Pré-Vestibular

Terminado o Segundo Grau, resolvi mesmo ficar um ano "descansando" de tanto stress e de tanto compromisso com estudos. Enquanto todos os meus colegas batalhavam por uma vaga nas faculdades,  fui estudar datilografia (com máquina elétrica, pois já tinha aprendido a manual  por conta própria, com auxílio de manuais) e matriculei-me num curso de Inglês bastante conceituado na época e considerado um dos mais rápidos (embora não se auto denominasse intensivo): dois anos, mas com carga horária mais puxada: duas horas de aula três vezes por semana, só um mês de férias por ano, ao contrário dos outros cursos que seguiam a mesma rotina das férias escolares). Logo no início do ano, as bancas de jornal ofereciam uma coleção da Abril Cultural com todas as matérias - e respectivos exercícios - de pré-vestibular - e resolvi comprar para recordar e também consolidar conhecimentos tão embaralhados e dispersos ao longo dos três anos do Segundo Grau. Resolvi levar a sério o estudo dos fascículos e os estudava religiosamente, fazendo anotações e repassando várias vezes os exercícios. O curso era excelente e os fascículos eram semanais, o que dava um tempo razoável para se estudar um por semana, com força de vontade e determinação (ou, como queiram, sendo CDF como eu...). O curso de Inglês me assustou a princípio. Totalmente voltado para conversação, nada de recursos audio-visuais: O professor repetia uma frase, tentava explicar o significado com gestos, mímica corporal ou sinônimos (mas éramos sempre aconselhados a estudar o vocabulário a ser usado em cada aula com antecedência pois o livro continha uma lista), e era a nossa vez de repetir. Tudo MUITO dinâmico. O professor dizia a frase e apontava para um aluno qualquer, que devia repetir prontamente. Mudava então o pronome pessoal para um do plural, por exemplo, ou algum que exigisse mudança de conjugação do verbo. Apontava outro aluno e este deveria, prontamente, repetir a frase com as alterações propostas. Se o aluno não acertasse, apontava outro e mais outro, até que alguém acertasse, e sempre se voltava àquele aluno que não tinha acertado. Isso era basicamente a aula inteira, tirando alguns minutos para explicações gramaticais muito ligeiras e superficiais. A primeira aula me deixou meio tonta. Mas a coisa era tão rápida que eu nem tinha muito tempo de ficar nervosa! Depois passei a ficar mais tensa e sempre ficava com um "friozinho no estômago" pensando que o professor podia apontar para mim a qualquer momento. Claro que, para evitar repetir a frase de forma errada e me arriscar a dar um vexame ou a levar uma bronca do professor, estudava com afinco todas as lições e repetia as frases mil vezes em casa, antecipando-me às aulas. O professor era muito bom... mas muito exigente e temperamental. Muitas vezes se encolerizava com os alunos menos aplicados. Engraçado... sempre em minha vida tive os professores mais exigentes... todos diziam que isso era bom, pois eram os melhores professores e que só com professores assim é que a gente aprendia de verdade... mas confesso que um pouco de gentileza e menos pressão não me fariam mal. Mas o professor gostava de mim e até nos tornamos amigos. Logo nos primeiros exames tirei as notas mais elevadas e ganhei uma camiseta com emblema do curso como prêmio. Que professor não gosta de uma aluna assim, não é mesmo? As provas orais assustavam, mas era o nosso próprio professor que aplicava e isso diminuía a tensão um pouquinho. Mesmo assim, lembro da maravilhosa sensação de alívio que sentia quando saía do curso após as provas, parecia que estava flutuando no ar e que tinha tirado um peso esmagador das minhas costas, tão leve me sentia. O curso me agradava pois fugia daquele "ambiente escolar", onde eu era apenas uma "criança boba e desprezada". Mas mesmo assim, uma parte da escola me seguiu, por assim dizer. Uma colega estava na mesma turma que eu, uma daquelas com quem quase nunca tive contato (e continuei não tendo). Outra surpresa foi, um dia, ver fernando sentado nos degraus da escada, como sempre rodeado de garotas. Também estava estudando Inglês lá, mas em outra turma. Nos falamos muito superficialmente um par de vezes e não mais o vi, creio que desistiu (muita gente desistia do curso pois era muito "puxado" realmente). Fazendo o curso, me sentia mais adulta e com mais liberdade decidir o que fazer da minha vida (escolher os horários que mais me agradavam, evitando estudar na parte da manhã, já era um grande avanço. E naquele tempo era "chique" estudar em curso de Inglês, pois a "febre de cursos" ainda estava começando. No meu tempo de escola, existiam muito poucos cursos e a maioria dos estudantes ficava mesmo limitado ao "Inglês de colégio", bastante superficial. Neste curso ninguém podia ficar quieto num canto como costumava fazer na escola, nem que quisesse! Mas a novidade de, pela primeira vez, estudar Inglês "a sério" me empolgava um bocado pois adorava a língua e até o momento tinha sido praticamente auto-didata, lendo e escutando fitas de cursos em fascículos e traduzindo libretos de óperas e letras de músicas para meu pai. Com isso, realmente, o "meu fraco" era a pronúncia, e o fato de ser "tão acanhada" não me ajudava. Minha mãe vivia comentando que eu estudava "Inglês para surdo-mudo" pois nunca me via falar uma palavra sequer em casa. 

Por sugestão de meu pai, resolvi prestar o vestibular para Administração de Empresas. Era o "curso da moda", uma profissão relativamente nova e que abria um leque imenso de possibilidades de emprego. Como estava decidida a ser secretária, pensei que o curso ajudaria muito, ainda mais que muitas empresas exigem curso superior para que a pessoa ocupe cargos mais elevados... e a pensão da aposentadoria é sempre maior. Vendo a lista de matérias do curso, verifiquei que tinha muita matemática, que nunca foi o meu forte, mas estava numa fase de realmente enfrentar todos os desafios.

Passei para a faculdade pública, primeira opção, a menos de um quarteirão de onde morávamos, o que juntava o útil ao agradável: não tinha que pegar ônibus e tinha optado pelo curso noturno: com isso, não precisava mais acordar cedo, coisa que sempre me causou verdadeiro horror. Mas a tensão daqueles quatro dias fazendo provas de mais de três horas de duração se manifestaram logo. Depois do resultado (que vinha listado no jornal - e fui a última a saber pois fui para uma banca num bairro próximo esperar a edição, que se esgotou em toda parte, e meu irmão já havia chegado em casa com um exemplar e conferido meu número), veio uma febre baixa que me deixou meio mole por uns dias, e tive até que ir com minha mãe pegar o papel para a matrícula pois não me sentia muito bem, um pouco fraca e com tonteiras. Não me lembro de outra ocasião na qual tenha somatizado a tensão por meio de febre além desta vez e no episódio da declamação. O que sempre me atacava em vésperas ou mesmo depois de exames eram diarréias terríveis, e elas me acompanham - e me fazem sofrer - até hoje (já fiz milhares de exames e os médicos não conseguem encontrar outra explicação para tantas diarréias a não ser mesmo o nervoso).

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