Pré-socráticos
Os primeiros filósofos, aparecidos antes de Sócrates, na Grécia e suas colónias na Ásia Menor e no sul da Itália, por volta dos séculos VII-V a. C. Considera-se tradicionalmente, de forma um tanto ou quanto simplista, que a sua preocupação fundamental era o cosmos, a natureza, enquanto Sócrates teria atraído a atenção dos pensadores para os problemas do ser humano e da sociedade. Cf. Na origem da filosofia.

Os primeiros filósofos

Os gregos são os primeiros a colocar a questão da realidade numa perspectiva não mítica. Embora revelando influências do pensamento mítico anterior e contemporâneo, as explicações produzidas pelos primeiros filósofos, por volta do século VI a. C., na colónia grega de Mileto, na Ásia Menor, são consideradas por muitos o embrião da ciência e da filosofia, ou seja, do pensamento racional (cf. texto de F. M. Cornford, A cosmogonia jónica).

O problema da mudança

O problema que está no centro das reflexões dos primeiros filósofos é o problema da mudança e da multiplicidade. Estas tornam as coisas incertas, contraditórias: "Se as coisas mudam o que serão na verdade? Se uma coisa passa de branca a verde, é e não é branca. Se algo que era deixa de ser, resulta daqui que a mesma coisa é e não é." (cf. texto de Julián Marías, O problema da mudança). A mudança rouba consistência à realidade.

Face à mudança, ao devir, e à multiplicidade, a primeira estratégia adoptada será a procura do princípio originário e único a partir do qual todas as coisas passaram a existir. As respostas dos primeiros filósofos, longe de corresponderem a um modelo de cientificidade que só mais tarde haveria de aparecer, são todavia bastante diferentes das apresentadas pelas cosmogonias míticas e caracterizam-se por uma explicação que parte da natureza e recusa o recurso a seres sobrenaturais (cf. texto de Mircea Eliade, O que é o mito?).

Tales, Anaximandro, Pitágoras

O mais antigo filósofo de que se tem conhecimento que terá encontrado uma resposta para esta questão foi Tales. Pensou ele que o princípio único de todas as coisas era a água. Pela mesma época outros filósofos tomaram posições mais ou menos parecidas com a de Tales. Foi o caso de Anaximandro e de Pitágoras que fizeram do indefinido e do número respectivamente o princípio originário a partir do qual tudo proveio (cf. Fragmentos dos Pré-Socráticos).

Heraclito e Parménides

As respostas irão progressivamente tornando-se mais elaboradas, embora sempre centradas no problema da unidade ou da multiplicidade, da mudança ou da permanência das coisas. Nesse sentido, Heraclito (cf. texto de J. Brun, Uma filosofia do devir?) e Parménides (cf. texto do próprio, A unidade e imutabilidade do Ser) representam, historicamente, um radicalizar de posições: o primeiro, aparece como o defensor da mudança: não se pode penetrar duas vezes no mesmo rio; o segundo, como partidário radical da unidade fundamental de todas as coisas. Esta oposição não resiste, todavia, a um estudo aprofundado das posições dos dois pensadores.

Ficaram célebres os argumentos ou paradoxos inventados por Zenão de Eleia, discípulo de Parménides, com o objectivo de mostrar o carácter contraditório do movimento, e assim defender as teses do mestre sobre a imutabilidade do real (cf. texto de Kirk & Raven, Paradoxos de Zenão). Para além de uma reflexão sobre a natureza do espaço, do tempo, do conhecimento e da realidade, os paradoxos de Zenão desencadearam uma crise na matemática da Antiguidade, que só viria a ser resolvida nos séculos XVII e XVIII d. C., com a criação da teoria das séries infinitas.

A cosmogonia jónica

«As histórias da Filosofia e das Ciências Naturais começam com este sistema iniciado por Tales, aperfeiçoado por Anaximandro e um tanto ou quanto simplificado por Anaxímenes. Não há leitor que não fique admirado perante o racionalismo que distingue este sistema das cosmogonias míticas. E não devemos certamente menosprezar esta característica. Os Milésios trouxeram ao universo da experiência comum muita coisa que anteriormente estivera fora do alcance desse universo. É-nos difícil reconstituir a atitude mental de um Hesíodo em relação à sua visão do passado. Ao olhar para trás, recuando da sua época e da vida com a qual estava todos os dias em contacto para além das primeiras idades – a heróica, a de bronze, a de prata, a de ouro – até ao reinado de Cronos, aos deuses mais antigos e ao nascimento desses mesmos deuses, filhos do misterioso casamento entre o Céu e a Terra, deve-lhe ter parecido que o universo se tornava cada vez mais diferente daquele a que estava habituado. Os acontecimentos – casamentos e nascimentos de deuses, a luta dos Olímpicos e dos Titãs, a lenda de Prometeu – não eram da mesma natureza dos que sucediam na Beócia do tempo de Hesíodo. Podemos sentir uma impressão semelhante se pensarmos no Livro do Génesis. À medida que seguimos a história, desde a Criação, através da série de acontecimentos míticos que os Hebreus herdaram da Babilónia, até ao chamamento de Abraão, parece-nos emergir gradualmente no mundo que conhecemos, povoado de homens como nós. Assim deve o passado ter parecido aos olhos de todos antes do aparecimento do racionalismo jónico. Dissipar das origens do mundo e da vida a bruma do mito constituiu um feito extraordinário. O sistema milésio fez recuar até ao próprio começo das coisas a actuação de processos tão comezinhos e vulgares como um simples aguaceiro. Transformou a criação do mundo de acontecimento sobrenatural em acontecimento natural. Foi graças aos Jónios e a mais ninguém que isto se tornou a premissa universal de toda a ciência moderna.

Mas há mais qualquer coisa a dizer quanto ao outro lado da questão. Se pusermos de parte a noção de que a filosofia, ou ciência, é uma espécie de Atena sem mãe, uma disciplina totalmente nova que irrompeu, vinda não se sabe donde, numa cultura até então dominada por teólogos poetas e místicos, veremos que o processo de racionalização se iniciara já muito antes do nascimento de Tales. E veremos também o reaparecimento, nos sistemas mais tardios, de figuras que a nossa ciência rejeitaria como míticas – o Amor e a Discórdia de Empédocles, e o espectro de um criador do Nous de Anaxágoras. E quando observarmos mais de perto o esquema milesiano, veremos que apresenta umas certas características que não podem ser atribuídas a uma dedução racional baseada na observação imparcial dos factos.»

F.M. Cornford, Principium sapientiae, pp. 305-307.

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