Destino: Solidão
by Ana Claudia dos Santos

Capítulo 8 - A Mestra das Poções

 

 

Após subirem e descerem várias escadas, finalmente os novos alunos da Sonserina, comandados por Mathew Avery, chegaram a uma parede de pedra lisa e úmida.

- Língua de Gato! - falou Avery, em um tom esganiçado.

Uma porta de pedra escondida na parede deslizou e os novos alunos entraram. Severus estava tão cansado e deprimido que nem se importou em observar melhor a sala comunal sonserina, queria logo ir para a cama. Avery mostrou o caminho para o dormitório dos meninos, e Severus, após perguntar onde ficava o banheiro (que se comunicava com o dormitório) se encaminhou até lá, cambaleante.

Escovou os dentes, e ao terminar olhou-se no espelho. Realmente, Narcisa tinha razão. Ele era asqueroso, pensou. Seus olhos se encheram de lágrimas mas dentro de si, ele sentiu crescer novamente um orgulho frio, como sentira ao confrontar-se com Tiago Potter no Beco Diagonal. Trocou de roupa, não sem antes retirar com cuidado a carta que sua mãe lhe deixara, vestindo seus pijamas negros. Severus achou melhor ler a carta em um dia mais calmo. No fundo, ele sentia pavor ao pensar no conteúdo que aquela carta sombria poderia estar guardando. Escondeu-a com um feitiço, dentro de seu ursinho de pelúcia (que ele também conseguira fazer com que ficasse invisível para os outros - não queria dar mais um motivo para ser ridicularizado). Ficou feliz ao perceber que seus feitiços tinham dado certo e, entre a tristeza, o medo, e a alegria de se sentir poderoso, ele foi adormecendo, tentando a todo o custo lembrar-se do rosto da mãe, quando somente o rosto magro e pálido de Lílian, com seus lindos olhos verdes, é que lhe vinha à mente.

 

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A primeira aula que Severus e sua turma assistiu foi a de História da Magia, com o Professor Binns. A voz do professor era monótona e anasalada, e era difícil prestar atenção ao que ele dizia sem bocejar de dois em dois minutos. A aula do Professor Flitwick tinha sido interessante, e Severus gostou de ser o único a fazer uma corda se transformar em arame farpado, na aula de Transfiguração da Professora Minerva, conseguindo cinco pontos para a Sonserina.

As aulas que ele mais ansiava eram a de vôo e a de Poções, pois seriam aulas duplas com a turma da Grifinória, ele mal podia esperar... Havia visto Lílian e seus companheiros de relance, às refeições, e ela parecia bem entrosada e muito feliz. Ela e Sarah Austin pareciam já estar bastante íntimas, assim como Tiago Potter parecia muito ligado no tal de Black. Severus descobriu que Rômulo, com o qual ele tinha aulas de Feitiços, junto com os outros alunos da Corvinal, era realmente irmão gêmeo de Remus, porém era antipático e metido. Se bem que Severus tinha a impressão de achar todo mundo antipático e/ou metido em Hogwarts, com a exceção de Lílian e Remus. A mais antipática e metida, obviamente, era a chata da Narcisa Stewart, que não perdia uma oportunidade de deixá-lo pouco à vontade e esquisito. Bastava um olhar de Narcisa para Severus se sentir algo bem pequeno e nojento. Mas sabia esconder seus sentimentos e nunca demonstrava ter sido atingido pela crítica ácida e indiscreta da menina. Adivinhava que ela nunca iria parar de atormentá-lo se ele não demonstrasse estar magoado, mas isso estava acima dele, não se curvar nunca. "Orgulho besta", diria sua tia Soraya.

A carta que sua mãe deixara ainda estava dentro de Eddie. Por várias vezes ele fez menção em retirá-la de dentro do ursinho, mas desistiu na última hora. Toda vez que pensava na carta sentia uma sensação estranha. Era como se aquele assunto - sua mãe - o perseguisse nos menores momentos, em pequenas frações de segundo ele se pegava pensando na carta e no seu provável conteúdo: confissões e choramingas. Enquanto ele comia um muffin no café da manhã, ele pensava se seriam desculpas, lágrimas de arrependimento. Enquanto tentava dormir, seu pensamento deslizava para o mistério que o ursinho a seu lado escondia. Mas em nenhum momento ele tomou coragem para acabar de vez com aquela agonia.

 

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Na quinta, foram avisados que Madame Hooch não iria dar aulas naquela manhã pois não se sentia bem.

- Ela está grávida - disse Narcisa, olhando indiferente para as próprias unhas. - Teremos a manhã livre...

- Não deveriam deixar professoras grávidas darem aula aqui - falou Lucius, de maneira ríspida.

- Mas ela só vai ter o bebê no final do ano, minha irmã me disse - falou Melissa, com a boca cheia de pão com geléia. Narcisa a olhou com desdém.

- Severus, vocês já tiveram aula de Poções? - perguntou Sisudus.

- É hoje à tarde - respondeu Severus, mecanicamente. Em sua mente um só pensamento: o que Lílian iria fazer com seu tempo livre?

- Qual o problema com a aula de Poções? - perguntou Narcisa.

- É a Stratas, ela anda tirando muitos pontos da Sonserina. Qualquer deslize ela ataca. Tomem cuidado com ela.

Será que Lílian iria à biblioteca? Severus tentava localizá-la na mesa da Grifinória, mas só conseguia enxergar Tiago Potter e seu amigo Sirius Black.

- Ei, garoto, passa a manteiga por favor? - pediu um rapaz do segundo ano, corpulento e com cara de mau.

- Crabbe, tem manteiga aí na sua frente, tá cego? - disse Sisudus.

Ou será que ela iria passear no lago? Ou dar uma volta ao redor do castelo?

De repente ele sentiu todos os olhares irem em direção ao seu lado direito. Era Lílian, que se aproximava do lugar onde ele estava.

- Oi - disse ela, docemente.

- O-olá - respondeu Severus.

- Eu e minha amiga Sarah vamos passear por aí depois do café, você quer vir junto?

- Claro - respondeu Severus, sentindo um frio na barriga.

- Então nos encontre lá fora daqui a pouco - disse ela com um sorriso, saindo rapidamente em direção à mesa da Grifinória.

Severus se virou, contente. Seu olhar foi atraído para Narcisa, cujo rosto exibia uma expressão enigmática.

 

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Foi contente e cheio de ânimo que Severus entrou na masmorra onde teria aula de Poções. Três horas antes tinha feito um agradável passeio pelas propriedades da escola. Conversara com Lílian e sua amiga - uma menina com ar meio desconfiado - sobre as aulas, os professores, até sobre a comida de Hogwarts. Sarah também era de família de trouxas, mas tinha um tio bruxo. Lílian tinha ficado surpresa ao descobrir que era uma bruxa, ou que pelo menos tinha capacidade para ser tornar uma. Severus ouvira mais do que falara, mas tinha ficado com a sensação de que tinha dito algo errado. Essa sensação, porém, desapareceu ao ver Lílian na masmorra, que lhe sorriu. A seu lado, Tiago Potter. Ao ver Potter do lado de Lílian, imediatamente seu coração esfriou.

Os alunos já estavam há algum tempo esperando pela professora, que estava bem atrasada, quando uma voz atrás deles, pegajosa e fina, muito irritante, começou a fazer a chamada. A bruxa caminhava devagar, e uma pena enfeitiçada riscava o nome no pergaminho, conforme o aluno ia dizendo "Presente". Quando ela leu o nome de Tiago Potter, foi a primeira vez que levantou os olhos, já sentada em sua escrivaninha na frente deles. Olhos azuis, frios como gelo.

- Espero não ter que chamar sua atenção como chamava a de seu pai, Sr. Potter.

Tiago encarou-a, divertido.

A professora baixou os olhos novamente, mas ergueu-os rapidamente ao ler o nome de Severus. Não disse palavra por um bom tempo, o que fez a turma toda virar e encarar o garoto, que corara. Por fim ela sussurrou:

- Você é filho de Helena Burnell, estou certa?

Severus concordou com a cabeça. Não ousava levantar a voz ao encarar aqueles olhos frios.

A bruxa continou encarando-o, de uma maneira assustadoramente ofensiva. Finalmente, ela baixou os olhos e continuou a chamada.

- Vejamos - disse ela, dirigindo o olhar para os alunos. - Em primeiro lugar eu exijo pontualidade. Qualquer atraso de cinco minutos ou mais fará com que percam pontos na média final.

Severus pensou, com ironia, que a professora devia ser do tipo "façam o que eu digo mas não façam o que eu faço".

- Em segundo lugar, estejam sempre preparados, pois a qualquer momento eu posso fazer uma prova surpresa, além das provas práticas realizadas todos os dias.

Ela olhou mais uma vez para Severus.

- Sr. Snape, me diga, qual o fungo necessário para se fazer a Poção contra mau-olhado?

Severus respirou aliviado, pelo menos essa ele sabia.

- É uma erva, professora, a chamada "aranha-do-mato".

A Professora Stratas fuzilou-o com o olhar. Parecia muito contrariada, mas não tirou os olhos do menino.

- Muito bem - sussurrou. - E se eu juntar caspa de trasgo com semente de romã pulverizada, o que eu obtenho?

O menino a olhou espantado. Caspa de trasgo com semente de romã? Não fazia a menor idéia.

- Não sei...

- Isto está no primeiro capítulo do livro que recomendei para vocês.

- Não, professora, eu li os três primeiros capítulos e não há nada sobre iss...

- Menos cinco pontos para a Sonserina - murmurou Stratas, com um leve sorriso no rosto e um olhar de triunfo direcionado ao menino. - Nunca - está ouvindo? Nunca se dirija a mim dessa maneira impertinente! Fique sabendo que caspa de trasgo e semente de romã são um santo remédio para rubéola, se misturados da maneira correta.

Severus nunca se sentira tão injustiçado assim. O resto da aula foi um pesadelo. Ela deixou-o de lado e passou a atacar os alunos da Grifinória. Mas só tirou um ponto de Pedro Pettigrew, e mesmo assim porque ele fez uma bagunça enorme ao colocar pó de lesma no momento errado, ao preparar a Poção contra picadas de pernilongos.

Após a aula ele se dirigiu ao dormitório, onde malocara o livro recomendado por "Zilka Stratas", segundo sua lista de material. Nem o capítulo um, nem o dois, nem o três mencionava a Poção contra rubéola. Ele leu o livro todo duas vezes e não achou nada. A raiva que sentia foi passando conforme o interesse pela matéria foi aumentando. Quando chegou a hora do jantar, Severus já sabia mais de trinta poções de cor.

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