Um ano 

Fan fic de Susi A. R. Gil

"Olhos negros, olhos negros
Olhos que procuram em silêncio
Ver nas coisas cores irreais"

Barão Vermelho - Pedra flor e espinho

Dumbledore estava sentado com as mãos no queixo e os cotovelos apoiados na mesa. Olhava os pergaminhos que estavam espalhados a sua frente. Com a expressão preocupada e cansada, permaneceu imóvel até o momento em que a professora McGonagall entrou em sua sala sem bater na porta:
- Professor, o Richard, nosso ex-aluno, só irá completar sua especialização no ano que vem. Ele era a nossa última esperança. - McGonagall permaneceu em pé em frente ao diretor, esperando algum comentário. Após um breve silêncio, Dumbledore suspirou e tirou de sua gaveta uma caixa de madeira lacrada. Com uma palavra mágica a caixa se abriu e ele tirou de seu interior um pequeno livro com uma capa vermelha de couro.
- Nos resta apenas uma saída - disse o professor quase sussurrando enquanto abria o livro.
- Tem certeza que isso não é arriscado? Se o Ministério da Magia descobrir, eles podem nos demitir e até fechar a escola. - advertiu McGonagall.
- Só se a senhora contar. - respondeu Dumbledore em tom risonho.
McGonagall fechou sua expressão.
- Claro que não, acha que eu cometeria essa loucura?
- Por conhecer sua competência, acredito piamente em seu sigilo. Sei que a senhora sabe da gravidade da nossa atitude. Isso nunca foi feito em Hogwarts. Qualquer deslize seria fatal, nossos empregos e toda a escola estariam em jogo.
- Ok, professor, qual é então o próximo passo?
- Precisamos antes de tudo encontrar essa pessoa e convencê-la a vir trabalhar aqui. Essa tarefa encarrego à senhora. Ela teria apenas uma semana antes do início das aulas, mas acho que esse tempo é suficiente, visto que ela só ficará em Hogwarts. Eu irei fazer o feitiço. Ele é muito poderoso e devido ao seu sigilo, pressuponho que eu tenha que fazê-lo fora da escola.
- Acho que não Dumbledore. A escola ainda está vazia. Além de nós dois, estão somente Hagrid, Filch e os fantasmas. Podemos esperar a hora em que todos estiverem dormindo.
- É, talvez dê certo, mas se os professores resolverem voltar antes do tempo, vai ficar muito arriscado e serei obrigado a realizar todo o procedimento antes de sua chegada a escola. Tem muita gente esperta aqui. Severo é um deles. Qualquer movimentação estranha ele perceberia.
- E o senhor já encontrou um trouxa ideal? - perguntou a professora, enquanto se sentava, pois percebera que a conversa iria ser longa.
Dumbledore deu outro suspiro e enquanto verificava os pergaminhos respondeu: - Ah, professora, desde quando nosso Professor Binns resolveu morrer de vez, não fiz outra coisa em minha vida a não ser procurar por outro professor. Já imaginou o que seria da melhor escola de magia do mundo, sem um professor de História da Magia por um ano inteiro? Não demorou muito para que eu percebesse que não conseguiríamos um professor apenas duas semanas antes do início das aulas. Eu já havia percebido que os trouxas vêm se interessando muito por magia e alguns até chegam a ser melhores conhecedores do que muitos bruxos que conheço - deu uma risada enquanto escolhia um dos pergaminhos e prosseguiu - é claro que tomei minhas precauções, precisei escolher um trouxa de outro país, de um país distante, diga-se de passagem. Afinal somos em pequeno número, e pelo menos um já ouviu falar do outro.
- E o senhor já tem alguém em mente?
- Sim, aqui está - começou a ler em voz baixa o pergaminho que escolhera e depois continuou - o nome dela é Victória Lins, ela é brasileira, se especializou em história da bruxaria, já publicou dois livros sobre o assunto. Fora da Europa, pareceu-me um dos trouxas mais bem preparados.
- Ela fala inglês?
- Sim, fluentemente. E parece ser a pessoa ideal: não tem filhos, não está trabalhando no momento, não teria nenhuma coisa que a impedisse de vir trabalhar na Inglaterra. Sem contar que ela sonha em conhecer a Europa.
- Mas, professor, como irei explicar a ela sobre nós?
Dumbledore riu.
- Pois é, acho que a princípio não será difícil. Ela sabe da existência da magia, mas não tem noção do nosso modo de vida. Pensando bem, acho melhor eu aplicar o feitiço antes dela embarcar para Hogwarts, pois temo que ela não consiga passar pela plataforma, mesmo acreditando em sua existência. O que a senhora deve tomar todo o cuidado é para que ela minta para seus familiares e amigos. Vou tomar todas as providências, para que eles pensem que ela está dando aula em algum colégio londrino. 


Era um dia frio de final de inverno em São Paulo. Victória desde as sete horas da manhã estava em frente ao seu computador terminando um capítulo de seu novo livro, que teria que ser entregue até o final do dia. Ao som de Vivaldi e sobrevivendo graças a xícaras de café e cookies de chocolate, ela escrevia com empolgação, consultando os inúmeros livros espalhados em sua escrivaninha. Pouco depois do meio-dia, sua campainha tocou. 
Ela gritou pela mãe, mas esta estava no andar de cima da casa arrumando o quarto de dispensa. Victória então teve que sair correndo para atender à porta. Chegando lá, nada encontrou. Após soltar alguns resmungos, olhou para a caixa do correio. Ela sabia que o carteiro passava depois da uma hora da tarde, mas mesmo assim, teve vontade de abrir a caixa naquele momento. 
Havia uma carta. Bem diferente das que costuma receber, diga-se de passagem. Estava escrita à mão, com uma letra muito caprichada e lacrada com um brasão de cera. Victória estranhou, e até se esqueceu de olhar o remetente. Acho que era um convite para alguma festa. Voltou para seu quarto e foi então que percebeu que não havia remetente. No brasão estava apenas escrito Hogwarts. 
Abriu a carta e se espantou. Ela estava escrita em inglês. Desligou seu som e seu computador. "Será que algum parente distante morreu e agora me procuram para entregar a herança?" pensou. Sentou-se em sua cadeira e começou a ler a carta:

Cara professora Victória Lins

A senhora está sendo convidada a ministrar aulas de História da Magia em nossa escola. Tivemos conhecimento de sua grande experiência e de seus trabalhos sobre o assunto. Por favor, esteja dia 22 de agosto, ao meio-dia na entrada da Biblioteca Municipal, onde teremos nosso primeiro contato. Aguardamos sua presença

Professora Minerva McGonagall - vice-diretora. 

Victória não estava entendendo nada. Releu a carta várias vezes, e teve até medo que tudo não passasse de uma brincadeira. O dia 22 era o dia seguinte, e ela não tinha compromisso nenhum. Achou estranho a tal vice-diretora não marcar uma entrevista na própria escola, mas depois se lembrou de que poderia se tratar de uma vaga sigilosa. Também não entendeu o fato de ser convidada a dar aulas de história da magia em um colégio. Talvez fosse uma faculdade de História, ou ela daria algumas palestras para alunos de algum curso de História das Religiões. E porque a carta estava escrita em inglês? Tudo era motivo de indagação. Mesmo assim, ela decidiu ir. Seu maior medo era que isso fosse uma brincadeira de alguma amiga.


O dia seguinte estava menos frio. Victória resolveu colocar sua melhor roupa para ir a sinistra entrevista. Vestiu seu terno risca de giz, colocou uma camisa de crepe branca e um sapato mule de salto baixo. Colocou na bolsa um dos livros que estava utilizando em seu novo trabalho, os dois livros que publicara e um currículo. Olhou-se diversas vezes no espelho antes de sair. Queria causar uma boa impressão, mesmo não sabendo o que iria acontecer. 
Victória acabara há pouco tempo sua pós-graduação. Sempre foi interessada em história das religiões, e, ao terminar a faculdade, resolveu estudar bruxaria, pois achava o tema ainda pouco explorado pelos seus colegas de profissão. 
Tinha trinta anos e estava com o casamento marcado para o próximo ano. Amava fervorosamente seu noivo. Não era feia nem bonita. Chegava atrair alguns olhares, mas nunca fora o centro das atenções em uma festa. Era branca, magra, estatura mediana, tinha os cabelos castanhos lisos e cheios até o ombro e olhos igualmente castanhos. Considerava-se normal. Simplesmente normal. 
Ficou em pé em frente ao espelho pensando na impressão que causaria sua aparência, suspirou e saiu. Graças ao metrô chegou rápido ao encontro. Apesar de não saber nada sobre a tal carta misteriosa, não sentia medo. Sua tranqüilidade espantava até a si própria. 
Chegou cinco minutos antes do horário estipulado. Ficou em pé quase do lado do segurança da Biblioteca. Pontualmente ao meio-dia, uma senhora magra se aproximou:
- Victória Lins?
- Sim.
- Boa tarde, fui eu que lhe enviei a carta.
Victoria sorriu. "O sotaque é muito pesado, com certeza é britânica".- pensou. Estendeu as mãos para cumprimentar a senhora. Esta sorriu e se apresentou:
- Professora Minerva McGonagall. Tem alguém lugar onde possamos conversar com calma? 
- Só se for no shopping, não podemos ficar conversando na biblioteca.
- Aonde?
- No shopping, mas é aqui perto, vamos andar uns duzentos metros.
McGonagall olhava ao seu redor com uma certa surpresa, mas tentando ser o mais discreta possível. Mesmo assim, Victória notou o seu estranhamento.
- Está no Brasil há quanto tempo?
- Um dia. 
- Não vá me dizer que veio aqui só para falar comigo?
- Exatamente.
Victória arregalou os olhos e ficou em silêncio. Após um breve silêncio, perguntou?
- Como me encontrou?
- Seus livros...
- Eles não foram traduzidos para nenhuma outra língua. Eu não sabia que eles já eram conhecidos no exterior.
- Um amigo português ficou conhecendo seu trabalho e nos recomendou.
- A senhora é britânica?
- Sim.
- Se a senhora estiver com muita dificuldade para falar português eu sei falar inglês.
- Oh, querida, não se preocupe, é tão difícil encontrar alguém que fale português. Assim eu pratico.
Chegaram ao shopping e se sentaram em um banco. A professora queria perguntar que espécie de lugar era aquele, achava parecido com o Beco Diagonal, mas achou melhor se limitar aos assuntos profissionais, não queria demonstrar quem era antes do tempo.
- Bem, professora, pode falar, fiquei muito curiosa ao ler sua carta...
- Sou vice-diretora de uma escola na Inglaterra e gostaria que você desse aula lá.
Os olhos de Victória brilharam. Ela sonhava em conhecer a Inglaterra, mas tinha que arrumar um bom emprego antes. Nunca sonhara em fazer as duas coisas ao mesmo tempo. 
McGonagall continuou.
- Eu e o diretor conhecemos o seu trabalho e percebemos que você é a pessoa ideal para ocupar o cargo. Precisamos de você pelo menos durante um ano.
- É uma universidade?
- Não. - nesse momento a professora percebeu que a hora de contar a verdade estava próxima. - É um colégio para jovens entre onze e dezessete anos. 
- Mas meu trabalho é sobre bruxaria, porque daria aula disso para adolescentes? Acho que isso só entraria em no currículo de uma faculdade. 
- É....é....que...eles têm aulas sobre isso...
- Nossa, que interessante. Não sabia que os alunos aprendiam história da bruxaria nos colégios britânicos. Qual o nome do colégio?
- Hogwarts.
- Tem site na internet?
McGonagall arregalou os olhos. Imaginou que Victória estivesse perguntado algo em chinês.
- Como?
- Home page? Site?
Como não sabia qual seria a reação, a professora não perguntou de novo. Ainda estava cedo para contar a verdade. Queria ganhar a confiança de Victória e tirar dela um sim. 
- Não.
- Ah, puxa, que pena. Eu queria conhecer um pouco o colégio, só isso. Mas enfim, é que é meio estranho, desculpe-me, entenda o meu lado. Eu recebo uma carta, marcando um encontro, a senhora me diz que me conhece e quer que eu vá dar aula em um colégio na Inglaterra. Mas eu nunca ouvi falar de seu colégio, que garantia pode me dar de quê isso é confiável? 
- É você está certa. Sou eu quem pede desculpas. Se você puder me acompanhar, preciso lhe explicar algumas coisas. - levantou-se e tirou um papel do bolso de seu casaco. - Mas precisa me levar até um lugar chamado Campos Elíseos. 
Victória pegou o papel de sua mão. Era um endereço de um bairro próximo ao centro de São Paulo chamado Campos Elíseos. Ela pensou um pouco, e disse:
- OK, vamos pegar um taxi.
Mcgonagall nada disse. Entendera o que Victória disse. 
O trânsito não estava tão ruim e as professoras chegaram rápido ao tal endereço. Era um belo casarão em uma avenida movimentada. Aparentemente, era um escritório comercial. No portão um segurança de terno e gravata, anunciou a chegada via rádio. Muito sorridente, ele indicou a porta que elas deveriam entrar, mas ao subir a escada que dava acesso à tal entrada, Mcgonagall, puxou Victória pela mão indicando outra direção. 
- Não é por aí, ele acha que somos clientes. Acompanhe-me.
Elas desceram as escadas e sem que o segurança percebesse contornaram a casa, entrando em uma porta dos fundos. Desceram uma escada escura que dava acesso a uma grande sala de estar. Nela, uma senhora baixa e um pouco gorda esperava pelas duas.
- Oh, professora, pelo visto sua visita a São Paulo foi tranqüila. Voltou rápido.
- Mais ou menos. Essa cidade é maior e mais tumultuada que Londres. Além do mais, você havia me dito que aqui estava frio e eu estou suando. Mas, enfim, quero lhe apresentar Victória Lins, o motivo de minha vinda a este país.
A mulher se dirigiu muito sorridente na direção de Victória e lhe deu um beijo: - Prazer, meu nome é Madalena, também sou professora, mas creio que você não conheça a escola que dou aula. 
Victória retribuiu o beijo e perguntou: - Ah, é, por quê? É muito longe daqui?
Madalena olhou para McGonagall como se perguntasse: "Ela ainda não sabe?", esta respondeu com um aceno negativo. 
- É, é isso mesmo, querida. Agora, você me daria licença um segundo? - perguntou puxando o braço de Minerva. - pode se sentar e ficar à vontade. 
Victória achou estranho, mas assim que se sentou teve a impressão de que apareceu na mesa de centro uma bandeja com café e biscoitos. Ficou olhando para a mesa espantada, Madalena percebeu e disse enquanto saiu com McGonagall: - Pode se servir à vontade, trouxe para você.
Enquanto Victória comia os biscoitos - estava realmente com fome, não havia almoçado - as outras duas professoras se fecharam em uma pequena sala.
- Minerva tem certeza que isso vai dar certo?
- Claro que tenho Madalena, o Ministério da Magia pediu para que ela desse um depoimento em um caso apenas, mas ela nem vai chegar a visitar o Ministério, creio que alguém marcará um encontro com ela em Londres mesmo. 
- Que caso é esse que envolve trouxas Minerva? Porque chamariam você para vir buscá-la?
- Não sei, é sigiloso. Eu estou sabendo somente uma parte do caso, fui enviada pois sou uma das únicas que tem conhecimento e que poderia sair do país sem ser notada, afinal, estou de férias. 
Madalena franziu a testa. Minerva continuava firme, mentia tão bem que surpreendia a si mesma.
- Bem, Minerva, seja lá o que for, espero que não haja maiores problemas. Não tenho preconceito dos trouxas, como muitos têm. Mas já tive problemas com o envolvimento de trouxas em nosso meio. 
- Eu sei Madalena, todo cuidado é pouco, mas neste caso é necessário. E como eu já pedi um milhão de vezes: Não comente com ninguém.
Madalena mostrou sinal de impaciência: - Claro que não, seria totalmente anti ético. E depois tem uma coisa, o que eu ganharia com isso?
- Muito bem, então. Posso pedir então para ficar a sós com ela uma meia-hora?
- Com certeza, Minerva, qualquer coisa sabe onde estou.
As duas saíram. Madalena subiu uma escada que estava à direita da sala onde se encontravam e McGonagall foi se sentar ao lado de Victória. 
- Bem, Victória precisamos ter uma conversa muito séria. 
Victória não se espantou. Achou isso normal em qualquer entrevista para uma vaga de professora. Achava que Minerva iria falar sobre o comportamento dos alunos, salário, e burocracias. 
- Em primeiro lugar peço-lhe sigilo.Mas sabemos que você não irá contar a ninguém sobre o dia de hoje e o que irá acontecer daqui por diante. Mas, em primeiro lugar eu queria saber se você está interessada.
- Bem, como eu tinha dito, não tenho nenhuma garantia que isso seja idôneo, essas coisas. Mas quanto a proposta, é realmente muito boa. Um ano é o tempo que eu poderia ficar lá, pois pretendo me casar e continuar minha pós-graduação. 
- OK, então vou lhe contar tudo sobre nós. Você é uma tr...pessoa especial, irá entender. - levantou-se e pegou uma bolsa de couro com vários pergaminhos e fotos. 
Durante mais ou menos duas horas, McGonagall contou resumidamente sobre Hogwarts, o verdadeiro universo dos bruxos, e tudo o que Victória precisaria saber caso fosse para a escola. Mostrou fotos, documentos, pequenos livros, querendo comprovar tudo o que estava dizendo. Victória ouvia boquiaberta. Nada falava, demonstrou um maior espanto ao ver as fotos que se movimentavam. Olhou-as por vários ângulos, raspou com a unha, dobrou, e não conseguiu detectar nenhuma fraude. Minerva também explicou o porquê de sua contratação urgente e sigilosa. 
Ao final, fez-se silêncio. Victória continuava boquiaberta com as fotos em suas mãos. 
- Falei demais, estou com sede. - disse Mcgonagall. - preciso de água e dois copos - continuou enquanto batia sua varinha na bandeja. Instantaneamente, surgiu uma jarra com água fresca e dois copos. 
- Para dar-lhe uma noção maior do que falei, eu e Madalena iremos levá-la para a nossa escola aqui de São Paulo. Como o Brasil é muito grande, abrimos três escolas aqui desde o descobrimento pelos portugueses. Uma iremos conhecer daqui a pouco, caso você queira, é claro.
- Eu nem sei o que dizer, espero que isso não seja uma brincadeira de mal gosto e nem um meio de esconder alguma organização criminosa. 
Minerva soltou uma sutil gargalhada: - Ah, vocês trouxas são muito desconfiados, o que anda acontecendo com o mundo de vocês, heim?
- Vocês o quê? - Victória não gostara do termo trouxa. Fechou o rosto, em tom desaprovação.
- Ah, meu Deus, esqueci de contar logo isso...desculpe-me. - McGonagall voltou a rir. - É o termo que nós utilizados para denominar as pessoas que não possuem poderes mágicos, eu sei que aqui isso é entendido como uma ofensa, mas entre nós não. 
Victória não gostou muito, mas recostou-se na cadeira e nada mais perguntou. Minerva aproveitou para tentar lembrar alguma coisa importante que esquecera de contar. Nesse momento, Madalena reapareceu com outra roupa. Estava vestida como uma bruxa da maneira como Victória costumava ver em seus livros. Vestia uma espécie de túnica marrom acinturada, feita com um tecido leve. Na sua mão uma capa da mesma cor e um chapéu em forma de cone. 
- Vamos, meninas, acho que já conversaram o bastante, não?
- Madalena, você está louca em sair por aí com essa roupa? Esqueceu que não poderá aparatar até a escola? Terá que nos levar da maneira normal, quem acompanhará Victória? 
- Oh, desculpe-me. - olhou para si mesma e riu - é que eu me empolguei. Só um minuto. 
Victória estava com as mãos na testa pensando. Não tinha mais noção do que estava acontecendo, torcia para que aquilo não fosse uma brincadeira de mal gosto, aprontada por algum amigo. Quando Madalena retornou com sua roupa de trouxa, ela e Minerva prostraram-se em frente de Victória, esperando uma decisão.
- Ok, vocês venceram, eu vou. - disse Victória após um breve silêncio, sem mudar sua postura. Levantou-se e sem falar nada seguiu até a porta. Só então perguntou: - Onde fica a tal escola?
- Na Zona Sul, próximo à Parelheiros. É um lugar meio escondido, mas é disso que precisávamos.
Pegaram um táxi. Durante o trajeto, Madalena aproveitou para contar um pouco da história da escola para Victória. Obviamente falava bem baixo, para não despertar a curiosidade do motorista:
- O nome dela é EMAB, Escola de Magia Arnaldo Barbosa. A primeira escola fundada aqui no Brasil foi em Salvador, por um bruxo que viera junto com os holandeses que invadiram a cidade no começo do século XVII. Ele passou o resto de sua vida aqui no Brasil, viajando e conhecendo bruxos que viviam isolados, a maioria não sabia da existência de outros bruxos na colônia. 
- Dois anos antes de morrer fundou uma escola com o auxilio de outros bruxos. Após sua morte, a escola recebeu o seu nome, Frans Donsten. Durante o século XVIII com o descobrimento das minas de ouro e diamante na região central e Sudeste, muitas pessoas migraram para a região e a população nas cidades de Minas, Goías, Mato Grosso aumentou bruscamente. Os professores começaram a perceber o grande número de alunos dessa região lá para o final do século, e então fundaram uma segunda escola no Rio de Janeiro. 
- Portanto, os alunos da região Norte e Nordeste estudavam na Frans Donsten e os do Centro-Sul na Amália Ferraz, nome da fundadora. No final do século XIX, com o crescimento de São Paulo, a escola carioca não estava mais dando conta de receber tantos alunos paulistas. Como as condições geográficas de São Paulo eram mais favoráveis, ou seja, facilitava o acesso para os estudantes da região Sul e central, resolveu-se transferir a escola para São Paulo. 
- Não demorou muito para que a Amália Ferraz também tivesse problemas com o grande número de alunos. Mas todos achavam que não seria tão necessário construir outra escola. Na mesma época, os bruxos do Uruguai estavam passando pelo mesmo problema. Foi então que se teve a idéia de transferir a escola para o Rio Grande do Sul, o que possibilitaria o atendimento de brasileiros e uruguaios. No prédio antigo em São Paulo, uma nova escola foi fundada com o nome de Arnaldo Barbosa. É uma homenagem a um ex-escravo que estudou na Amália e se tornou um grande professor na época. E é para lá que nós estamos indo. 
Chegaram a uma estrada de terra que dava acesso a uma mata. Victória teve medo. Entraram em uma trilha que dava acesso a uma clareira. Aos poucos, um casarão foi aparecendo no meio da clareira, como se estivesse invisível e fosse se mostrando conforme se aproximava, parecia um truque de mágica. 
As professoras passaram por um portão que Victória só percebera quando passara por ele. O casarão era muito bonito e conservado. Fora construído no estilo colonial, tinha-se a impressão que nenhuma reforma fora realizada. Estava intacto. 
Os alunos ainda estavam tendo aula. Por isso, Madalena só mostrou a biblioteca, o refeitório e o salão de entrada. Minerva também não conhecia a escola, e achara tudo muito diferente de Hogwarts. Andaram alguns minutos pelo jardim e expiaram rapidamente o campo de quadribol. Victória recebia informações a todo momento, sem perguntar nada. Achava que tudo era um sonho. 
Madalena quis apresentar as duas visitantes para os demais professores mas McGonagall não aceitou, pois temia que desconfiassem de Victória. 
Ao anoitecer, deixaram a escola e voltaram para o casarão de Campos Elíseos. Muito surpresa com tudo o que vira e soubera naquela tarde, Victória ficou mais chocada ainda quando soube que teria que dar uma resposta ainda no mesmo dia, pois sua partida seria o mais rápido possível. 

Victória voltara para casa por volta das nove horas da noite. Suas sensações eram as mais complexas possíveis: um misto de surpresa, desconfiança, alegria, medo, bombardeava sua mente e seu coração. Apesar disso, não tinha dúvidas: queria seguir viagem para a Inglaterra. 
Obviamente, McGonagall a orientara sobre o que contar para sua família e noivo. Ela iria dar aula em um colégio no subúrbio de Londres. Todas as informações foram passadas, para que ninguém pudesse desconfiar de nada. 
Muito cansada, Victória contou tudo para os seus pais e para o seu noivo pelo telefone. Não desconfiaram de nada, mas temiam pelo ano que ela passaria sozinha em um país desconhecido. 
Um pouco aliviada de seus sentimentos, dera uma resposta positiva para as professoras. Ela iria viajar no dia seguinte à noite. Felizmente, ela já tinha passaporte e resolveu os problemas burocráticos com tranqüilidade. Despediu-se calorosamente de seus pais e de seu noivo, a quem prometera se casar um mês depois de seu retorno. Ligou para os amigos mais íntimos e, aos prantos, partiu para Londres. 
A viagem foi tranqüila. McGonagall não se sentiu bem no avião, mas não fora nada de grave. Ao chegar em Londres, Victória mal teve tempo de andar pela cidade que sonhou tanto em conhecer. 
Por alguns instantes, Victória pode passear sozinha pela cidade enquanto Minerva comprava roupas e alguns objetos necessários no Beco Diagonal. Uma hora depois, já estavam na estação de trem, próximo à plataforma que dava acesso a estação dos bruxos. 
Para a surpresa de McGonagall, Dumbledore estava sentado em um banco lendo jornal. Ao vê-lo riu e foi em sua direção, com Victória a seguindo:
- Belo disfarce, professor1 
Dumbledore riu. - O seu também está muito bom, Minerva1 O que achou do Brasil?
- São Paulo parece ser do tamanho da Inglaterra.
- E Madalena?
- Muito hospitaleira, como os demais brasileiros. Mandou lembranças.
- Grande diretora Madalena, forma os melhores bruxos do Brasil. - fez uma pausa e olhou para Victória - falando em formar bruxos...
- Oh, desculpe-me, Victória, esse é o nosso diretor, Alvo Dumbledore. Foi ele que escolheu você para trabalhar conosco. 
Victória que já estava se acostumando com a situação, dirigiu-se sorridente ao professor e apertou calorosamente sua mão.
- Prazer, Victória Lins.
- Bem vinda, Professora Lins. Não sabe como foi difícil encontrá-la e trazê-la. A senhora tem muito valor para nós.
- Muito obrigada. Mas...senhorita, se não se importa...
Dumbledore riu. - Ah, claro, mas sabe como será na escola, temos que nos tratar com uma certa formalidade, pelo menos perto dos alunos. É de praxe, vocês trouxas devem fazer o mesmo, não é?
- É.
- Bem, - continuou o diretor - não podemos mais perder tempo. Terei que aplicar o feitiço em um beco que achei aqui perto. É um lugar escondido, porém é muito barulhento, ninguém notaria nada, ainda mais com a luz do dia. 
Ela já estava sabendo de tudo. Acompanhou os professores tranqüilamente. Andaram durante uns quinze minutos, até que chegaram em um beco entre duas construções abandonadas. Dumbledore tirou do bolso de seu casaco o mesmo livro que tirara da caixa lacrada de madeira. Pediu para que McGonagall se afastasse um pouco. Encostou a ponta de sua varinha na testa de Victória e começou a murmurar algumas palavras mágicas contidas no livro. 
Victória começou a sentir uma força estranha invadindo o seu corpo através da varinha. Ela teve tontura e fechou os olhos. Não entendia as palavras que Dumbledore dizia, mas elas penetravam seu cérebro como se estivessem preenchendo seus neurônios. Um clarão em forma de espiral começou a sair da varinha e envolver o seu corpo. Minerva arregalou os olhos e deu um passo para trás.
Desmaiou. Dumbledore fechou o livro e fez um sorriso de satisfação. McGonagall continuou parada. 
- Mas não é só isso. - disse o professor, enquanto tirava do outro bolso um pequeno vidro. Abaixou-se e fez com que Victória bebesse o conteúdo do frasco. Levantou-se e deu-se por satisfeito: - Agora está feito, daqui uns dez minutos, creio eu, ela acordará.
- Ela desmaiou? 
- Não, acha que sim, mas está apenas descansando um pouco. Bem, pelo menos é o que diz o livro. - Dumbledore riu enquanto guardava o livro no bolso.
- O que fez com ela?
- O feitiço serve para ela adquirir alguns poderes mágicos. Somente os mais primários, mas provavelmente ela desenvolverá outros em Hogwarts. A poção lhe dá um pouco da sabedoria mágica, para que ela pense como um de nós. Mesmo assim, ela continuará com sua memória de trouxa normalmente, para que não tenha problemas no futuro, após sair da escola. 
Victória acordou rapidamente. Reclamou dor de cabeça e uma certa energia estranha em seu corpo, principalmente nas mãos. Sentia-se diferente. Não se espantava mais com as coisas que ouvia e, passou sossegadamente pela plataforma. Durante a viagem, Dumbledore foi contando detalhes sobre a escola que a nova professora precisava saber. 
Ela ainda estava zonza, e por isso não conseguiu aproveitar a paisagem durante a viajem. Ouvia Dumbledore com paciência. Ela queria dormir, desde que saíra do Brasil não havia descansado. Chegou a Hogwarts abatida e morrendo de frio. A paisagem e a visão do castelo reanimou o coração da jovem professora, mas seu esgotamento era tal, que mal conseguia levantar a cabeça para olhar as torres do castelo.
Enquanto o trio se aproximava do castelo, Victória se assustou com um vulto enorme que vinha na direção deles. Era Hagrid. Com seu sorriso amigável, saudou o grupo: 
- Bem vindos, senti a falta de vocês.
Dumbledore retribuiu o sorriso. Victória continuava assustada.
- Como andam as coisas por aqui Hagrid? - perguntou McGonagall.
- Tudo muito tranqüilo, professora. Mas vazio como nunca.
- Pois agora voltamos. - respondeu alegremente Dumbledore - esta é a nossa nova professora de História da Magia, Victória Lins.
- Oh, bem vinda, professora Lins. Finalmente a encontraram, como está seu país? - Hagrid deu um desajeitado aperto de mão em Victória. Mas ela riu, perdera a sensação de estranhamento.
- Obrigada, o Brasil vai bem, muito mais quente que aqui, diga-se de passagem...
- Meu Deus vamos entrar, ela precisa jantar e descansar. Ainda não se adaptou ao clima. - disse Dumbledore enquanto mostrava a direção do castelo.
Hagrid levou sozinho todas as bagagens, que não eram poucas. Pelo caminho foi perguntando coisas sobre o Brasil para Victória. 
- Soube que a escola em que a senhora se formou é a melhor da América Latina, é verdade?
Dumbledore olhou de lado para ver a reação de Victória, era a primeira vez que ela estava sendo tratada como uma bruxa. Ela demonstrou-se tranqüila ao responder.
- Modéstia sua. Todas as escolas são boas, é que a minha é a mais nova, talvez passe uma imagem de ser inovadora...
Dumbledore fez um sorriso de aprovação.
Ao entrarem na escola, Victória se fascinava cada vez mais a cada passo que dava. Não disfarçou em olhar o teto, a decoração, como se fosse uma criança que acabara de chegar ao mundo. Assustou-se quando foi recepcionada pelos fantasmas, que lhe davam boas vindas. Acabou rindo de tudo. 
- Professora Victória, agora sim posso dizer bem vinda. - disse McGonagall que estava tão cansada quanto ela - acompanharei você até o seu quarto, para se trocar e em meia hora serviremos o jantar. 
Victória sorriu. Minerva continuou: 
- Não sei se irá se importar, mas seu quarto e sua sala serão próximas à nossa masmorra. Foi a melhor acomodação que encontramos, pois nossas torres são muito frias para você, e você comentou durante a viagem que não gosta de lugares altos. A sala do professor Binns está totalmente desorganizada, não tivemos tempo de arruma-la para receber um novo professor. 
- Não tem problema, gosto de ficar isolada, me ajudará a descansar e refletir.
- Bem, você não ficará tão isolada assim. Na masmorra estão os alunos de uma de nossas casas e o seu respectivo diretor. 
- Espero então que sejam bons vizinhos...
- Se você se identificar com eles, serão. Creio que não terá problemas, demonstre-se neutra ao se referir aos alunos das outras casas e eles não a importunarão.
- Isso é normal.
- Principalmente ao se dirigir a um aluno chamado Harry Potter...
- Porquê? O que ele aprontou? - perguntou em tom risonho.
McGonagall contou rapidamente a história do garoto. Victória ficou impressionada com tudo o que ela contava, mas no final fez uma observação que a surpreendeu: 
- Pode ficar tranqüila, professora, aluno estrela não tem chance comigo. Trato todos com igualdade.
- Bem, não foi essa a impressão que eu queria passar dele, ele não é uma estrela. Ele é uma vítima de tudo isso. Harry é muito humilde, e a última coisa que queria na vida é ser conhecido, ainda mais com essas circunstâncias.
- Ótimo, assim não terei problemas com ele. Também não gosto de alunos que se fazem de vítima, espero que ele não seja assim...
Minerva riu e suspirou: - Ai, Victória acho que fizemos a coisa certa em trazer você para perto da masmorra, você se dará muito bem com seus vizinhos...
- Que ótimo. 
No dia seguinte levantou-se cedo para conhecer a escola e ter contato com os livros que deveria utilizar em suas aulas. A cada minuto um conhecimento novo. Seus olhos brilhavam entre tantas novidades, como se fosse uma criança. Esporadicamente, Dumbledore a encostava em um canto para lhe cochichar uma dica ou lembrar de algo que auxiliaria em seu disfarce. Passou os poucos dias que lhe restava antes do início das aulas, estudando todos os conhecimentos da magia. 
À noite ligava escondida em seu celular para seus pais e seu noivo. Mas, foi se acostumando a escrever cartas. Victória não sabia como que elas chegavam ao seu destino tão rapidamente. 
Dois dias antes do início das aulas, os professores começaram a retornar. Victória foi conhecendo um a um: Flitwick, Sprout, Sibila Trelawney. Era bem recebida por todos, mas a princípio, teve mais afinidade com o professor de Defesa contra a arte das trevas, Eric Watson. Ele também era novo na escola. Victória já sabia de todos os problemas que ocorrera com os seus antecessores, ao cumprimentá-lo teve vontade de dizer: "Entramos e sairemos juntos no final do ano, não é mesmo?"
Eric era um senhor dos seus sessenta anos. Estilo bonachão, tinha uma barriga um tanto saliente e vastas cabeleiras brancas. Fazia companhia a Victória quando ela andava pelo castelo para conhecer melhor os caminhos. Pedia para que a professora contasse histórias do Brasil, e vivia perguntando sobre as comidas e o clima.
No dia do início das aulas, Dumbledore solicitou uma rápida reunião com todos professores e funcionários, apenas para dar uns avisos e apresentar formalmente os novos professores. Encontraram-se logo após o café da manhã na sala dos professores. Victória e Eric estavam sentados juntos conversando animadamente. De repente, Eric cutucou Victória e apontou para o outro lado da mesma:
- Não percebeu que há uma cadeira vazia?
- Pois é, mas deve ser assim mesmo...
- Não, Victória, não reparou na falta de alguém aqui? Percebeu que ninguém ministra poções?
- É...tem razão.- mesmo que Victória estivesse pensando somente como trouxa, também se impressionaria - Será que é esse um dos avisos que Dumbledore quer dar?
Eric encolheu os ombros. Após alguns minutos, Dumbledore adentrou a sala, seguido por McGonagall. Os dois se sentaram.
- Pois bem amigos, aqui estamos para mais um ano em Hogwarts. Bem vindos. - disse Dumbledore levantando-se da cabeceira da mesa e olhando para o rosto de cada um. - como sempre, alguém se atrasa, mas tenho certeza que...
- ...Ele estará aqui na hora certa. - disse um homem que entrou de repente abrindo e fechando a porta com um estrondo. Sentou-se e cumprimentou com um olhar todos os presentes. Seu olhar se deteve em Victória e Eric. Este retribuiu com um sorriso formal, mas Victória ficou estática. 
Dumbledore riu: - Bem vindo Severo, sabia que iria chegar mais cedo ou mais tarde. É de praxe. Bem, já que deve ter notado dois rostos novos, eu gostaria que nossos dois professores se levantassem e fizessem uma breve apresentação para todos, em especial Victória. 
Victória perdera toda a tranqüilidade que adquirira durante aquela primeira semana. Estava tremendo. Era a primeira vez que iria falar em público como professora em Hogwarts. Todos esperavam por sua apresentação. Levantou-se e sem olhar para ninguém apresentou-se:
- Meu nome é Victória Lins. Sou a nova professora de História da Magia. Sou brasileira, me formei pela EMAB e é a primeira vez que darei aula desta disciplina. É...- seus olhos se deteram em Snape que a olhava com frieza - é...um prazer estar aqui...bem...- desviou o olhar para a mesa - é isso. 
Em seguida Eric se apresentou e Dumbledore começou a dar seus avisos costumeiros. Enquanto o diretor falava, Eric cochichou no ouvido de Victória: 
- Acho que se você parar de olhar para o professor de poções, conseguirá prestar mais atenção na reunião. 
Victória gelou. Ela realmente não conseguia desviar os olhos de Snape, não sabia por qual motivo. Talvez tivesse achado-o diferente dos demais, só isso. Deu um sorrisinho constrangedor e virou o rosto para o lado de Dumbledore. 
Após a reunião, os professores se espalharam para aproveitar os últimos momentos de descanso antes da chegada dos alunos. Pouco antes do almoço, Victória resolveu ler um livro no jardim, enquanto aproveitava o frio Sol de outono. 
Ouviu passos em sua direção e virou-se. Era Snape. Voltou-se para o seu livro e suspirou. Ele contornou o banco e permaneceu em pé de frente para Victória.
- Tudo deve ser uma novidade para a senhora aqui em Hogwarts, não?
Victória levantou a cabeça. Não sabia por qual motivo aquela imagem a perturbava, de repente, ficou inquieta. 
- Senhorita, por favor...
Snape continuou estático. Victória achou que ele não gostara da observação, então continuou:
- É, realmente, eu ainda não conhecia a Europa...
- Ouvi dizer que as escolas de magia brasileiras são bem diferentes daqui.
- Realmente são. 
- Engraçado...conheço vários professores da América Latina e...nunca ouvi falar em seu nome...
Victória manteve-se firme: - O senhor não me ouviu comentar que é a primeira vez que dou aula? Depois que eu me formei, fiz alguns cursos de especialização e só.
- A...senhorita deve ser bem jovem então?
- Tenho trinta anos.
- Hum...então...deve ter feito especialização com alguns professores que conheço...
Victória tremeu por dentro. Madalena e Dumbledore haviam comentado sobre grandes professores brasileiros que ela deveria saber seus nomes e ler seus livros. Mas ela temia que Snape se correspondesse com algum deles, e comentasse sobre ela. Tentou então estender a conversa:
- Puxa, mas temos tantos professores no Brasil, seria uma grande coincidência. 
Antes que Snape abrisse a boca, a professora Sprout que estava vindo da estufa, passou por eles perguntando:
- Não vão almoçar?
Victória fechou o livro com força e teve vontade se abraçar e agradecer Sprout. Levantou-se rapidamente e deixou Snape para trás, com medo que ele continuasse a conversa.
Seu coração estava disparado. Andava muito rápido, chegou ao salão antes dos outros. Eric percebeu sua perturbação:
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou enquanto se sentava.
- Não. Eu estava lá fora lendo, conversando, o que mais poderia acontecer?
Snape olhou para Victória. Notou a inquietação de sua colega. Ficou quieto encarando-a. Ela tentava desviar o olhar mas tinha impressão que algo magnético a forçava para o outro lado da mesa. Era muito difícil controlar. 
Ao final da refeição, Victória foi até a sala de Dumbledore e contou o ocorrido com Snape. 
- Temo que ele investigue minha vida, professor. Ele está demonstrando muita desconfiança e faz perguntas, que, um dia temo não conseguir mais responder. 
- Pois é, desde que tive que optar por um professor trouxa, imaginei que Severo iria desconfiar de qualquer agulha que estivesse fora do lugar aqui na escola. Ele é muito inteligente e astuto, enganá-lo é quase impossível. Mas você pode ficar tranqüila, está sob efeito de um feitiço poderosíssimo e de uma poção que ele nem sabe que existe.
- Desculpe-me a insistência, mas o senhor tem certeza que ele não conhece essa poção? 
- Pois é, parece estranho, mas essa poção é um segredo que apenas uns dez bruxos no mundo inteiro conhecem. É passada de pai para filho praticamente. Quem sabe, ao me aposentar eu passe para ele, já que não tenho filhos. 
- Então ele descobrirá tudo?
- Ora, - Dumbledore sorriu - não vou me aposentar tão cedo. E eu não vou comentar sobre você mesmo depois de passar o segredo da poção. Fique alerta, demonstre frieza. Ele adora fazer perguntas capciosas para pegar no ponto fraco da pessoa. Mas...seus pontos fracos estão escondidos até o próximo ano. E eu e Minerva estamos discretamente observando tudo. Se ele lhe importunar conversaremos com ele. Creio que não chegará a esse ponto, ele é muito discreto. 
Victória saiu um pouco mais aliviada da sala de Dumbledore. Mas talvez não fosse suficiente. Ela ficara perturbada depois que conheceu Snape. Não conseguiu pensar em outra coisa durante todo o dia, mesmo depois da recepção aos alunos. Seus olhos perseguiam os dele, parecia instintivo. Nada mais a impressionava na escola. 
No dia seguinte iniciaram-se as aulas. Todas as aulas que ministrara foram bem sucedidas. Ao encontrar com Harry Potter teve vontade de dizer: "Ah, então é você que é o tal de Harry Potter?". Mas, como tinha comentado com McGonagall, gostava de tratar todos os alunos com igualdade. Gostou muito de Hermione, pois lembrou de si mesma na época do colégio. Achou que Draco a olhava estranho, mas não deu importância para isso. 
Durante o intervalo das aulas, Draco se encontrou Snape pelos corredores: 
- Professor, o que o senhor achou da nossa nova professora de História da Magia?
- Não sei. Quem deve achar algo são vocês alunos, não concorda?
- Não é dela como professora. É como pessoa. Parece diferente de nós. Parece que não é daqui.
- Está certo, Draco. Ela é brasileira.
- Nós sabemos disso. Ela parece esconder algo. Eu tenho certeza que puro-sangue não é. Não se porta como uma. Reparei que ela soltou uns sorrisinhos para a Granger durante a aula, tem afinidade com o tipo dela. 
- Bem, Draco, tenho certeza que se ela estiver escondendo algo de nós, será descoberto rapidamente. Fique tranqüilo. Observe-a discretamente e volte a me procurar caso perceba algo.
Draco sorriu triunfante. Agradeceu e seguiu para sua próxima aula. 
Dois dias depois, Harry, Rony e Hermione estavam estudando na biblioteca quando Draco aproximou-se de Hermione e cochichou:
- É amiguinha da nova professora? 
- E se eu for, faz diferença para você?
- Andei percebendo que ela é da sua laia...
Rony se levantou, pronto para dar um murro em Draco. Todos que estavam na biblioteca olharam. Rony parou, olhou para todos e se sentou.
- Estressado já, Weasley? As aulas mal começaram...
A bibliotecária, Madame Pince veio em direção a mesa:
- Caso vocês queiram se matar, pode ser fora da biblioteca? O Sr. Malfoy deseja algo? 
Ele riu com desdém: - Não, vim só dar um olá para meus colegas, até mais... - e saiu. 
Já acostumados com as discussões. Os três voltaram a estudar normalmente. Alguns minutos depois, Hermione levantou a cabeça e disse:
- Engraçado, o nome dela...Victória Lins...não me é estranho...
- Ué, você vive lendo, deve ter lido algo sobre ela, isso é óbvio. - respondeu Harry.
- Não, mas não em nossos livros. Eu já ouvi falar de uma escritora trouxa com esse nome.
- Ah...mas esse nome não é muito incomum. Não acho tão difícil existir uma trouxa com o mesmo nome e que seja escritora. - respondeu Rony.
Hermione estava pensativa: - Se eu não me engano, eu estava lendo um livro de História da Magia de um inglês trouxa, que citou trabalhos realizados fora do país, e ele indicou o livro dela, para quem tinha acesso a livros estrangeiros. 
- Eu continuo achando que é coincidência. - retrucou Rony.
- Acha que um trouxa daria aula em Hogwarts sem ninguém perceber? - perguntou Harry.
- É, sei lá...- Hermione voltou a estudar e não tocou mais no assunto. 

Durante o primeiro mês, tudo correu na mais plena calma. Não para Victória. Além da saudade de seu país e de seu noivo, não conseguia tirar de sua mente o olhar de Snape. 
Ao final da semana de aula, aproveitou que iria acordar mais tarde no dia seguinte, e ficou mais tempo estudando em sua sala. Era a única forma de distrair a saudade e tentar esquecer Snape. Fechou as janelas, deixou a porta semi-aberta e sentou-se em uma confortável poltrona para ler. 
Por volta da uma hora da manhã cochilou. Dormiu tão pesadamente que não ouviu a hora em que o livro escorregou de seu colo e caiu no chão. 
- Victória?
Era Snape quem a acordava. Ele estava acordado quando ouviu o barulho, viu a luz na sala e resolveu entrar. Não é difícil de se imaginar que ela teve um grande susto.
- O que aconteceu?
- Creio que você estava lendo um livro, cochilou e o livro caiu no chão. Ouvi o barulho e sai para ver o que era.
- Ah, desculpe-me. Eu deixei a porta aberta para entrar ar...está ventando lá fora, não posso deixar as janelas abertas. - disse sem graça, enquanto recostava-se na poltrona. 
Snape pegou o livro do chão e colocou nas mãos de Victória. - Está gostando daqui? 
- Sim, muito. - Victória evitava olhar para Snape.
Ele porém continuava a olhar para o livro: - Lendo sobre poções? Também gosta?
O rosto de Victória se ruborizou: - É, sempre gostei. Não era muito boa aluna em poções, mas sempre me interessei. 
- Algum problema?
- Não entendi?
- Algum problema comigo? Achei que estava ajudando. Ouvi um barulho e vim ver o que era.
- Não, problema nenhum por que?
- Por que não olha para mim?
Victória prendeu a respiração e olhou para o professor. Ficou estática, apenas disse: - Foi sem querer, desculpe-me. 
Snape se abaixou, apoiando-se no braço da poltrona, aproximou-se do ouvido de Victória e cochichou: - Algumas pessoas nesta escola estão desconfiando que você guarda um segredo que prejudicaria o andamento de nosso trabalho. Espero que elas estejam enganadas. 
- Foi por isso que veio falar comigo, Severo? - Victória continuava na mesma posição, mas seu coração disparara.
- Porque seu coração disparou?
- Co...como per...ce...beu?
- Não reparou que estou apertando seu pulso?
Victória se irritou e levantou. Snape fez o mesmo. Ela fechou a porta e veio na direção de Snape com tom ameaçador. 
- O que você quer Severo? Até agora só se aproximou de mim para fazer perguntas, desconfia de mim sem me conhecer? Desconfiar do quê? Porque sou de outro país? Estou dando minhas aulas normalmente, não? Acha que estou a serviço do Você-sabe-quem? Que tolice, eu não o conheço, mas se ele for um pouco inteligente não colocaria uma espiã tão as claras. O que quer de mim? 
Snape gostou. Percebeu que ela não era tão boba quanto aparentava. 
- Eu apenas vim dar um aviso. Pessoas ao seu redor estão lhe vigiando. Tome cuidado. Mas...sinceramente...acho muito estranho que você evite meu olhar. Tem medo de mim?
- Não evito seu olhar. - desafiou encarando-o - respirou fundo e continuou - peço desculpas novamente se dei essa impressão. 
Snape deu um passo a frente, estavam dez centímetros distantes um do outro.
- Você deve ficar estressada com o trabalho daqui, não? Tão longe de seu país, de sua família...
- É...- Victória não estava entendendo.
- E eu estou lhe deixando mais nervosa. Deve sentir saudades de sua família, seus filhos...
- Não tenho filhos, sou solteira.
Snape ficou quieto. Depois de um breve silêncio, disse:
- Se precisar de alguma ajuda, sabe onde é minha sala, sou seu vizinho.
O corpo de Victória se arrepiou. Ela se limitou a dar um leve sorriso.
- Está com frio?
- Porquê?
- Está arrepiada.
- É, esfriou. 
- Bem, trate de se agasalhar...boa noite. - Severo se retirou rapidamente
- Boa noite. 
Victória caiu sentada na poltrona. Colocou uma mão na boca e a outra em seu coração. Fechou sua sala e foi para o seu quarto. Deitou-se e chorou desesperadamente até a hora que lhe bateu o sono. Teve insônia a noite inteira. Em sua mente, cenas do último acontecimento se misturavam com o seu noivo que parecia estar em uma plataforma de trem se despedindo. Acordou chorando. 
O dia estava amanhecendo quando se levantou e começou a escrever uma carta para seu noivo. Ao pegar a caneta para escrever, voltou a chorar:
Querido Eduardo, 
Sonhei com você esta noite. Foi muito estranho. Você estava se despedindo de mim em uma plataforma de trem. Acordei chorando. Agora estou com meu coração pesado e voltei a chorar. 
Sinto muito sua falta. Sou bem tratada aqui, mas não tenho o amor de ninguém. Sorrisos e apertos de mão não compensam sua ausência. Dú, eu só queria lhe dizer que, aconteça o que acontecer eu nunca deixarei de te amar. Daqui há um ano exatamente estaremos casando, e é isso o que me alegra. 
Beijos saudosos
Victória
Victória entregava suas cartas para Dumbledore. Ela não sabia como ele as enviava, afinal, não poderia mandar uma coruja. Mas recebia a resposta rapidamente, como se tivesse enviado um telegrama. Ainda com os olhos vermelhos, subiu até a sala de Dumbledore e deixou a carta dentro de outro envelope por baixo da porta, conforme orientação dele. 
Enquanto descia em direção ao seu quarto, avistou um vulto vindo em sua direção. Tinha certeza de que se tratava de um aluno. Era Draco. Ao se aproximar sorriu ironicamente:
- Bom dia professora, já em pé?
- Bom dia, Sr. Malfoy, faço-lhe a mesma pergunta.
- Estava sem sono, só isso. 
- Espero que não seja repreendido por estar andando pelos corredores antes de todos acordarem.
- Não conhece as regras, professora?
- Esqueceu-se que estou aqui há apenas um mês? Você está aqui há mais tempo, deveria saber o que é certo ou errado.
- Então já que não tem em mente todas as regras, vai perguntar para algum professor?
- Quem sabe...não estou entendendo onde quer chegar...
- Eu achava que todas as escolas tinham regras parecidas...ou os alunos no Brasil costumam perambular pelos corredores fora de hora?
Victória se irritou: - Sr. Malfoy, não é porque estou aqui a pouco tempo, que acha que pode me tratar como uma qualquer. Não sou tontinha igual o pessoal que você costuma irritar como passatempo. Esse seu tom irônico e essas perguntas que dão voltas e mais voltas, não irão me tirar do sério. Vou conversar com o seu diretor sobre sua falta de respeito com os seus superiores. 
Draco fez uma careta, demonstrando desdém. Victória seguiu para o seu quarto e antes de virar o corredor, voltou-se e disse com ar triunfante:
- Dez pontos a menos para a Slytherin.
- O professor Snape nos dará quarenta rapidinho. - respondeu com ar de deboche.
- Se você continuar se sentindo o reizinho do pedaço, poderei tirar cinqüenta.
- Sabe quem é o meu pai, professora?

Victória riu: - Ah, quando não está escorado em seus dois guarda-costas, corre para o colo do papai? Quando irá agir por si? Seja homem. Falo isso pelo seu bem. Eu já ouvi falar de seu pai e, sei que ele espera que você seja educado como um homem e não como um boneco de porcelana.

            Sem argumentos, Draco sorriu ironicamente e voltou para o corredor que da acesso à sala comunal da Slytherin. Victória voltou resmungando para o seu quarto, bocejando e se espreguiçando. Snape estava no fundo do corredor:

            - Posso saber por que tirou dez pontos da minha casa?

            Victória olhou para cima, como se estivesse falando: “Ai, meu Deus”. Suspirou e disse:

            - Que dia agitado estou tendo, meu Deus. Acontece que seu querido Malfoy estava passeando pelos corredores fora de hora e me destratou. Depois eu faço o relatório.

            - Espero que ele seja bem convincente.

            - Por que Severo? O que vai fazer?

            Snape se aproximou. Victória continuou parada com os braços cruzados.

            - Como eu já disse, estão te vigiando. Qualquer deslize seria fatal...

            Victória também se aproximou: - O que isso tem a ver com o relatório?

            - Mostre-se o mais imparcial possível em tudo o que faz, seja discreta. Sei que é difícil demonstrar-se neutra. Mas tente. Seja fria, totalmente profissional. – parou por um instante, sem desgrudar os olhos de Victória – E não podemos falar sobre isso aqui no corredor, daqui a pouco todos estão acordando. – puxou-a pelo braço, até sua sala, entrou e fecho a porta:

            - Se realmente estão me vigiando, por que está se importando tanto? O que ganha com isso? – perguntou Victória com o coração disparado.

            Severo não tinha palavras. Parou por um instante e respondeu:

            - Não posso ajudar uma colega?

            - Não sabia que era tão solidário...

            - Não confia em mim, não é mesmo? Deve confiar naquele bobão do Watson. Desde o princípio, ele sempre esteve do seu lado, sempre solícito, sorridente...

            Victória riu maliciosamente. – Qual seu problema com o Eric? Ele pelo menos é uma pessoa transparente, não fica fazendo joguinhos de suspense. Eu sei o que ele vai falar, suas reações...

            - Ele é medíocre e previsível – interrompeu Snape – vive com aquele sorrisinho só porque é novato, quer agradar a todos. Isso é impossível, será que ele não percebe? Não sei como uma mulher como você passa o dia junto de uma figura tão deplorável.

            - Agora quer escolher minhas amizades?

            - Espero eu que seja só uma amizade...

            Victória virou o rosto, não estava acreditando no que ouvia. Snape parecia ter se arrependido do que dissera, mas era tarde demais. Após um breve silêncio, ele continuou:

            - Desculpe-me Victória. Pode até achar que quem te vigia sou eu. Mas como não consegui dormir essa noite, não deixei de reparar que saiu de seu quarto com um envelope na mão e chorando. Subiu e voltou rapidamente sem o envelope. Pela rapidez de sua volta, pressupus que tivesse deixado a carta na porta do quarto de Eric. Não daria tempo de ir ao corujal.

            - Não, Severo. Era um relatório que eu estava devendo para Dumbledore. Como estava sem sono, passei a noite fazendo e já resolvi entregar.

            - Tão dificultoso que estava chorando?

            - Entendi, Severo. Acha que estou morrendo de amores pelo Eric? Oras, ele tem o dobro da minha idade, até se parece com o meu pai. Ele é o oposto de tudo o que gosto em um homem...apesar de ser muito simpático.

            - Ah...bem...sei que não é da minha conta, mas então quer dizer que não se interessa por homens velhos de cabelos brancos, gordinhos e sorridentes?

            - Eu não...- riu descontraidamente.

            - Gosta do contrário...

            Victória gelou. – Co...mo...disse...anteriormente...não é da sua conta. Tenha um bom dia. – saiu correndo batendo a porta. Snape cerrou os olhos, como se estivesse maquinando algo.

           

            A partir desse acontecimento, os sentimentos de Victória se confundiram. Ela começou a sentir pena de seu noivo – que escrevia cartas cada vez mais apaixonadas e saudosas – estava arrependida de ter deixado Snape se aproximar, mas não conseguia se afastar dele. Ele parecia sua sombra, mas quando ele não estava por perto, era ela que o procurava.

            Não mudara o tom apaixonado nas cartas para seu noivo. Ela estava certa de que quando saísse de Hogwarts iria esquecer tudo o que estava deixando para trás, retornando a sua vida normal. Apesar de, até então Victória se manter fiel a seu noivo, nunca comentara com ninguém que era comprometida. McGonagall sabia, mas não comentava com os outros sobre a vida pessoal de ninguém.

            O mês de Novembro se passou rápido como uma flecha. Draco cochichava nas aulas de Victória para irritá-la. Ela demonstrava frieza e só não descontava muitos pontos de sua casa, por causa de Severo. No fundo, ela gostava quando ele queria chamar a atenção nas aulas, pois, cada vez que isso acontecia, era um motivo a mais para conversar com Snape.

            Suas aulas eram elogiadas. Com o passar do tempo, os alunos perceberam que Victória dominava muito bem a História dos trouxas, pois sempre fazia comparações entre bruxos e trouxas. Ficou muito preocupada, achando que alguém poderia desconfiar de sua verdadeira identidade. Mas Dumbledore tranqüilizou-a, dizendo que era normal um bruxo conhecer o mundo dos trouxas. Porém, um simples diálogo com Hermione foi suficiente para que Victória não tivesse tanta confiança nas palavras do diretor. Ao final de uma aula, a garota, veio conversar com a professora:

            - Professora, a senhora tem um grande domínio da vida dos trouxas, sabia?

            Victória não olhou para Hermione, continuou guardando suas coisas, mas respondeu com firmeza:

            - É, eu estudei muitos livros deles, é muito interessante...

            Hermione olhou para trás para se certificar que estava sozinha na sala com a professora, então falou em tom mais baixo:

            - Eu também estudei várias coisas professora, é que sou filha de trouxas.

            Victória parou e encarou Hermione sem nada dizer.

            - Desculpe a curiosidade, professora, é que eu queria saber se a senhora também é, pois muita gente aqui me trata mal por causa disso. A senhora deve saber de quem estou falando.

            - Na verdade, Hermione, meu pai é trouxa. – Victória pensou em uma história na hora, achou que era melhor do que negar tudo – mas eu peço para que você não comente com ninguém. É por isso que eu sei muito sobre eles.

            - Não, professora, não irei contar. É que eu me identifiquei muito com o seu jeito de dar aula, de explicar as coisas, percebi que seu conhecimento estava muito além dos livros. Mas...a senhora pode me tirar uma curiosidade?

            - Claro. – Victória estava mais calma, confiava em Hermione – pode perguntar.

            - Como é o relacionamento entre um trouxa e um bruxo? Digo...seus pais se dão bem?

            Victória pensou em Snape:

            - Sim, se dão bem sim. É um relacionamento como outro qualquer. Agora...você me dá licença? Preciso corrigir uns trabalhos do pessoal do primeiro ano. – Victória foi saindo calmamente, para não dar a impressão de que estava fugindo do assunto – Mas é bom saber, Hermione, que você se identifica com meu curso, fico muito feliz.

            Nesse instante, McGonagall passou pela porta da sala e parou:

            - Tudo bem com vocês?

            As duas sorriram e acenaram afirmativamente. Hermione deu um tchau com a mão e foi para sua próxima aula.

            - Ela estava te importunando? – perguntou McGonagall em tom preocupado.

            - Não, professora, ela é muito estudiosa, estava comentando sobre um livro que lera na biblioteca. Gosto dela.

            - O problema, Victória, é que estou achando que tem muita gente se aproximando de você. Tome cuidado, principalmente com o Severo. Sei que vocês são amigos, às vezes o problema nem é ele, mas as pessoas que andam ao seu redor.

            Victória abaixou a cabeça. Queria desabafar com alguém, contar o que estava acontecendo. Mas preferiu calar-se.

            - Tudo o que acontece de anormal eu comunico ao diretor. Ele sempre me tranqüiliza. Até agora não tive problemas.

            - Ótimo, espero que continue assim. Não sou ninguém para lhe dizer com quem deve conversar ou não, seja apenas cautelosa.

            - OK, professora, obrigada.

            Victória estava farta de ouvir conselhos do estilo: “Tome cuidado, estão te vigiando”. Queria trabalhar normalmente, sem a sensação de estar pisando em ovos. Queria também que Snape desaparecesse de sua vida.

            Passou a noite em seu quarto. Chorou muito. Depois do jantar, alguém bateu em sua porta. Pelo modo de bater, Victória sabia que não era Snape. Sentada em sua poltrona, gritou:

            - Entre.

            Era Eric. Trazia alguns pedaços de bolo de chocolate em suas mãos e uma taça de suco de abóbora. Estava sorridente como sempre. Victória não gostou de sua visita. Adorava a companhia de Eric, mas não queria que Snape visse ele em seu quarto.

            - Aconteceu alguma coisa, todos estão a sua procura.

            - Nada, amigo. Não estava me sentindo muito bem. Obrigada pelo bolo.

            - Seus olhos estão vermelhos, você chorou, não foi? – sentou em sua cama e viu uma pilha de lenços usados. – e chorou muito...

            Victória não conseguiu resistir. Contou a Eric sobre Snape. Após seu relato, o professor ficou boquiaberto.

            - É segredo, ouviu? Eu precisava desabafar...

            - Não acredito. Por isso que ele anda me olhando feio? Tem ciúmes de nossa amizade?

            Victória deu um sorriso:

            - Ele olha feio para você? Oras, o que eu fiquei sabendo é que ele nunca se deu bem com os professores de DCAT.

            Eric se aproximou de Victória e pegou em sua mão:

            - Olha, eu tenho uma filha quase da sua idade, viu? Eu faria tudo para vê-la feliz. Não vou deixar que aquele morcego mau humorado te faça chorar. A próxima vez que eu ver seu olho vermelho por causa dele, entorto o seu nariz...

            - Eric, ele não tem culpa. De um tempo para cá ficamos amigos. Nunca demonstrei nada. Não quero que ele saiba. Eu sofro à toa.

            - Porque não quer que ele saiba, é masoquista?

            - Tem alguém me esperando no Brasil para casar.

            - Ah...menina...que...encrenca que você arranjou, heim? Bem...se você amar esse seu noivo, tem que se afastar do Snape. Lembre-se, você o conhece há apenas três meses. Vai largar um casamento por uma paixão repentina? E se for só empolgação?

            - Ai, Eric, se tudo fosse tão fácil. Não consigo me afastar, acha que não tentei? Aqueles olhos negros me hipnotizam, me tiram do sério, eu esqueço quem sou...

            - Uau...se uma mulher falasse isso de mim, eu casava na hora. – Eric se levantou – Bem, eu só não digo faça o que seu coração mandar, por que na sua situação ele não deve ser o melhor conselheiro, raciocine com calma. Coisas do coração também precisam de um pouco de razão. Daqui a pouco seu morceguinho deve vir aqui com outro prato de bolo de chocolate. Afinal ninguém sabe de seus sentimentos, mas Hogwarts inteira sabe que você ama chocolate. Boa noite, amiga.

            -Boa noite amigo, obrigado por me aturar...

            - Não há de quê.

            Dito e feito. Quinze minutos depois, Snape apareceu com um prato repleto de bolo de chocolate e um suco de abóbora. Victória havia escondido o prato de Eric.

            - O que aconteceu? – perguntou ele friamente.

            - Não estou muito disposta, só isso...

            - Mas terá disposição para comer esse bolo, não?

            - Acho que sim.

            - Precisa de alguma coisa?

            Victória fechou os olhos e suspirou: - Não, Severo, não.

            - Estou incomodando?

            Victória abriu os olhos rapidamente, com medo que ele se retirasse do quarto: - Não, de forma alguma, fique à vontade...estou apenas indisposta.

            - Algum problema de saúde?

            - Creio que não. Não estou acostumada com o clima daqui, deve ser só isso...

            - Victória...eu sei que você não gosta que eu toque nesse assunto, mas...

            - Ai, uma conspiração contra mim? Mas você nunca fala quem me vigia...-interrompeu quase sussurrando.

            - Não conseguiu perceber ainda?

            - Oh...quem será...

            - A professora McGonagall

            Victória soltou uma deliciosa gargalhada. Ela sabia que Minerva estava sempre por perto, mas não pelos motivos que Snape desconfiava.

            - Ah...Severo...acha mesmo?

            - Nunca reparou que ela vive lhe interrompendo as suas conversas com os alunos pelos corredores? Parece que ela tem medo que os alunos se aproximem de você. Com os professores ela é mais discreta, mas eu já reparei que ela tenta monitorar todas as suas companhias.

            - Ora, Severo, ela é vice-diretora, e eu sou nova aqui. Ela tem direito de me testar, saber quem eu sou essas coisas. Ela confiou em mim para dar aula. E...posso te pedir uma coisa?

            - Para não tocar mais nesse assunto?

            - Perfeitamente.

            O professor se aproximou. Victória engoliu seco e tentou não desviar o olhar.

            - Seus olhos estão vermelhos...

            - Eu já disse, estou indisposta, não estou passando bem, os olhos vermelhos são um sintoma...

            - Vou trazer algo para você beber – disse Snape saindo rapidamente da sala, sem esperar a resposta de Victória.

            Victória esperou por meia hora. Estava muito sonolenta e deitou-se. Caiu em um sono pesado, como se não dormisse a dias. Acordou de manhã e ao se virar para olhar as horas em seu criado mudo, deparou-se com um cálice e um bilhete. Nele estava escrito:

Desculpe-me a demora, boa noite.

Ficou dez minutos olhando para o bilhete. Uma coisa tão pequena e tola e ela lia como se fosse uma carta de amor. Tomou a poção rapidamente, arrumou-se e foi tomar seu café da manhã. Agradeceu Snape com um aceno e um sorriso, ele retribuiu. Ela realmente estava se sentindo melhor, não sabia se era só por causa do efeito da poção.

 

 

O Natal estava se aproximando e Victória começou a sentir saudades de sua vida no Brasil. Em seus momentos de folga, ficava em sua janela ou passeando pelo jardim, pensando nas compras que estaria fazendo, os enfeites que estaria montando. Cada dia que se passava o frio aumentava. Adorava inverno, mas nunca sentira um frio tão penetrante e pesado.

Aproveitou o feriado prolongado para conhecer Londres. Foi sozinha. Não aceitou a companhia de ninguém. Hospedou-se em um simples hotel. Realizou seu grande sonho de passear pela cidade. Comprou presentes e tirou fotos para enviar para o Brasil. Falou com seu noivo pelo telefone, sua voz estava fria como se não estivesse há mais de três meses longe dele. Mas no terceiro dia fora de Hogwarts, seu coração apertou, algo parecia puxar-lhe para a direção da estação de trem que levava à escola. Voltou na manhã do quarto dia.

A escola estava quase vazia. Chegou no final da tarde, quando o frio parecia-lhe entrar pelos poros e revirar sua alma. Correu para o seu quarto e trancou-se como se estivesse sendo perseguida por um monstro. Jogou suas malas na cama e tirou seu casaco. Quando ia se sentar para tirar as botas, deparou com uma pequena caixa em seu criado mudo. Abriu-a rapidamente. Dentro, um mini pergaminho e um broche de ouro em forma de caldeirão com a alça de brilhantes. O coração de Victória disparou, jogou o broche no colo para ler o pergaminho que dizia:

Cara Victória

            Mandei uma coruja entregar este singelo presente de Natal pois ninguém aqui precisa saber quem lhe deu. Espero que esta seja uma boa lembrança de seu ano em Hogwarts.

 

            Victória se jogou na cama. Seu coração estava tão disparado que mal conseguia respirar. Releu o pergaminho várias vezes. Sabia muito bem quem o tinha enviado. Eric não mandaria algo em segredo, ainda mais depois de seu desabafo. McGonagall e Dumbledore nunca fariam uma coisa dessas. Um aluno, por mais que seu pai fosse rico, não teria dinheiro para dar um presente desses para sua professora. Os outros professores e funcionários não tinham muito contato com ela, nunca ninguém lhe demonstrara nada. O interessante é que havia um borrão de tinta no lugar da assinatura. O que demonstrava que a pessoa que escreveu o bilhete iria assinar, mas se arrependeu.

            Depois desse dia, ela nunca mais deixou de usar esse broxe. Era uma jóia muito bonita e atraente, todos a paravam nos corredores para observar de perto e perguntar quem deu. Victória dizia que fora um presente de sua mãe. Mas não foi essa a resposta que ela deu quando um certo professor a abordou em sua sala cantarolando:

            Snape entrou em sua sala como era de costume: batendo rapidamente e entrando como se estivesse se escondendo de alguém. Victória estava de costas, arrumando alguns livros para as aulas que reiniciariam em dois dias. Cantava alto uma música em português:

            “De tanto levá flexada do teu olhar...”

            - O que é isso? – perguntou o professor seriamente.

            - É uma música brasileira, oras. – respondeu Victória, virando-se muito sorridente e continuou a cantar:

            Meu peito até parece sabe o quê...

            - É sobre o quê?

            Victória voltou a mexer em suas coisas e pensou: “É sobre você, burro.” Mas respondeu:

            - Ah...fala sobre as belezas da cidade de Salvador. – e rindo cantou olhando para ele:

            Teu olhar mata mais que atropelamento...

- Oras, fico muito irritado quando ouço uma língua que não entendo. – disse Snape interrompendo.

            Victória mostrou a língua e riu debochadamente, parecia uma criança.

            - Está muito feliz, o feriado lhe fez muito bem...

            - Perfeitamente, mas o melhor aconteceu quando eu voltei. – puxou o broche que estava em sua capa para frente.

            Snape fez cara de indagação.

            - Sabe guardar segredo? – perguntou Victória sussurrando.

            - Não sou do tipo que sai por aí contando historinhas...

            - Não foi minha mãe que me deu este broche...foi um admirador secreto. – Victória sabia muito bem o que estava fazendo. Queria ver a sua reação. Severo continuou inexpressivo, como se não tivesse se surpreendido com a notícia:

            - Tem noção de quem seja?

            - Não, por isso estou lhe contando...talvez tenha uma noção. Você conhece as pessoas aqui bem melhor do que eu. Se tiver, ou melhor, souber quem for, diga-me pois preciso retribuir em dobro.

            - Mesmo que soubesse, obviamente não contaria. Uma pessoa que faz isso quer manter segredo, se ela tivesse me contado eu guardaria seu sigilo assim como estou guardando o seu. 

            Victória sorriu. Snape continuou:

            - Senão teria assinado o bilhete...

            - Que bilhete, Severo? Como sabe que havia um bilhete? – perguntou aumentando o tom de voz e arregalando os olhos.

            - Oras, que bobagem, todo admirador secreto escreve uma dedicatória sem assinar. – respondeu tranqüilamente sem perder a pose.

            - É...você está certo...- mas Victória não engolira muito bem a resposta. – Enfim...você é o único que sabe dessa história agora. Seja lá quem for essa pessoa, ela tocou o meu coração como nunca ninguém o fez. Deixou-me muito feliz, eu queria retribuir esse gesto. Daria tudo para saber quem foi.

            - Provavelmente ele esteja ainda inseguro, está a espera de um sinal seu...

            - O que você chama de sinal? Como vou dar um sinal para alguém que não sei quem é? Esse fulano então é um covarde. O que irei esperar de um homem que precisa se esconder para tentar conquistar uma mulher? Deve ser um bobão...e se acha um galanteador. É ridículo...custava assinar o bilhete, ou aparecer um dia depois? Tá certo que foi uma surpresa muito boa, mas estou feliz igual uma bobalhona, pois estou com um pedaço de ouro e brilhantes que nem sei quem deu.

            - Não é bem assim Victória, o coração de um homem bate diferente do de uma mulher. É preciso antes de mais nada encontrar uma harmonia no ritmo para a orquestra começar a tocar.

            Victória ficou séria.

            - Bem...prometo que se desconfiar de alguém contarei...preciso preparar minhas aulas...boa noite...

            - Encontrar uma harmonia no ritmo para a orquestra começar a tocar...do que ele está falando? – disse para si mesma, depois que Snape saiu.

            As aulas recomeçaram. Os alunos e os professores estavam mais animados com a vinda do novo ano. A densa neve de inverno, não parecia esfriar os corações dos jovens que falavam alto pelos corredores, contando as novidades das festas de fim de ano. Até Draco cumprimentara Victória com um sorriso. Ela retribuiu desconfiadamente.

            Victória aproveitou o ânimo redobrado de seus alunos para contar histórias sobre as festividades de fim de ano. Empoleirava-se em sua mesa e dava aula como quem está batendo papo em uma mesa de bar. Falou sobre festas cristãs, judaicas, muçulmanas. E, obviamente, dos bruxos. Seus olhos brilhavam e suas exposições deixavam os alunos fascinados. Nunca dera aulas tão boas quanto aquelas. Estava muito feliz, e todos percebiam isso.

            Ao falar de alguns rituais mágicos durante a Idade Média, uma aluna da Ravenclaw do 6 º ano, perguntou:

            - Professora, como adquiriu tantos conhecimentos sobre os trouxas?

            Toda a sala olhou para a professora com expressão de indagação, como se quisessem fazer a mesma pergunta.

            - Diz isso porque sempre comparo nossa história com a dos trouxas? Ora, isso se faz necessário, vivemos no mesmo mundo. Não vivemos isolados, interagimos sempre.

            - Sabe o que é professora, é que a senhora fala com tanta convicção e espontaneidade. Nossa professora de Estudo dos Trouxas fala deles como se estivessem em um mundo a parte. A senhora não, nós entendemos melhor o seu jeito de explicar, é mais simples. – disse outro aluno.

            - A senhora nunca pensou em dar aula de Estudo dos Trouxas? Estávamos pensando em fazer um abaixo assinado e entregar para o professor Dumbledore. – continuou outra aluna que era monitora da casa, todos na sala apoiaram sua fala.

            Victória ficou desconcertada:

            - Ora, pessoal, eu fui designada para dar aulas de História da Magia. Não fiquem me comparando com outros professores, cada um tem seu estilo. Como eu já disse anteriormente, estudo muito sobre os trouxas, gosto disso. Acho melhor vocês esquecerem essa história de abaixo assinado. Vocês não estarão fazendo um bem para mim, e sim um mal para a outra professora.

            - Não queremos prejudicá-la, queremos apenas que vocês troquem de matéria. – disse a monitora.

            - Vamos fazer o seguinte, deixemos isso para o professor Dumbledore resolver, ok? Não tomem nenhuma atitude, certo?

            O plano do abaixo assinado não vingou entre as outras casas. Provavelmente, os alunos da Ravenclaw resolveram seguir o conselho de Victória. Mas toda a escola comentava de seus profundos conhecimentos sobre os trouxas. Ela chegou até a receber convites para escrever livros, mas recusou devido sua falta de tempo.

            Em meados de janeiro, sua empolgação pelas aulas se apagou. Victória não resistiu ao rigoroso inverno e contraiu uma forte gripe. Madame Pomfrey andava muito preocupada, pois nunca vira uma pessoa adulta com uma gripe tão forte. Temia que fosse uma pneumonia. Um médico de Hogsmeade foi chamado, mas ele constatou que ela apenas precisava de muito repouso e manter-se aquecida.

            Os professores se revezavam para substituí-la. Muitos alunos iam visitá-la quase que diariamente. Hermione era a mais assídua. Quanto aos professores, Eric dava-lhe uma barra de chocolate todas as manhãs. Snape oferecera-se para fazer a poção que o médico receitara. Ia todos os fins de noite entregar tal poção para Victória. Sentava-se na beira de sua cama e colocava a mão em sua testa:

            - Você nunca tem febre.

            - Ótimo, era o que faltava, começar a ter delírios.

            - Mas em três dias você não melhorou nada, até quando terei que lhe trazer esta poção todas as noites?

            - Por mim, eternamente...- Victória virou o rosto para o lado, mas não se arrependeu do que disse, havia concluído que não tinha mais nada a perder ou ganhar. Severo, por sua vez cerrou os olhos e ficou mudo. Passados alguns minutos, Victória virou-se novamente e disse:

            - A Madame Norra comeu sua língua? Sempre fica aqui conversando comigo, e hoje está calado porque?

            - Eu preferiria visitar-lhe sem que fosse necessário dar uma poção para se restabelecer de uma doença.

            - Muito gentil de sua parte...

            - Soube que irá ficar aqui apenas este ano.

            Victória suspirou: - É, eu estou emprestada digamos assim. Ano que vem um ex-aluno de Hogwarts virá dar aula.

            - Mas todos os alunos estão gostando de sua aula...

            - Não depende de mim. Fiz um acordo com Dumbledore.

            - Ficaria aqui mais tempo se pudesse?

            - No meu vocabulário não consta a palavra se.

            - Vai voltar para o Brasil?

            - Sim, claro.

            - O que lhe prende ao Brasil? Não ficaria se tivesse uma oportunidade?

            Victória lembrou-se de seu noivo. Não pensava nele desde a última vez que lhe escrevera há quase uma semana.

            - Como o que me prende, Severo? Nasci lá, essa é a primeira vez que deixo meu pais. Acha que é fácil?

            - Desculpe-me, achei que poderia estar em seus planos mudar de país por um tempo.

            Victória não disse nada. Espirrou e continuou calada.

            - Mudando de assunto, você descobriu a pessoa que lhe deu o broche?

            - Não, e você?

            - Fui eu.

            Victória tossiu. Tomou um gole de água e se abanou com o livro que estava em sua cabeceira. Snape continuou inexpressivo como se nada tivesse acontecido.

            - Porque fez isso? – perguntou Victória, num tom de alegria.

            - Tive vontade de te dar um presente e achei que se os outros soubessem não iriam nos deixar em paz. Não gosto de me expor.

            - Fico feliz em saber que foi você, desculpe tê-lo ofendido aquele dia, estava nervosa. – respondeu meigamente enquanto segurava sua mão. – Não irei contar para ninguém, todos pensam que foi minha mãe.

            - Ora, Victória, seja honesta. Você sempre desconfiou de mim. Porque contou para mim sobre o broche e não para o Eric? Queria ver minha reação, não é?

            - Acha que eu iria desconfiar de quem? Se você tivesse me dado um broche com outro formato pelo menos.

            - Então você gostou de saber que fui eu?

            - Sim. – Victória achava que estava delirando.

            - Que bom, uma coisa a menos para me aborrecer nesta escola. – apertou a mão de Victória e beijou sua testa – Preciso ir, amanhã darei minhas aulas e as suas também, boa noite.

            Victória não conseguiu responder. Ficou estática, olhando o professor ir embora.

           

           

Uma semana se passou e Victória estava totalmente recuperada. Andava bem mais sorridente do que o normal. Perdera o costume de passar as noites trancafiada em seu quarto ou em sua sala. Apesar das recomendações médicas, passeava pelo jardim durante a noite, sob um frio de zero graus.

            Durante um desses passeios, Victória estava sendo vigiada por Draco. Ele estava em uma das janelas do castelo observando a professora que naquele momento brincava com Canino, o cachorro de Hagrid, enquanto este limpava a neve da porta de sua cabana. Draco parecia muito pensativo, aparentemente não estava prestando muita atenção para a cena. Snape o surpreendeu:

            - Vigiando os outros, Draco?

            Draco virou-se sem graça. Sabia que o professor era amigo de Victória.

            - Estou olhando ela brincar com o Canino, mais nada, professor.

            - Continua desconfiando dela?

            - Sinceramente? Continuo.

            - Por qual motivo?

            - Já disse, professor. Ela não se parece com um de nós. Fala muito dos trouxas e tem amizade com a Granger. Acho que ela é sangue ruim. Meu pai não gostaria de saber que estou tendo aulas com uma sangue ruim.

            - Caso isso seja verdade, Sr. Malfoy...acha que isto esteja influindo na competência da Sra. Lins? O que eu sei é que os alunos de todas as casas, inclusive a nossa, aprovam sua aula.

            - É óbvio, professor. Ela tem que se mostrar uma boa profissional, tem que se superar de algum modo, não? Não vê a Granger? Sempre a sabichona da turma, precisa se sobressair de algum modo, para não demonstrar que é inferior. Mas um dia, tudo isso pode ruir...

            - Já que está tão convicto de sua idéia, que tal deixarmos ela em paz? Ela está fazendo a parte dela que é dar aulas, faça a sua de acompanhá-las.           

            - Desculpe-me, professor, mas não sei por que o senhor a defende tanto.

            - Não estou a defendendo, estou apenas sendo justo. Não há nada que a condene, além de seu pressentimento. Já tivemos muitos professores de sangue puro incompetentes, você sabe muito bem disso. Trate de cuidar da sua vida.

            Draco fingiu estar convencido e foi se deitar. Snape também achava que Victória escondia algo, mas não estava interessado em saber o quê. Achava que não faria diferença. Ficou observando-a pela janela e depois foi dormir.

           

            Dois dias depois, Dumbledore recebeu uma visita inesperada. Lúcio Malfoy o esperava na porta da diretoria.

            - Em que posso ajudá-lo Sr. Malfoy? – disse Dumbledore convidando-o para entrar. Não gostava muito das visitas do pai de Draco.

            - Estou pensando em criar um novo procedimento para a contratação de novos professores aqui em Hogwarts, professor. – respondeu Lúcio enquanto se sentava.

            - Desculpe-me, mas o que o Ministério da Magia tem a ver com a contratação dos nossos professores?

            - Quero garantir a segurança dos alunos. Gostaria que todos os professores antes de serem contratados, tivessem sua vida averiguada pelo Ministério, apenas isso.

            - Oh, Lúcio, não deixa de ser uma má idéia, mas acho um tanto quanto desnecessário. Só contratamos professores de primeira linha, grande parte deles ex-alunos daqui. Somos a melhor escola do mundo, não contratamos qualquer um. Acho que tal procedimento seria até constrangedor para os professores.

            - Pois é, Dumbledore. Mas temo que essa qualidade caia. Sei que nós do Ministério não temos como interferir na área didática, mas pelo menos, podemos garantir o nível dos professores que trabalham aqui.

            - Nunca tivemos problemas com isso, Lúcio.

            - Como não, e o Lupin?

            Dumbledore suspirou, estava começando a perder a paciência: - Lúcio, entenda, por favor, nós selecionamos nossos professores e funcionários a dedo. Lupin não era um mal professor, nunca ocorreu nenhum problema com ele aqui dentro, inclusive foi ele quem pediu demissão.

            Lúcio também estava perdendo sua paciência: - Professor, podemos então apenas fazer um teste? Vai ser tudo sigiloso, o professor não se sentirá constrangido.

            O diretor achou melhor concordar. Continuar discordando poderia lhe trazer outros problemas com Lúcio.

            - Ok, Lúcio. A próxima vez que eu precisar de um novo professor, entrarei em contato com você. Você irá verificar os nomes dos candidatos a vaga, certo?

            - Não posso fazer esse teste agora?

            - Não vejo o porquê, todos os nossos professores estão seguindo seu trabalho normalmente.

            - Isso não significa nada a princípio, professor. Meu filho comentou sobre a nova professora de História da Magia que o senhor contratou...

            - Eu já entendi onde o senhor quer chegar. Não está preocupado com a qualidade de novos professores que possam vir trabalhar em Hogwarts. Quer averiguar a vida de Victória. Qual seu problema com ela? É por ser brasileira?

            Lúcio riu cinicamente: - Ora, é claro que não me importo com a nacionalidade dela, é que eu não entendo esse seus critérios de contratação. Vai pegando o primeiro que vem pela frente. O senhor precisa manter o nível de Hogwarts.

            - Qual o tipo de reclamação que você recebeu dela, Lúcio?

            - Que ela está ocupando o lugar de bruxos mais competentes, por exemplo...

            - Bruxos puro sangue você quer dizer...- interrompeu Dumbledore.

            - Bem, acho que não vou conseguir discutir com o senhor, não é mesmo. – Lúcio perdera totalmente a paciência. – irá defender a tal Sra Lins até o fim. Então eu poderia pelo menos aplicar um questionário para todos os professores? Depois nós veremos o que deve ser feito.

            - Em primeiro lugar, Lúcio, eu irei defendê-la pois é uma profissional muito competente e que está agradando aos alunos. Em segundo, não vejo utilidade nenhuma nesse questionário, seja qual for seu conteúdo. Mas...você pode aplicá-lo desde que eu esteja presente. Se eu não autorizar será pior, não é mesmo? – respondeu Dumbledore pacificamente.

            - Não sou o vilão que o senhor pinta, estou apenas cumprindo o meu papel.

            - Ou apenas averiguando as queixas de seu filho...

            - Não tenho o direito? Sou o pai...tenho obrigação de saber o que se passa na escola onde matriculei meu filho.

            - Com certeza, Lúcio. Não tiro sua razão. Só acho que tais procedimentos são inúteis para avaliar nossos professores. Nunca precisamos de questionários, ou de vasculhar a vida deles.

            - Bem, se o senhor continuar a criticar assim, vou achar que está com medo de que seus professores respondam o questionário.

            - Então aplique dez questionários, Lúcio. Nunca escondemos nada aqui, somos totalmente transparentes. Nosso passado e presente estão a disposição de quem quiser, não devemos nada a ninguém.

            Lúcio entendeu a indireta. Desconcertou-se e disse:

            - Posso aplicar o questionário agora?

            - Á vontade. Chamarei todos os professores, enquanto isso, pedirei para que Filch o leve para a sala dos professores.

            As aulas daquele dia já tinham se finalizado. Portanto, não foi muito difícil reunir todos os professores rapidamente. Todos se espantaram com a chegada de Lúcio acompanhado por Dumbledore. Visitas de membros do Ministério da Magia não eram bem vindas. Normalmente eram um sinal de problemas eminentes.

            - Caros professores, o Sr. Lúcio Malfoy pediu alguns minutos do tempo de vocês para aplicar um pequeno questionário. É uma solicitação do Ministério da Magia. – disse em voz alta Dumbledore, que estava mais interessado em contar a verdade.

            Os professores cochicharam entre si. Todos estranharam tal procedimento. Victória ficou calada, pois não tinha noção do que estava acontecendo. Até o momento ela tinha apenas achado Lúcio muito elegante, e queria perguntar o que ele passava no cabelo.

            - Podemos saber sobre o que é esse questionário? – perguntou McGonagall.

            - Não se preocupe, professora. É apenas um teste para uma futura exigência que o Ministério irá fazer para a contratação de novos professores.

            - Não acho que o Ministério deva intervir nisso, Sr. Malfoy. – continuou Minerva em tom de desconfiança.

            Lúcio suspirou. Não deu ouvidos ao comentário da professora. Olhou em volta da sala, procurando por Victória. Achou-a sentada ao lado de Snape. Foi em sua direção:

            - Oh, por estar do lado de meu amigo Severo, creio que a senhora seja a Professora Lins, acertei? Prazer em conhecê-la, meu nome é Lúcio Malfoy, deve saber quem é o meu filho, não?

            Victória levantou-se e apertou a mão de Lúcio. Retribuiu o sorriso frio. Quase perguntou sobre seu cabelo, mas sabia que isso seria inviável naquele momento.

            - Claro que sei, Sr. Malfoy. É o Draco. Um bom aluno. O prazer é meu. – pensou em falar “um ótimo aluno”, mas achou que soaria falso. Realmente Draco não era um mal aluno, mas não chegava a ser ótimo.

            - Soube que a senhora mal entrou em Hogwarts e já está causando polêmica...- disse Lúcio cinicamente.

            - Ah, é? Não estou sabendo? – Victória retribuiu o cinismo.

            - Fiquei sabendo que a senhora adora falar sobre os trouxas em suas aulas. Fala tanto que está atrapalhando o andamento do curso, que deveria ser de História da Magia. Os alunos chegaram até a pensar que a senhora é uma deles.

            No momento em que Victória iria responder, Snape se levantou e gritou para Lúcio:

            - Não admito que você fale assim com ela, Lúcio.

            Lúcio riu e se aproximou de Snape. Os demais professores continuaram calados. Dumbledore cochichou no ouvido de McGonagall: “Isso estava previsto”.

            - Vai defender ela, Severo? O que houve com você? Estou te estranhando...

            - Porque você mesmo não assiste a uma aula dela e tira suas conclusões?

            - Eu confio no meu filho...

            - Engraçado que ele nunca fez esse tipo de comentário para mim, Lúcio. Não acha que se ele tivesse algum problema, se remeteria a mim também?

            - Creio que não, já que ele andou percebendo suas movimentações pelos corredores depois do expediente...

            - Respeite a professora, Sr. Malfoy. – gritou Eric se entrometendo na discussão.

            - Senhores, por favor. Podemos manter uma conversa de nível? – perguntou Dumbledore calmamente.

            Todos se aquietaram depois da fala do diretor.

            - Desculpe-me senhor Malfoy, mas se quer aplicar esse tal questionário para resolver contendas pessoais com um ou outro professor, acho melhor desistir. – continuou Dumbledore.

            - O senhor não percebe? Essa senhora pode estar enganando os alunos e...- olhou para Severo e para Eric - e até os professores. Não sabemos nada sobre ela. Eu não admito que uma estranha auxilie na educação de meu filho e de seus colegas.

            - Se o senhor tem algum problema com ela, deveria primeiro conversar conosco, e não fazer essa reunião ridícula. – disse McGonagall.

            - Então quer dizer que vocês vão defendê-la? Não tem noção do que está acontecendo? – disse Lúcio olhando para todos os professores.

            - Esse é o problema, não tenho noção do que está acontecendo. Achei que isso era uma reunião mais importante, se me dão licença...- respondeu Sprout saindo da sala.

            - Tal pai, tal filho...- resmungou Hagrid enquanto também saía da sala. Lúcio não ouviu.

            Os professores foram se retirando aos poucos. Lúcio ficou calado observando quem saía. Snape puxou Victória pelo braço para saírem. Lúcio os deteve.

            - Vocês dois ficam.

            - Porque Lúcio? Vai pedir desculpas para Victória? – perguntou Severo.

            - Só quero esclarecer algumas coisas...

            Snape pegou Lúcio pelo colarinho: – Sempre fui seu amigo, Lúcio. Mas não me faça perder a cabeça com os seus caprichos. A próxima vez que comentar sobre o que faço ou deixo de fazer depois das aulas, posso também arranjar coisinhas para comentar sobre você. E diga para seu filho cuidar da sua insônia, ele não tem nada a ver com a minha vida.

            - É, a professora Victória Lins está alterando os humores em Hogwarts... Não sabia que ela era tão poderosa.

            Victória perdeu a paciência e gritou:

            - Vá para o inferno. – e saiu chorando batendo a porta.

            Snape jogou Lúcio na cadeira mais próxima e saiu correndo atrás de Victória. No caminho encontrou Draco que olhava para a cena com espanto. Ao vê-lo Snape falou sem parar de andar:

            - Se você não fosse da minha casa, tiraria uns 100 pontos por se meter onde não é chamado. Não se aproveite mais disso entendeu? E vá ver seu pai, ele está na sala dos professores...

            Draco estava sem entender nada. Olhou para o professor e seguiu em direção da sala dos professores. Achava que seu pai havia sido chamado para conversar sobre ele.

            Victória correu e se trancou no seu quarto. Snape bateu e ela não atendeu. Ele desistiu. No dia seguinte, a primeira coisa que fez foi conversar com Dumbledore. Ela chorava e dizia querer ir embora.

            - Foi tudo muito constrangedor, professor. Eu não vim aqui para isso, desculpe-me. Foi muita humilhação. Tem certeza que esse meu disfarce está dando certo? Não acha melhor que eu vá embora?

            - Ora, Victória, não passou pela sua cabeça que se você for embora vai confirmar as suspeitas? Você deve continuar a ministrar suas aulas normalmente...

            - Professor, não sei se o senhor entende, mas saber que estamos sendo vigiada, que tem gente querendo me tirar daqui, independente de ter razão ou não, desmotiva muito.

            - Eu entendo. Mas pense, não há nada que te deixe feliz aqui?

            Victória baixou a cabeça.

            - Professor, quanto ao que o Sr. Malfoy comentou ontem...

            - Não, não querida, não precisa me dar satisfação nenhuma. Não quero saber de nada. – interrompeu o diretor carinhosamente – inclusive não foi nem o Draco que contou ao pai sobre Severo. Ele disse isso só porque sabe que Draco nunca seria prejudicado. Talvez para mostrar do que ele seria capaz de fazer, não entendi ao certo. É do interesse de Severo manter Draco sem nenhuma penalidade. Afinal, são da mesma casa.

            - Quem foi então?

            - Ah...Victória, boa pergunta, mas acho que não vai adiantar em nada saber.

            - De qualquer forma, professor, eu queria esclarecer para o senhor que somos apenas amigos. Eu não daria mal exemplo. Aqui dentro sou uma professora acima de tudo.

            - Ok, Victória. Não precisa dar satisfações sobre sua vida pessoal. Continue com seu trabalho, os alunos estão adorando, isso é o que importa.

            Nesse instante uma coruja entrou na sala e jogou uma carta na mesa do diretor. Ele abriu, leu e disse:

            - Veja só, Victória. É uma carta do Cornélio Fudge, sobre o acontecimento de ontem.

            Victória estremeceu.

            - Ele pede desculpas pelo ocorrido com Malfoy. Está dizendo que ele está em seu direito de questionar sobre a idoneidade dos professores, mas não deveria envolver o Ministério nisso. Há uma semana atrás, Cornélio havia recebido essa proposta de averiguar a vida dos professores, mas não tinha dado resposta ainda. Malfoy se precipitou. Talvez porque sabia que mesmo que o Ministério aprovasse, tal procedimento só seria realizado a partir do ano que vem.

            - Qual o interesse do Sr. Malfoy em tudo isso?

            - Ah, boa pergunta Victória. Ele é um tipo de pessoa muito difícil de se lidar e se entender. Melhor esquecer isso Victória, não se preocupe com ele. Cão que ladra não morde. Para dizer a verdade, esse tipo de reação estava previsto. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde alguém ia questionar a sua presença aqui. Mas está tudo sobre controle.

            - Bem, professor, nada me resta a não ser confiar no senhor. Se me dá licença, vou dar aula.

            - Isso, Victória. Finja que nada aconteceu. Os alunos não ficaram sabendo de nada. Nem mesmo Draco. E continue tratando-o do mesmo jeito que sempre tratou. Desta forma, manterá Lúcio calado. Ele está esperando seu primeiro deslize para jogar contra você.

            - Obrigada pelos conselhos professor, bom dia.

            Victória desceu para sua aula muito pensativa. O que mais a afligia era o maldito comentário que Lúcio fizera sobre as visitas de Snape. Talvez fosse difícil de acreditar, mas nada havia acontecido até então. Mesmo depois dele ter contado sobre o broche, não ocorreu nenhuma mudança no relacionamento entre os dois.

            Era de comum acordo. Um acordo sem palavras, apenas algumas trocas de olhares que significavam: “é melhor continuarmos do jeito que está.” Victória tinha vários motivos para continuar agindo dessa forma: seu noivo, e sua condição temporária na escola eram as principais. As de Severo ela não sabia e nem queria saber. Tudo estava muito bem. Ela estava satisfeita – por enquanto – em manter essa amizade.

            O inverno passou e Victória pode então conhecer a primavera européia. Muito fria em comparação a brasileira. Mas como ela sempre odiou o calor, estava se deliciando com aquele frio bem mais ameno que do inverno. Dia sim dia não, eram colocadas flores frescas na cabeceira de sua cama. Ela sabia quem era, mas limitou-se a agradecer com um sorriso.

            Depois do feriado da Páscoa, Victória recebeu uma carta de seu noivo. Era a terceira em menos de quinze dias. Ela continuava respondendo normalmente, com as mesmas palavras de carinho, por mais que elas não fossem sinceras. Ela estava certa de que quando voltasse ao Brasil, sua vida voltaria ao normal, portanto, esqueceria tudo o que ocorrera em Hogwarts.

            Mas essa carta era diferente. Seu mundo virou de ponta cabeça. Sua vontade inicial após ler a carta era de sumir para uma ilha, e esquecer todas as pessoas que perturbavam sua vida. Concluiu que precisaria se isolar, só assim conseguiria discernir os fatos e as pessoas. Não poderia fazer isso. Era professora e tinha um compromisso até o início do verão. Lembrou-se do que Snape havia falado no começo do ano letivo: “Seja fria, totalmente profissional”.

            Seu noivo, simplesmente pedia para que Victória começasse a providenciar as coisas para o casamento. Perguntou o que ela poderia adiantar estando trabalhando em Londres. Sua mãe e sua irmã estavam dispostas a ajudá-la. Pediu para que ligasse sem falta no próximo final de semana para sua casa. Precisava acertar algumas coisas e...acima de tudo, estava com saudades de sua voz.

            Victória não tinha escolha. Precisava ir até Londres para fazer a dita ligação. Na Sexta-feira à noite, começou a arrumar uma pequena bolsa com roupas de trouxa para ir rapidamente para Londres. Após o jantar, recebeu uma coruja dizendo que o próximo trem para Londres só sairia no dia seguinte de manhã. Bufou e jogou o papel no chão. Queria resolver isso o mais rápido possível. Esperar mais uma noite seria um tormento.

            Snape bateu em sua porta e entrou. Viu sua bolsa de viagem e o papel no chão:

            - O que é isso? Porque essa bolsa?

            - Preciso resolver algumas coisas em Londres. Vou para lá amanhã de manhã.

            - Mas volta quando?

            - Amanhã à noite mesmo, isso se tiver um trem é claro.

            - Irá sozinha?

            - Claro, vou resolver algumas coisas do Brasil. Preciso até falar com uns trouxas. Nós brasileiros temos um relacionamento muito mais próximo com eles.

            - Posso ir com você?

            Victória teve um sobressalto. – Não, não se incomode. É muito rápido, não vou passear, volto no mesmo dia, vou dar uns telefonemas e só.

            - Você mal conhece a cidade, posso ajudá-la. E será a primeira vez que estaremos longe da escola.

            O coração de Victória disparou. Coçou a cabeça e olhou ao seu redor. Entendera onde Severo queria chegar. Tinha medo de insistir em ir sozinha, talvez demonstraria que estava escondendo algo. O professor continuou:

            - Ou você vai ficar o dia inteiro trancada na cabine telefônica? Nem vai almoçar?

            Victória não teve escolha. Aceitou a companhia. Ao mesmo tempo que estava adorando, tinha receio do que poderia acontecer. E começou a planejar como iria ligar para o seu noivo, com Snape do lado.

            Apesar de toda a preocupação, conseguiu dormir bem. Assim que despertou teve uma infeliz boa surpresa. Severo batera em sua porta. Ele estava abatido e disse que durante a madrugada, começou a sofrer uma forte dor de cabeça. Portanto, não iria acompanhá-la. Desculpou-se dezenas de vezes, fazendo com que Victória quase perdesse a paciência. Mas no fundo, ela tinha gostado, apesar de preferir que seu amigo não estivesse sofrendo.

            Ao chegar em Londres, a primeira coisa que fez foi ligar para sua mãe.

            - Filha, não entendendo porque liga tanto, e envia tantas cartas. Elas acabam saindo mais caras que o interurbano.

- Ah...mãe é que eu me acostumei a escrever cartas. Eu trabalho em um lugar afastado de Londres, a ligação é péssima.

            - Como está a expectativa para o casamento, faltam poucos meses...

            Victória ficou muda.

            - Victória, você está aí?

            - Sim, mãe.

            - Nem parece que vai se casar no final do ano, se esqueceu?

            - Não mãe, não é isso. É muito trabalho...

            - Só trabalho?

            - Claro mãe. 

            - Estou entendendo minha filha. Andou experimentando as iguarias britânicas...

            Victória riu: - Que isso mãe, não fale assim.

            - Estou mentindo? Acha que vou contar para o Eduardo? Seja sincera, sua voz enganaria qualquer um menos a mim. Porque estava toda empolgada e quando falei do casamento desanimou?

            - Ah...mãe eu não sei. Damos aula em um internato, não podemos nos aproximar aqui. Não posso correr riscos, ainda mais sendo estrangeira.

            - “Damos aula em um internato.” Pelo menos é um professor e não um aluno. Como fica minha filha? O Eduardo está preparando tudo sozinho, quando você voltar vai faltar escolher o vestido. O enxoval você já comprou. Ele quer que você escolha os móveis da casa.

            - Não sei para quê tanta pressa...

            - Pressa? Vocês estão juntos há cinco anos. Victória eu não quero crer que você vai deixar o Eduardo por causa de uma paixãozinha. Ora, entendo que você esteja conhecendo muita gente nova e diferente, e o nosso coração não tem trava. Mas dá para ser um pouco racional? A gente não usa a cabeça só para dar aula e escrever livros.

            - A senhora é a milionésima pessoa que pede para que eu seja racional. Olha mãe, eu só lhe adianto que é impossível eu ficar com essa “iguaria britânica” como a senhora se referiu. Temos muitas diferenças...

            - Ele é casado?

            - Não.

            - Gosta de jiló?

            - Ah...acho que não.

            - Gosta de futebol?

            - Mãe?

            - É mais bonito que o Eduardo?

            - É mais inteligente...e...

            - Dá aula de quê?

            - Po...Química.

            - Poquímica? É como chamam a Química aí na Inglaterra?

            - Não, mãe. É que a senhora sabe que eu nunca gostei de Química. Então eu me lamentei que ele dá aula de algo que eu não gosto, entendeu?: “Pô, Química”.

            - Ah...perfeitamente.

            - Mãe, eu vou desligar. Preciso corrigir umas provas.

            - Como ele se chama, quantos anos tem? Fala...

            - Depois, mãe. Manda um beijo para todo mundo e não conte isso para ninguém. Beijo.

            Victória desligou o telefone bufando. Ligou para o noivo, mas ninguém atendeu. Ela deixou recado na secretária dizendo morrer de saudades.

            Ao fim da tarde, após alguns passeios e compras no Beco Diagonal. Voltou para a estação de trem. Ao comprar o bilhete, teve uma surpresa: Severo apareceu ao seu lado. Victória deu um gritinho e jogou sua bolsa no chão.

            - Sou tão assustador assim? – perguntou o professor enquanto pegava sua bolsa.

            - Aparecendo ao meu lado, em um local quilômetros de distância de onde deveria estar, sim. Pareceu-me um fantasma. E a sua dor de cabeça?

            - Nada que a distância daquelas doces criaturas não resolvesse. Passei a noite com as vozes dos alunos retumbando no meu cérebro.

            - Não tem nenhuma poção que resolva isso?

            - Claro, como acha que cheguei até aqui?

            - Não precisava ter vindo.

            - E ia deixar você pegar o trem sozinha? Em um Sábado à noite com uma bolsa cheia de compras?

            - Ah....que lindo. – respondeu com ironia – obrigado Senhor Protetor.

            - Ora, não se comporte desta forma. Seu trem só vai passar daqui há uma hora e meia. Com quem iria conversar e passar o tempo se eu não estivesse aqui?

            - Ia ler um livro...ou escrever alguma coisa sobre meu próximo livro.

            O professor deu seu braço para que Victória segurasse. Ela o olhou com expressão de desconfiança, mas encaixou seu braço. Os dois passaram a andar pela estação de braço dado.

            - Estava pensando em uma coisa...- continuou Victória – a história daquele tal Potter daria um bom livro...

            - Ah...pelo amor de Deus, será que aqui eu posso esquecer que aquele moleque existe?

            - Estou falando sério, Severo. McGonagall andou me contando as desventuras dele. Eu também não gosto dele, acho ele superprotegido e medíocre. Mas aquele monte de histórias daria não só um livro, mas vários.

            - Os trouxas iriam adorar essas aventurazinhas. Você ficaria rica se escrevesse para eles. Mas se algum trouxa sabe da existência do Potter já deve ter escrito.

            - Você não gosta da idéia de ser um personagem de livro?

            - Que ridículo. Ainda mais se o autor bajular o Potter, vai me tratar como o vilão da história.

            Conversaram sobre os mais diversos assuntos até a chegada do trem. Victória, que andara o dia inteiro, não agüentou o cansaço e dormiu no ombro de Snape durante toda a

viagem.

            A cada dia que se passava, Victória sabia que era um dia a mais que ela perdia para tomar sua decisão: casar ou não com seu noivo. Até o final de agosto, seu feitiço iria chegar ao fim. Dumbledore já havia alertado que prolongá-lo seria muito arriscado para sua saúde. Portanto, não havia possibilidade de continuar em Hogwarts.

A princípio, Victória achava que quando voltasse ao Brasil, sua vida voltaria ao normal, e, ela esqueceria tudo o que acontecera na escola. Atualmente ela não tinha tanta certeza disso. Ela só conseguia ter lembranças agradáveis de Hogwarts. Os Malfoy não tinham mais argumentos para atacá-la. Apesar de ter tido conhecimento de duas visitas que Lúcio fizera ao diretor e de alguns cochichos de Draco durante as aulas. Ela não tinha como provar se tais fatos estavam ligados a ela.

Próximo à época das provas finais, um acontecimento fez com que os cochichos de Draco terminassem de vez.

Durante um Sábado de manhã, Victória estava no salão ajudando três alunos da Hufflepuff a estudar. De repente, a bibliotecária, Madame Pince chegou esbaforida sendo acompanhada por Draco.

- Professora Lins, por favor...

Victória se espantou com a cara dela e se levantou.

- O Sr. Malfoy pegou um livro que não deveria, e a senhora o autorizou.

Ela queriater certeza que isso era uma jogada de Draco, então para ganhar tempo prolongou a conversa:

- Ele pegou algum livro que precisava da minha autorização? Agora em tempos de prova, eu estou assinando várias, não vou me lembrar especificamente da dele.

- Sra. Lins a senhora não sabe que temos alguns livros que mesmo com autorização não podem ser emprestados devido seu péssimo estado? A senhora assinou essa autorização. E eu passei essa lista de livros para todos os professores, a senhora deveria ter consultado-a antes de assinar.

Draco sorriu triunfamente para Victória. Ele tinha certeza de que ela iria desmentir, afinal ele nunca havia pedido para ela assinar alguma autorização.

- Agora estou me lembrando sim. Mas essa lista não chegou as minhas mãos. Eu não estava sabendo disso. Assinei a autorização normalmente.

Draco fechou o sorriso.

- A senhora não recebeu? – Madame Pince ficou sem graça.

- Não. Para dizer a verdade eu não sabia da existência dessa lista. Nunca tive problemas desse tipo.

- Ah...Professora Lins, peço desculpas. Entregarei uma para a senhora hoje mesmo e irei verificar se os demais professores receberam.

- Por favor. Veja então, se o Sr. Malfoy pode consultar esse livro pelo menos dentro da biblioteca para que seus estudos não sejam prejudicados.

- Sim, senhora, verei o que posso fazer. Desculpe-me. Com licença.

Victória pediu licença para os demais alunos e puxou Draco para um canto:

- Porque falsificou minha assinatura para pegar um livro que não deveria?

- Ah...achei que a senhora não iria assinar mesmo...

- E achou que eu iria desmentir e a Madame Pince não iria acreditar em mim, certo? Afinal, como eu iria provar que eu não fiz aquela assinatura? Se eu conseguisse provar que  você falsificou aquela autorização, daria uma bela suspensão, sabia?

Draco bufou: - Sabia.

- Essa é a primeira e última vez que eu livro sua barra, garoto.

- Puxa, professora é a primeira vez que alguém livra a minha barra, todos estão preocupados em livrar a barra de gente como o Potter.

- Não sei porque estou fazendo isso. Não deveria. Mas se você ficar quieto e não me perturbar eu também não tento provar que aquela assinatura é falsa.

- Certo, negócio fechado.

As aulas estavam chegando ao fim. Aquela era a última semana de provas. Victória iria passar noites em claro corrigindo-as para entregar tudo em tempo. Seu coração estava angustiado, não aceitava a idéia de ir embora e, provavelmente, nunca mais voltar.

Ao finalizar a última prova, Victória permaneceu na sala de aula depois que os alunos saíram. Arrumou a mesa, colocando as provas em uma pasta. Deixou esta em cima de sua cadeira e se sentou na mesa, de frente para as carteiras dos alunos. Apoiou as mãos na mesa e ficou balançando os pés pensativa. McGonagall passou pela porta e chamou-a para almoçar. Victória disse que iria daqui a pouco.

Snape passou pela porta e ia fazer o mesmo. Mas percebeu que os olhos de Victória estavam cheios de lágrimas. Ele entrou.

 - Foi sua última aula, não foi?

- Foi. – respondeu abaixando a cabeça.

- É certeza que você não vai continuar aqui no ano que vem?

- Absoluta. Meu contrato era somente para este ano. Dumbledore já tem outro professor, e, eu tenho meus compromissos no Brasil.

- Mas...

Victória levantou a cabeça, chorava muito: - Droga, eu queria ficar, mas é impossível. Não é só pelo contrato, tenho uma vida no Brasil, preciso voltar para lá.

- Você havia dito que não tinha família...

- Tenho meus pais, tenho um livro para publicar...essas coisas...preciso tomar decisões. Dependendo...

- Dependendo?

Victória ficou em silêncio e começou a cantar em português:

“Por você conseguira até ficar alegre

pintaria todo céu de vermelho...

- Ora, eu já disse que não gosto quando você começa a cantar em português, não entendo nada.

Victória riu tristemente e continuou:

Eu aceitaria a vida como ela é...

- Ok, Severo eu paro.

- Não mude de assunto. Dependendo...

- Dependendo das decisões que eu tomar, posso até voltar para cá pelo menos para dar um oi.

- Posso então passar as férias no Brasil?

Victória gelou. Teve a sensação de que seu coração tinha parado de bater.

- Po...poder pode. Os brasileiros são muito acolhedores. Pode ir a hora que você quiser.

- Mas eu iria pedir para você ser meu guia.

Ela colocou as mãos na boca e começou a chorar mais ainda. Iria contar a verdade. Mas nesse instante, Eric passou correndo pelo corredor escondendo o rosto. Victória e Severo foram até a porta da sala. Filch estava um pouco atrás de Eric e Snape perguntou o que havia acontecido:

- Sua esposa acaba de falecer.

Victória correu até Eric. Ele foi até a sua sala sem dar atenção a professora. Chegando lá, ele deixou que ela entrasse e fechou a porta.

- Sinto muito, Eric.

- Ela estava meio adoentada, mas achei que não era nada grave. Preciso voltar para a Irlanda. Vou pedir demissão. – disse Eric chorando enquanto arrumava as provas que estavam espalhadas em sua mesa.

- O quê? – gritou Victória.

- Tenho três filhos adolescentes. Minha esposa tinha negócios lá. Não posso deixar meus filhos sozinhos. Vou corrigir algumas provas hoje, o que não der, vou pedir para outro professor acabar. Parto hoje à noite.

Victória se sentou e lembrou do que pensara quando foi apresentada para Eric no começo do ano: “Entramos e sairemos juntos no final do ano, não é mesmo?”. Ele percebeu que ela havia chorado e se prostrou diante dela:

- Amiga, olha, independente de quem você ame, aproveite cada segundo com essa pessoa. Eu dei aula em vários lugares longe de casa, ultimamente passei poucos momentos com minha esposa. Agora arrependo-me amargamente por isso. Se você ama seu noivo de verdade, volte para o Brasil agora, não há bom emprego que pague um amor distante. Se não....bem...fique por aqui mesmo.

Os dois se abraçaram. Bateram na porta. Ao abrir, Eric se deparou com todos os professores e com o diretor, para lhe darem os pêsames e oferecer ajuda.

A despedida de Eric foi muito triste, sobretudo para Victória. Ela chorou muito, mas não sabia se era somente por causa dele. Passou a noite em claro, juntamente com Snape, corrigindo as provas que Eric não tivera tempo – nem cabeça – para corrigir.

Dois dias depois os professores entregaram as notas. Victória acabara de entregar suas notas ao diretor quando alguém bateu levemente na porta de sua sala. Pela batida, ela sabia que era um aluno.

- Com licença, professora? – era Hermione que adentrava sua sala.

- Claro, Hermione, sente-se. – respondeu Victória sorridente. Ela era sua aluna predileta.

            - Professora, não me leve a mal, mas é que eu fiquei sabendo que a senhora não vai estar aqui no ano que vem, então queria lhe pedir uma coisa.

- Pode falar...

Hermione tirou um livro debaixo de sua capa: - Pode autografar para mim? Não vou mostrar a ninguém, juro.

Victória quase desmaiou. Era um de seus livros que publicara no Brasil. Não tinha como negar que o livro era seu, havia uma foto sua e uma biografia no final do livro.

Hermione percebeu o espanto da professora e, arrependeu-se de ter mostrado o livro. Mas era tarde demais, então ela tentou acalmar Victória:

- Olha, professora, meus pais que enviaram esse livro, quando eu comentei sobre a senhora. Eles acharam muita coincidência e me mandaram para conferir. Seu livro foi publicado em Portugal esse ano, por isso eles tiveram acesso.

- Eu não estava sabendo...- Victória continuava estarrecida.

- Eu não entendo nada de português ainda. Mas assim que começar a estudar essa língua, começarei a treinar pelo seu livro.

- Hum...

- Eu sei que a senhora deve estar assustada. Eu não vou contar para ninguém, já disse. Meus pais são trouxas, acha que eu tenho algo contra?

- Não, claro que não. Olha...- Victória estava totalmente desconcertada – fico contente em se interessar em aprender minha língua e ler meu livro – pegou a pena para autografar, estava tremendo – espero que você cumpra sua palavra, não é do interesse de ninguém saber quem eu sou.

- Entendo professora, muito obrigada. É claro que não contarei a ninguém.

Victória sorriu e abraçou Hermione: - Boa sorte menina, você tem um brilhante futuro...

- A senhora também...

- Quem sabe...

 

 

O ano terminou. Os alunos já tinham ido embora. Mas, como acontece em todas as escolas, os professores são os primeiros a chegar e os últimos a sair. Todos estavam arrumando suas salas, jogando fora papéis e mais papéis. Aos poucos eles foram indo embora também.

Victória se lembrou dos seus primeiros dias em Hogwarts. A escola vazia, os professores chegando aos poucos. Muita coisa aconteceu durante esse ano. Sua vida nunca mais seria a mesma. Ela resistia em ir embora antes que Snape fosse. A cada momento, inventava uma nova desculpa para prolongar sua estadia na escola: precisava deixar tudo em ordem para o novo professor, esquecera de devolver uns livros para a biblioteca, etc.

Dois dias depois do encerramento das aulas, porém, ela não tinha mais desculpas. Arrumou suas malas e decidiu partir. Seu coração estava apertado, queria voltar ao tempo e reviver cada segundo, até mesmo os problemas que tivera com os Malfoy. Nesse dia, Victória passeou por toda a escola, parava em cada lugar para se lembrar de acontecimentos marcantes: as partidas de quadribol, as brincadeiras com Canino, os conselhos de Dumbledore, a gargalhada de Eric, o olhar de Hermione, as conversas com McGonagall, mas principalmente Snape.

Victória avisou a todos que partiria depois do almoço. Hagrid – farto do entra e sai de professores em Hogwarts – levou suas malas até o lado de fora da escola, resmungando a falta que Victória iria fazer. Ela ouviu e sorriu tristemente. Também iria sentir falta dele.

Dumbledore e os demais professores vieram logo atrás. Um por um foram se despedindo dela. Victória controlou seu choro até se despedir de McGonagall.

- Severo pediu para que eu avisasse que está indisposto, não pode se despedir de você. – disse Dumbledore, que sabia que Snape não queria se despedir.

Ao ouvir isso, Victória voltou correndo para o castelo e chorando muito entrou no quarto do professor. Ele estava pensativo, olhando para a janela.

- Porque não foi se despedir de mim, Severo?

- Queria ver se você viria aqui.

- Para que isso?

- Não estou entendo nada.

- O que, meu Deus?

- Porque sempre esteve ao meu lado, mas sempre me evitou?

- Droga, de novo isso?

- Eu estava certo quando achava que você guardava um segredo?

- Sim.

- Agora que você vai embora, posso saber qual? Talvez faça eu dormir mais tranqüilo e entender as coisas...

- Não posso contar, tem pessoas envolvidas.

- Algum crime?

- Claro que não. Se você souber nunca mais vai querer olhar para minha cara. – Nesse instante, Victória imaginou que contar a verdade, seria um modo se livrar de Severo, afinal, ele ficaria com raiva dela.

- Quem está envolvido?

- Uma pessoa daqui que você não gostaria de lhe fazer mal.

- Ora, Victória, vamos poupar nosso tempo então...

- Espero que você me odeie depois disso então, da mesma forma que espero que você guarde segredo...

Snape suspirou.

- O professor Dumbledore pediu segredo absoluto. Ele aplicou um feitiço em mim. Eu...sou trouxa...conheci uma bruxa de verdade quando McGonagall foi até São Paulo me convidar para dar aula em Hogwarts. Eu sempre estudei bruxaria, por isso possuo tantos conhecimentos. Esse feitiço vai se desfazer em alguns dias, portanto não posso continuar aqui. Satisfeito agora?

Severo se jogou na cadeira. Fixou seus olhos em Victória boquiaberto. Não disse nada. Ainda chorando, Victória ficou esperando uma resposta.

- Isso...explica...tudo...- murmurou Snape.

“Quase tudo” pensou Victória, lembrando-se do seu noivo.

- Não me importo. – disse o professor depois de um longo silêncio.

- Você não vai me chamar de impostora? Sangue ruim? Não vai dizer que eu enganei todos durante todo o ano?

- Não, Dumbledore sabe o que faz. Ele fez isso porque era necessário.

Victória então suspirou, secou suas lágrimas e antes de poder pensar duas vezes disse:

- Já que é assim, se me dá licença...

E deu um longo beijo no professor. Após uns dez minutos ela saiu correndo dizendo sem olhar para trás:

- Adeus, você é a melhor lembrança que levarei da escola.

Ele saiu correndo atrás e gritou:

- Vou te escrever, nós vamos nos ver de novo...

- Não te dei meu endereço. – respondeu Victória sem olhar para trás.

- Eu te encontro.

- Talvez mudarei no final deste ano.

- Não importa, eu tenho como localizá-la onde for.

 

E assim foram seus últimos instantes em Hogwarts. Snape acabou fazendo companhia para ela até o aeroporto. Não deixara de usar o broxe, mesmo usando roupas que ela apelidou de “civis”. Não sabia o que iria fazer quando chegasse ao Brasil. Talvez a distância de Hogwarts e aproximação do noivo, fizesse com que ela tomasse um novo rumo na vida. Estava quase dormindo após o jantar no avião quando se espantou com o nome do livro que um garoto estava lendo do outro lado do corredor: Harry Potter e a pedra filosofal.

 

F I M

 

 

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