As aulas de Educação Física - um dos maiores terrores dos fóbicos sociais!!!

"Mente sana em corpo são". É uma verdade, exercício é uma coisa boa e muito importante para a saúde, mas quem inventou a ginástica obrigatória como matéria de currículo escolar com certeza não sabia nada sobre a Fobia Social. As aulas de ginástica são o maior terror dos fóbicos sociais, o verdadeiro "monstro", um dos maiores "tijolos no muro". Todos nós temos trauma e lembramos essas aulas como o maior período de terror e tortura. É, por assim dizer, o "campo de concentração" dos fóbicos sociais. É onde fica mais evidente que somos desajeitados, estabanados, descontrolados, perdedores, fracassados. Isso é muito duro, pois tudo o que mais tememos é a derrota, a vergonha, a humilhação. Quando era aula de "ginástica rítmica" (pois naquele tempo não existia ainda aeróbica...) eu até gostava, pois aí a turma toda fazia os movimentos ao mesmo tempo, acompanhando uma música da moda, e assim ninguém realmente se destacava. Não importava se eu era desajeitada, ninguém percebia pois sempre procurava ficar na parte mais escondida possível e bem longe do professor ou professora. Mas tivemos um professor que "levava a coisa a sério". Fazia coreografias para a televisão, cara super gabaritado. Não era mais ginástica, era coreografia, e aí os erros de cada um ficavam mais evidentes. Um dia o professor comentou que tinha gente no grupo que "botava o sorvete na testa" (sinal de total falta de coordenação motora) mas que não conseguia saber quem eram "as culpadas". Aí resolveu usar de um artifício para descobrir as alunas "sorvetes na testa". Mandou todas as alunas baterem palmas ritmadamente e, como um regente de orquestra, apontava uma aluna de cada vez. Nesta hora, a turma deveria parar de bater palmas e só aquela aluna deveria continuar - no mesmo ritmo, é claro. Foi me dando um frio na barriga pensando que ia chegar a minha hora de "bater palmas sozinha" e sabia que ia fazer um "papelão". Dito e feito, ele apontou para mim, a turma parou e eu continuei... totalmente fora do ritmo, uma hora acelerava demais as palmas, outra batia muito devagar. Ele não falou nada, nem as colegas tampouco, mas fiquei com a certeza de que a "sorvete na testa" era eu, não por sofrer de falta de coordenação motora, mas por perdêr essa coordenação por puro nervosismo.

E as torturas continuavam. Resolveu que a prova bimestral seria virar uma cambalhota. Obviamente eu não conseguia fazer e fiquei em agonia por semanas, tentando treinar em casa com resultados sempre desastrosos, até chegar o dia da prova. Me encolhi no chão em posição fetal, conforme as instruções do professor, e ele e uma aluna que sempre o ajudava nos "rolaram feito uma bola". Só que aquela sensação de ver tudo virando me deixou desorientada e acabei "aterrissando" do outro lado do colchão com uma perna para cada lado e toda torta. Outra vez foi uma prova de "plantar bananeira", aí nem foi tão difícil pois o professor e a aluna ficavam segurando os nossos tornozelos naquela posição incômoda. Outra vez, e a pior delas, foi ter que correr até um aparelho de ginástica que na época chamavam de "Pluto", uma espécie de pirâmide de madeira com o topo achatado e acolchoado, apoiar as mãos e saltar para o outro lado, feito "pular carniça". Isso eu não consegui fazer de jeito nenhum! Ainda bem que ninguém ficava reprovado em Educação Física, a não ser que faltasse a muitas aulas. Certa vez o professor resolveu ter uma conversa particular com as "alunas problemáticas". Pelo menos tenho que admitir que ele se preocupava com a gente... Chegada a minha vez, sozinhos na sala, perguntou porque eu era tão arredia nas aulas e não me empenhava muito, se havia algum problema. Respondi que era envergonhada, tímida, e que isso me atrapalhava. E ficou por isso mesmo. 

 

Mas o maior pesadelo começou mesmo quando passamos a ter aulas de voleibol. Nos outros jogos como basquete ou futebol, a pessoa pode "disfarçar", ficar lá só correndo para um lado e para o outro, "fingindo que está jogando". Mas não se pode fazer isso no volei. 6 jogadores de cada lado tem que fazer um rodízio. Todos têm que passar por todas as posições. Chega sempre a hora de ser o da frente, no meio, que tem que passar a bola para os de trás e sempre chega a hora daquele que tem que dar o saque. A minha sorte, e a de minhas outras companheiras "tímidas e desajeitadas", é que só havia uma quadra e, sendo assim, só 12 alunas eram chamadas para a partida. A gente evitava jogar sempre que podia, se escondendo no fundo do pátio ou então "pedindo dispensa". A gente geralmente tem direito a umas 7 dispensas por semestre, para o caso de não se sentir bem, sem que conte como falta (e um número muito grande de faltas leva à reprovação). As meninas geralmente pedem dispensa quando estão menstruadas. Naquela época poucas de nós já "éramos mocinhas", como se dizia naquela época, mas fingíamos ser e, sempre que podíamos, "estávamos naqueles dias". Mas nem sempre era possível escapar e as colegas do time sempre se irritavam bastante com a nossa presença, pois era derrota certa. Sempre me sentia como uma verdadeira "barata tonta", principalmente porque não entendia as regras do jogo (a mesma coisa quando tinhamos que jogar basquete). Como a maioria das alunas já sabia jogar, os professores nunca se davam ao trabalho de explicar a mecânica do jogo e assim me sentia totalmente perdida. Mas o pior de tudo é o reflexo incontrolável que tenho de me desviar de uma bola quando ela vem voando em minha direção. Imagine, em certo momento eu era a responsável por receber a boa, que vinha voando em minha direção, e dar um saque. Ao invés disso, me encolhia toda e deixava a bola passar. Mesmo quando fazia um esforço para tentar vencer o reflexo, não conseguia segurar uma bola e é assim até hoje. Se me jogam uma chave ou qualquer objeto, mesmo que a pessoa esteja a um metro de distância, não consigo pegar. É lógico que foi desde cedo apelidada de "mão furada" por conta disso.  E chegou a hora de termos "prova de saque". As alunas ficavam em fila e, quando chegava a vez de cada uma, o professor ou alguma colega mais experiente jogava a bola... e nós tínhamos que dar um saque. Chegou a minha vez, a bola veio, dei o saque mais forte que podia... a bola subiu menos de dois palmos acima dos meus pulsos e caiu no chão. Que vexame! Tirei nota baixa, mas consegui passar pois, felizmente, em Educação Física, o que contava mais era a participação e a matéria não tinha peso de fazer uma pessoa repetir ano. Mas ficava a humilhação de ser "sorvete na testa" e "mão furada", além de tantos outros adjetivos depreciativos. E essas humilhações ficam remoendo na alma de um fóbico social pela vida toda. Podem se passar anos e anos, lembraremos sempre de que somos "mão furada".

 

Outra tortura era o dia de atividades recreativas por ocasião do Dia da Criança e outras festas semelhantes. Jogos e competições entre as turmas. Como nas aulas de Educação Física, a gente sempre arranjava um jeito de "ficar invisível", mas nem sempre funcionava. Chegava a tremer de bater os dentes se tinha que participar de uma corrida de passar o bastão, com pavor de que o bastão caísse de minhas mãos. E nunca esqueço da "corrida da batata". Umas 4 alunas, uma de cada turma (ou time) tinham que equilibrar uma batata numa colher, segurando o cabo com a boca, correr até uma aluna que servia de "marco", passar por trás dela, dar a volta e vencia quem chegava primeiro no ponto de partida. A diretora pediu voluntários. Como ninguém se manifestava, resolveu escolher alheatoriamente falando um número (nós éramos identificadas por números na chamada). A menina do outro time já sorteada, a diretora grita "número 25!" Era eu. Quando as colegas viram, consideraram o jogo como perdido e passaram até a torcer pela garota da outra turma. Mas foi até bom assim, pois ninguém viu o meu vexame. Corri com a colher, a batata pesada, o cabo machucando o céu da boca, só que me atrapalhei e esqueci que tinha que "contornar" a colega do outro lado passando pela direita. Fui pela esquerda e com isso dei o maior encontrão na garota de outro time que estava ao lado. Ela não deixou cair a batata e continuou correndo. A minha batata se estatelou no chão e fiquei com tanta vergonha que resolvi ficar lá atrás das meninas e nem tentar pegar a dita cuja de novo para chegar em último lugar. Mas, de qualquer jeito, ninguém se importou pois nem estavam prestando atenção a mim. Ainda bem! Mas, mesmo sem chamar atenção, senti-me muito humilhada e envergonhada e passei a ter pavor de jogos competitivos, era falar em competição que já tremia (e é assim até hoje). Educação Física... Mais alguns tijolos no Muro!

 

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