ritmo, fazendo menos matérias em cada período. De repente, vi-me praticamente em meio a estranhos, todos do Grupo estavam em outras turmas ou tinham desistido. Mas alguns continuavam, entre eles Orlando. A essas alturas eu já estava totalmente desanimada com o curso e também com a conversa da maioria dos rapazes. Orlando não era "nenhum Roberto", mas também gostava de conversar sobre música e outros assuntos que não fossem relacionados a finanças, custos, problemas na empresa, etc. Uma vez, estávamos na varandinha do fim do corredor, ao lado da nossa sala (e com uma vista magnífica pois estávamos no oitavo andar) e esta estava apinhada de alunos da contabilidade (cujas salas eram no mesmo andar que as nossas) e de outros períodos. Comentei com Orlando que já estava cansada daquela gente "com cabeça de robô", que só sabia falar em cálculos. Ele sorriu e concordou. A certa altura, Orlando e a maioria dos outros deixou a varandinha e me vi praticamente sozinha com um rapaz muito magrinho, com uma franjinha "à la Spock" da série "Jornada nas Estrelas" e do tipo hiperativo. Chamava-se Sérgio. Falava depressa e nervosamente, e tinha alguns tiques nervosos. Era formal ao ponto de ser cômico. Era, por assim dizer, "meu calouro", pois estava começando o curso e eu já estava no segundo ano. Desculpou-se por se intrometer em assunto alheio, mas estava curioso em saber o que eu queria dizer quando tinha comentado sobre gente "cabeça de robô". Expliquei meu ponto de vista e ele concordou. A noite estava linda e estrelada e o assunto virou astronomia, pois ele tinha cursado dois períodos (e desistido pois o curso era puxado demais e não apresentava muitas perspectivas em termos de carreira). Comentei que também pensei em cursar astronomia quando era criança, pois sempre adorei ver as estrelas, mas que tinha desistido da idéia quando vim a saber que os astrônomos não ficam o tempo todo só contemplando estrelas, mas sim calculando posições, velocidade, enfim, é mais matemática do que contemplação. Ficamos ali conversando por mais de uma hora, e comecei a achar que ele falava demais e me sentia esgotada. Mas não conseguia arranjar uma boa desculpa para "sair de fininho" e a conversa continuava. Ele disse que um dia iria me convidar para ir ao observatório com ele, pois ainda conhecia alguns dos professores e eu ia adorar ver as estrelas e a lua nos enormes telescópios que eles têm. Achei a idéia interessante, pois sempre tive mesmo curiosidade de visitar um observatório, mas ao mesmo tempo achei muita ousadia da parte dele ir me fazendo esse convite assim, sem nem me conhecer direito. Disse que "ia pensar no caso", na esperança de que ele se esquecesse (ou desistisse do curso, como todos acabavam fazendo). Realmente sumiu por umas semanas, mas nem liguei e acabei me esquecendo dele completamente. Voltou dizendo que tinha pego uma virose e que estivera mal por várias semanas, mas que agora já estava bem e que ia marcar a nossa visita ao observatório assim que pudesse. Pensei cá comigo: "pois sim!".
Mas Sérgio não esqueceu e, um belo dia, resolveu marcar a visita para a próxima sexta-feira, quando não teríamos muitas aulas (e "mataríamos" uma ou duas). Sem saber como recusar, e também pensando nas estrelas, aceitei o convite. Mas.... estava bastante apreensiva. Praticamente não conhecia o rapaz e ia com ele num lugar escuro e um bocado remoto e praticamente deserto (pois o Observatório fica no alto de um morro). Magrinho do jeito que era, se tentasse me atacar, era fácil lutar, pensava eu, mas ele não fazia o tipo perigoso. Havia outro problema: um rapaz convida uma moça para sair assim à noite para ver estrelas sem ter "segundas intenções"? Estaria Sérgio a fim de mim e usando o observatório só como um pretexto para o nosso "primeiro encontro a dois"? Fisicamente, ele não fazia o meu tipo... aliás, tirando astronomia, algumas músicas e filmes, não tínhamos muitos pontos em comum. Mas era a primeira vez que um rapaz me convidava para um passeio "a sós"! Mas, não! Não estava interessada nele e pronto! Ia lá ver as estrelas e nada mais! Se ele me beijar ou algo parecido, recusaria! Surpreendentemente, mamãe não se opôs ao meu programa. Mas, pensando bem, nem tão surpreendente assim, pois, como já disse, se o rapaz estava de carro, ela não se preocupava tanto (mas mesmo assim sabia que estaria na janela observando quando ele chegasse para me buscar...). Nem caprichei nas roupas e na "produção", para não "animar" o rapaz. Lógico que fiquei a sexta-feira inteira na maior tensão, como sempre acontece quando vou sair com amigos ou mesmo recebê-los em casa... o friozinho na barriga, cólicas, ameaça de diarréia, urinando a toda hora. E eis que avisto da janela o carro estacionando - um modelo moderno e elegante - era do pai dele, mas mesmo assim, ele no volante daquele carro me causou melhor impressão do que nas conversas pelo corredor da faculdade. E lá fomos nós para o Observatório. A visita foi inesquecível, uma das experiências mais incríveis da minha vida. Sérgio conhecia muitos dos alunos e até assistimos uma aula por alguns momentos (com projeções de slides), fui "apresentada" ao relógio movido a energia atômica, que marcava a hora da maneira mais acurada possível. Um professor, que me pareceu bastante excêntrico (como, aliás, todos os alunos, muitos usando roupas em estilo "hippie"), levou-nos para o salão do telescópio gigantesco. Acionado um botão, a cúpula se abre e gira lentamente, num cenário que lembrava filme de ficção científica. A primeira coisa que vi foi a lua cheia, com suas crateras impressionantes. E chegou a vez da estrela mais próxima de nosso sistema solar, Alfa Centauro. Que maravilha ver aquele brilho intenso, lembrando a Estrela de Belém e pequenos pontinhos luminosos que eram os seus planetas. Ver outro sistema solar, talvez até habitado! Mas a maior emoção mesmo foi ver Saturno, com os seus inacreditáveis anéis. Uma coisa é a gente ver fotos nos livros, outra é estar ali vendo que o planeta e os aneis são "reais", que estão bem ali no céu. Quase tive que me beliscar para ver se não estava sonhando, é algo mágico! Realmente, a noite estava "de encomenda": lua cheia, céu sem uma nuvem, temperatura amena, grilos cantando nos arredores. Fiquei encantada com tudo e me felicitei por ter aceito o convite pois realmente tinha valido a pena. Encerrada a visita, voltamos para o carro e Gustavo demorou um pouco a dar a partida. Pensei cá comigo: "é agora que ele vai tentar me beijar!". Mas ele só estava esperando um outro carro sair do caminho, pois o estacionamento era estreito. Deixou-me em casa com o tradicional "dois beijinhos no rosto" e sensação de dever cumprido. Na hora, senti-me aliviada pelo fato dele não ter "forçado a barra". No dia seguinte, acordei sentindo-me confusa e frustrada. Então ele só queria mesmo me levar para ver as estrelas? Só amizade mesmo? Um rapaz convida uma moça para sair com ele e no final não está com "segundas intenções"? Que espírito contraditório o meu! (ou será assim com todas as mulheres?). Já estava detestando o cara por antecipação, pensando que ele iria tentar me beijar, toda preparada para rechaçar qualquer tentativa e, no final, quando ele não me beija, sinto-me como que traída e decepcionada? Vai entender!!!!!