"Don Quixote de Saias"

 

Adorava o período de férias, pois era quando podia "colocar as leituras em dia", ler livros e mais livros o tempo todo, esta sim a minha verdadeira paixão. Mas ler sem compromisso de analisar, resumir ou comentar o livro, só pelo prazer mesmo, só para "viver a vida maravilhosa dos personagens dos livros". Há uma palavra no vocabulário literário para isso: "catarse" ou então "bovarismo" (por causa da personagem principal do livro Madame Bovary). Como a minha "vida real" era vazia, sem emoções, sem paixões, sem grandes aventuras, sem viagens, sem vida social intensa, "tomava emprestado" a vida fantástica dos personagens dos romances. O mesmo acontecia com as novelas da TV. Sempre acabava me identificando com a "mocinha" e passava a viver aquela "vida artificial" no mundo da fantasia. E isso me fazia (e ainda me faz) feliz. Sempre achei que era uma injustiçada, que minha vida era tão vazia porque as pessoas não me compreendiam mas que, por dentro, eu tinha toda a força e todo o potencial para ser uma heroína de romance, nada mais nada menos! Quando ia ao cinema, a mesma coisa, "vivia" intensamente a história, mas sempre saía do cinema com uma sensação estranha... sentia-me vazia, como se "tivesse vivido a minha verdadeira vida" por um par de horas e estivesse de volta a uma vida para a qual não me sentia adequada. Às vezes chegava a chorar pensando "seria tão bom se a vida pudesse ser como os filmes!". E como os livros também acabam chegando ao epílogo, o jeito era ir lendo um atrás do outro sem parar, pois assim a sensação de estar vivendo aquela vida mágica continuava sempre. Como tudo na vida, havia o seu lado ruim: passei a acreditar que a vida real podia ser tal qual os romances, as novelas e os filmes - era só querer. Passei a acreditar que as pessoas podiam ser perfeitas e que as "heroínas" sempre acabariam vencendo no final - e que a verdade e a virtude sempre prevaleceriam... Minha meta na vida passou a ser esta: encontrar a perfeição - nas pessoas e na vida em geral. Pois Jesus não tinha afirmado "Sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito!"? Então a perfeição era possível e a tendência natural das coisas era caminhar para a perfeição. Do caos inicial para o cosmos, a harmonia universal... Identifiquei-me totalmente com Don Quixote, este também "intoxicado" pelos romances de cavalaria que tinha lido ao longo da vida e que tinham lhe "virado a cabeça" a ponto de cismar que poderia se tornar um personagem e viver ao estilo dos tais romances. Assim fui, assim sou.

 

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