John Nau, Forest fire |
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«O heraclitismo é, na maior parte das vezes, reduzido a essa filosofia do devir que se opõe de forma algo sumária à filosofia do ser eleática e às ontologias estáticas (...) Mas o devir de que fala Heraclito não é um puro devir linear, que seria negação absoluta do Ser, antes se desenrola no interior de um círculo. Verificámo-lo a propósito dos próprios elementos: "A vida do fogo nasce da morte da terra, a vida do ar nasce da morte do fogo, a vida da água nasce da morte do ar e a terra nasce da morte da água. A morte do fogo engendra o ar e a morte do ar engendra a água. A morte da terra faz nascer a água, a morte da água faz nascer o ar, a morte do ar engendra o fogo. E inversamente" (frg. 76). Há, pois, um ciclo do devir e este ciclo é ele mesmo uma harmonia, na medida em que realiza a coincidência dos contrários; com efeito, "na circunferência, o começo e o fim coincidem" (frg. 103).
Portanto, nem tudo é mero aparecer no seio de um devir puro e absoluto, já que, de um lado, está o Logos que governa todas as coisas e, do outro, o devir que se desenrola no interior de um círculo apertado por laços poderosos. Se somos incapazes de abarcar tal círculo de um só relance de olhos, é, antes de mais, porque "a natureza gosta de se esconder" (frg. 123), em seguida, já o dissemos, porque somos incapazes de ver verdadeiramente o que se nos apresenta. Pois, não o esqueçamos, se "o mais belo macaco é feio comparado à espécie humana" (frg. 82), em contrapartida, "o mais sábio dos homens, comparado com a divindade, assemelha-se a um macaco, quanto à sabedoria, à beleza e a tudo o mais" (frg. 83).
Pode dizer-se que a filosofia de Heraclito é muito mais uma filosofia do revir que uma filosofia do devir, no sentido clássico do termo; o devir de que aqui se trata não é, com efeito, um devir do Ser, mas um devir no Ser. É sempre no interior do Mesmo que se operam as mudanças: "A vida e a morte, a juventude e a velhice, a vigília e o sono são a mesma coisa, porque estes transformam-se naquelas e inversamente aquelas transformam-se nestes" (frg. 88). Encontramos de novo, apenas transposta a ideia de que todas as coisas nascem do Uno e o Uno de todas as coisas.»
Jean Brun, Os pré-socráticos, p. 46.