Os paradoxos de Zenão

Zenão! Cruel Zenão! Zenão de Eleia!
Atravessas-te-me com essa
flecha alada
Que vibra, voa, e que não voa!
O som me faz nascer e a
flecha me mata!

Valéry

«Os argumentos de Zenão contra o movimento, ao invés dos que atacam a pluralidade, eram originalmente apenas quatro (...) Será melhor discutir cada um separadamente; porém, uma vez que os quatro se destinavam, sem dúvida, a apoiar-se mutuamente (estando a intenção total de cada um dependente dos outros três), devemos começar por considerar o objectivo comum dos quatro juntos.

Objectivo dos paradoxos

As teorias do movimento dependem inevitavelmente de teorias sobre a natureza do espaço e do tempo; e, na Antiguidade, foram defendidas duas perspectivas opostas do espaço e do tempo. Ou o espaço e o tempo são infinitamente divisíveis, e, nesse caso, o movimento é contínuo e de fluir suave; ou, então, são compostos de mínimos indivisíveis e, nesse caso, o movimento é aquilo a que Lee chama, com propriedade, "cinematográfico", por consistir numa sucessão de saltos diminutos. Veremos que os argumentos de Zenão se dirigem contra ambas as teorias – os primeiros dois argumentos contra a primeira, os restantes dois contra a última (...)

O estádio

O primeiro argumento de Zenão reduz-se simplesmente a isto: "É impossível atravessar o estádio; porque, antes de se atingir a meta, deve primeiro alcançar-se o ponto intermédio da distância a percorrer; antes de atingir esse ponto, deve atingir-se o ponto que está a meio caminho desse ponto; e assim ad infinitum". Por outras palavras, com base na hipótese de que o espaço é infinitamente divisível e de que, portanto, qualquer distância finita contém um número infinito de pontos, é impossível alcançar o fim de uma série infinita num tempo finito (...)

Aquiles e a tartaruga

Tendo-se ocupado, em "o estádio", de um único corpo em movimento, Zenão passa, no "Aquiles", a ocupar-se do movimento relativo de dois corpos. O argumento, desta vez, é o seguinte: "Aquiles nunca pode alcançar a tartaruga; porque na altura em que atinge o ponto donde a tartaruga partiu, ela ter-se-á deslocado para outro ponto; na altura em que alcança esse segundo ponto, ela ter-se-á deslocado de novo; e assim sucessivamente, ad infinitum" (...)

Isto conclui a tentativa de Zenão para desacreditar o movimento "contínuo", passando, a seguir, à discussão do movimento "cinematográfico".

A seta voadora

Este terceiro argumento pode ser, com toda a segurança, reconstituído da seguinte maneira: "Um objecto está em repouso quando ocupa um lugar igual às suas próprias dimensões. Uma seta em voo ocupa, em qualquer momento dado, um espaço igual às suas próprias dimensões. Por conseguinte, uma seta em voo está em repouso". É fácil de ver que este argumento, ao contrário dos dois que o precederam, trata igualmente o espaço e o tempo como algo composto de mínimos indivisíveis.»

Kirk & Raven, Os filósofos pré-socráticos, pp. 299-302.

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