Destino: Solidão
by Ana Claudia dos Santos

Capítulo 16-A Verdade








Estava tudo planejado: ele faria a poção logo após as skinberries amadurecerem. Não levaria muito tempo, mas o feitiço era complicado. Severus adiou a feitura da poção para o sábado, pois teria mais tempo, uma vez que naquele domingo ele precisava terminar o trabalho sobre a guerra dos gigantes. Até lá, tentaria não pensar em nada além das aulas. Seus estudos deveriam vir em primeiro lugar, fora esse seu objetivo ao chegar em Hogwarts, ele não deveria deixar sua curiosidade pelas coisas relacionadas a sua mãe atrapalhar seus estudos.

Porém os planos de Severus não foram adiante como ele queria. Na quinta-feira, uma Lilovena cansada e mau-humorada entregou-lhe uma carta. Antes mesmo de abri-la, Severus já sabia que não continha boas notícias. Adiou a leitura para depois da aula de Feitiços, sentindo o coração já pesado. Ao ler o conteúdo, suas suspeitas se confirmaram. Seu pai havia piorado, e muito. Soraya pedia ao sobrinho para tentar conseguir uma licença na escola, e ir visitar o pai. Sentimentos contraditórios tomaram conta do garoto: ele sofria por seu pai, e pela possibilidade de algo de muito grave acontecer, e ao mesmo tempo ficara irritado com as mudanças de plano. Logo à tarde ele encontrou Sisudus na sala comunal sonserina. O irmão estava visivelmente abatido, e preocupado. Severus pensou que talvez Soraya tivesse ocultado certos fatos na carta que lhe escrevera. Será que o pai estava à beira da morte?

Tentando controlar seus medos, ele foi com o irmão até a sala de Dumbledore, que os recebeu com uma expressão pensativa. Severus ficou o tempo todo olhando para o chão, e Sisudus explicou a necessidade dos dois irem para casa imediatamente. Dumbledore pareceu não ter ficado surpreso, apenas lamentou o fato dos dois perderem algumas aulas, que só poderiam ser repostas nas férias de Natal. "Agora ainda mais essa", pensou Severus. "Ainda vou ter que passar o Natal aqui, ou pelo menos uma parte das férias".

Pouco depois os dois irmãos estavam arrumando as coisas para voltarem para casa. Fuligem ainda estava desaparecido. Severus sentia falta do gato, mas por alguma razão inexplicável, sabia que ele estava bem. Guardou as skinberries e Eddie na mochila, a carta "mapa da mina" por dentro da camisa, e separou umas peças de roupa para levar. A grande maioria de suas coisas ficaria na escola. Não sabiam quanto tempo levariam em casa, mas Severus calculava que não deveriam passar mais de uma semana lá.

A ida para casa foi melancólica. Como o expresso de Hogwarts só funcionava durante o começo e o término do semestre, eles tiveram que ir até Hogsmeade (e Severus não teve nem ânimo para olhar à sua volta e reparar nas lojas maravilhosas) e de lá para Londres. Vestidos como trouxas, eles saltaram na plataforma 6 e 4/7 e atravessaram a parede, num caminho pouco usado pelos bruxos. Dumbledore havia trocado os galeões e sicles de Sisudus por libras e centavos, para que eles pudessem pegar um táxi até em casa. Foi o que fizeram, e em quarenta minutos chegaram em casa.

Soraya não os recebeu com festa. O peso no coração de Severus ficou mais forte. A casa estava mais cinzenta e triste do que nunca. Depois de abraçar com força a tia, ele se arrastou até seu quarto, enquanto Sisudus pulou imediatamente para o quarto do pai. Arrumando suas coisas, Severus sentia-se cada vez mais apreensivo e apavorado. Seu pai estava morrendo. Ele não precisava que ninguém lhe contasse isso. Sentou-se na cama, tentando controlar-se. Não podia falar com o pai desse jeito. Na sua mente veio tantas coisas, assuntos que ficaram sem explicação, sentimentos que não foram revelados, que não foram vividos.

Soraya bateu na porta e abriu-a, devagar.

- Seu pai quer falar com você.

O coração de Severus acelerou. Tinha que reunir forças para perguntar, queria saber como ele estava antes de ir até o quarto.

- Tia... - começou ele, cauteloso. - Ele não vai morrer, vai?

Soraya respirou fundo. Era visível sua dor, e as olheiras denunciavam as noites mal dormidas.

- Querido, todo mundo tem sua missão aqui. Um dia...

- Não - gritou Severus. Soraya se alarmou.

- Veja bem, ninguém sabe o que ele tem. Disseram até que... Ai, Severus, vá falar com seu pai, ele está esperando. Está fraco, mas está conseguindo falar normalmente.

O apelo da tia funcionou. Talvez no dia seguinte seu pai não pudesse mais falar. Ou ouvir. Severus tinha tanta coisa a dizer ao pai. Enquanto se encaminhava ao quarto, onde esteve no máximo cinco vezes em toda sua vida, ele pensava no abismo que o separava do pai. A dor que sentia era quase física. Perdera a mãe tão novo, e agora seu pai, que mal conhecera também, estava morrendo. Abriu a porta, e um cheiro de éter e incenso penetrou suas narinas. Mesmo na penumbra, Severus reparou na magreza e palidez do pai. Tentando controlar suas emoções, ele se aproximou.

- Pai... - murmurou, os olhos cheios de água. Petrucius Snape estava um fiapo do que era. Olhando o pai nos olhos Severus descobriu o que Soraya escondia. Aquilo não era doença. Antes que o pai abrisse a boca para falar, mil pensamentos passaram pela cabeça do garoto. A "doença" ou era um feitiço, ou um rebate de feitiço. Mas o pai não tinha inimigos. E Severus não podia imaginá-lo jogando um feitiço do mal em quem quer que fosse.

- Sevvie... - a voz do pai era fraca e rouca. - Tantas coisas... meu filho... que eu escondi... Eu me arrependo, me arrependo...

Severus tentou poupar o pai: - Eu sei, eu sei. Sei que minha mãe não é mãe de Sisudus e Rigorosus. Sei que ela foi sua segunda esposa, eu sei de tudo, pai.

Os olhos de Petrucius brilharam levemente.

- Isso... é só uma parte... da verdade, menino...

- Uma parte?

- Eu... Ela... Sua mãe... Nós nos conhecemos... e eu... imediatamente... me apaixonei...

Severus abaixou os olhos. Não era aquele tipo de conversa que pensara ter com o pai. E a fraqueza de seu pai, tentando lhe falar, lhe contar tudo que viveu, dava agonia.

- Pai, não precisa dizer nada. Eu entendo.

- Não... Ela... Eu... Ela não foi embora...

O coração de Severus deu um pulo.

- Como assim?

Petrucius fez um esforço para sentar-se. Severus não sabia se o ajudava a se sentar ou se insistia para o pai ficar deitado.

- Helena...

"Isso já está virando tortura", pensou Severus, ao ver o pai ofegante e quase sem forças.

- Fui eu... que... expulsei sua... mãe...

- O quê? - gritou Severus, num impulso.

- Magia... magia Negra... Sua mãe... e Soraya... Vittorio...

O pai começou a tossir, sem fôlego. Severus não entendeu nada. Nesse momento, a tia entrou no quarto, acompanhada de um bruxo alto e forte.

- Severus, vá para o seu quarto. Esse é Aryan Saich, ele vai tentar ajudar seu pai.

Severus foi até seu quarto, o coração batendo mais forte do que nunca. Então seu pai fora enfeitiçado... Mas por quem? E não tinha sido sua mãe que fugira... Ela fora expulsa pelo marido. Daí o fato de a carta ter sido escrita já quando eles estavam separados. A estória de que sua mãe desaparecera tendo dito que ia comprar abóboras era só uma grande mentira que lhe contaram. Mais uma grande mentira. Certamente o pai retirara a proteção que impedia as pessoas de comentar sobre Helena na casa. Com lágrimas nos olhos, Severus sentia uma mistura de sentimentos: medo, raiva, curiosidade e muita, muita tristeza. Algo lhe dizia que a estória de sua vida podia ter sido diferente, mais alegre, mais feliz.

Aryan Saich ficou a noite inteira com seu pai. Soraya preparou o jantar, calada. Severus, como sempre, a ajudou. Depois que Sisudus se trancou em seu quarto, com os olhos vermelhos de tanto chorar, Severus tentou esclarecer alguma coisa com a tia, enquanto eles estavam sentados, junto à lareira.

- Tia, o pai me contou umas coisas... Acho que ele estava delirando.

Soraya o olhou, os olhos pesados e solenes.

- Delirando ele não está. Ainda não.

- Mas... ele me falou coisas, da minha mãe... Sisudus... Ele me contou que a mãe dele morreu e que o pai se casou de novo com minha mãe.

Soraya parecia perturbada.

- Eu não podia lhe contar, Sevvie. Quando Helena supostamente desapareceu com sua irmã, ele me fez prometer que nunca iria comentar qualquer coisa sobre ela aqui. E além disso ainda enfeitiçou a casa, então ficava difícil fazer qualquer comentário sobre isso, entende?

- Entendo. Mas agora ele estava me dizendo que na verdade minha mãe não desapareceu, que foi ele quem a expulsou, sei lá...

- Eu sei. Ele me contou sobre isso recentemente também, logo que ele adoeceu.

- Então você não sabia?

Soraya apertou os lábios, preocupada.

- Não. Eu também pensava como todo mundo, que Helena tinha sido avoada e tola o suficiente para fugir com Valentina, deixando para trás você, meu irmão, uma casa e uma família que a acolhera tão bem.

Lágrimas voltaram aos olhos de Severus.

- Eu não entendi. Ele teve um acesso de tosse enquanto me contava. E logo depois esse tal de Saich chegou.

Soraya olhou nos olhos do menino.

- Sua mãe mexia com magia negra, você sabe disso não sabe?

Uma pontada de culpa atravessou Severus. Os livros, alguns livros de iniciação à magia negra, que descobrira um dia no porão, e que ele pensara ter pertencido à sua mãe... Ele estava certo. Ou será que alguém lhe contara sobre os livros? Uma figura apareceu vagamente em sua mente.

- Tia, e meu tio Magdus? Ele também achava que minha mãe tinha fugido.

Até dois anos depois do desaparecimento de sua mãe, Severus manteve contato com a família de sua mãe, com seu tio Magdus e a mulher dele, Ingra. Os dois agora eram apenas um borrão em sua mente.

- Acho que só seu pai sabia da verdade - disse ela, suspirando. - E depois ele começou a proibir Magdus e Ingra de se aproximarem de você. Agora eu entendo porque. Helena deve ter procurado eles dois.

Severus não queria acreditar. E ela nunca o procurara... Nunca fizera qualquer esforço para se aproximar dele.

Talvez adivinhando seus pensamentos, Soraya falou:

- Parece que sua mãe tentou encontrar você várias vezes. Mas Petrucius não deixou. Foi um pacto, de sangue, e ela não podia quebrar o pacto, entende? Para levar Valentina, ela tinha que renunciar a você.

Aquilo era demais. Se ouvisse mais alguma coisa durante essa noite, tinha certeza que ficaria louco.

- Tia, preciso descansar, já é quase meia-noite.

- Claro, querido. Descanse, e amanhã eu espero que seu pai lhe conte pessoalmente tudo que aconteceu.
 

 



 

Durante aquela noite, mal dormida, ele acordou várias vezes, ouvindo a tosse de seu pai, os passos de Soraya na escada, a voz grave de Aryan Saich, e, uma vez, pensou ter ouvido a voz de Rigorosus. Pior que a realidade eram seus sonhos, pesados, e todos iguais, em que uma mulher se afogava e ele tentava salvá-la, sem sucesso. Até que a manhã trouxe um novo dia...

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