A "Festa da Primavera":
Tinha uma turma de amiguinhos normal, não me isolava com aconteceu mais tarde nos outros colégios e ainda fazia o papel de líder (quando aquela filha mais velha da diretora não estava por perto... Creio que ela se achava importante liderando os alunos mais novos e gostava do "status" de estar numa turma mais adiantada. Mas tinha a minha melhor amiga, a Kátia. Éramos unha e carne e os desentendimentos muito raros, amizade pura e verdadeira, daquelas que têm potencial de durar a vida inteira. Por ocasião da chegada da primavera, a diretora inventou uma festa e a atividade seria a seguinte: cada aluna traria uma flor para dar à sua melhor amiga. Desnecessário dizer que eu e Kátia trocaríamos flores e tanto meus pais quanto os dela se encarregaram de encontrar as mais belas rosas do mercado para a ocasião. Chegado o grande dia, mal podíamos esperar o momento de reafirmarmos nossa amizade e trocarmos as rosas tão lindas. A diretora juntou todas as séries no pátio do recreio e foi chamando as alunas uma a uma. E explicou a "regra do jogo". Ela chamaria uma aluna e perguntaria quem era sua melhor amiga. A aluna diria e aí a diretora perguntaria à essa amiga escolhida se a recíproca era verdadeira. Caso se confirmasse a amizade, trocariam as flores, caso a outra dissesse que aquela não era sua melhor amiga, trocavam só um abraço e um beijo e a melhor amiga seria chamada, até que todas tivessem trocado flores com alguém. Antes de me chamarem houve alguns casos de meninas que diziam não ser aquela sua melhor amiga, sem problemas. A diretora chama a filha mais velha e pergunta: "Quem é a sua melhor amiga?" "A Maria Lucia!", respondeu esta sem nenhuma hesitação. Não era verdade, ela tinha feito isso de propósito pois sabia da minha amizade com Kátia e sentia ciúmes ou despeito, não sei, e também porque cobiçava a rosa tão bonita - ela só tinha colhido uma flor selvagem no próprio jardim do colégio. Olhei desconsolada para Kátia, que era tão minha amiga que entendeu o que meus olhos queriam dizer. Veio a pergunta da diretora: "Maria Lucia, a sua melhor amiga é a Márcia (a filha dela)?". Não tive coragem de dizer que não, ela era a filha da diretora!!! Disse um "sim" meio sem convicção e sem graça, que foi acompanhado de aplausos e lá se foi Márcia com a rosa e lá voltei eu com a florzinha murcha, mas não mais murcha do que eu me sentia. Kátia teve que escolher, às pressas, outra "melhor amiga" e o jogo seguiu até o fim. Ela nunca me acusou ou me cobrou a falta de lealdade, a traição, a covardia, muito pelo contrário, continuou sendo minha melhor amiga como se nada tivesse acontecido. Mas eu nunca me recuperei do golpe sofrido. Tinha traído minha melhor amiga por vergonha de passar vexame, por vergonha de contrariar a diretora, por vergonha, vergonha, vergonha!
No ano seguinte, o nosso apartamento em outro bairro, distante dali e mais perto do centro, ficou pronto e nos mudamos. Kátia e eu prometemos nos visitar e nunca perder o contato. Trocamos várias cartas. Um dia, enviei uma carta e nunca obtive resposta. Enviei outra, a mesma coisa. Nunca mais soube dela, não sei até hoje porquê. Não acredito que tivesse a ver com a "Festa da Primavera" pois já eram águas passadas e, conforme eu disse, ela nunca demonstrou ter ficado aborrecida (talvez ela me entendesse melhor do que eu mesma e, intuitivamente, sabia que a minha fobia social iria me impedir de fazer pé firme e desmentir a filha da diretora). Nunca me esqueci dessa minha amiga Kátia e gostaria de saber como está agora. Às vezes ficava pensando que ela tinha morrido (pois tinha uma saúde frágil e era muito magrinha) e que meus pais nunca me contaram, mas eles juram que não foi nada disso e que também nunca entenderam o porquê de termos perdido contato. Talvez Kátia tenha feito novas amizades e não mais se lembrasse de mim, ou se interessasse. Acho que nunca saberei, mas de vez em quando ainda rezo por ela e espero que esteja feliz.
E hoje penso como aquela diretora era despreparada! Isso lá é jogo que se faça, que coisa mais ridícula! Só serviria mesmo para embaraços e para privilegiar as filhas dela, conforme sempre fazia nas festas (quando era festa de dar "prendas", elas sempre ganhavam as melhores e assim por diante). São coisas como essas que acabam agravando o nosso estado, e coisas que podem ser tão facilmente evitadas por alguém com alguma noção de psicologia e de didática! Enfim, mais um tijolo no Muro...