Romantismo e sedução...

 

Na turma de Luciana havia dois rapazes gêmeos (não idênticos), Carlos e Fernando. Eram lindíssimos e talentosos. Fernando, além de ser o mais bonito,  tocava piano, flauta, violão e praticamente qualquer instrumento que se colocasse na frente dele... de ouvido! Eu tinha uma "paixonite" secreta por ele, com quem nunca havia trocado uma palavra sequer, ainda mais que ele era da outra turma e só o via nos recreios ou na Educação Física (que era todo mundo junto). Vivia fazendo graça com Luciana dizendo que ela era apaixonada por Fernando, ela sempre ficando envergonhada, negando veementemente. Não percebia que quem estava apaixonada por ele era eu, mas não queria admitir isso. Só no último ano, o Pré-Vestibular, as turmas se juntaram e tive a dupla alegria de ter minha amiga de volta junto comigo e os gêmeos na minha turma... Mas tinha o lado triste: ter que ver o Fernando sendo disputado pelas outras meninas (as extrovertidas), namorando uma e outra, mas sabendo que eu nunca teria uma chance pois era do "grupo das desprezadas". Ficava fantasiando... como seria maravilhoso se ele se apaixonasse por mim, assim só de me ver ali e por uma intuição perceber que eu era especial... imagine a inveja das outras colegas, eu ali, "rainha" da classe, namorando o menino mais disputado. Não seria mais do grupo das "desprezadas", seria parte da "elite"! Ele ia tocar piano pra mim, compor músicas inspiradas em nosso amor. Minha vida escolar era suspirar e suspirar, nem prestava atenção direito às aulas. De qualquer jeito, sempre fui mais "auto didata", anotava tudo e em casa lia os livros para "aprender de verdade". Pois em certa ocasião teve uma prova de física na qual todo mundo tirou nota baixa... menos eu que, praticamente, acertei todas as questões. Diante do fiasco geral, o professor resolveu dar uma nova chance à turma: marcou outra prova e só a nota desta seria considerada para a média final. Para mim isso não importava, pois sabia a matéria e podia obter outra nota boa... mas a classe se desesperou e virei o centro das atenções por causa da nota alta. Era a CDF número um! Um dos que tinham tirado pior nota era justamente o Fernando. Pois, como um passe de mágica, ele começou a perceber que eu existia! Ficava do meu lado o tempo todo e um dia chegou até a segurar a minha mão. Queria que eu desse cola para ela na prova, que lhe passasse as respostas certas. Eu sempre tive horror a cola, nunca tinha colado ou dado cola pois, além de não me sentir bem fazendo algo desonesto, tinha sempre o perigo de ser pego pelo professor e levar uma bronca e um zero na frente de todo mundo. Mas por ele eu enfrentava tudo, ainda mais que algumas das outras colegas me disseram que "ele estava disposto a fazer tudo o que eu quisesse em troca da cola". Disseram para eu aproveitar! Fiquei sonhando... o que pedir? Naquela época eu era pura como um anjo. Pensei em pedir um beijo na boca, mas ao mesmo tempo sabia que nunca teria coragem de pedir. Quem sabe ele iria adivinhar o meu desejo e satisfazê-lo sem que precisasse pedir? Ah, como seria bom! Sentia meu corpo mole só de pensar, e ao mesmo tempo tremia de medo, achava que não ia conseguir pois nem sabia beijar na boca e na certa faria um papelão. Só tinha sido beijada por um rapaz uma vez, um vizinho, na minha festinha de 15 anos, e no rosto, é claro. Vivia fantasiando o que aconteceria depois da prova. É claro que aceitei dar a cola. Ele sentou na carteira em frente e passei, não sem tremer um pouco, todas as respostas para ele. Tarefa cumprida, esperei ansiosamente o "pagamento"... Depois da prova, ele nunca mais nem olhou para mim, voltei a ser invisível para ele e para todo o resto da "elite", no mundo das desprezadas.... tinha sido usada, seduzida por uma cola! E tinha caído direitinho no "velho truque"... Seria a primeira, mas não a última vez...

 

A não ser pelos gêmeos, lembro de muito pouca coisa desse período escolar. Por incrível que pareça, tenho muito mais lembranças da outra escola de freiras da qual gostava tanto. O que mais me lembro eram os tempos vagos e os dias de recreação... agora não mais de jogos e disputas, mas sim de uma roda de alunos tocando violão e cantando, acompanhados por Fernando na flauta. Rolava muita música bonita, sucessos da MPB : "Maria Maria", "Hora do almoço", "Travessia", "Pra não dizer que não falei das flores" e tantas outras...

 O Segundo Grau era todo voltado para o vestibular, tudo era preparação, provas simuladas, etc, os professores só falavam nisso. Eu, como sempre, nadando contra a maré. Tinha decidido que não ia prestar vestibular. Naquela época, tinha alguns parentes que ocupavam cargos de influências em empresas multinacionais e que poderiam servir de "pistolão". Pensei que seria bom fazer um curso de datilografia e de Inglês depois de terminar os estudos e talvez um cursinho profissionalizante e ser secretária executiva. Mudança radical para quem sempre sonhou em casar, ter filhos e ser dona de casa! Mas os "pistolões" eram uma tentação e tanto, pois era a maneira mais segura - e fácil - de se conseguir um emprego nessas empresas. O processo de seleção era de arrazar, principalmente as entrevistas, mas quem tinha pistolão não precisava se preocupar com isso...

Era muito cansativo ouvir falar de vestibular o tempo inteiro quando isso não faz parte dos nossos planos. Era mais um motivo para me sentir uma "estranha no ninho". Concluído o curso, todos prestaram vestibular - menos eu. Escondi o fato dos professores e da maioria dos colegas, mas no dia de um dos exames (eram 4 dias de provas) um professor me ligou para saber como eu estava indo nas provas e para saber o meu número de inscrição (pois as escolas gostavam de conferir nos jornais quem tinha passado para as melhores faculdades e colocar os nomes num cartaz, a título de propaganda para atrair outros alunos). Depois de muito gaguejar, expliquei que não estava prestando o Vestibular, que me sentia insegura, que queria estudar mais antes de arriscar. O professor aceitou a explicação sem insistir, ainda mais que estava com pressa de ligar para tantos outros alunos... Colegas que seduzem a troco de uma cola... andar na contramão da vida... mais tijolos para o Muro.

 

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