Mais uma vez as aulas de Educação Física!
Obrigatórias também na faculdade (dois semestres), resolvi me matricular logo no primeiro semestre para me ver livre da tortura o mais cedo possível. Só eram isentas pessoas que já haviam feito em outros cursos universitários, maiores de 35 anos, com 8 horas de carga horária no trabalho ou mulheres que já tivessem tido filhos. Como não me encaixava em nenhuma dessas categorias, era preciso enfrentar. Já ouvira algumas histórias assustadoras de alguns alunos que já haviam cursado em outros semestres e todos reclamavam muito que a professora era muito rigorosa e que, no final do semestre, a "prova" era correr duas vezes em volta do Estádio do Maracanã (eu nunca tinha conseguido nem andar à volta do Estádio todo!) e com tempo estipulado pela professora, que controlava tudo munida de um cronômetro. Sempre tive fôlego muito fraco e não me imaginava nessa corrida, pois só de correr alguns metros para pegar um ônibus ou coisa parecida já o coração parecia que me vinha à boca. Na primeira aula, poucas alunas compareceram (meninos tinham aulas em separado, com outros professores) e, de todas, a única que não fazia ginástica há muito tempo era eu (e, perguntada, fui sincera com a professora). Aeróbica era ainda uma coisa nova (creio eu), pois nunca tinha ouvido falar, não era ainda moda como hoje em dia. As outras alunas, já "dominavam a arte", ao que parece, pois foram logo começando a dar pulinhos e demais coreografia desse tipo de exercício, ao comando da professora. E eu junto, tentando acompanhar o ritmo rápido e incessante. Embora os movimentos fossem variando, a coisa nunca parava e comecei a me sentir exausta e também sem entender que tipo de exercício maluco era aquele. Sem graça, fui aguentando o mais que pude mas a certa altura me senti tonta e totalmente sem fôlego: respirava como uma pessoa tendo uma terrível crise de asma, puxando o pouco ar lá do fundo do pulmão. Comecei a ver tudo escuro e a sentir um zumbido forte nos ouvidos, típicos desse tipo de situação, pensei ia desmaiar. Saí do "círculo" e parei ao lado da professora, dizendo que não podia mais continuar (mas tentando disfarçar o meu estado de total exaustão e sem dar sinais de que estava quase desmaiando - achava muito embaraçoso fazer esse papelão na frente das outras alunas... e também tinha medo da professora, que já tinha aquela fama de "carrasco"). Ela foi seca e amarrou a cara, dizendo que nesse tipo de exercício não é bom parar. Fiquei lá parada, muito sem graça, por alguns minutos, e recomecei a tortura. Felizmente a aula foi tida por encerrada logo depois. No dia seguinte, todos os músculos da perna me doíam terrivelmente, a ponto de quase não conseguir andar! Resolvi faltar à outra aula, pois não conseguiria fazer exercícios assim toda doída. Na semana seguinte (eram duas aulas por semana) compareci, a turma já maior. Desta vez foram exercícios de alongamento (também só muito mais tarde fui saber que esse era o nome da coisa). Num deles, sentada no chão com as pernas semi abertas, tentava sem sucesso alcançar a ponta do pé com a mão... não chegava nem ao joelho e minhas costas ficavam todas curvadas numa corcunda caricata. As outras alunas todas fazendo os exercícios com perfeição - como se nunca houvessem feito outra coisa na vida - e eu ali lutando, lutando, mas só conseguindo me contorcer em posições risíveis. Em certo momento a professora veio falar comigo, dizendo que eu não podia fazer aquele tipo de ginástica pois sofria terrivelmente de escoliose e cifose, que precisava de exercícios especiais. Enquanto a turma continuava no alongamento, ela apoiou as mãos nas minhas costas e começou a forçá-las para a frente até onde eu conseguisse aguentar. E outros exercícios do gênero se seguiram. Terminada a aula, troquei de roupa e tomei o rumo de casa (estas aulas eram na parte da manhã). No meio do caminho, senti que minhas pernas começavam a tremer e a ficarem muito fracas e moles feito borracha. Veio um princípio de pânico, pois pensei que não conseguiria chegar, que iria desabar ali mesmo no meio da rua feito uma boneca de pano desengonçada. Quase chorando e muito nervosa - as pernas tremendo cada vez mais e quase fora de controle - foi caminhando muito devagar, passo a passo e, a distância tão pequena parecia uma estrada sem fim. Creio que levei uma meia hora para percorrer um caminho que, em condições normais, não levaria mais do que 5 minutos. Fiquei praticamente sem poder andar por mais de dois dias e tive até que faltar às aulas normais (quanto mais às de Educação Física). Por quase uma semana só conseguia andar até a faculdade com as pernas enfaixadas do joelho para baixo, apertando os músculos para ter firmeza. Cheguei a conclusão que seria impossível continuar assim e, como ainda estava no prazo, cancelei a matrícula neste curso. Depois pensaria no que fazer para me livrar dessas aulas. Quem sabe conseguia um emprego de 8 horas antes de terminar o curso? O assunto me incomodou por um bom tempo pois não sabia o que fazer.
No semestre seguinte, comentando com Débora a respeito do problema, ela me disse que existia uma ótima opção: a "Ginástica localizada" (como era chamada na época a "musculação", ginástica com aparelhos). Disse que a professora não era muito exigente e, além disso, cada aluno seguia seu ritmo individual e usava um aparelho diferente e sempre havia um jeito de, ao invés se exercitar 20 vezes numa máquina, fazer 5 vezes e dizer que já havia completado a série. E, o melhor de tudo, não havia provas no final do semestre, nada de correr em volta do Maracanão ou coisa parecida!!! Fiquei empolgada com isso, parecia bastante conveniente e até mesmo "de encomenta" para pessoas como eu. No próximo semestre me matriculei e realmente era moleza. No primeiro dia de aula a professora avaliava cada aluna e dava um cartão com uma lista de exercícios que deveria fazer, indicando as máquinas e o número de vezes. Em cada aula, antes dos exercícios localizados, esquentar os músculos correndo em torno das máquinas por 10 minutos (mas, como não havia hora certa para começar a aula, cada um chegava em horário diferente e a professora não ficava cronometrando o tempo: 10 minutos acabavam virando 2, pelo menos no meu caso! No mais, a professora esquecia da minha existência (pois geralmente só interferia quando era chamada) e assim ia fazendo os exercícios bem devagar e sempre cortando o número de vezes em cada um para pelo menos metade do prescrito. Além disso, como era iniciante, exercitava-me nas máquinas sem que estas estivessem com pesos extras - e assim mesmo já era puxado para mim! As alunas mais aplicadas iam pedindo orientação à professora e acrescentando pesos com o tempo. Eu fui ficando desse mesmo jeito e terminei os dois semestres sem problemas e me felicitando pela sorte de ter descoberto esta alternativa àquela sessão de tortura com a outra professora!