Destino: Solidão
by Ana Claudia dos Santos

Capítulo 17-A Poção



Durante dez dias Petrucius Snape lutou contra a morte. Dez dias de agonia em que não conseguia mais se comunicar com quem quer que fosse. Aryan Saich, um bruxo especializado em feitiços que aparentavam doenças, estava desnorteado. Nunca ouvira falar naquilo, e muito menos tinha noção do que fazer para impedir o avanço do problema. Durante aqueles dez dias, Severus mal falou com seus irmãos. Rigorosus agora ocupava seu antigo quarto juntamente com sua esposa, Sabrina, o que levava Severus a crer que o pai tinha perdoado a fuga do filho. Ele e Sisudus ficavam conversando durante muito tempo, mas nem se importavam com o que Severus sentia ou pensava.

Por duas vezes, Severus vestiu roupas de trouxa (uma calça de brim e uma camisa preta) e foi fazer compras em Londres com o dinheiro que sua tia lhe arrumara. Aliás, Soraya, nesses últimos dias, andava fazendo todas as suas vontades. Libras eram um artigo meio raro em sua casa, mas a tia sempre conseguia trocar alguns galeões com o leiteiro, um trouxa primo de uma bruxa que trabalhava no Beco Diagonal. As compras ajudaram o garoto a superar um pouco a tristeza e a angústia que sentia ao pensar no pai. Para melhorar, resolveu comprar algumas coisinhas nas quais vinha pensando desde seu aniversário.

Mais tarde, Severus descobriu que o dinheiro que Soraya lhe "emprestara" era para ser usado na cura de Petruciusi, mas agora que ele já estava desenganado, ela talvez tivesse achado que teria um final mais produtivo se ajudasse o menino a ficar mais alegre.  Severus também descobrira que o cofre dos Snape em Gringotes estava praticamente vazio, e que pouco além da casa restaria para ser dividido entre os irmãos. Soraya também comentou, por alto, que talvez ela tivesse que começar a trabalhar, mas ele estava aflito demais para se preocupar com isso.

Saich ficou até o décimo dia. Foi-se embora contrariado por não ter podido ajudar, e não exigiu um centavo pelo trabalho, alegando que o aprendizado que tivera foi maior do que o benefício que fora capaz de fazer. Severus gostou muito dele, não só porque parecia bastante competente, como por ter-lhe ajudado quando perguntara sobre um feitiço para impedir legumes e frutas de estragarem. Suas skinberries teriam apodrecido se não fosse por Saich, e o melhor foi que o bruxo não quis saber por que motivo Severus queria aprender aquele feitiço.

Duas horas após Aryan Saich ir embora, Soraya desatou a chorar. Imediatamente Severus sentiu o coração apertar e a cabeça rodar. Acontecera. Seu pai se fora. Sem reação, com um aperto no peito, que parecia querer explodir, ele escorregou da cama para o chão, onde ficou durante horas a fio, imóvel. Nunca sentira uma dor maior, uma dor que parecia não ter fim. Durante aquelas horas em que ficou deitado no chão frio, a cabeça rodando, ele pensou que talvez nunca mais fosse ser capaz de sorrir novamente.
 
 
 

 



 
 
 

Pouco antes de voltar para Hogwarts, houve o enterro de seu pai. Para surpresa de Severus, muita gente compareceu, pessoas das quais ele nunca tinha ouvido falar. Pelo que Soraya falara, antes de expulsar Helena de casa e cair em depressão, Petrucius Snape era um homem muito bem relacionado. Soraya estava aflita pois descobriu, através do contador, o bruxo Cruzo Númeri, que teriam  mesmo que vender a casa para pagar as dívidas. O pouco que sobraria iria custear os estudos de Sisudus e Severus, sendo que Rigorosus teria também acesso a uma parte do dinheiro. Rigorosus agora morava com o sogro, e Sisudus e Severus ficariam em Hogwarts, inclusive nas férias, até Soraya arrumar onde morar. O emprego ela já arranjara. Uma antiga colega de Hogwarts abrira uma lojinha de caldeirões modernos, desses que mexem o conteúdo sozinhos, e estava mesmo à procura de uma vendedora que a auxiliasse.

A preocupação de Severus agora era com seus livros. Não sabia como iria escondê-los, e onde, já que não teria mais um lugar para morar. Pensou em revender alguns na Travessa do Tranco, afinal ele já os sabia quase que de cor, mas os livros que pertenceram à sua mãe, aqueles primeiros livros que foram sua iniciação na magia negra, aqueles ele não venderia nunca, por nenhum dinheiro do mundo. Estavam todos devidamente camuflados, mas ele não poderia se arriscar tanto em Hogwarts. Tomou então uma decisão: vendeu os livros para um livreiro de um sebo, um velho conhecido seu chamado Sr. Rueen Coopin, e guardou os livros de sua mãe em uma velha mala. Essa mala ele levaria a Hogwarts, e daria um jeito, uma vez lá, de escondê-los na Floresta Proibida.

Já no trem para Hogsmeade, ele se perguntava se Helena soubera da morte de Petrucius, se o procuraria, se mandaria uma coruja ou alguma outra coisa. Ele, porém, não sabia ao certo como fora o tal "pacto" que ela cumprira com seu pai. Será que jurou nunca mais procurar Severus, mesmo quando Petrucius já não mais estivesse vivo? E Valentina? Não poderia procurá-lo? Já deveria estar com quase onze anos. E aquela poção, serviria para quê? O encantamento contido na "carta", que era o que havia de mais recente escrito no pergaminho, mencionava visões e abertura de portas, mas Severus ainda não havia entendido o objetivo daquela gororoba... Só haveria um jeito de saber: preparando a poção e tomando-a. Só de pensar nisso ele sentia um frio na barriga e uma sensação de enjôo.

Chegou a ficar feliz ao entrar na sala comunal sonserina, e, mais tarde, em seu quarto. Aquela casa que seria vendida sempre fora sombria, fria, cinzenta, assim como sua vida. Depois de quase quinze dias longe, ele notou que Hogwarts tinha se tornado um local especial, quase um lar. E era nisso que se tornaria se acaso Soraya não conseguisse alugar uma casa, e se ninguém de sua família materna o procurasse...
 
 

 



 
 

Naquela ala abandonada não havia luz, e Severus iria carregar muitas coisas, principalmente um caldeirão portátil que havia conseguido em Hogsmeade, na volta para a escola. E pó de lesma, pena de urubu, açúcar mascavo, aveia Quaker e mil outros ingredientes que a poção requisitava. Assim, ele decorou durante alguns dias todos os passos que teria que dar para chegar no banheiro abandonado e não ficar com o pé preso entre as tábuas, ou, pior, se estatelar no chão e amassar as skinberries. Só nesses ensaios  ele perdeu uma preciosidade de tempo. A poção levaria dois dias e meio para ficar pronta, era até relativamente fácil, mas ele tinha que tomar muito cuidado e escolher a dedo esses três dias pois apesar do banheiro estar em uma ala abandonada, em dias de maior movimento aquele seria um local ideal para namoricos e encontros escusos, que ele sabia acontecer entre alguns alunos e alunas do sexto e sétimo anos.

Finalmente chegou um final de semana sossegado. Muitos alunos iria a Hogsmeade para compras antecipadas de Natal, um baita presente de Dumbledore pois as visitas ao vilarejo eram raras apesar de bastante desejadas pela maioria dos estudantes. A última visita havia acontecido um pouco mais de um mês antes, mas Dumbledore recebeu uma coruja de alguns comerciantes que se encontravam em situação financeira um pouco delicada, e o diretor teve a idéia de mandar os alunos gastarem seus galeões e sicles no vilarejo. Eles ainda estavam no começo de Dezembro, o frio ainda estava tolerável, e parecia já haver um clima de alegria e paz que sempre antecedia o Natal, propício para compras.

Por uma ou duas vezes Severus pegou Dumbledore observando-o, pensativo. Assim que o garoto olhava para o diretor, este disfarçava e virava o rosto, mas mantinha um ar pensativo e sério. Isso poderia preocupar Severus em outros tempos, mas agora, a um passo de desvendar o segredo da poção, ele já não ligava para mais nada.

Finalmente, depois de idas e vindas, depois de ele por três vezes quase tropeçar em Albertine, a velha gata do zelador, e de ter dor de barriga por dois dias, de tanta ansiedade, a poção estava quase pronta. O "quase" ficava por conta do encantamento que deveria ser dito ao ser tomada a poção, e que, ao que parecia, a "ativava".

Na noite de domingo, dia seis de dezembro de 1967, um curioso, apavorado, ansioso e atordoado Severus - na escuridão gelada de um banheiro abandonado e não usado havia anos, tendo como iluminação apenas a luz fraca que ativara em uma lamparina - segurava em uma das mãos um cálice cheio de poção ainda quente, e na outra um pedaço de pergaminho no qual ele havia escrito o encantamento, em código. Ele respirava com dificuldade, sem muita coragem de concluir a poção. Fechando bem os olhos ele respirou fundo e começou a ladainha que já sabia quase de cor, tomando cuidado para não gaguejar:

- Eu convoco, agora, a luz, não para iluminar mas para que faça sombra, pois não quero ver só o que me mostram, e entender somente o que querem que entenda; Sombra, limpe minha mente, traga-me a verdade, amplie minha visão e abra-me as portas...

Nesse momento, ainda de olhos bem fechados, ele tomou, de um só gole, o conteúdo do cálice. Antes mesmo de notar o sabor amargo da poção, ele começou a sentir espasmos de dor pelo corpo todo. Parecia que estava tendo convulsões. Estranhamente, porém, não se apavorou. A dor, a princípio fulminante, foi cedendo, e ele começou então a sentir formigamento pelo corpo todo, e uma sensação de vazio na mente, de distanciamento. Era curioso porque apesar de se sentir desconfortável, esse distanciamento e a sensação de moleza no corpo, fizeram com que se sentisse mais corajoso. Em poucos minutos tudo passou. Ele então abriu os olhos, e viu um rosto de uma bela mulher, de cabelos cacheados e profundos olhos negros.
 

Hosted by www.Geocities.ws

1