"Estranha no ninho" outra vez?

 

Depois da "pausa para reflexão" nas férias de julho, resolvi começar o novo semestre dando a volta por cima. Realmente, para minha própria surpresa, não sofri pelo fato de ter "perdido" Tiago. Não derramei uma lágrima sequer. O que incomodava era o sentimento de derrota, de humilhação, de ter feito papel de boba e ingênua. Era preciso partir para outra, urgentemente e colocar uma pedra no assunto. Continuei amiga deles e fazendo parte do Grupo, mas... fui me afastando aos poucos, e a própria natureza do curso em estilo seriado propiciava isso, pois cada a cada semestre muita gente sumia e muita gente nova aparecia, pois éramos livres para fazermos as matérias quando fosse mais conveniente. Além disso, muita gente tinha sido reprovada em Cálculo e Contabilidade e estava repetindo no turno da manhã. A turma foi diminuindo, diminuindo... Este sistema tinha grandes vantagens, pois podíamos escolher a hora mais conveniente para cursar determinado assunto e, além de tudo, procurar informação sobre os professores e esperar para cursar com os que fossem menos rigorosos. Mas, no lado pessoal, tinha uma desvantagem horrível: via os colegas com quem tinha feito amizade (com tanto esforço!) sempre mudando para outras turmas ou até mesmo trancando a matrícula (posto que muitos cursavam outras faculdades concomitantemente e, a certa altura, começavam a não dar conta das duas). Amanda trancou a matrícula para ficar só no curso de Engenharia em outra faculdade. Tiago e Rita já não faziam todas as matérias junto comigo. Aquele meu grande amigo passou para o curso da manhã, pois morava longe e os ônibus escassos para aquela área após as 10 da noite. E eu tinha tanta necessidade de me apegar a alguém, de ter amigos, de me sentir estável e segura de que eles não iriam desaparecer... 

 

Apesar de tudo, o Grupo continuou se reunindo regularmente, até com muitos acréscimos: alguém trazia o irmão, outra trazia o namorado, outro uma amiga que queria conhecer o "famoso grupinho". Conforme o grupo crescia, sentia-me cada vez menos a vontade e deslocada. E sempre o problema da "surdez" e da "cegueira" social para atrapalhar ainda mais. Uma vez, estávamos em um barzinho, há horas, e o papo era muito vazio e me entediava um bocado. De vez em quando puxava uma conversa mais elevada (sobre música, cinema, etc) com algum amigo ao meu lado, mas logo o Grupo reclamava que a gente estava se isolando e que todos queriam participar nas conversas. A certa altura, Amanda comentou: "Ai! que chato! a gente está perdendo um ótimo capítulo da novela das 8 hoje!". Não percebi que era apenas um comentário sarcástico e que ela queria dizer justamente o contrário, ou seja, que estava curtindo estar lá com o grupo ao invés de em casa assistindo novelas. Eu, muito ingenuamente, respondi: "É mesmo! E hoje era um capítulo praticamente decisivo!". Só que no meu caso não era ironia. "Noveleira" desde a infância, por influência de mamãe, confesso que, àquelas alturas, preferia estar em casa assistindo à novela do que ali, jogando conversa fora no maior dos tédios. Muitos trocaram olhares irônicos e só então percebi o fora que tinha dado.

 

Um dos rapazes que se juntou ao grupo nesse segundo semestre, o Claudio, era o novo "queridinho do grupo", mas eu não ia muito com a cara dele. Quer dizer, ele era uma pessoa legal mas... muito agitada para o meu gosto, tentendo à hiperatividade. Aos poucos, foi tomando a liderança do grupo e não deixava ninguém ficar quieto um momento sequer, sempre inventava um jogo, uma atividade, algo para "agitar". Isso me irritava um bocado. Na verdade, por incrível que pareça, sempre gostei de ser o centro das atenções (num grupo pequeno), ressentia-me de outra pessoa decidindo o que todos nós faríamos. Para piorar as coisas, Claudio tinha uma casa de praia e vivia convidando o Grupo para passar um fim de semana lá. Orlando, aquele da motocicleta, também tinha uma casa de praia, e, como já vinha fazendo o convite mesmo antes da gente conhecer Claudio, o Grupo decidiu que era justo visitar a casa dele primeiro. Durante umas duas semanas, as reuniões do Grupo foram só para acertar detalhes sobre o fim de semana na casa de praia do Orlando. Sem encontrar uma boa desculpa para declinar do convite, tive que aceitar, ainda mais porque tinha muito carinho pelo Orlando, era uma pessoa muito lega e um bom amigo. Mas, estava vivendo um terrível conflito interno. Nunca me senti a vontade dormindo na casa dos outros e por isso sempre evitei a todo custo (fora algumas poucas vezes que passei uns dias em casa de minha prima, e também na casa de minhas tias). Sempre fui cheia de manias na hora de dormir. Tinha que levar meu copo de água, tinha que ficar o mais perto do banheiro possível, pois urinava frequentemente durante a noite e, além de tudo, não conseguia dormir se não fosse em minha própria cama. A idéia de dormir junto com um monte de gente, mesmo sendo amigos próximos, me deixava acanhada, parecia que minha intimidade seria exposta. Mas, ao mesmo tempo, pensava em como seria bom conhecer uma praia nova e passear um pouco... e também, se não fosse, não saberia o que tinha rolado, todos os detalhes, as fofocas, etc. Passei vários dias em agonia, na base do "vou, não vou, vou, não vou, vou, não vou". Aconselhando-me com mamãe, ela repetiu o conselho que sempre me dava "Faça o que o seu coração manda". Decidi que não queria ir. Tinha medo (não sei bem de quê, talvez de passar vexame, de verem o quanto eu me comportava "como uma velha", principalmente à noite, de como era feia sem maquiagem toda arrumada e sei lá mais o quê). No dia seguinte, para total decepção de Orlando, disse que, infelizmente, minha mãe não estava se sentindo muito bem aqueles dias e precisava de minha ajuda. Ele ficou triste, mas compreendeu e não insistiu mais. Senti um alívio imenso! 

 

Um dia antes do marcado para todos irem para a praia (iriam no sábado de manhã  para voltarem no domingo à tarde), Amanda apareceu lá em casa de surpresa. Mamãe estava trepada em cima de uma escada, consertando a cortina da sala. Senti calafrios percorrendo meu corpo, tinha sido "pega na mentira". Ainda tentei disfarçar, dizendo que mamãe tinha melhorado aquele dia mas que ainda não estava boa, mas de nada adiantou: Amanda, sempre autoritária, disse que eu estava só arranjando desculpas bobas para não ir e que estava magoando o Orlando, pois ele estava tão entusiasmado com esse passeio e eu era parte importante do Grupo, etc, etc. Ficou "me passando sermão" por várias horas e acabei cedendo. Conforme já dissera aquela outra colega, eu ainda teria que aprender a dizer "não" e ser firme em minha decisão, sem ter que dar satisfações ou ter que arranjar desculpas esfarrapadas. Como tinha vontade de, simplesmente, dizer "não vou e pronto! Não estou com vontade!". Mas o medo de magoar Orlando, de contrariar Amanda, de ser desprezada pelo Grupo por não querer participar do passeio, tudo isso me fez ir passar o fim de semana na praia.  Mas, durante todo o tempo, me sentia um peixe fora d´água. Primeiro, decidiram fazer um grande churrasco: os homens cuidando de assar a carne e as linguiças e as mulheres preparando o molho. Tinha vergonha de dizer que nunca tinha cozinhado nem preparado comida alguma em minha vida, e não ficava bem ser a única a ficar lá sentada sem fazer nada. Fui para a cozinha e me deram cebolas para picar. Levei um tempo enorme e não conseguia partir em quadradinhos pequenos, como é tradicional nos molhos de churrasco. E ainda por cima meus olhos lacrimejavam sem parar e eu só tentando esconder das outras o quanto estava sendo desajeitada. Foi uma verdadeira tortura. A "minha salvação" é que Rita tinha levado as duas filhas na faixa de uns 8 e 10 anos e me ofereci para dar uma de babá (realmente o papel não me incomodava, pois gostava de brincar com crianças e elas eram boas meninas - e muito sabidas). Com isso, podia escapar das outras atividades do Grupo o mais que pudesse. Mas à noite, todos resolveram passear na praia e alguns tinha tomado vinho demais, principalmente Ernesto e até mesmo Orlando. Tiago, Rita e as Crianças ficaram em casa. Os mais sóbrios eram Claudio e um outro rapaz do curso de contabilidade que tinha entrado no Grupo recentemente. Me agarrei a este último, dizendo que era o único cavalheiro ali. Ernesto fazia um papelão: parou em frente a uma árvore para urinar e depois, junto com Orlando, decidiram mergulhar e tirar as sungas já na água. Era táo escuro que não se via nada, felizmente, mas me senti muito pouco a vontade e era alvo de muitas gracinhas e piadinhas por causa disso. E Ernesto atirou a sunga bem no meu rosto (e joguei longe, com nojo). Na hora de dormir, o único quarto da casa coube ao novo "Casal 20" (como chamávamos Tiago e Rita) e as meninas. Os outros todos se acumularam na sala, em colchonetes, camas de armar e a mim coube o sofá (pois os outros, já acostumados a essas viagens, tinham colchonetes e eu não). Quando apagaram as luzes (eu munida de lanterna, copo d´água, lenço e não me lembro mais quantos badulaques, um vexame!), senti alguém segurando meus pés. Era Ernesto, que ainda vivia me assediando. Reclamei em alta voz, e todos caíram na gargalhada. Não dormi praticamente a noite inteira, só dando um chochilo já quase ao amanhecer.. e fui ao banheiro umas duas vezes. Alías, era outro dos motivos de piada, pois o banheiro vivia cheio de perepecas, até mesmo dentro do vaso sanitário, e eu tinha verdadeiro horror de que alguma pulasse em mim. 

 

No dia seguinte, fomos todos tomar banho de mar e começaram as piadas novamente, pois era a única vestindo maiô inteiro (até Rita estava de biquini). Fui xingada de moralista, retrógrada, velha e antiquadra. A água era bem parada e isso me agradou um bocado pois não sabendo nadar, só assim podia curtir e ficar dentro d´água o mais tempo possível (o que sempre me agradou muito, pois detestava ficar deitada na areia me queimando). Fui andando, andando, e quando dei por mim já estava muito distante da praia. Mas me sentia bem naquele isolamento, sem ter que aturar gozações ou conversas bobas. Depois de um tempo, tive que voltar pois Orlando disse que havia o risco de eu ser queimada por uma água-viva, estando assim tão longe da praia. Na volta, todos resolveram tomar banho de mangueira para tirar a areia do corpo, e se divertiam com isso um bocado... menos eu, que resolvi tomar banho no banheiro. Como estava ocupado, deite-me numa rede para esperar e os rapazes vieram me encher de espuma de sabão da cabeça aos pés, eu gritando sem parar e eles às gargalhadas. Finalmente, fui tomar meu banho que, pensei, seria sossegado. Mas a janela do banheiro dava para o quintal e não tinha tranca. Volta e meia um dos rapazes ia lá e abria a janela, só para me ouvir reclamar. O meu "puritanismo" passou a ser a maior diversão do Grupo. Depois de tomar meu banho, com muito custo e sempre tomando conta da janela (e das pererecas), fui estender meu maiô para secar na corda... parecia enorme em meio aos biquinis e sungas, mais um motivo para risadas e mais risadas. Passei a, mentalmente, contar as horas, minutos e segundos para voltarmos para casa. Mais tarde, o golpe de misericórdia: enquanto voltava do fundo do quintal (onde resolvi dar um passeio e me afastar do Grupo por alguns instantes), não vi um degrau de cimento que o dividia do jardim e cai de joelhos no chão com grande barulho. Todos riram muito e, mais uma vez, fizeram mil piadas por eu ser tão desajeitada. Meus joelhos ficaram todos ralados e sangravam um pouco. Algums das garotas perguntaram se estava tudo bem e sugeriram que eu fosse lavar os joelhos no banheiro. Mas fiquei com vergonha e sentei-me no chão da varanda com os outros, abraçando os joelhos pois queria esconder o "estrago" pois achava tão ridículo e infantil ralar o joelho daquele jeito! Meus braços suavam e isso fazia os ferimentos arderem terrivelmente, mas aguentei firme por mais de meia hora, até ter uma oportunidade de ir discretamente ao banheiro lavar os ferimentos. Por conta disso, dias depois, os ferimentos infeccionaram um pouco. Decidi que esta era a primeira e a última vez que participaria de uma aventura dessas.

 

Só que o Grupo ficou super entusiasmado com o passeio, e a partir de então ninguém pensava em outra coisa. Nas reuniões, seja em barzinhos, seja na casa de algum de nós, o único assunto era os preparativos para a próxima viagem, que seria acampar em certa montanha. Escapei deste pois realmente, detestava acampamentos, o meu negócio sempre foi conforto, conforme dizia. Realmente, esse negócio de dormir no chão, ser devorada por mosquitos e outros insetos, ficar suja de terra, comer frugalmente, nunca me atraiu. Sempre sonhei com hotéis de luxo e restaurantes elegantes, com todos os confortos e comodidades possíveis. Mas era irritante ficar ali só ouvindo os outros combinarem mil detalhes de passeios dos quais eu não iria participar. E comecei a sentir muita raiva de Claudio, pois era sempre ele que liderava a conversa e ficava insistindo o tempo todo para que conversássemos sobre os detalhes. Volta e meia eu conseguia, com muito custo, fazer o Grupo falar sobre algum outro assunto, como por exemplo um bom filme que estava em cartaz, mas Claudio reclamava e voltava a perguntar sobre os detalhes do passeio. 

 

Comecei a chegar a triste conclusão de que não fazia mais parte do Grupo... Não me rejeitavam nem ignoravam (pelo contrário, continuavam insistindo para que eu fosse aos passeios), mas não me identificava mais com ele. Sentia-me novamente isolada, como que assistindo à tudo de dentro de uma redoma, sem realmente participar ou interagir com os outros... Senti-me de novo nos tempos da Escola, sozinha e isolada, e, por dentro, culpava Claudio por ter "estragado o Grupo". 

 

Agora era a vez de passar fins de semana na casa do Claudio, conforme ele já vinha insistindo há um bom tempo. O Grupo aceitou, entusiasticamente. Da primeira vez, arranjei uma desculpa qualquer para não ir mas o grande problema é que todos gostaram tanto da estadia que resolveram passar a maior parte dos fins de semana por lá. E como poderia arranjar tantas desculpas todas as semanas? Um colega estava fazendo um cursinho preparatório para concursos públicos e as aulas eram justamente aos sábados. Curso intensivo, tomando a tarde inteira. Como nesta época a maioria de nós estava mesmo estudando para tais concursos, achei que seria a desculpa ideal, pois serviriam para todos os fins de semana e não apenas para uma ocasião. E assim foi: desculpei-me com Claudio por não poder acompanhá-los pois todos os meus sábados estavam ocupados com o cursinho. Por um tempo, livrei-me do "problema". Só que um dia, Claudio chega para mim e diz que também está pensando em fazer este mesmo cursinho, e começa a me pedir detalhes sobre horários, endereço, telefone, preços. Fiquei sem saber o que dizer e fui dizendo o que sabia, pois o cursinho era muito comentado pois era o mais famoso e considerado um dos melhores. Ele me pediu o telefone e o endereço completo. E agora?? Disse que não sabia de cor, mas que no dia seguinte trazia para ela. Fui às pressas procurar o colega que estava realmente fazendo o curso e este me deu as informações, que repassei para o Claudio. Mas ele notou, embora não me acusasse de nada, que eu não sabia muito sobre o curso e portanto, obviamente, tinha mentido e não estava fazendo curso nenhum. Que vergonha! E ainda me xinguei pela má sorte, todos sempre viviam mentindo, mas era só eu pregar uma mentirinha que não prejudicava ninguém e sempre era pega! Mas nem o Grupo nem Claudio continuaram insistindo em me convidar para tais viagens, só que não conseguia mais me sentir bem junto deles, pois ou estavam combinando os detalhes para o próximo fim-de-semana ou estavam comentando o quanto tínham se divertido no último. O Grupo não me rejeitava formalmente, mas sentia-me como um corpo estranho que é eliminado do organismo lentamente, inexoravelmente. Perceber que, apesar de tudo, na essência, continuei a mesma... mais um tijolo no Muro!

 

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