Amizades, inimizades, rivalidades....
Com o tempo, as colegas foram ficam invejosas das minhas notas altas e dos elogios da madre e passaram a me atormentar insinuando que eu era "santinha", "múmia" (porque nunca falava nada) e me desprezavam totalmente. Uma vez até escrevi uma cartinha para uma espécie de "consultório sentimental" de uma revista infantil que gostava muito. Já havia enviado uma foto e um desenho para eles e a foto já tinha sido publicada. Pois um dia vi minha carta na revista e a resposta: "Maria Lucia, você tem que reagir, nada de aceitar passivamente as agressões das colegas! Se te chamam de "santa" responda que "santa está é no altra e não na escola" e se te chamam de "múmia" responda "antes múmia do que burra!". Bem radical essa revistinha né? (risos). Desnecessário dizer que não segui o conselho, imagine se ia ter coragem de enfrentar as colegas assim! O fato é que tinha vergonha de ser "sabida" e de tirar notas boas pois isso me afastava ainda mais do "grupinho" a qual eu queria pertencer. Ser santinha, múmia e CDF significavam ser "diferente", ser "banida do grupo", ser quase que uma aberração. E eu só queria ser como as outras garotas e ser popular, fazer parte do "grupo de elite" e não do "bando das desajeitadas".
Engraçado... eu geralmente nem percebia essas "indiretas" das colegas... era sempre Julia que me alertava dizendo que elas falavam mal, riam de mim, etc. Hoje em dia me pergunto se não foi ela própria que inventou tudo isso para me deixar mais "por baixo". Ela sempre foi o meu "olho crítico". Apontava todos os meus defeitos, reparava em tudo e comentava sem nenhum escrúpulos. "Seu olho é torto! Sua boca também! Seu uniforme está sujo! Seu cabelo está empastado, ou seja, não lava faz tempo! Sua sobrancelha direita parece mais alta do que a esquerda!". Eu, que nunca tinha notado esses meus "defeitos", passava a estudar meu rosto no espelho e a notar que, realmente, minha cara era toda torta. Realmente meu rosto não há total simetria no meu rosto, mas também não é algo gritante. Mas na minha cabeça, as coisas tomavam proporções inimagináveis a ponto de me olhar no espelho e só ver um monstro, uma menina horrível, toda cheia de imperfeições. Ah, e meus dentes também eram todos tortos (alguns dentes de leite não caíram, e como estes são maiores do que os permanentes, não havia espaço para estes, fazendo minha arcada dentária virar uma bagunça total. Isso é culpa do dentista, pois visitava praticamente todo mês devido a muitas cáries e ele deveria ter notado esse problema com os dentes de leite).
Este é outro grande problema dos fóbicos sociais: acreditam em tudo que os outros dizem sobre ele... e a opinião alheia domina completamente. Se alguém diz que somos feios, mesmo que não seja verdade, passaremos a nos ver - e a nos achar - muito feios.
Comentava essas coisas com mamãe e ela dizia que a Julia não era minha amiga de verdade e que me dominava. Costumava chamá-la de "abelha rainha" pois era mandona que só ela. Sugeriu uma vez que eu me vingasse, chamando-a de "tanajura" pois tinha o traseiro bastante empinado. Mas não sabia bem se isso era uma crítica... só mesmo na cabeça de minha mãe. O povo brasileiro adora um traseiro empinadinho e eu sim, era uma verdadeira "tábua". Mas um dia chamei Julia de tanajura. Ela não sabia o que era isso... depois que expliquei, desandou a chorar dizendo que eu a tinha xingado. Nunca esqueceu isso, e um dia se vingaria...
Tinha verdadeira obcessão por ser melhor do que eu - em tudo. Queria sempre saber as minhas notas a qualquer custo, para comparar. Outra vez, por sugestão de mamãe, passei a guardar as provas na pasta rapidamente, assim que os professores as distribuíam. Julia não se conformava com isso e uma vez chegou a abrir minha pasta na minha ausência só para bisbilhotar e ver que nota eu tinha tirado em certa prova. Ela me incomodava, mas não conseguia me desvincular dela e, de certa forma, era dependente de sua amizade, parecia que Julia era o meu "alter ego", a minha "fobia social" personalizada, pois ela se comportava justamente como a voz dentro de mim que me dizia que eu era desajeitada, boba, feia, ingênua... Amigas assim: mais tijolo para o "muro"...