Segundo Grau - Mais Mudanças:
Apesar de tudo, adorava aquela escola com sua enorme capela de santos lindíssimos, seu enorme pátio de recreação com jarmineiros e cercada de natureza. Queria estudar lá até a conclusão do Segundo Grau, e em certos momentos achava que queria ficar lá para sempre, como freira no convento. Quando estávamos no último ano do Ginásio (hoje parte do Primeiro Grau) anunciaram que a escola, a partir do ano seguinte, não teria mais Segundo Grau, só "Normal" para quem desejava ser professora. O curso Normal era limitado e não preparava bem para o vestibular. Muitos gostavam disso pois não puxava na matemática, física, química, etc, mas não tinha planos de ser professora e queria uma formação mais completa. Indicaram um colégio também de freiras (mais modernas) a uns dois quarteirões e lá fui eu e mais um bando de alunas migrar para o novo colégio muito a contragosto. Aquela minha amiga que me acompanhou quando mudei para o colégio de freiras que agora tínhamos que deixar foi para o outro colégio também, mas praticamente nunca mais nos falamos depois daquele primeiro dia de aula, quando ela se enturmou com as outras meninas no recreio e todas me ignoraram. Estudamos juntas tantos e tantos anos e praticamente não trocamos mais do que um par de frases. Este colégio tinha 3 turmas para cada série, e as novas alunas foram distribuídas aleatoriamente pelas turmas. A minha melhor amiga, Luciana, ficou em outra turma. A que ficou comigo, do grupinho de 3 que formávamos, Julia, era mais "amiga da onça" do que minha amiga... estávamos quase sempre juntas desde os tempos de criança, frequentávamos a casa uma da outra, seja para brincadeira, seja para trabalhos em grupo e até fazíamos muitos "batizados de boneca" mas ela se ressentia das minhas notas altas, parecia querer sempre disputar comigo, ver quem era a melhor e a mais inteligente. Creio que tinha muita inveja de mim e que mantinha a amizade só para "me ter sob controle".
A nova escola era "mista de verdade", a turma tinha praticamente o mesmo número de meninas e de meninos e, depois de muitos anos (desde o tempo daquelas primeiras duas escolinhas), era a primeira vez que eu tinha contato com pessoas do sexo oposto. Não posso negar que isso me agradava... embora só os visse de longe. Nesta nova escola, separada de Luciana, fiquei ainda mais instrospectiva, mais isolada, sentada no fundo da sala e só me comunicando com alguns colegas que sentavam em cadeiras próximas. Julia e aquela outra amiga "de nome complicado" se enturmaram logo com o pessoal extrovertido da sala... e com os meninos.
Numa das festas de fim de ano (quando geralmente fazíamos amigo oculto), a professora não deu aula e abriu espaço para "confraternização". Arranjaram logo de fazer uns joguinhos, para meu desespero. No final, inventaram um concurso: um grupinho (a "elite", é claro...) se reuniria e faria uma faixa onde estaria escrita a característica principal de cada aluno. E sortearíamos "tarefas", a cumprir, geralmente coisas embaraçosas. É claro que o grupo "puxou a sardinha para o seu lado" e Julia fazia parte. Na época, tinha um menino que tinha um fraco por ela e ajudou na confecção das faixas. Ela recebeu a faixa de "charmosa". Luciana recebeu a faixa de "miss rebolado" (pois, apesar de ser tão atrapalhada e desajeitada, andava se rebolando toda e todos ríamos muito disso). Todos na turma receberam faixas elogiosas - ou pelo menos não ofensivas. Um era o "gênio da turma", outra era "miss sorriso" e assim por diante. Minha faixa foi a última: "Poupança Falida". Eu, tão ingênua, não entendi o que eles queriam dizer com isso, pensei que se referiam a dinheiro, sei lá. Aí Julia veio e disse no meu ouvido que era por causa da minha "bunda chata". Naquela época, "poupança" era um dos apelidos para designar as nádegas. Senti um frio na barriga, pensei que ia morrer de vergonha e de humilhação. Julia tinha finalmente se vingado, pois é claro que foi ela que sugeriu o apelido. E sorteei a minha "tarefa": engatinhar no chão imitando um bebê. E lá fui eu engatinhando em círculos pela sala, com a faixa humilhante pendurada nos ombros (alguns alunos gritando "mostra pra eles que a poupança não é falida!!!". Creio que tenha sido uma das maiores humilhações que passei na vida, ainda mais que era na frente da turma toda, incluindo os meninos!!! Voltando para casa, rasguei a faixa e joguei na lixeira do prédio, pois não queria que meus pais soubessem dessa humilhação que tinha passado. O incrível é que, mesmo assim, não briguei com Julia e continuei aceitando sua "amizade". Amigas como Júlia... mais tijolos no Muro!