Cega e surda social
A essas alturas o curso já estava me decepcionando um bocado. Matemática, matemática e mais matemática, o que nunca foi o meu forte. Saindo disso, geralmente matérias que considerava "áridas" como Introdução à Administração (só se falava em problemas de empresas, investimentos, isso e aquilo, e eu simplesmente me sentia um peixe fora d´água, sem entender nada de nada - a maioria dos outros colegas já trabalhava, ou então fazia outros cursos em outras faculdades, e estavam mais por dentro desses assuntos) e Direito. Apesar de ter sido Funcionário Público a maior parte de sua vida, meu pai era formado em direito, assim como alguns de seus irmãos. Para a família dele, era O CURSO. Confesso que achava terrivelmente monótono e massante estudar aqueles códigos, com seus capítulos, parágrafos, artigos, interpretação, etc, etc. A única matéria que vinha me empolgando um bocado - e tinha muito mais a ver com a minha personalidade e com meus gostos - era sociologia. Pelo menos fugia um pouco do massacre de ciências exatas e afins... A professora era muito engraçada e, de certa forma, um bocado excêntrica. Estimada por uns, odiada por outros, pois ela mesma não escondia suas simpatias ou antipatias pessoais com relação aos alunos. Felizmente, ela gostava de mim e a matéria era pra lá de interessante. Certo dia, ela nos explicou que existia cegueira e surdez social: A pessoa considerada "cega social" era aquela que não percebia bem o que estava acontecendo à sua volta. Por exemplo: uma pessoa começava a falar algo que não estava agradando e, um amigo levantava as sobrancelhas ou piscava o olho para que ela se mancasse... mas ela não percebia. Ou então, estava rolando um clima de romance, ou de inimizade, entre colegas e a pessoa simplesmente não conseguia "captar no ar" o que estava rolando. A "surda social" era muito parecida, só que não percebia quando as pessoas mudavam de entonação na fala significando aborrecimento, ironia, etc. Ou seja, a pessoa não percebia "indiretas". Tanto o cego quanto o surdo social eram pessoas ingênuas, que não tinham capacidade de perceber as nuances dos relacionamentos sociais. Depois da aula, Tiago, Amanda e outros colegas caíram na minha pele, dizendo que eu era um "exemplo prático do que a professora tinha explicado na aula". Fizeram muita graça, dizendo que eu era cega e surda social e isso me aborreceu um bocado, pois ser cega e surda social era a mesma coisa que ser boba, ingênua. Era o "meu segredo" descoberto! Mas, no fundo, concordava com eles. Realmente, estávamos "ouvindo cantar o galo e sem saber onde", como se diz. Cegueira e surdez social não são um sintoma de Fobia Socia? Mas, naquele tempo, ninguém nunca tinha ouvido falar em FS... Fiquei mesmo com o rótulo e levou tempo para que os colegas parassem de me atormentar por causa disso. Até hoje tenho muita dificuldade em detectar uma indireta (e não raras vezes acabo entendendo justamente o contrário do que a pessoa estava querendo insinuar) ou até mesmo em perceber se uma pessoa está sendo sincera, sarcástica, se está falando sério ou está só de brincadeira (aliás, tenho sempre a tendência a levar TUDO a sério e achar que as pessoas estão sempre falando a verdade. Muitas brincadeiras inocentes que não incomodariam a ninguém me magoam ou ofendem, pois não consigo ver que a pessoa está só brincando.
Realmente, a professora tinha sido quase profética: muitas coisas estavam acontecendo bem embaixo do meu nariz sem que eu percebesse. Tiago passou a nos convidar para estudar na casa dele - um bocado longe e contramão com relação ao bairro onde eu morava - mas qualquer sacrifício era pouco para estar perto dele. Uma vez, marcamos de estudar, cheguei lá, toquei a campainha várias vezes e só depois de uns 15 minutos ele atendeu. Rita estava lá, sentada no sofá. Tiago me apontou uma cadeira e deitou-se no sofá, com a cabeça no colo de Rita. Ninguém mais aparecia e resolvemos começar os estudos. Uma hora depois, Amanda telefona dando uma desculpa qualquer por não ter podido ir e pede para falar comigo pois queria sanar uma dúvida em certa matéria. E tivemos o seguinte diálogo:
- Oi Lucia, você entende porquê eu não quis ir, não é? Está uma pouca vergonha esse romance entre Tiago e Rita, e ele fica só nos usando como "alibi", posto ambas as famílias estão contra o romance. Querem ficar sozinhos, mas como podem ser pegos em flagrante, convidam a gente para estudar com eles! Finge que estamos falando de contabilidade! Estou te ligando porque, sabe como é, você às vezes custa um pouco a perceber as coisas e queria te dar um toque...
- Pois é, Amanda (menti), já percebi sim, realmente este problema é complicado e o assunto um bocado chato, acho que é até melhor a gente deixar para estudar o assunto mais a fundo na segunda-feira. É isso mesmo, é isso mesmo...
Realmente, estava mais do que claro que Tiago e Amanda estavam tendo um caso. Mas, mesmo assim, o meu cérebro se recusava a aceitar o que, na minha cabeça (e na minha formação moral rígida) parecia inconcebível. Sentia-me humilhada por estar sendo usada como álibi e também envergonhada por ser tão ingênua e me deixar enganar desse jeito. Achei que seria uma boa vingança fingir que ainda não percebia nada e continuar dando em cima do Tiago. E assim acontecia: se Rita sentava no colo dele, num barzinho, em certo momento eu dizia que "era a minha vez" e sentava na outra perna... ou simplesmente fazia Rita sair para me ceder o lugar. Vivia me jogando para cima dele, descaradamente, pensando que isso iria exasperá-los, já que eles ainda queriam manter o romance em segredo. Mas, no final das contas, só estava mesmo era fazendo papel de boba.
Uma vez até cheguei a chamar Rita para jantar comigo antes de irmos para a faculdade - pois não teríamos as duas primeiras aulas aquele dia - e no caminho comecei a dizer:
- Pois é, Rita, o que você acha do Tiago? Puxa, ele não se decide mesmo e eu venho tentando há tanto tempo, não sei o que acontece!
- Pois é, Lucia, você tem que compreender que apesar de divorciada e com filhos ainda sou uma mulher e é muito difícil resistir à tentação, pois ele realmente nos provoca....
Engraçado. Ela podia ter sido cruel comigo, me humilhado, me xingado até, mas preferia ser delicada e tentar me fazer entender as coisas de forma sutil e, na medida do possível, delicada.