Concurso Bíblico
Não me recordo em qual série, no mês de setembro, mês dedicado à Bíblia, a escola toda se movimentou para celebrar o mês com pompas e circunstâncias. Dois concursos foram agendados: O primeiro: Todos os alunos da escola, em grupos ou individualmente, escolheriam uma frase bíblica em uma lista fornecida pelas freiras e deveriam criar um cartaz ilustrando a frase. Os cartazes iriam ser expostos ao longo do corredor que dava para as salas e no fim do mês uma "comissão julgadora" formada por professores e diretoria escolheria o melhor. O segundo: A professora de religião iria providenciar uma apostila que nos daria um panorama geral dos livros que constituem a Biblia, dando um pequeno resumo de cada um, personagens principais, etc. No fim do mês se faria um teste oral de conhecimentos para ver quem sabia mais. Para facilitar, recebemos uma lista de perguntas, com as devidas respostas, e as perguntas seriam sorteadas entre aquelas. Para mim, ambos eram barbada. Meu talento para desenho e pintura era reconhecido e respeitado pela crasse inteira e pelas professoras. Engraçado, com relação a esse talento as colegas não me invejavam, reconheciam o meu valor e apreciavam meu trabalho. Mas havia uma pessoa muito mais talentosa do que eu: o único menino na classe, quando a escola se tornou mista. Era um "estranho no ninho", claro, desprezava as meninas e era odiado por elas. Aquela fase bem "clube do Bolinha". Tinha pena dele, e mantínhamos um relacionamento razoável. O garoto era um artista nato, de assombrar. Quando estava entediado numa aula, pegava pedacinhos de giz do tamanho de uma unha de polegar e, com o auxílio de uma Gillette, esculpia rostos de índios, velhos, uma perfeição, ainda mais considerando-se que eram minúsculos. Eu sempre fui uma negação com esculturas. No desenho e pintura também era imbatível e até caiu uma época nas graças das meninas pois fazia retratos a lápis dos ídolos da época: artistas da TV, músicos de rock, etc. Choviam "encomendas" e realmente os retratos ficavam perfeiros! Mas mesmo assim, eu era considerada a "desenhista da classe". Quanto aos conhecimentos Bíblicos, aí não tinha pra mais ninguém. Eu era apaixonada pela Bíblia desde pequena e sabia todas as histórias - e muitas passagens de cor. Por conta dessa paixão tinha decidido estudar em colégio de freiras. Naquela época, mais do que os pensamentos e a filosofia evangélica, o que mais me fascinava eram as aventuras. Comecei com uma coleção em fascículos comprada por meu pai, "Histórias da Bíblia". Os textos eram resumidos e adaptados para crianças. Só bem mais tarde leria os originais. A crianção do mundo, Adão e Eva, Abraão e a Terra Prometida, José vendido como escravo pelos próprios irmãos, Moisés guiando o povo Hebreu, atravessando o mar vermelho, recebendo os 10 mandamentos no Monte Sinai, os Profetas muitas vezes perseguidos e incompreendidos, Maria, José, vida de Jesus, tudo isso me eletrizava mais do que qualquer livro de aventuras ou romances. Estudei as apostilas e revisei as perguntas para decorar melhor a ordem de todos os livros e também para me familiarizar com alguns dos livros que ainda não tinha lido, pois eram mais enfadonhos (geralmente tratando de regras de conduta para o povo Hebreu, instruções sobre a construção do Templo e legislação). Julia estava o tempo todo no meu pé cheia de dúvidas sobre este ou aquele livro (a palavra "Bíblia" é plural e significa livros, 72 no total) e eu explicava tudo de boa vontade. Além do Catecismo, ela e todas as outras colegas tinham poucos conhecimentos bíblicos e nunca tinham lido os livros quase que na íntegra como eu. Tinha certeza de vencer no teste de conhecimentos e me sentia segura. Quanto ao cartaz... a maioria das alunas, sem talentos para desenho, optou por fazer colagens usando fotos de revistas, estampas de santos, decorando com purpurina e lápis de cor. Resolvi escolher a frase "Fala, Senhor, teu servo escuta!", reproduzi, ampliando a mão livre com lápis de cera, uma figura muito bonita daquela coleção "Histórias da Bíblia": Jesus sentado no alto da montanha, cercado de discípulos, com o dedo levantado em atitude de quem está pregando. Decorei toda a borda com desenhos intricados em estilo de iluminura. Fiquei muito satisfeira com o resultado, mas pensei cá comigo que não tinha muitas chances de vencer pois o meu desenho tinha sido uma espécie de "desafio" às freiras. Estávamos numa fase de muitas mudanças na Igreja Católica, por conta do Concílio Vaticano II e do nascimento da Renovação Carismática que, iniciada nos EUA, começava a se espalhar por todo o Brasil como rastio de pólvora. A madre superiora foi aposentada e veio uma outra que usava roupas coloridas, pintava o cabelo e usava maquiagem. Nada de hábitos e véus pretos. Esta nova superiora gostava de fazer gestos e dançar as músicas religiosas (eu achava isso um sacrilégio e uma falta de respeito) e implicava com a capela do colégio, chegou até a propor botar abaixo. Achava um desperdício de terreno e uma ostentação inútil. A Igreja em geral estava assim: altares cheios de santos davam lugar a paredes nuas, os altares intricados cediam lugar a simples mesas e o Santíssimo passou a ficar escondido em uma capela separada ou então num cantinho qualquer atrás do altar. Eu adorava aquele romantismo da arte sacra, era apaixonada por imagens de santos, gostava dos hábitos das freiras, tinha horror a esses "modernismos". Pois resolvi desenhar Jesus para provar que imagem religiosa era coisa desprezada na "atual conjuntura" e, com isso, nunca me dariam o prêmio. As estampas de santos que tanto me encantavam vinham sendo substituídas em lojas religiosas por estampas ligadas à natureza. Diziam que os santos estavam fazendo as pessoas colocarem a figura principal, Deus, de lado. Nunca me conformei com isso e me causava revolta. Além de tudo, fazer gestos e dançar não eram o meu forte obviamente, por causa da fobia social. Levei meu cartaz para se colocado no corredor tanto a professora quanto as colegas ficaram encantadas, disseram que era barbada, que não tinha como não vencer. Eu sempre dizendo que não tinha tanta certeza... Todos tinham preparado seus cartazes com antecedência, só aquele menino, que era meio preguiçoso, não preparava nada. Na última hora, em meio a broncas da professora, arranjou uma cartolina e ali mesmo na sala, em menos de 10 minutos, desenhou uma lâmpada acesa e umas pegadas que iam de uma ponta a outra do cartaz. A frase: "Sua palavra é lâmpada a iluminar nossos passos". Ninguém gostou, realmente não era digno do talento dele e era muito óbvio e simplista, além de ter sido feito às pressas e com muita má vontade.
E chegou o dia do concurso de conhecimentos. No início correu tudo bem, sorteava uma pergunta e respondia sem problemas. As alunas que erravam ou não sabiam responder iam sendo iliminadas. As perguntas se esgotaram e foram colocadas na caixa para serem sorteadas novamente. Eu sabia todas as respostas, não tinha como perder. No final, só restaram eu, Julia (que embora não tivesse conhecimento prévio sobre o assunto, era muito estudiosa e esperta) e outra aluna que também era bastante inteligente e sempre alternava comigo o primeiro lugar na turma. Mais de meia hora se passara e nenhuma de nós era eliminada e criou-se um impasse. A professora então decidiu estipular um tempo para cada aluna responder, tinha que ser coisa de segundos e as perguntas tinham que ser sorteadas e respondidas num piscar de olhos, como se fosse uma corrida. Foi aí que me veio o pânico. Julia respondeu uma pergunta e o papelzinho voltou para a caixa. Fiquei de olho no papel e sorteei o mesmo. A professora percebeu e disse que assim não valia, me fez sortear outra pergunta. Aí já sentia tremores, calafrios, cólicas, a cabeça rodando, todos os sintomas de um início de pânico. Com a mão trêmula, segurei o papel e li a pergunta: "De que trata os Atos dos Apóstolos?". A pergunta já era a própria resposta, mais fácil impossível. "Trata dos atos ou ações dos apóstolos após a ascensão de Cristo aos céus". Mas meu cérebro parecia vazio, deu um branco total e não conseguia saber do que se tratava. Minha cabeça confundiu com o Apocalipse e então, com voz trêmula e gaguejando um pouco, comecei a falar que tinha sido escrito por São João.... e não conseguia ir adiante. A professora até estava dando chance pois nessa etapa a velocidade da resposta era tudo. Até Júlia se desesperou, com pena de mim, e falou "Maria Lucia!! Pensa bem!!! É tão fácil!!!! Pelo amor de Deus!!!". Inútil, meu cérebro estava vazio, estava em estado de semi-choque. Fui eliminada, Julia ficou em segundo lugar e outra aluna em primeiro. Nunca me conformei com isso, pois estava totalmente segura de que ninguém sabia mais sobre assuntos bíblicos do que eu! Tinha sido traída pelo meu próprio cérebro, o pânico tinha levado a melhor sobre mim, me derrotando. Foi a primeira vez que realmente tive horror de ser tão "tímida" e de ter esses ataques de pânico em apresentações e provas orais.
O resultado do concurso de cartazes e a distribuição dos prêmios seria na capela, ao fim de uma missa solene. Todas as alunas com "traje de gala". As duas vencedoras do concurso de conhecimentos se aproximaram do altar para receber das mãos da superiora uma Bíblia (primeiro lugar) e um chaveiro com uma bíblia em miniatura (segundo lugar). E chegou a hora de anunciarem cartaz vencedor! Todas as alunas ao me redor se alvoroçaram, minha vitória era tida como certa. Passei a ficar mais otimista pois sempre era um "prêmio de consolação" depois daquele vexame do concurso oral. Muitas meninas me diziam "se levanta, se levanta! Já vai indo para o altar pois já ganhou!". Em certo momento até cheguei a fazer menção de me levantar... quando anunciaram o vencedor: o menino que desenhou o cartaz com a lâmpada e as pegadas. Sorri amarelo, fingindo não estar me importando com a dupla derrota e ainda murmurei para as colegas "não disse a vocês que não ia ganhar?". Mas chorava por dentro e me sentia muito humilhada e injustiçada. Um dos maiores terrores de um fóbico social é a derrota. Mais um tijolo para o Muro....