Festas...

 

Uma coisa me atraía para as festas: os doces e salgadinhos, sempre fui muito chegada em guloseimas. Quando pensava que "ia ter que aturar toda aquela gente e todo aquele papo furado" quase desistia... mas a vontade de me esbaldar na comilança era mais forte e lá ia eu. Papai com 5 irmãos e 3 irmãs e um bando de primos, o que não faltava era festa de aniversário. A tendência é sempre os adultos ficarem na sala e crianças e adolescentes em algum "quarto da bagunça" ou mesmo no playground, ouvindo discos, dançando, brincando e tagarelando. Os anfitriões da festa, claro, sempre me levavam para junto do grupo na minha faixa etária e lá eu permanecia por um tempo.... mas acontecia mais ou menos a mesma coisa que naquele dia lá no primeiro dia de aula na escola de freiras... as outras crianças me ignoravam completamente e eu ficava lá num canto, como se fosse invisível. Acabava sempre voltando para a sala para ficar entre os adultos e conversar com eles. Sempre me senti mais à vontade com pessoas mais idosas e elas adoravam o meu papo. Sentia que estava "no meio ambiente". Mas sempre vinha alguém dizer "Lucia, o que você está fazendo aqui, volta lá para brincar com as outras crianças!". Muitas das vezes tinha vergonha de recusar e ia novamente... ficava alguns minutos e dava um jeito de voltar discretamente à convivência dos adultos.

E foi sempre assim ao longo da vida, nunca consegui "me enturmar" perfeitamente com pessoas da minha idade, sempre me senti muito mais à vontade com pessoas idosas. Talvez porque meus pais não fossem tão jovens quando eu nasci e também porque vovó, já bem idosa, morava conosco. Com isso, parece que adquiri um "vocabulário" e um jeito de falar de idosos. Realmente, sempre detestei conversar sobre "abobrinhas", jogar conversa fora, falar só bobagens. Queria discutir idéias, falar sobre música, literatura, política, história, religião, tanta coisa interessante! E tinha também outro problema... muitas vezes me queixava de dores nas costas, cansaço, isso e aquilo, e quem se queixa o tempo todo da saúde "é velho". Volta e meia estava conversando com colegas da minha idade, seja numa festa, na escola e depois na faculdade e sempre chegava a hora fatídica de alguém dizer "Nossa, Lucia! Você fala que nem uma velha!". Obviamente isso me deixava mortificada, humilhada e com muita vergonha. E creio que com isso ainda evitava mais conversar com os jovens e a procurar mais os idosos... e parece que a coisa virou um círculo vicioso. Mas os idosos adoravam o meu papo e não estranhavam a minha maneira de falar, minhas queixas de dores aqui e ali e nem prestavam muita atenção ao fato de eu tremer ao segurar um copo ou ao me servir de um salgadinho (aqueles que a gente tem que pegar com um palitinho de dentes e mergulhar num molho são os piores no meu caso pois dá um medo horrível de derrubar o salgadinho ou de deixá-lo cair no meio do molho... a mesma coisa com fundues, acho que não foram feitos para fóbicos sociais. Enfim, para os idosos, eu era uma "bonequinha sabida", o "xodózinho". Para os meninos e meninas da minha idade, eu era a "estranha", "desajeitada", "parecendo velha", "boba". Melhor procurar sempre a companhia dos mais velhos... Com o tempo, ninguém mais estranhava esse meu comportamento e não ficava insistindo tanto para que eu fosse me enturmar com os da minha idade. Até sorrir era penoso, pois meus lábios tremiam no sorriso forçado, e isso provavelmente ainda fazia com que me achassem mais estranha ainda...

Quando fiz amizade com algumas meninas no colégio, aí já não me sentia tão deslocada nas festas, se estava com elas. 

Conforme fui ficando mais velha passei a evitar mais e mais as festas e, com o tempo, começaram a me causar verdadeiro horror até um ponto que até resolvi não ir mais. O problema era arranjar desculpas para não ir.... e as pessoas acabavam ofendidas, pensando que eu não queria ir porque não gostava delas ou porque estava querendo dar uma de esnobe. No final, muitos já nem me convidavam mais... É uma sensação estranha pois eu quero ir à festa (principalmente por causa dos salgadinhos!), mas ao mesmo tempo fico pensando "vou ter que ficar lá horas e horas batendo papo furado, vai ser tão chato, e com certeza vou dar algum fora". Fico nesse conflito: quero ir e ao mesmo tempo não quero. Além das comidas, muitas vezes as festas têm música boa e as pessoas até são divertidas... vem a vontade de me socializar... Às vezes fico nesse conflito "vou-não vou" até o último momento, uma verdadeira agonia. Muitas das vezes vou e acabo até me divertindo e vendo que "não era esse bicho de sete cabeças" e fico pensando no que teria perdido se não tivesse ido. Mas é uma batalha interna bastante desgastante. Engraçado, as pessoas sempre pensam que o fóbico social tem medo de multidão... e é justamente o contrário. Quanto mais gente numa festa, mais à vontade me sinto pois sei que ninguém vai prestar atenção a mim. Já num grupo pequeno, vou ter que conversar, interagir, e aí sei que vou gaguejar, falar bobagem (ou "coisa de velho"), dar algum fora, derrubar um salgadinho, uma verdadeira tortura... e com pouca gente, todos vão perceber! O que tem isso de mais? Na cabeça de um fóbico social, toma proporções astronômicas. Parece realmente muita pretensão nossa achar que, de certa forma, o mundo gira ao nosso redor e que TUDO que fazemos é julgado e percebido, nos mínimos detalhes, pelos outros. Mas é assim que nossa cabeça funciona. Somos uma contradição: se somos ignorados, sofremos. Se prestam atenção a gente, nos sentimos observados, avaliados e julgados e, de qualquer maneira, sofremos. Se um grupinho no canto da sala está rindo, com certeza está rindo de nós. Sabemos o quanto é ridículo pensar assim, mas mesmo assim não podemos evitar, o pensamento sempre vem...

 

Hosted by www.Geocities.ws

1