Faculdade: uma "Nova Era" - ou uma "Nova Lucia"... Será?
O dia da matrícula foi um caos total. Uma sala de aula apinhada de alunos, cartazes com horários pendurados nas paredes, fichas para preencher e ninguém para explicar nada! No final, veio um secretário dar algumas orientações básicas e perguntou quem estava já cursando outra faculdade (pois estes poderiam pedir isenção de algumas matérias). Para minha surpresa, quase a turma toda levantou a mão, só umas 4 pessoas eram realmente calouras. No meio daquela bagunça toda e daquele falatório estilo "feira-livre", consegui chegar perto dos cartazes com os horários e me organizar um pouco, ainda mais que no meu caso não estava isenta de nada e, como tinha tempo de sobre, pretendia cursar todas as matérias oferecidas no semestre. Um rapaz que também se acotovelava para chegar à frente dos cartazes virou-se para mim e perguntou se eu tinha uma caneta para emprestar. Como já havia terminado de preencher minha papelada, emprestei a única que tinha e fiquei esperando ele terminar, fazendo alguns comentários sobre a "loucura" que era tudo aquilo. Achei que era "bom agouro" já entabular conversa com um colega logo na matrícula, o rapaz era muito simpático e amável, apesar de parecer um bocado tímido.
Estava um pouco receosa com relação a trotes, embora tivesse quase certeza de que não faziam neste curso. Meu apartamento sendo tão perto da Universidade, vi muitas vezes alunos descalços, vestindo só shorts (muitas vezes os rapazes usando sutiens), pintados da cabeça aos pés, pedindo dinheiro aos carros parados no sinal sob os olhares superiores dos "veteranos" que os ameaçavam a cada momento dizendo que se não arrecadassem a quantia determinada, teriam a cabeça raspada. Mas os alunos eram sempre dos cursos de direito, medicina ou engenharia, cursos esses que já tinham uma "tradição" de trote desde os tempos do meu pai. Ele mesmo conta que passou por maus momentos no primeiro dia de aula de direito (nesta mesma Universidade mas em outro prédio no centro da cidade): um bando de rapazes "veteranos" o agarraram e disseram que iriam raspar seus cabelos. Ele se recusava terminantemente e os rapazes estavam a ponto de espancá-lo quando ouviram gritos e pedidos de "reforços" - um outro "calouro", um militar, também se recusava a se submeter e espalhava socos e pontapés para todos os lados. Os rapazes que estavam agarrando meu pai correram para ajudar os outros e, nesse interím, meu pai tratou de fugir, é claro, e se livrou do espancamento certo. Tinha pavor de ter que passar por aquela situação humilhante: como iria sair assim na rua, semi-nua, toda pintada, descalça e, ainda por cima, ter que pedir dinheiro aos motoristas? Provavelmente não conseguiria arrecadar um tostão (não sei qual era a penalidade no caso de mulheres pois nunca vi nenhuma de cabelos raspados, ao contrário dos rapazes). Só de pensar (e ver os calouros lá na rua - alguns até se divertindo com a coisa) já sentia calafrios. E o pior é que, como começaram a perceber que os calouros justamente faltavam na primeira semana de aula para evitar o trote, passaram a adiá-lo e, dessa forma, ninguém sabia quando iria acontecer, poderia até ser adiado para o meio do semestre para pergar todo mundo de surpresa. Confesso que no primeiro dia de aula fui com algum receio, mas graças a Deus, não tive que passar por essa experiência terrivelmente traumatizante qualquer fóbico social.
Enquanto esperava ansiosamente o primeiro dia de aula, comecei a pensar em muitas coisas, a fazer, por assim dizer, um "balanço" da minha vida escolar até então e o que tinha dado errado... e as possíveis razões para esse fracasso (em termos sociais, é claro). Concluí que, no colégio, eu nunca poderia mudar... iria sempre ser aquela menina tímida e desprezada pois todos me viam assim, já estava "rotulada", e se um belo dia em chegasse na escola com um novo visual e toda extrovertida, me enturmando com todo mundo, todos iriam achar que era uma piada... ou que então eu tinha realmente "pirado" de vez. E tinha também Júlia... Na faculdade ninguém me conhecia, portanto, eu chegaria lá sem rótulos e sem fama de santinha, múmia ou o que fosse. E não haveria também o dedo acusador e crítico de Júlia me rondando, como dizem que o diabo faz com as almas (pois é tido como o que nos acusa diante de Deus). Sem diabos, eu não precisava ser santa, certo? Resolvi que iria começar mudando de comportamento, assumindo uma atitude diferente, tentando vencer a timidez a todo custo e me enturmando logo de saída. Seria como começar do zero, vida nova! Estava certa de que o meu plano daria certo, pois ainda não tinha muita noção do que se passava dentro de mim e com isso sempre atribuía os meus sofrimentos à maneira como os outros me tratavam. E, no final das contas, todos me diziam que a minha timidez iria passar com o tempo, que era coisa de criança, e eu já completara dezenove anos! A mudança de atitude devia ser acompanhada com uma mudança de visual: passei a caprichar mais nas roupas, na maquiagem, nos penteados. Já vinha me vestindo bem no Segundo Grau, mas não tinha surtido efeito e Júlia, sempre "acusadora", uma vez tinha comentado que "eu me vestia bem demais para as aulas e que, com isso, ao invés de parecer elegante, conseguia o efeito contrário - parecia ridícula". "Pura inveja dela!", dizia mamãe.
Já havia notado também outro detalhe, que parecia totalmente insignificante e, de certa forma, até absurdo, mas que fazia uma grande diferença: como as pessoas me chamavam. Alguns insistiam em me chamar pelo nome "composto": Maria Lucia. Não gostava desta combinação, ainda mais que a maioria das pessoas fazia uma espécie de contração e acabava pronunciando algo como "maralucia". Na escola as colegas só me chamavam assim, e também alguns familiares com os quais eu não me relacionava muito bem. As pessoas mais próximas me chamavam simplesmente de Lucia. Era quase como se tivesse duas personalidades: Quando era Maria Lucia (no ambiente onde me chamavam assim) me sentia insegura, inadequada, anormal, desajeitada, tímida, desprezada, cafona. Já o nome Lucia me transmitia uma sensação de harmonia, de bem estar, de suavidade e até de sensualidade. Sentia-me muito mas a vontade quando me chamavam de Lucia (mas muitos, mesmo depois de insistentes pedidos meus, insistiam em me chamar pelo "nome completo"). Pois estava decidido! De agora em diante só me apresentaria como Lucia, seria Lucia, a bonita, a forte, a charmosa, a segura de si, a sensual, a sedutora!
Havia outra razão para que eu me enturmasse o mais rápído possível: o Distúrbio de Ansiedade Generalizada de mamãe. Não lhe agradava o fato de eu ter escolhido o turno da noite e as aulas terminavam quase às onze da noite. A faculdade ficava apenas a duas quadras do nosso prédio, só precisava atravessar duas ruas. Mas minha mãe me transmitia seus medos: ruas desertas àquela hora, podia passar um carro e me sequestrar, podia ser assaltada, estuprada, esquartejada, mil coisas. Era preciso arranjar logo uma companhia: alguém que viesse comigo pelo mesmo caminho ou então alguém que me desse carona até o prédio (o que eu achava totalmente ridículo, pois mal dava para entrar no carro e já teria que saltar... e onde já se viu pedir carona quando se morava a apenas duas quadras dali? Quase que se andava mais no imenso estacionamento para se chegar até um carro do que ir até a entrada do prédio. Mas, de qualquer jeito, como mamãe não iria me deixar em paz, resolvi que era melhor mesmo ver se alguém vinha para aquele lado.
Os primeiros dias de aula eram ideais para fazer amizades e para se enturmar... poucos professores apareciam e os que o faziam, geralmente, apenas se apresentavam, falava em linhas gerais do que se tratava a matéria e dispensava a turma. No primeiro dia, sentou-se do meu lado uma moça que parecia bem mais velha do que o resto da turma e que achei bastante tímida. Falava baixinho, com voz mansa e calma. Não usava maquiagem e os cabelos, bem longos e grisalhos, viviam despenteados. As roupas bem simples, a imagem do descaso... e parecia sempre estar cansada (e realmente deveria estar, pois trabalhava o dia inteiro como secretária e, além disso, tinha 3 filhos para criar - era divorciada). Conversamos um pouco e no final das aulas, para meu alívio, disse que viria na mesma direção que eu para pegar o ônibus num ponto além do meu prédio. Pelo jeito, as coisas estavam começando muito bem e pelo menos um problema já estava resolvido.
Antes mesmo das aulas começarem, no dia da matrícula, notei algo muito interessante: numa turma de 30 alunos, só umas 6 mulheres. Confesso que isso me agradava pois era minha chance de ter contato direto com rapazes - o que não havia acontecido até então, a não ser por curtos diálogos bastante esporádicos. Era uma mudança e tanto, e já que o tema da minha vida naquele momento era justamente "mudança", vinha a calhar. E ainda por cima não teria muitas "rivais" e com certeza seria bem fácil arranjar um namorado. Gostei muito da novidade. Mais uma aula vaga e notei que alguns alunos tinham feito um pequeno círculo e estavam conversando animadamente. Resolvi me juntar ao grupo que, para meu total espanto, não me rejeitou nem me ignorou como havia acontecido com as colegas naquele primeiro dia de aula no colégio de freiras. Fiquei totalmente surpresa comigo mesmo pois parecia que o meu plano estava mesmo dando certo, eu estava me enturmando e com sucesso! Apresentei-me como Lucia, claro!