Destino:
Solidão
by Ana Claudia dos Santos
Capítulo 9 - A Carta
Sisudus não queria acreditar.
- Nossa, já tirou cinco pontos da Sonserina logo de cara?
Malfoy contava a todos, durante o jantar, o que ocorreu na sala de aula algumas horas antes. Crabbe e seu amigo igualmente corpulento, ambos do segundo ano, resmungavam algo sobre a Stratas pegar no pé deles também. A ponta direita da mesa da Sonserina só conversava sobre isso.
- E só tirou um ponto da Grifinória - resmungou Melissa, que se tornara, em quatro dias, unha e carne com Narcisa, que estava indiferente a seu lado, separando as ervilhas no canto do prato.
- Não entendo - disse Avery. - Ela costuma tirar mais da Grifinória, que está sempre empatada com a Corvinal, que da Sonserina, ou pelo menos o mesmo número de pontos.
Severus acrescentou:
- Ela parecia ter ódio de mim, antes mesmo de me conhecer.
- Mas por que teria ela ódio de você? - perguntou Sisudus.
- Não sei... Ela me perguntou se eu era filho de Helena Burnell, e eu respondi que sim. Mas não entendo o que isso pode ter a ver. E não sei como ela sabe o nome de solteira da mamãe.
- Talvez tenham estudado juntas - disse Steve Carter, um menino ruivo que parecia bastante inteligente, pelo que Severus tinha notado no pouco tempo em que conviveu com ele.
Sisudus fez uma cara engraçada. - Ela perguntou isso foi? Se você era filho de Helena Burnell?
- Foi - respondeu Severus intrigado com o tom curioso do irmão. A essa altura ele já tinha perdido a fome e estava com dor-de-cabeça. Só queria ter um pouco de paz. No dia seguinte teria aula de Defesa Contra as Artes das Trevas, uma matéria que lhe interessava muito, e queria estar de cabeça fresca.
- Humm... Severus - falou Sisudus, depois de ficar algum tempo pensativo. - Se encontre comigo na biblioteca daqui a meia hora que eu quero conversar com você.
Severus
estranhou a atitude do irmão, que nunca lhe dava muita atenção, mas
concordou.
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A biblioteca não era como Severus esperava que fosse. Era muito, mas muito
melhor. Seus olhos brilharam ao ver tantos livros juntos. É claro que foi atraído
pela parte proibida da sala, a seção reservada, e mais tarde ele veio a saber
que era necessário uma autorização de professor para ler os livros. Não lhe
agradou o modo como Madame Pince, a bibliotecária, o olhara, talvez adivinhando
seus pensamentos e suas predileções. Sisudus estava sentado no último lugar
da fileira de bancos. Ele sentou-se em frente ao irmão, se sentindo pouco
curioso quanto ao que ele iria lhe dizer.
- Bom... eu o chamei aqui para esclarecer certas coisas... coisas sobre a nossa família.
"Ai, não" pensou Severus, "não aquele papo de Grindelwald de novo".
- Sobre a nossa família? - perguntou.
- É... Ah, eu não sei nem como começar... Bem, você sabia que o papai colocou feitiços na nossa casa e nos arredores, para que não pudéssemos comentar qualquer coisa sobre Helena?
Severus estranhou o ar casual de Sisudus ao dizer "Helena".
- Feitiços? Não, não sabia. E por que ele fez isso?
- Talvez para não ouvir algo que o desagradasse... A verdade é que nunca pudemos conversar direito com você a esse respeito.
"Nem sobre qualquer outro assunto" pensou Severus, ressentido.
- Eu na verdade nem me lembro dela direito - assegurou.
- Mas eu me lembro, tinha quase dez anos quando ela foi embora.
Severus abaixou a cabeça. Esse era definitivamente um assunto sobre o qual ele se alegraria de nunca mais comentar.
- Mas o que eu quero te dizer... - continuou Sisudus, com um ar meio sem-graça. - Er... É que eu me lembro do dia que ela chegou também.
Durante algum tempo, Severus pensou que tinha ouvido errado. Depois, raciocinando lentamente, começou a entender.
- Quando ela chegou?
- Você é só nosso meio-irmão, Severus. Eu e Rigorosus somos filhos da primeira mulher do papai, Lidmaina, que morreu pouco depois que eu nasci...
A cabeça de Severus dava voltas. Tanta coisa sobre seu passado, sua família, sua mãe, tanta coisa que ele não sabia.
- Por que ela foi embora? - perguntou Severus, impulsivamente.
- Eu não sei... Ela me parecia bastante feliz.
- E Valentina? Como ela era?
Sisudus sorriu. - Sua mãe e nossa irmã são muito parecidas, ambas têm cabelos encaracolados e olhos negros.
- E ela... ela era legal com você e Rigorosus? - toda vez que Severus dizia "ela" o coração dele apertava um pouquinho.
- Era normal. Como se fosse mãe, mas ao mesmo tempo não sendo.
- Por que eu não me lembro dela? Eu já tinha quase seis anos quando ela foi embora.
- Isso eu não sei - disse Sisudus de maneira abrupta, ao ver Mathew Avery sentar-se em outro banco, do outro lado da sala.
- E...
- Basta Severus, não adianta você ficar me fazendo mil perguntas, tenho mais o que fazer - falou Sisudus rispidamente, indo se encontrar com Avery, deixando Severus com a sensação de ter sido ludibriado.
Passou por Madame Pince como um zumbi. Mesmo que ela tivesse lhe oferecido todos os livros da Seção Reservada, ele não iria olhar para trás. Sua cabeça estava pesada, sentia ódio e tristeza, e uma força crescendo dentro de si. Quase tropeçou em Augustine, a gata fedorenta de Adelmus, o velho zelador. Ao chegar na sala comunal nem reparou que Crabbe e Goyle pareciam querer intimidar Steve Carter, que ganhara deles num jogo de cartas bruxo. Foi direto para o dormitório e imediatamente desfez o feitiço do ursinho, sem se importar se alguém ia vê-lo ou não, e, tremendo muito, retirou a carta com cuidado, murmurando algumas palavras.
Lá estava ela, intacta, em suas mãos. Severus se apressou a abri-la, mas não conseguiu rasgar o envelope. Franziu a testa. Isso não estava lhe cheirando bem. Pelo conhecimento de magia que possuia ele podia dizer que uma carta que não abre está sobre forte encantamento. Para que tanto cuidado com uma carta?
Com os dedos já vermelhos de tentar rasgar a carta, pensou no que poderia fazer o envelope se abrir. Tentou com uma tesoura, mas não adiantou. Era como tentar cortar aço. Nervoso, pegou sua varinha.
- Alorromora... - disse, hesitante.
Nada.
"Claro", pensou, "onde foi que eu li...". Foi correndo bisbilhotar seus livros proibidos até achar o que procurava. Ouviu vozes. Era Lucius Malfoy e David Weil. Severus fechou as cortinas de sua cama, tentando não fazer barulho.
- Lumus - pronunciou num sussurro, e a ponta de sua varinha acendeu. Severus conseguiu ler o que queria:
"Feitiço Anti-Bisbilhoteiros: é fácil quebrar um, basta molhar o envelope com água da chuva de um domingo de sol e pronunciar três vezes, com a varinha apontada para a carta, o primeiro e o último nome do remetente. Se o remetente tiver um nome do meio, é também necessário pronunciá-lo, caso contrário o contra-feitiço não funcionará".
Severus quase deu um grito de raiva. "Muito fácil mesmo!!!!". Onde diabos ele iria arrumar água de chuva de um domingo de sol nessa região nublada da Inglaterra? E qual seria o nome do meio de sua mãe? Tentando se acalmar e controlar sua frustação, ele escondeu novamente a carta dentro do ursinho, mas dessa vez se limitou a esconder Eddie embaixo do colchão, pois teve medo de Malfoy ouvir sua voz.
Ele não pensou que fosse conseguir dormir naquela noite, mas surpreendentemente adormeceu logo, sonhando com uma menina de cabelos encaracolados e olhos negros que se balançava em uma árvore. Caira algo do bolso da menina, e ele correu para ver o que era, assustando a garota, que fugiu em direção oposta. Era uma carta, num envelope verde escrito com letras prateadas bem grandes: Elizabeth.