Aulas de declamação:

A essas alturas meus pais já tinham percebido que eu era "tímida demais" e que sofria por causa disso (estava com 9 anos). Tentavam ajudar, da maneira que sabiam e podiam. Um dia anunciaram na escola um curso "extra curricular", ministrado uma vez por semana após o horário das aulas, de declamação e teatro. No papel que recebemos dizia "uma das melhores formas se livrar da timidez! Este curso acaba com as inibições!". Parecia de encomenda para mim, não é mesmo? Tanto eu quanto meus pais decidimos que seria uma boa idéia, "para eu me desinibir um pouco". Não me forçaram a fazer o curso, conversamos sobre o assunto e aceitei de boa vontade. Até que o curso me agradava! Sempre gostei de poesias e não era uma tortura decorá-las e declamá-las. A turma era pequena e a professora ficava sentada na fileira da frente, mexendo os lábios numa "declamação sem som", fazendo gestos e expressões faciais que nós devíamos imitar da melhor maneira possível. Estávamos todos no mesmo barco, todas esquecíamos alguns trechos, todas tínhamos que melhorar a interpretação aqui e ali, parecia divertido. Tinha também aulas de dicção, com aquelas frases tipo "O rato roeu a roupa do rei de Roma", etc, e também exercícios de relaxamento. Lembro de um, que era o meu preferido: Nós tinhamos que nos agachar no chão em posição fetal, com a cabeça encolhida, fingindo ser uma semente. Aí, muito lentamente (mas muito lentamente mesmo!), íamos mexendo os braços, erguendo o pescoço e o corpo até ficarmos de joelho (imitando uma semente que rompe a terra e vai crescendo até virar árvore), depois, uma perna de cada vez ir se levantando e abrindo os braços. Depois ficar um tempo se balançando, fingindo ser uma árvore, tudo muito lentamente. Tudo isso de olhos fechados. Depois fazíamos o processo inverso, íamos nos encolhendo de novo até voltarmos à posição original, de semente na terra. Todas faziam ao mesmo tempo e quanto mais demorava e mais lenta a aluna era, melhor e mais elogios recebia. Gostava do exercício, pois sempre era uma chance de "não falar nada" e ficar quieta no meu canto... e além disso, todas as alunas estavam de olhos fechados, ninguém estava me observando... quer dizer... a professora estava, e por isso mesmo, de vez em quando, "arriscava um olhar", abria parcialmente os olhos, muito rapidamente para "checar o progresso das outras". Algumas eram rápidas e acabavam logo. Achei que era melhor ir demorando mais e mais, pois era isso que a professora queria. Nos estágios finais relaxei e resolvi não me preocupar mais, segui o meu próprio ritmo e quando finalmente abri os olhos e terminei o exercício, todas as alunas já tinham acabado e me observavam. Recebi muitos elogios da professora "por ser tão calma". 

Até aí tudo bem, a única coisa que me incomodava era que ter que esperar meu pai me buscar, pois como era após as aulas o ônibus já tinha partido há muito tempo levando as outras alunas. Evitar o ônibus era uma coisa boa, mas meu pais demorava muito (pois vinha de muito longe e, como era chefe de repartição, não tinha hora para sair). Esperar por ele era uma verdadeira agonia. Havia sempre um grupinho de alunas também esperando seus pais, mas eles iam chegando e o grupo cada vez menor... e a noite caindo... e eu apavorada com medo que meu pai nunca aparecesse e eu fosse obrigada a ficar na escola para sempre.. ou pelo menos pernoitar lá, idéia essa que não me agradava nem um pouco. Essa espera me fez perceber o quanto o tempo pode ser relativo, as horas se arrastavam e quinze minutos equivaliam a 10 horas de espera, tal a agonia de esperar. Quase sempre era uma das últimas, meu pai sempre chegando tarde. Mas valia a pena, o curso era divertido e gostava de aprender tantas poesias novas... até cheguei a me apresentar em alguns aniversários de parentes ou mesmo para algumas visitas lá em casa, declamando uma poesia ou então, a pedidos insistentes de minha mãe, que tinha adorado, fazendo o exercício da semente (que devia ser totalmente chato para quem assistia... provavelmente ninguém assistia de qualquer jeito e era só uma desculpa para me manter ocupada.

Mas foi chegando o fim do ano e teria uma grande apresentação de todas as alunas (eram vários níveis), com declamação e pecinhas de teatro, num enorme teatro da Zona Sul. Coisa das grandes, com direito a convite e a presença do autor da poesia num teatro lotado de pais, parentes, amigos e professores. O grande evento para encerrar o ano com "chave de ouro". O grupo de teatro era mais adiantado, as alunas mais novinhas iam declamar uma poesia, listada no convite e tudo. Coube-me uma poesia chamada "A ameixa", a estória de uma briga entre primos por uma ameixa de pudim, pueril mas engraçadinha. Nos ensaios comecei a me sentir ansiosa, ainda mais porque a professora estava tratando a coisa com proporções de uma estréia de "musical da Broadway". Os primeiros ensaios no teatro da escola, os últimos no próprio teatro da Zona Sul. E toma de ensaiar, ensaiar e ensaiar. Comecei a pensar "meu Deus! É um teatro onde devem caber mais de mil pessoas, e estarei lá no palco sozinha com toda aquela gente me olhando, inclusive o autor da poesia. E se me desse um branco na hora? E se errasse um trecho? E se gaguejasse?". Mas esses pensamentos não chegavam a me torturar... pelo menos não a nivel consciente, ao que parece, sentia um nervoso, mas eu diria que "controlável". Nos estágios finais a professora disse que todas as alunas deveriam se apresentar com os cabelos bem presos para trás. Eu tinha franjinha. Alegou que no palco, com todas aquelas luzes, o cabelo no rosto cria muitas sombras... e a gente também seria maquiada antes de se apresentar. Expliquei à minha mãe que tínhamos que dar um jeito de prender a minha franjinha e ela disse que era bobagem, que eu ficava muito bonitinha de franjinha. "Mas, mãe! A professora disse que tem que ser assim!". E ela respondendo: "Bobagem!!! Na hora ela nem vai perceber. E no final das contas não sei porque essa implicância idiota com uma simples franjinha". Pronto! Foi instalado o caos, comecei a ficar desesperada e obcecada com esse problema da franjinha. Hoje em dia me pergunto se estava "desviando o medo de declamar e projetando nesse problema aparentemente de menor importância", mas não sei realmente o que aconteceu. O fato é que esse problema me estressava mais do que ter que declamar na frente de mil e tantas pessoas. Por mais que tentasse, não conseguia convencer mamãe da necessidade de prender os meus cabelos... e nos ensaios a professora sempre nos lembrava desse detalhe importantíssimo. Uma semana antes do dia marcado para o grande recital amanheci com febre alta - que não passava com remédio nenhum. E foi assim a semana inteira, febre altíssima, meus pais super preocupados. Chega o dia do recital e eu queimando de febre na cama. Meu pai me levou no Posto de Assistência, onde era administrador, e os médicos não conseguiram descobrir nada de errado comigo, depois de uma série de exames. Mais uma vez, atribuíram ao nervoso. Como a febre era de quase 40 graus decidiram que eu não tinha condições de ir ao recital (doença é coisa que minha mãe sempre levou a sério - até demais!) e começaram a ligar para a professa pois meu nome estava no programa e era preciso que ela fosse avisada. Só que ninguém atendia o telefone na casa dela, provavelmente estava já no teatro desde cedo. A manhã inteira e parte da tarde tentando, em vão. Insisti que devia ir assim mesmo, que não tinha como faltar pois iam chamar meu nome no palco, era parte da programação, e no final das contas não estava me sentindo muito mal, apesar da febre e do abatimento. Consegui convencer minha mãe a prender minhas franjas "muito frouxamente" com dois grampos de cada lado e lá fui eu com meu pai (minha mãe raramente saía de casa naquela época, por causa das enxaquecas constantes), sempre preocupada, principalmente, com minha franjinha... 

Lá chegando, as coleguinhas me distraíram e no final das contas todas estavam tensas, em maior ou menor grau. Para ajudar a passar o tempo, conversávamos a não poder mais e "explorávamos" as entranhas do teatro. Em dado momento uma mulher no chama e dá a maior bronca, dizendo que a gente não ficava quieta, que assim não era possível. Me puxou pelo braço e me levou para um salinha, dizendo em tom muito aborrecido  "olha só você! que coisa! já toda desarrumada e com este cabelo todo despenteado!!! olha só os grampos quase caindo!!". Tentei dizer que minha mãe tinha posto eles assim "frouxinhos", mas ela nem me deixou falar: foi logo enfiando um monte de grampos no meu cabelo, com certa brutalidade, e puxando minha franja bem pra trás. Além disso, bezuntou meus lábios com um batom de um vermelho vivo, pois "é assim que as pessoas se apresentam num palco". Fiquei mortificada com toda a situação, pois já sabia que isso ia acontecer... e ainda por cima fui tida por "arteira e desarrumada", o cúmulo da humilhação! 

E as horas se arrastando, pois era muita gente para se apresentar, além das pecinhas. Alguém nos chamou para assistir a uma das peças da coxia, para nos "manter quietas e distraídas". No caminho, tudo escuro. Não conseguia enxergar nada de nada. Vi que as pessoas à minha frente estavam se espremendo para passar por um certo canto, como para evitar algum obstáculo no meio do caminho. Mas, como não conseguia ver nada, resolvi não me desviar pois não sabia exatamente o quê devia evitar... descobri logo: havia um pequeno lance de escadas que dava para a parte de baixo do palco. Caí escada abaixo, um tombo muito feio e que me deixou toda doída. Fingi estar bem, com vergonha de ter dado aquele vexame e ainda mais por ter passado "atestado de burrice", pois se todo mundo estava evitando aquele canto do caminho era lógico que devia haver uma razão... 

E chegou a hora de recitar minha poesia. Entrei no palco e não me senti tão mal pois com os holofotes batendo nos olhos, a gente só consegue mesmo ver as primeiras 3 ou 4 fileiras de poltronas, e logo vi meu pai, meu irmão e mais alguns parentes e amigos. Declamei tudo direitinho, sem hesitar ou dar branco. Depois ainda recebi beijos e abraços do autor da poesia e autógrafos dele e de outros poetas. Muitas pessoas comentaram que eu parecia um fantasma quando entrei no palco, branca feito uma cera, com aquele batom vermelho-sangue e aquele cabelo todo puxado para trás. Realmente, a julgar pelas fotos, uma visão assustadora... Imagine: com uma febre de 40 graus e toda doída de um tombo feio (que me deixou cheia de hematomas por mais de uma semana). Até que, consideradas as circunstâncias totalmente adversas não me saí tão mal e, afinal das contas, cumpri a missão. Mas a que custo!

Meus pais ficaram apavorados e resolveram me tirar do curso. Ainda em recuperação, faltei às últimas aulas e só fui prestar o exame final: declamar uma poesia escolhida por mim e outra sorteada entre as que foram aprendidas durante o ano. Outra vez não me saí mal e ganhei meu diploma de conclusão do primeiro ano com "Lira de Prata" (só os alunos mais adiantados ganhavam a menção "Lira de Ouro"). Depois disso, ficou realmente claro que "havia alguma coisa errada comigo", que eu não era só tímida, que havia algo mais... mas sem descobrir exatamente o quê, resolvemos que era melhor evitar esses "cursos para desinibir" que me faziam sentir ainda pior. Mais um tijolo no Muro...

 

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