A "turminha legal"
Estava nas nuvens pois, logo na primeira semana, fazia parte da "turma legal". No grupo se destacavam duas pessoas: Amanda e Tiago. No curso de Administração, a grande maioria da turma já era formada em outro curso ou estava cursando outra faculdade concomitantemente, na maior parte engenharia. Amanda era uma delas e tinha isenção de algumas matérias, incluindo Cálculo Diferencial e Integral, o verdadeiro terror do curso. Aliás, a lista de matérias do curso me assustou um bocado: muito mais matemática do que esperava, e para se formar em quatro anos era necessário fazer sete matérias por semestre, o que era um bocado puxado com professores tão rigorosos. Cálculo era um verdadeiro pesadelo, e nem era só para mim, muitos alunos, até os que estudavam engenharia andavam tirando notas baixas. Amanda era a minha salvação pois tinha muitas apostilas com milhares de exercícios e estava sempre pronta e me emprestar e, melhor ainda, sanar todas as minhas dúvidas, uma ajuda e tanto. Foi a única matéria na qual "passei raspando", tirando a nota mínima para passar na prova final. E vinha estudando quase que alucinadamente, dia e noite, pois, sempre naquela minha "filosofia", é melhor estudar mais ainda a matéria que a gente detesta, pois assim a gente se livra logo dela. Outro terror era contabilidade pois o professor era muito rigoroso e as provas levavam mais de 4 horas... e chevavam a ser agendadas para as tardes de sábado pois não daria tempo de completá-las no período das aulas regulares sem que avançasse no horário das outras matérias.
Tiago também já tinha cursado uns semestres de engenharia (e desistido). Era um pouco mais velho do que a maior parte da turma (ele com 25 anos, nós com 20). Não era bem o meu tipo, mas era um rapaz bastante charmoso... e sabia como agradar as mulheres. Na segunda semana de aulas, sem mais nem menos, sonhei com ele: não lembro porquê razão, no sonho, eu estava chorando e ele me segurava a mão como se quisesse dizer que estava ali para me confortar e para aliviar a minha dor). O sonho me impressionou e achei que estava apaixonada por ele. Resolvi assediar, de leve! Mais uns dois rapazes e uma moça faziam parte do grupinho, a princípio, e apresentei a minha amiga Rita a eles (aquela que pegava o ônibus além do meu prédio).
Nas sextas-feiras só tínhamos uma aula, das 18 às 19:30 hrs, e tivemos a idéia de ir comer uma pizza numa pizzaria muito boa que ficava não muito distante da faculdade. Virou a tradição das sextas-feiras. Na pizzaria, notei que Amanda também andava tentando flertar com Tiago... e ela também notou o mesmo com relação a mim. Mas resolvemos que seria "jogo aberto" e até ríamos disso, quase como uma disputa para ver quem ganharia o "prêmio". Rita estava sempre conosco e achava estranho ela estar sempre disposta a topar esses programas todos, parecendo sempre tão exausta e com crianças em casa que a esperavam para o beijo de boa-noite. E ainda por cima era muito mais velha do que nós, já com uns quarenta e poucos anos. Outro rapaz da turma, o Orlando, tinha motocicleta e lá fomos nós experimentar as sensações de andar de motoca, primeiro só no estacionamento da faculdade para nos acostumarmos... e o Tiago, que também sabia dirigir motocas, resolveu experimentar e nos levar para uma volta na garupa. Achei muito excitante, pois a gente tinha que ficar abraçadinha com o motorista, e com o corpo praticamente colado ao dele: os seios, a barriga, o baixo ventre, as coxas... quase sentia vertigens! E até a Rita experimentou dar uma voltinha com ele. Achei um pouco inadequado mas, era como a nossa mãe ou irmã mais velha, só isso!
Tiago passou a nos levar de carona, de carro, todos os dias. Levava Amanda, que morava para o outro lado (mas não muito longe), depois me deixava na porta do prédio e Rita seguia com ele até o o centro da cidade. Ele morava na Zona Sul. Como morava pertinho da faculdade, muitas das vezes era mais prático Tiago me deixar em casa primeiro e depois levar Amanda. Mas eu fazia questão de "ser a última" e fazia ele dar uma volta danada para entregar Amanda e voltar na direção de onde eu morava, pois, segundo dizia, "a última sempre ganha o rapaz pois o rádio toca uma música romântica... os dois ali sozinhos, na penumbra do carro, pinta um clima e o beijo no rosto de despedida acaba virando um demorado beijo na boca". Todos se riam muito disso e era a nossa piada de sempre. Na verdade, era Rita a última a ser "entregue", mas ela não contava, pois era mais velha e o Tiago até a chamava de "madrinha".
E quanto à "Timidez", será que tinha desaparecido mesmo? Será que meu plano tinha dado certo? Era óbvio que tinha progredido um bocado e tinha até a minha turminha que sempre quisera ter mas... os colegas notavam algo... Tiago começou a implicar comigo, dizendo que eu ficava vermelhinha quando alguém falava palavrão, e passou a me provocar. Achei que era parte do jogo de sedução e não liguei às implicâncias dele. Tem muito homem que gosta de enfurecer as mulheres só por diversão. Confesso que gostava das nossas briguinhas e fazia charminho o mais que podia, fingindo estar mesmo muito enfurecida. Tiago dizia que eu precisava de um "homem de verdade", como ele, que me "pegasse de jeito", que eu precisava era ser dominada. Ah, como isso me excitava! Achei que a parada estava ganha e que Amanda não tinha chance. A Fobia se manifestava na relação com os professores, ou melhor dizendo, com a falta delas. Nesse ponto, continuei a mesma: nunca sentando nas primeiras carteiras e nunca fazendo nenhuma pergunta aos professores... e sempre tensa com medo que me perguntassem alguma coisa. O jeito era anotar tudo que os professores diziam (como diriam os colegas, anotando até os espirros) e depois tentar entender em casa...e conforme o caso pedir ajuda à Amanda ou a algum outro aluno da engenharia.
Por conta da dificuldade das matérias e também dos inúmeros trabalhos em grupo, sempre combinávamos de estudar juntos na casa de alguém... geralmente lá em casa pois era perto da faculdade e mais ou menos um ponto central para todo mundo, os que vinham da Zona Norte e os da Zona Sul. E, é claro, minha mãe me incentivava a marcar as reuniões lá em casa pois assim eu não precisaria voltar sozinha à noite da casa dos outros colegas... Sempre peparava um bolo de chocolate (pois o Tiago não dispensava) e algumas outras guloseimas e nos divertíamos um bocado. É claro que rolava todo tipo de assunto e pouco se estudava... Acho que foi um dos períodos mais felizes de minha vida, pois me sentia querida, aceita pelo grupo, cheia de sonhos quanto ao futuro profissional e com a perspectiva de um namoro (era só Tiago se decidir!). Ele continuava implicando comigo o tempo todo, a estava determinado a me arranjar "um par" a qualquer preço, o que me irritava pra valer. Um rapaz chamado Ernesto passou a fazer parte do grupo, e eu o detestava. Era chato, desagradável, insistente, grudento e, ainda por cima, bebia! Uma vez, estávamos todos no carro de Tiago (ele me dando carona até em casa) e um num dia de inverno em que fazia um pouco de frio, Ernesto abriu a mochila, tirou uma garrafa de Vodca e passou oferecer a todos, que aceitaram um gole entusiasmados (até mesmo Rita). Não consegui esconder a surpresa e o choque de ver uma pessoa carregar Vodca na mochila e, emburrada, fui a única a não aceitar. Sempre tive horror a pessoas que bebem. Mas o grupo me criticou muito por conta disso por um bom tempo, dizendo que eu tinha sido indelicada e muito preconceituosa. E cismaram que eu tinha que namorar o tal Ernesto, que não parava de me assediar! Ligava para mim quase todos os dias convidando para ir a um show qualquer ou ao cinema e eu, claro, sempre recusava. Reclamava muito do assédio, mas os outros me achavam uma chata implicante por rejeitar assim um cara "tão legal". Faziam papel de alcoviteiros o tempo todo e cheguei a ter brigas com Tiago por causa disso. E não parava por aí, quando não era Ernesto, queriam por força que eu namorasse aquele meu amigo com quem fiz amizade no dia da matrícula pois a gente conversava muito pois ambos éramos fãs do mesmo músico. De nada adiantava eu explicar que era só amizade mesmo, que não tinha nada a ver, que não existia atração física ou química suficiente para um namoro, embora nos déssemos às mil maravilhas como amigos. Não perdiam uma oportunidade sequer de me atormentar com esses "candidatos a namorado" que eles me arranjavam.
Como já deu para perceber, nem tudo eram flores na minha relação com o Grupo, é claro. Amanda estava se tornando quase como uma segunda Júlia. Estudava Inglês, mas sem tempo para estudar, tinha muita dificuldade nas redações e pedia que eu as fizesse para ela. Lembro que na primeira que fiz a professora dela se espantou e colocou uma observação na margem "Gostei de ver, Amanda! Melhorou um bocado!". Tinha virado "Ghost Writer" de redações de Inglês! Mas considerava uma troca de favores, pois me ajudara muito no Cálculo Diferencial e Integral. "Amanda está te explorando!", dizia mamãe, "é uma segunda Júlia! E acho que tem inveja de você e te faz sombra na faculdade!". Realmente, depois das redações, Amanda me pediu para datilografar uns trabalhos dela pois não tinha máquina elétrica (e nem tempo para datilografar, fazendo dois cursos bem difíceis ao mesmo tempo). Realmente comecei a achar que mamãe tinha razão, mais uma vez, senti que estava virando uma secretária de Amanda. Mas, assim como agia com Júlia, nunca reclamei, pois tinha receio de terminar a amizade e ela era mais ou menos a líder do grupo. "Ainda por cima é mandona e autoritária!", mamãe outra vez me alertando. Mas, fingia que não ouvia e, no final das contas, tinha bastante tempo livre e não me incomodava tanto fazer os trabalhos de Amanda.
Creio que foi por essas e outras que outra colega nossa chamada Debora uma vez me disse que eu só seria feliz na vida quando aprendesse a dizer "não". Sem saber, ela tocou no ponto fraco dos fóbicos sociais. Realmente foi de uma intuição incrível e mostrou ser uma pessoa sensível.
- Lucia! Estava na janela e vi Tiago indo para o ponto de ônibus (nesse dia estava sem carro) de mãos dadas com Rita!" Sempre mamãe com sua mente suja, sempre vendo maldade em tudo...
- Coisa de amigos, mãe, que coisa! Ele até a chama de madrinha! É muito mais velha do que nós!
- Sei não... sei não...
- Claro que sim, mãe! Onde já se viu isso! A Rita é separada do marido, têm três filhos e é muito mais velha do que Tiago!
- São as piores!
- Ah, mãe, não chateia! Amanda é um anjo de pessoa, é quase como uma mãe para nós, a irmã mais velha que nunca tive!