É preciso compor uma música!
Um belo dia (ou talvez não tão belo assim...) a professora de Artes resolveu passar uma tarefa, valendo nota como prova: compôr uma canção, letra e música, e cantá-la para a turma num dia determinado. Comecei a viver um verdadeiro calvário. Sempre adorei música e meu sonho era tocar piano mas... jamais consegui compor sequer uma frase musical. Em termos de composição musical, sou totalmente estéril, não sái absolutamente nada, por mais que tente! Compor a letra nem seria tão difícil, se eu tivesse capacidade de depois musicá-la, mas nada! E a professora avisou que não aceitaria plágios de maneira alguma, se descobrisse que a música já existia, era zero na certa. E agora??? O dia da apresentação chegando e eu pensando nisso dia e noite, tentando desesperadamente compor algo, mas não saía nada. Contei o drama à minha mãe, que deu umas sugestões não muito ortodoxas, por assim dizer... ela sabia umas trovinhas do tempo de crianças, coisas sem nenhum sentido, e sugeriu que eu criasse algo simples baseada numa delas "Lá vem a lua surgindo, redonda como um tamanco. Vem, meu amor, andar de velocípede!". A princípio nem rejeitei a idéia de todo, pois poderia ser engraçado e algo mais na linha surrealista. Aí tentei musicar... saiu algo horrível. Mas mesmo assim relaxei e fiquei com essa idéia por uns dias, até me dar conta de que era algo totalmente ridículo! Não podia ser!!! Algumas das minhas amigas mais "tímidas" também estavam com o mesmo problema e mesmo algumas das "não tímidas", afinal, onde já se viu OBRIGAR uma pessoa a compôr uma música? Hoje em dia penso nisso e acho que foi uma idéia totalmente irracional por parte da professora e se acontecesse algo assim com um filho meu, iria na escola reclamar. Arte não se obriga, ou a pessoa tem o talento ou não tem, não há como forçar! Mas naquele tempo ninguém pensava em questionar os métodos didáticos de uma professora, nem pais nem alunos... E lá estava eu passando noites inteiras nessa agonia de tentar compor algo... e ainda por cima ter que cantar e dançar na frente da turma toda! Surgiu uma idéia entre as coleguinhas que estavam enfrentando a mesma dificuldade: não ir à escola naquele dia, depois fazer uma prova qualquer de segunda-chamada. Embarquei nessa idéia, era a única saída! Falei com minha mãe, que não objetou. No dia "fatídico", meus pais me acordam para ir à escola. "Mas a gente tinha combinado que hoje eu iria faltar, pois é dia de apresentar a tal música que não consegui compor!". Meu pai foi inflexível: "filho meu não falta aula por uma bobagem qualquer, só em caso de doença mesmo. Dever é dever, e não se foge ao dever!". Chorei, esperneei, xinguei, mas tive que ir. Entrei no ônibus "feito um furacão", sem nem cumprimentar o motorista e sem falar com ninguém, de cara emburrada. E chegou a hora da aula. As colegas mais extrovertidas, aquele "grupo da elite" foi logo se apresentando... algumas dançavam coreografias "da moda", com músicas caprichadas (vale dizer que algumas delas tinham pais que compunham e elas viviam cantando tocando tais músicas ao violão.. provalmente foram eles que compuseram as músicas para elas...). Percebi, com certo alívio, que não era a única a não tem composto nada: umas outras 4 meninas estavam na mesma situação. A professora foi chamando, cada uma dizendo que não tinha composto nada, e ela mandando essas alunas sentarem nas cadeiras no fundo da sala e aguardarem. Achei que era bom sinal pois ela nem se exaltou e nem deu bronca, pensei que nos daria uma tarefa alternativa, que tinha percebido enfim a estupidez de se obrigar alguém a compôr. Quando todas as alunas apresentaram suas músicas, algumas até com pandeiros ou violão, a professora se volta para a gente e diz: "Vocês aí! Têm 20 minutos para compor uma música e apresentar aqui na frente, e daqui não saem sem apresentar a música!". Meu estômago começou a se revirar todo, senti arrepios dos pés à cabeça e comecei a suar frio... O que fazer? Era preciso compor algo, por mais ridículo que fosse! Naquela época, a Vila Sésamo estava na moda no Brasil, e eu gostava muito da música do Garibaldo, aquele grande pássaro amarelo. Só me vinha aquela música na cabeça, mas a professora não aceitava plágio! Resolvi então fazer uma "adaptação", me inspirar um pouco na melodia mas de forma sutil, não permitindo à professora, ou a alguma aluna dedo-duro, detectar a "fonte de inspiração". E como sempre gostei de escrever textos e poesias de cunho religioso, saiu algo assim: "Eu gosto das flores/E dos passarinhos/Eu gosto de tudo que é de Deus/Por isso gosto do mundo..." (não me lembro do resto). De qualquer maneira era ridículo, e tive que cantar tal bobagem na frente de todas as alunas - que se comportaram mas deviam estar rindo um bocado por dentro e depois, com certeza, seria o assunto de piadas no recreio. Mas de um jeito ou de outro, ufa!!! Livrei-me desta e o alívio que um fóbico social sente depois de uma apresentação tão temida é algo comparado provavelmente ao Nirvana, a gente parece flutuar no ar, tamanho é o alívio. Mas ficou a revolta. Meu pai tinha sido intolerante e não tinha percebido o quanto era cruel uma professora exigir isso dos alunos. Queria me incutir a idéia de que "não devemos fugir da raia", mas que doeu, doeu! Mais um tijolo no Muro...