Mais uma etapa
O segundo semestre chegou e, com ele, novas esperanças e também novas decepções. Com relação ao curso, quando via a lista de matérias e o resumo que os professores apresentavam do que seria estudado naquele período, sentia-me tensa, frustrada e deprimida. Cheguei a conclusão de que o curso não tinha nada a ver com a minha personalidade, que era como uma gota de óleo querendo se misturar a um monte de água. Uma pessoa mergulhada em sonhos, amante do romantismo, da música e da literatura e artes em geral, com a sensibilidade a flor da pele, encarar assuntos tão áridos quanto "estatística", "análise de custos", "investimentos", "chefia e liderança" e por aí afora. A maioria dos alunos, já trabalhando no ramo, conversavam com os professores sobre assuntos, siglas e nomenclaturas que, ao que parece, eram totalmente familiares neste ramo... e eu boiava, não entendia nada de nada. O que fazer? Não era da minha natureza desistir de algo já começado e, pensava cá comigo, se desistisse, tudo o que já tinha estudado - e com muito esforço - seria em vão, tudo perda de tempo, tudo jogado fora. Outra coisa me mantinha no curso: a esperança de arranjar um namorado. E, como eu sempre "tinha alguém em vista", o jeito era continuar aguentando aquelas matérias insossas. Tudo contribuía para o desânimo: professores rigorosíssimos, alguns até grosseiros e desumanos e outros apenas obcecados por reprovar o maior númemero possível de alunos (provavelmente para satisfazer seus egos inflados). Colegas desmotivados, pois a maioria cursava Adm só para ter maiores oportunidades na empresa onde já trabalhavam, ou para complementar o currículo (na maioria, gente que estudava engenharia. Como nesta área a concorrência é muito grande - e as oportunidades escassas - era sempre bom ter outro diploma na bagagem). O fato é que ninguém fazia o curso "por amor às matérias", e sim por necessidade ou conveniência. Isso só contribuía para o meu desânimo. Mas, se havia decidido cursar Adm até o fim, o negócio era me dedicar aos estudos o máximo possível: anotar tudo que os professores falavam, ler os livros recomendados inúmeras vezes, fazer exercícios, tirar dúvidas com colegas mais adiantados. Como o curso era no sistema de créditos, a gente podia escolher a hora de cursar as matérias, não era necessário seguir a agenda do curso à risca. Com o tempo, isso veio a calhar, pois era sempre bom "pesquisar" com alguém que já havia cursado certa matéria qual o professor menos "carrascos", o que realmente provou ser de grande utilidade e abri mão do recurso sempre que havia opções. Até cursei algumas matérias no turno da manhã, já mais para o final do curso.
Mas, voltemos ao segundo semestre. Ao mesmo tempo que trazia frustrações (e também tensão, pois muitos professores, para não começar a matéria na primeira aula e não querendo dispensar a turma, abria um círculo com as carteiras e fazia cada aluno se apresentar e dizer algo sobre si - o que me causava pavor e lá vinha aquele frio na barriga, o joelho sacolejando pra cima e pra baixo, suor frio, e quando chegava a minha vez de falar, sempre falava muito pouco - e me sentia quase que numa espécie de "transe") trazia também novas possibilidades de superar aquele "caso Tiago" e partir para outras conquistas, pois outros tantos professores optavam por dispensar a turma após algumas palavras de apresentação do curso, e outros sequer apareciam. Nos tempos vagos, conversas para todos os lados. Claudio, Amanda e alguns outros amigos do Grupo vieram me apresentar um novo colega, que Amanda conhecia pois havia cursado com ela uma matéria no turno da manhã no semestre anterior. "Lucia, queremos te apresentar um cara que trabalha com os dedos!" e começaram mexer com os dedos trocando rizadas e olhares maliciosos. Roberto era pianista, tocava em piano bar e restaurantes requintados. O fato de ser pianista já fazia uma "corda" vibrar dentro de mim, o meu grande sonho! Ser pianista ou casar-me com um! E o rapaz era muito bonito e charmoso. Logo logo "monopolizei" Roberto e passamos o resto do tempo vago conversando sobre música. Ele tinha formação clássica na Escola de Música e sabia tudo dos clássicos. Senti-me nas nuvens! Um verdadeiro "oásis" no meio de tanta conversa sobre números e mais números. Para o cúmulo da coincidência, quando ele comentou onde morava, perguntei se ele conhecia aquele rapaz com quem tinha nutrido uma paixão platônica por tantos anos (e que sabia morar na mesma vizinhança). Não só conhecia, como tinham sido amigos de infância. O assunto virou de música para detalhes da vida dos dois quando criança (pois, mesmo que já tivesse perdido as esperanças em relação a ter um romance com ele, ainda tinha curiosidade sobre sua vida). Roberto riu muito quando lhe disse que foi um dos que me incentivaram a cursar Adm. "Estudar não era com ele!!! Terminou o Segundo Grau com muito esforço!!! Faculdade??? Piada!!".
A partir de então, ficávamos juntos a maior parte do tempo e eu vivia em angústias, pois ele quase sempre chegava atrasado (pois trabalhava também num banco - viver só de música é muito difícil). Era obcecada para que ele sentasse ao meu lado, mas não podia simplesmente "reservar uma carteira para ele", pois não queria que os colegas percebessem a minha atração por ele (para não começarem a dar palpites ou fazer piadinhas), e também não queria "assustá-lo", mostrando-me muito ansiosa e demonstrando explicitamente que estava interessada nele (pelo menos não queria demonstrar isso tão cedo). Ficava olhando a carteira vazia a meu lado e, a cada vez que a porta da sala se abria sentia um sobressalto e o coração batia acelerado... mas chegava um, chegava outro, e nada do Roberto chegar... e alguém acabava sentando na carteira vaga a meu lado... só para eu ter a tortura de ver o Roberto chegar logo em seguida e sentar bem longe. Isso era uma verdadeira tortura que se repetia a cada aula, chegava a tremer de ansiedade e, na maioria das vezes, o pobre infeliz que se sentava a meu lado era xingado a mais não poder (por dentro), a ponto de despertar-me ódio. Cheguei até a pensar num complô para me separar do Roberto, ou então ele próprio querendo me torturar com seus atrasos... sabendo que me fazia sofrer vendo-o sentar-se tão longe de mim. Toda uma trama se desenrolava na minha cabeça, e os protagonistas e coadjuvantes (com excessão de mim mesma) provavelmente não tinham a mínima idéia da novela da qual participavam. Desta vez queria ser o mais discreta possível, pois se a coisa não desse certo, não passaria pelo vexame anterior, quando tinha tão explicitamente demonstrado meus sentimentos para com Tiago - só para ter que passar pela humilhação de vê-lo jogar-se aos braços de outra bem debaixo do meu nariz. Além de tudo, era melhor não despertar a curiosidade das outras meninas, que pareciam não ter ainda se dado conta do tesouro que estava ali, muitas vezes (quando a sorte me favorecia a carteira ainda estava vaga) a meu lado, conversando e conversando, eu cada vez mais hipnotizada com aquela pessoa linda e genial. Roberto falava Inglês e Francês - e também escrevia poesias. Uma vez, numa aula monótona, escreveu, só para passar o tempo, uma poesia em Francês e outra em Português, ambas lindíssimas (pelo menos na minha opinião). E sobe também que pintava quadros. Era demais!!!! Pianista, pintor e poeta... lindo e charmoso... cavalheiro.... Seria o "homem perfeito" que eu tanto buscava? Não havia assunto sobre o qual Roberto não dominasse, de finanças à moda. Estava morta de curiosidade de ouvi-lo tocar - e esta passou a ser a meta.
- Lucia, cuidado com o Roberto! Amanda sussurrou no meu ouvido
- Mas por quê???
- Sei lá.... ele me parece... hum... não sei... talvez interesseiro...
- Em que sentido?
- Não sei bem, mas ele não me inspira muita confiança... talvez queira se aproveitar de você nas provas ou nos trabalhos...
- Hum... não creio (fingi naturalidade)... mas, de qualquer maneira, vou ficar de olhos bem abertos!
- É isso aí! Cuidado para não se machucar...
Fiquei com a pulga atrás da orelha. Amanda tinha sido muito reticente... Talvez ela só quisesse me afastar de Roberto, continuar aquela nossa "antiga disputa". Ou será que ela estava certa e Roberto nada mais era do que uma nova versão do Fernando, que só queria mesmo cola na prova? Era esperar para ver... mas, enquanto isso, curtir aquela nova paixão "avassaladora" que crescia dentro de mim.