Música, divina música

 

Um professor marcou trabalho em grupo e resolvemos juntar o útil ao agradável. Roberto sugeriu que nos reuníssemos em sua casa pois assim, ele ganharia tempo (pois queria passar a manhã na praia e depois dormir um pouco depois do almoço - e se a reunião fosse na casa de algum de nós ele ainda teria que dirigir e acordar mais cedo) e nós teríamos finalmente a oportunidade tão esperada de vê-lo tocar. O assombro já começou pela casa onde morava com os pais (aliás, um casal adorável): era grande e muito bonita (numa cidade onde as casas são tão raras...). As paredes cheias de quadros de estilos variados, do clássico ao moderno abstrato, com molduras de estilo barroco. Impressionada, elogiei os quadros. Roberto riu e disse para eu dar uma olhada mais de perto e conferir a assinatura do pintor... todos traziam a assinatura dele! Um exímio pintor! De mistura com as pinturas, algumas fotos em preto e branco muito lindas: Roberto com uma linda jovem, posando para uma marca de Jeans. Tão lindo que já tinha até sido modelo! Enfim, sentamos à mesa para discutirmos alguns aspectos do trabalho em grupo, mas no final das contas conversamos sobre tudo menos a matéria (como sempre - e resolvemos só dividir os capítulos, para depois juntarmos tudo (Roberto sem tempo! Não tinha importância nenhuma, eu podia muito bem fazer a parte dele e a minha, sem problemas!!!!). E vamos ao que interessa, toca piano, Roberto!

E Roberto começou a tocar. Os dedos mal se mexiam, tamanho o domínio da técnica e a leveza dos gestos. O som parecia não vir do piano, mas sim do ar, do céu, não sei bem. Fiquei totalmente enlevada. Ele tocava divinamente! Atendendo a sugestões de uns e outros, foi alternando peças clássicas com sucessos da música popular, e também algumas canções do meu tecladista preferido. Era demais! Meu corpo se arrepiava de alto abaixo, sentia uma moleza, pensei até que ia desmaiar. Lancei um desafio: que tocasse Fantasia-Improviso de Chopin (uma peça considerada dificílima e "para poucos"). Pois nem hesitou e foi tocando com a maior displicência e minha alma se elevou às alturas, num verdadeiro êxtase.Saí de lá completamente apaixonada. Aquele homem TINHA que ser meu. Não podia passar essa oportunidade em minha vida. Onde encontraria outro homem tão completo, tão perfeito, tão... tudo?

"Roberto, você é a pefeição personificada!", sussurrei-lhe no ouvido no meio de uma aula monótona. A primeira reação foi de espanto, como se não entendesse bem o que eu queria dizer com isso. Depois ficou sério, com o olhar distante, como se estivesse refletindo... mas não disse uma palavra.

A partir daquele dia, viramos "unha e carne". Vivíamos juntos, conversando, nos divertindo sussurando piadinhas durante as aulas chatas... mas... ele parecia nunca "se decidir". Não entendia o porquê. Timidez... não, ele era bastante extrovertido. Faltava-me a coragem para "dar o primeiro passo" em direção a um romance...ainda mais que ainda achava que isso devia ser iniciativa masculina. O que fazer então? Uma vez, dispensados cedo das aulas, sem pressa para chegarmos em casa, Roberto me levou para um passeio nos jardins atrás da faculdade, que à noite eram bem escuros e propícios a um primeiro beijo ou algumas carícias... Fomos caminhando - e conversando sobre amenidades - até o ginásio esportivo. Lá ficamos por uma meia hora, observando alguns alunos fazendo ginástica. Céu estrelado, lua, penumbra... tudo convidava ao amor... só que nada acontecia! Sem que eu sentisse, fomos indo em direção ao estacionamento, devagar, e como a "minha carona" (Tiago) já tinha ido embora (ainda bem!), ofereceu-me carona. "Ai!" pensei "carro é chance! sempre pinta um clima! é no carro que ele vai me beijar!". Chegava a tremer de ansiedade, mas não de medo. Sentia que poderia me entregar por completo, naturalmente, e meu corpo e alma ansiavam por isso. Saindo com o carro do estacionamento, Roberto fez uma curva meio estabanadamente e eu, "solta no assento", numa época em que os cintos de segurança ainda não eram obrigatórios e não havia campanhas a respeito de sua utilidade, caí de lado por cima dele, vencida pela força Lei da Inércia. Pensei cá com os meus botões: "teria feito de propósito, só para que eu caísse assim no ombro dele?". Mas fui entregue "sã e salva" em casa, com os tradicionais dois beijinhos sapecados no rosto, displicentemente. Que frustração! E não conseguia atinar com o que poderia estar errado, o porquê dessa indecisão da parte dele. Por quê me levou para aquela parte da faculdade, geralmente só visitada por namorados em busca de alguma privacidade? Por que a curva que me atirou para o lado dele? Por quê? Por quê? Minha cabeça era um ponto de interrogação constante.

A essas alturas, resolvi "revelar o meu segredo" e me abrir com os amigos, para ver se eles tinham alguma idéia do que poderia estar dando errado ou então algum conselho útil (já que eu era totalmente inexperiente na matéria). E até mesmo podiam dar "uma forcinha", dando uma de cupido e encorajando Roberto a tomar uma atitude.  Um dia, voltando de carona com Tiago e Rita, resolvi me abrir:

 

- Será que vocês ainda não notaram nada?

- Como assim?

- Ah.... estou de paixão nova... mas o rapaz parece tímido, sei lá, não se decide... e não sei o que fazer... Me espanta vocês não terem percebido nada!!!

-  Quem é a vítima desta vez? (perguntou Tiago)

- Pára com isso, Tiago, que mania de implicar comigo! E impossível que não tenham percebido! Eu tento se discreta, mas sempre acabo dando bandeira, transparente do jeito que sou, não sei esconder meus sentimentos!

- Juro que não sei de quem se trata! (insistiu Tiago. Rita permanecia calada, bem no sei estilo.)

- Roberto!!!!! Puxa vida!!!! Quem poderia ser???

- Ah! Roberto! Não imaginei que fosse ele pois é gay!

- Que????? Rita, você que estudou psicologia e entende mais da vida do que nós - além de ser mais perspicaz - você concorda com o que o Tiago disse? Sabe como é, ele é muito machista, Roberto sendo tão ligado às artes, deve ser preconceito dele, não?

- Hum... creio que não, Lucia... venho percebendo isso faz tempo... um dia encontrei com ele por acaso no metrô, quando ambos íamos para o serviço, e ele parecia outra pessoa. Acho que aqui na faculdade ele mantém uma imagem de "macho", mas no metrô estava cheio de trejeitos... Tenho quase certeza absoluta de que ele é gay!

 

Fiquei sem reação. NUNCA tinha me passado pela cabeça tal coisa. A primeira coisa que me veio à cabeça é que Rita devia estar com inveja... Roberto era muito mais bonito e charmoso do que Tiago... Mas aquilo ficou martelando na minha cabeça, a dúvida se instalou. Passei a observar melhor todos os movimentos de Roberto, mas não notava trejeitos ou algo parecido. Naquela época, conforme já comentei, era totalmente pura de corpo e alma, não conseguia ainda nem entender completamente o mundo masculino hetero, quanto mais homossexual. Era um conceito, algo longe da minha realidade (pois nunca havia lidado com nenhum em minha vida). O meu único ponto de referência era a literatura... e o homossexualismo era sempre visto de forma trágica: um homem sentia atração por outro (ou uma mulher por outra), mas vivia em luta quanto a esses desejos tão pouco naturais. Vivíamos numa época antes da AIDS e também do "politicamente correto", dos direitos das minorias, das reivindicações contra peconceitos - tudo isso viria bem mais tarde. Eu pouco sabia sobre o mundo homossexual e o assunto não era comentado amplamente pela mídia como acontece hoje em dia. Parecia-me algo causado por "algum trauma de infância", pai ausente, mãe superprotetora. Enfim, algo causado por circunstâncias e não algo "da natureza do indivíduo". Na minha cabeça, ninguém gostava de ser homossexual (já que, naquela época, poucos assumiam a condição) e sofriam por ser assim. Ainda mais: acreditava que eles podiam deixar de ser gays, se realmente desejassem e se tivessem "a mulher ideal" que os pudesse seduzir.

 

Então, resolvi continuar tentando conquistar Roberto (ou, acreditando que ele já gostava de mim, encorajá-lo a se declarar). O próximo passo seria contar com um "empurrãozinho" dos amigos. A essas alturas eu já marcava umas festinhas lá em casa, com muito bolo de chocolate e guloseimas, e o pessoal se divertia um bocado. Passei até fazer festinhas no meu aniversário e convidava também minhas colegas de infância, incluindo Julia e a irmã. Num desses encontros, Roberto compareceu e, estando sentado na poltrona, coloquei uma música romântica para rodar no toca-discos. O pessoal, liderado por Claudio (como sempre, o mais agitado do grupo), me agarrou e praticamente me jogou no colo dele, que se esquivou feito uma enguia e se levantou em seguida, muito ruborizado. Até minha mãe achava Roberto encantador e "deu sua bênção" para o romance que se fazia iminente (pelo menos no meu ponto de vista). "Que rapaz elegante e charmoso, até suas roupas são finas, seus gestos requintados. Este sim vale a pena!!!". Para quem era sempre "do contra" como mamãe, era de se espantar tais observações. Só uma nota veio jogar um pouquinho de água fria no meu entusiasmo: Quando o assunto virou para bebidas, Roberto, muito orgulhosamente, mostrou que trazia na carteira comprimidos de Engov. Lembrei-me logo do episódio da Vodca, com o Ernesto. Realmente, as pessoas que bebiam me repugnavam e o cheio de bebida tirava de mim qualquer desejo sexual. Mas, não ia desistir de homem tão espetacular apenas por um "defeitinho" que podia ser corrigido aos poucos, com amor e carinho... (olha a minha ingenuidade novamente, achando que a gente pode fazer um parceiro mudar seu comportamento....).

 

Mais esta tentativa frustrada, o jeito era ser mais contundente, ou seja, demonstrar meus sentimentos, senão diretamente, de forma a não deixar muitas dúvidas. Estávamos novamente a sós  (quer dizer, sem conhecidos por perto), sentados num dos bancos no hall nosso andar (esses halls eram enormes, com mesinhas e bancos e, em andares alternados, tinham uma cantina). Resolvi usar de um subterfúgio para conseguir meu intento. Como volta e meia conversávamos sobre aquela minha paixão platônica do passado pelo vizinho dele, pensei que ele podia estar magoado com isso, achando que eu só queria a amizade dele para me aproximar do outro, e isso mesmo falei a ele, deixando claro que não era o caso e que "gostava muito dele". Ele ficou calado por alguns instantes, e veio com um assunto que me surpreendeu bastante, pois nada tinha a ver (aparentemente) com o que estávamos conversando:

 

- Sabe... neste fim-de-semana assisti a uma peça de teatro que me tocou muito... o nome da peça é "Lágrimas Amargas de Petra Von Kant"... a protagonista diz coisas que sempre quis dizer... ela tinha uma namorada..

 

- Também gosto de teatro, embora prefira cinema. Mas... você quer dizer "namorado", né?

 

- Não! Petra tinha uma namorada!

 

A essas alturas, creio que algum conhecido chegou e o assunto foi deixado de lado. Parecia uma charada. Cheguei a comprar o livro da peça para ler e entender o que ele queria me dizer com aquilo. A peça tratava de homossexualismo e do preconceito das pessoas com relação a essas condição, entre outras coisas. Estava claro que, sutilmente, ele queria me dizer que não podia me corresponder pois era gay... foi uma forma até cavalheiresca e delicada de não me magoar e ao mesmo tempo ser franco e não alimentar minhas ilusões... Mas eu era "cega social", não era? E minha mente se recusava a aceitar a realidade, pois isso significava mais uma derrota, mais uma vez eu passando o vexame de gostar de alguém que nunca nem pensou em corresponder. Eu TINHA que acreditar que estava vivendo um romance, TINHA que estar apaixonada, pois era isso que me mantinha viva (e me mantinha no curso), a paixão foi SEMPRE o meu "motor" na vida, a força por trás dos meus atos. Não conseguia fazer nada sem estar apaixonada e, se a paixão não era verdadeira, só ilusão da minha cabeça, era preciso alimentar esta ilusão até encontar "outra vítima" (como gostava de dizer Tiago, só para me chatear).

 

Acredito que, na verdade, nunca fui "cega social", muito pelo contrário, diria até que era a primeira a sentir "algo no ar", ainda mais que sempre tive muita intuição e sexto-sentido mas... algo em mim "bloqueava" a verdade e eu fingia não ver, pois ver - e perceber a verdade - me fariam sofrer.

 

Chegou a temporada de provas finais e, como sempre, todo mundo desesperado com tanta matéria para estudar, fracassos em provas anteriores, professores cada vez mais intolerantes... Roberto fazia questão de se sentar a meu lado nas provas (era a única vez que tinha alívio daquela verdadeira "agonia da cadeira vazia") e, é claro, pedia cola. E mandava meus princípios às favas, um rapaz tão genial quanto Roberto não merecia perder tempo estudando assuntos tão áridos, melhor gastar energias pintando e tocando piano. Dava cola de muito boa vontade, mas sempre ficava pensando no que Amanda me tinha dito logo no início do semestre, que tinha a impressão de que Roberto era oportunista. Que fosse, eu não me importava!!! Podia usar e abusar! Fazer de mim o que quisesse, a ele, não recusaria NADA (foi a primeira vez em minha vida que me senti assim, totalmente entrege - e sem medo de me entregar). Ele conseguiu passar em algumas matérias, foi reprovado em outras, mas no final acabou anunciando ao grupo (e isso me magoou, pois achava que ele deveria ter me dado a notícia primeiro) que iria desistir do curso, pois estava sobrecarregado com o trabalho no banco e o trabalho noturno nos restaurantes e piano-bares, nem tinha tempo de dormir. Mas insistiu que iríamos continuar amigos e disse que fazia questão de que o visse tocando no restaurante de um hotel bastante chique e famoso na época.

 

Tinha que manter o vínculo! Além disso, morria de vontade de ouvi-lo tocar novamente. O problema é que não tinha dinheiro para o jantar (e não se podia ir ao restaurante só para ouvir o pianista tocar, obviamente), o hotel era muito distante e, sendo tarde da noite, precisava de alguém que me levasse de carro. E não tinha roupas adequadas!!! Mas, quando se está apaixonada, nada nesse mundo é obstáculo intransponível! (pelo menos era assim comigo). Meu irmão e esposa se prontificaram a me levar... mas também estavam curtos de grana, e com isso eu teria que arranjar grana para pagar um jantar para 3! Lancei mão do meu recurso de sempre, o meu ganha-pão desde a infância: pintar camisetas. Havia sempre demanda na repartição pública onde uma de minhas tias tabalhava, e começaram a chover encomendas. Passava as tardes pintando camisetas, tabalhei um bocado, mas consegui juntar a quantia necessária. E esta mesma tia resolveu o outro problema: tinha um guarda-roupa abarrotado e me emprestou uma "roupa elegante". E lá fomos nós. Assim que entramos, avistei Roberto ao piano, muito lindo e elegante num paletó marrom. Saudou nossa entrada tocando uma das minhas músicas favoritas, que encanto! Assim que fez uma pausa, veio à mesa falar conosco e parecia muito satisfeito com nossa presença. Minha ex cunhada ficou encantada! (aliás, quem não se encantava com ele?). O jantar, à luz de velas e com uma vista de tirar o fôlego (pois o restaurante ficava no terraço do hotel), foi delicioso. Só ficava um pouco aborrecida de ver que muitas pessoas conversavam em voz alta sem prestar nenhuma atenção à música - o que considerava o maior desrespeito pelo pianista. Comentei isso com Roberto e ele disse estar acostumado, pois piano nesses lugares era só mesmo "música de fundo" e não era o objetivo principal das pessoas assistir a uma audição. Disse que já tinha até aguentado bêbados que faziam arruaça e ficavam pedindo músicas a torto e a direito, como se o pianista fosse um mero escravo. Que aviltamento da arte! A que os pianistas precisavam se submeter para viver! Nossa mesa ficava bem na parte de trás do piano meia-cauda, e assim podia ver o rosto de Roberto o tempo todo. Em alguns trechos mais românticos de alguns clássicos, ele olhava para mim com olhos lânguidos, de um jeito que me confundia. Minha cunhada também notou e duvidou que ele fosse realmente gay, parecia lancar-me olhares apaixonados enquanto tocava. Enfim, foi uma noite inesquecível, encantadora.

 

Depois disso, não nos vimos mais. De vez em quando nos telefonávamos, mas o contato foi rareando cada vez mais e, certa vez, liguei para o banco e me disseram que ele não trabalhava mais lá. Liguei para a casa dele e a mãe, muito gentil, disse que ele estava agora "dividindo apartamento com uns amigos" e me deu o telefone. Liguei, ele não estava, deixei recado com o rapaz que atendeu... mas ele nunca retornou a ligação. Tal decepção foi mais um tijolo no Muro...

 

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