A "CDF" da turma
Realmente estudava, estudava e estudava... minha vida era estudar o tempo todo... Enquanto a maioria das colegas viajava, ia à praia, ao cinema ou namorava, eu ficava em casa deitada estudando (pois sempre tive esse hábito condenado pelos oculistas de ler - e às vezes até mesmo escrever - deitada... engraçado, e hoje já estou com 40 anos e ainda tenho vista perfeita...). No meu caso não prejudicou a visão, e aliviava as dores nas costas pois devido a má postura e às pastas pesadíssimas cheias de material didático desenvolvi escoliose e cifose (concundice). Sentada, por melhor que fosse a cadeira, sempre sentia dores nas costas e nos ombros e a tortura piorou quando começaram a substituir as antigas carteiras que conjugavam mesa e cadeira com as "mais modernas" que nada mais eram do que uma cadeira com um "braço largo do lado direito" (reservando algumas no esquerdo para os canhotos). Sempre sofri horrores sentada nessas carteiras e sempre que havia alguma outra desocupada colocava do meu lado esquerdo para apoiar o outro braço. Ou então mantinha a pasta ou bolsa sempre no meu colo e apoiava os braços nela evitando as dores. Com o tempo, passei a me utilisar desse recurso sempre, e até hoje, onde quer que vá, sempre fico com a bolsa no colo. Alguns psicólogos me chamaram a atenção para este fato, em uma das minhas tentativas facassadas de tratamento (que vou narrar em outra seção da página), dizendo que a bolsa funcionava como uma "trincheira", um muro de proteção que eu colocava, instintivamente, entre as pessoas e eu. E falando nisso, outra coisa que também virou um hábito inconsciente - e que só fui perceber já no tempo da faculdade - era ficar o tempo todo sacodindo uma perna: apoiando só a frente do pé no chão, ficava sacodindo a perna para cima e para baixo num movimento vibratório. Só percebi isso porque um dia alguns colegas chamaram atenção para o fato, perguntando se eu estava nervosa. A "tremedeira" na perna piorava muito quando eu tinha que participar num debate ou até mesmo quando falava alguma coisa numa roda de amigos. Passou a ser visto como um tique nervoso.
Mas estou me desviando do assunto principal deste capítulo - a minha obcessão pelos estudos. Realmente, não sossegava enquanto não preparasse todos os trabalhos e estudasse para as provas - com semanas de antecedência. Enquanto quase todas as outras colegas deixavam tudo para a última hora, eu já tinha tudo preparado e podia me sentia aliviada. Tinha pavor de deixar tudo para última hora e não conseguir dar conta de entregar trabalhos no prazo determinado ou então chegar o dia da prova e não estar com a matéria toda estudada. Até hoje, tantos anos depois de me formar até nas faculdades ainda tenho volta e meia sonhos recorrentes nos quais chega o dia de entregar um trabalho e não aprontei, ou o dia de uma prova e não estudei a matéria e a prova fica em branco. Engraçado, isso nunca aconteceu em minha vida, mas assombra meus sonhos até hoje... O mais curioso é que todos sempre acreditaram que eu adorava estudar - e por isso vivia enterrada nos livros. Realmente gostava de algumas matérias como biologia (ciências no Primeiro Grau), Português, Literatura, História e Geografia (embora tivesse um bocado de dificuldade para decorar datas históricas e nomes de capitais, acidentes geográficos, etc) mas detestava matemática, química e física. As ciências exatas nunca foram o meu forte, parece que meu cérebro não consegue processar lógica. Os problemas eram o meu terror. Sempre passei "raspando" em matemática e ficava em pânico quando chegava a época das provas. As outras matérias eram "previsíveis". Se eu estudasse os capítulos dos livros que o professor recomendara não tinha como errar. Não eram tão exigentes com relação a datas históricas e assim, geralmente, contava com minhas próprias palavras o que havia aprendido nos livros. Mas nas ciências exatas a gente nunca podia prever o que cairia na prova pois existem milhares de variantes envolvidas. Eu fazia todos os exercícios inúmeras vezes, refazia todos os problemas e rezava para que caísse um do mesmo "molde" na prova, só mudando os valores. Como isso sempre acontecia numa questão ou outra, sempre conseguia pontos para passar, era a minha salvação!
COMENTAR COMO FICAVA TENSA NAS "SABATINAS", PRINCIPALMENTE TABUADA
O que muitas vezes passava por "prazer e paixão pelos estudos" nada mais era do que pavor de ter que repetir o ano... e estudar aquelas mesmas coisas outra vez. Creio que na verdade não gostava dos estudos nem da escola tanto assim, e por isso mesmo estudava... para me livrar de tudo isso o mais brevemente possível. Quem não estudava não "passava direto" e eram mais umas duas semanas no fim de cada semestre até fazer a prova final. Quem não passasse na final, ia para "recuperação" e tinha que assistir aulas extras e fazer outra prova. Quem ainda assim não passasse, tinha que fazer um "curso de verão", ou seja, perder as férias assistindo aulas extras e fazendo mais provas. E se nada disso adiantasse, era repetir o ano. Era raro não "passar direto", pois assim me livrava daquelas obrigações todas e tirava o "peso das costas e da consciência" o mais cedo possível e podia relaxar. E sempre foi assim, até na faculdade. Quanto mais eu detestava uma matéria e tinha dificuldades, mais eu a estudava freneticamente, a níveis quase absurdos, dia e noite, para que pudesse passar e deixar aquele verdadeiro pesadelo para trás. A idéia de ser reprovada me causava horror, mas até o simples fato de tirar uma nota baixa me fazia tremer... era uma humilhação, um atestado de incompetência, uma derrota, enfim.
Mas estar sempre preparada com antecedência não era garantia de tranquilidade. Quando chegava as vésperas das provas ou de entregar algum trabalho, as colegas de desesperavam.... e como sabiam que eu estava com o dever cumprido, vinham tirar dúvidas, pedir dicas ou muitas vezes até pedir para copiar partes dos meus trabalhos. Eu, sempre insegura e com medo de perder os amigos, pensava que ceder era uma forma de me tornar popular e estimada... e assim ia tirando dúvidas e lendo meus trabalhos inúmeras vezes com uma paciência admirável. Mas tinha ocasiões em que o assédio se tornava exagerado demais e acabava me deixando nervosa. Julia era fraca em algumas matérias, tais como algebra, e vivia atrás de mim tirando um milhão de dúvidas, tanto na escola quanto ao telefone. Eu ia explicando tudo, da melhor maneira possível, mas uma dúvida sempre gerava outra e ela ia se desesperando... e eu também. No final, acabava tendo dúvidas que nunca tive e embrulhando tudo que já sabia. E aí ficava desesperada a ponto de chorar. Uma vez ela chegou a me ligar mais de 20 vezes numa só tarde, tirando dúvidas na véspera de uma prova de álgebra. Meus pais ficavam revoltados com isso pois achavam que ela fazia de propósito para me desnortear e, no final, tirar nota maior do que a minha. Uma vez meu pai atendeu ao telefone e quando ela pediu para me chamar ele deu um muxoxo e ficou com o telefone no ouvido, sem passar para mim. Peguei o telefone correndo. Julia perguntou o que tinha se passado pois desconfiou de algo, mas se fingiu de inocente e eu, rapidamente, dei mil explicações e desculpas, com medo que ela ficasse aborrecida ou magoada. De outra feita, a professora passou um trabalho escrito e todos estavam tendo dificuldades para desenvolver o tema, menos eu. Na véspera do dia marcado para a entrega, não só a Julia, mas também Luciana e outras colegas começaram a me telefonar o dia inteiro pedindo que eu lesse o meu trabalho para elas, a fim de que "tivesse uma base para desenvolver seus próprios trabalhos" (pois a professora não aceitaria uma dezena de trabalhos iguais, é claro). Tive que ler o trabalho mais de 10 vezes e Luciana chegou até a gravar num gravador portátil, pelo telefone! Julia ainda se desesperava mais no tempo que Marcia ainda estudava com a gente, pois esta não precisava estudar dia e noite como eu e com tanta antecedência. Sempre teve memória fotográfica: lia um texto uma vez e podia dizer tudo de cor, palavra por palavra. Quando Julia pedia a sua ajuda, ela simplesmente começava a recitar capítulos inteiros e isso ainda deixava Julia mais nervosa (e talvez invejosa). Sobrava para mim! Muitas vezes acabei mesmo prejudicava e tirando uma nota baixa pois, além ser "contaminada pela tensão das colegas", ainda por cima fazia a prova já exausta da maratona da véspera. Meu cérebro simplesmente não conseguia mais raciocinar direito depois de tanta trabalheira.
E que um fóbico social não faz para ter amigos! Sempre aguentei tudo para não perder os poucos que tinha, e sempre achava que poderia conquistar as pessoas ajudando numa matéria, fazendo um trabalho em grupo sozinha para, no final, cinco ou seis assinarem e tirarem a mesma boa nota, ou mesmo dando presentes. Depois de muito sofrimento e passados muitos anos descobri que amizade e amor não se compram, que quem gosta de gente, gosta "de graça", sem que a gente precise oferecer nada. Mas sempre foi difícil resistir à essa verdadeira "tentação" de tentar "comprar amigos"...