Destino:
Solidão
by Ana Claudia dos Santos
Capítulo 15-Detenção
No domingo, Severus acordou tarde, e permaneceu deitado, pensando, durante um bom tempo. As estrelinhas portáteis que ganhara de Lílian ainda brilhavam. Sentou-se, retirou as skinberries de dentro de Eddie, seu ursinho de pelúcia, e ficou um tempo olhando as frutinhas, se sentindo um pouco triste. Já tinha doze anos. E, na verdade, não tinha mais nada na vida. Sua mãe desaparecera com sua irmã, seu pai era distante e seus irmãos mal se importavam com ele. Sua tia era a única que lhe tinha algum afeto. Talvez por isso ele tivesse feito de sua vida um incessante buscar, uma procura sem fim, pensou, apertando uma skinberry entre os dedos. Ele sempre quis "saber". Não importava o quê, estava sempre buscando conhecimento. Foi isso que o atraiu para os livros, primeiro os inocentes, e depois os proibidos. Saber o que ninguém sabia lhe dava uma satisfação pessoal intensa.
Mas agora ele sabia algumas coisas de Hogwarts que quase ninguém sabia, e isso não lhe dava muita alegria. Pelo contrário, se sentia intrigado e insatisfeito. Sabia que ainda existia um pé de skinberries na Floresta Proibida. E sabia que alguém por ali tentara aprisionar um y'eashti, fosse lá o que fosse aquilo. Fez uma anotação mental de procurar, assim que tivesse um tempo, uma definição sobre o tal "espírito", na biblioteca.
Guardou as skinberries num saquinho e colocou-o dentro da veste. Por nada nesse mundo se separaria delas. Na verdade era uma sorte elas estarem ainda verdes, pois era mais fácil de conservar. Mas ainda havia o problema do lugar onde faria a poção, lembrou-se, ao se vestir.
Desceu e avistou uns poucos alunos retardatários como ele, com cara de sono, no refeitório. Engoliu um pouco de chá, devorou um sanduíche de queijo e voltou para a sala comunal sonserina, para fazer os deveres da semana, não sem estranhar que nenhuma palavra sobre dentenção ou sobre pontos perdidos para a Casa fosse dita. Talvez, pensou, amargurado, estivessem esperando o sábado do primeiro jogo de quadribol para inventar uma detenção bem horrível, que o impedisse de assistir à partida. Stratas era capaz de fazê-lo limpar privadas bem na hora do jogo, que ele sabia que seria Sonserina x Corvinal. Ao pensar em Stratas, sentiu a orelha doer, e seu rosto arder de raiva. Que ódio daquela mulher! Como ela se atrevia a tratá-lo daquele jeito!
Malfoy, Crabbe e Wilkes estavam conversando tão alto que ele não conseguia se concentrar no trabalho de História da Magia, sobre as guerras dos gigantes no século passado. Instintivamente, começou a prestar atenção à conversa...
- Mas é só reparar - dizia Wilkes. - Não há ninguém no primeiro ano da Sonserina que tenha sangue de trouxa. Snape é puro-sangue, eu sou puro-sangue...
- E eu também - apressou-se Lucius Malfoy. - E o David Weil...
- Eu também. E Goyle também, e quase todo o resto do segundo ano - resmungou Crabbe.
- E as meninas... É... acho que todas são puro-sangue - completou Malfoy.
- Vê? Não é por acaso. Quase não há mestiços aqui, quanto mais sangue ruim... Agora, nas outras casas, principalmente a Grifinória... - insinuou Wilkes.
O coração de Severus deu um pulo. Lílian...
- Tem aquela Evans, que é totalmente trouxa. E tem a tal da Sarah Austin também - falou Malfoy.
- Essa é mestiça - disse Crabbe. - Conheço o primo dela. Por parte de mãe.
- Por que você acha que não é coincidência? - perguntou Malfoy para Edward Wilkes.
Severus virou-se para ver o menino responder à pergunta.
- Meu pai andou me falando que Salazar Slytherin não aprovava que trouxas fossem educados como bruxos. Mesmo tendo talento... - sussurrou Wilkes, com uma cara de quem se acha muito esperto.
- E daí? - perguntou Severus, já sem conseguir se controlar e se metendo na conversa.
Os três viraram-se, um pouco surpresos, para ver de onde partira aquela pergunta. Ao ver o rosto zangado de Severus, Wilkes apressou-se a responder:
- E daí nada... É só uma constatação - disse ele, levantando as sobrancelhas.
Os três se olharam, franziram a testa e logo mudaram de conversa, passando a comentar sobre o jogo de quadribol. Severus não conseguia se concentrar e resolveu ir para a biblioteca. No meio do caminho, encontrou McNair, que parecia muito nervoso. Severus teve a impressão de que ele não estava em seu juízo perfeito, pois parecia falar sozinho.
Estava quase chegando na biblioteca quando deu de cara com Sisudus, que parecia zangado.
- Que estória é essa de andar pela Floresta Proibida? Isso nos custou trinta pontos a menos e Avery está fulo da vida com você.
- Eu estava atrás de Fuligem - respondeu Severus, secamente.
- Inventa outra, Severus, eu te conheço muito bem. Você sabe que aquele gato idiota nunca se aventuraria dentro da Floresta...
- Se é isso que você pensa, que eu sou um mentiroso, problema seu - disse, apressando o passo, mais irritado do que nunca, rumo à biblioteca.
- Vou escrever pro pai - gritou Sisudus.
- Faça o que quiser, mas me deixa em paz - resmungou Severus, sem se importar se o irmão ouvia ou não.
Ao chegar na biblioteca, pediu alguns livros para Madame
Pince, sobre gigantes, e mais alguns sobre criaturas da floresta. Sua
curiosidade foi maior do que o desejo de se ver livre do trabalho. Procurou
qualquer coisa sobre os tais y'eashtis mas não achou nada. Resolveu então
terminar o trabalho.
Como ele havia previsto, sua detenção veio mesmo num dia de jogo de quadribol, no sábado seguinte, da Sonserina contra a Corvinal. Stratas fizera questão de escolher a dedo o trabalho que Severus iria prestar à escola. Então, às onze horas em ponto, um furioso e triste Severus se apresentou ao Professor Miller, de herbologia, na estufa. Miller era alto e bastante idoso, e quase cego. Não conseguia mais acompanhar um jogo de quadribol, mas tinha tanta intimidade com plantas mágicas que só pelo cheiro ele sabia com o que estava lidando. Instintivamente, Severus apertou o bolso da veste, temendo que o professor soubesse, de algum modo, o que estava ali.
Mas o professor parecia bastante preocupado com a tarefa que realizariam.
- Bem, eu disse a Zilka que não era um trabalho para uma criança de doze anos, mas ela parece que não entendeu.
Severus fechou a cara.
- Professor... podemos começar logo com isso? - perguntou, num sussurro.
O pobre velhinho balançou a cabeça, talvez um pouco assustado com a frieza do aluno, mas já estava mais animado quando trouxe, num carrinho mágico, vários potinhos com plantas, que se ajeitaram sozinhos na grande mesa.
- Espero que você tenha trazido suas luvas de couro de dragão - disse.
Severus limitou-se a tirá-las de um dos bolsos e a colocá-las.
- Muito bem - continuou Miller, sem perder a paciência. - Essas plantas são uma dádiva da natureza, um ingrediente essencial para a poção que desfaz feitiços de gagueira e de mudez. São as "solta-línguas", aparentadas com a babosa. Mas o manuseamento delas é muito difícil. Aqui na floresta temos uma grande variedade de "solta-línguas", razão pela qual o diretor me pediu para extrair o sumo delas. Depois vamos envasar o sumo e mandar para a Suécia, onde um surto de gagueira anda preocupando todos os bruxos. Não se sabe ainda a causa desse surto mas...
- Professor Miller... eu não pretendo passar a tarde inteira aqui espremendo plantas, se é que o senhor me entende. Já perdi o jogo de quadribol, e não quero perder o almoço também - interrompeu Severus.
- Cla-claro... - respondeu Miller. - Bom, temos que extrair o sumo com cuidado para que este não respingue em qualquer parte de nosso corpo. Uma gota de sumo de "solta-línguas" faz surgir várias verrugas, geralmente com um pêlo no meio. Daí porque antigamente os bruxos viviam com verrugas na ponta do nariz, no queixo...
- E não tem alguma coisa que proteja nossos rostos? - perguntou Severus, alarmado. Já tinha o cabelo oleoso, a pele macilenta e o nariz em forma de gancho, só faltava mesmo verrugas em seu rosto para ser considerado o monstro da escola.
- Mas é claro que sim - respondeu animado o professor, trazendo, com um feitiço convocatório, duas máscaras esquisitas. Esquisitas ou não, pensou Severus, eram um alívio.
- Antes de colocar a máscara, vou explicar como extrair o sumo. Está vendo essa parte gordinha aqui? - perguntou. Severus viu realmente um montinho mais gordo, parecendo que iria explodir.
- É só espremer com isso - disse, mostrando uma pinça gigante. Colocou sua máscara e suas luvas e espremeu a planta. Severus também colocou sua máscara e suas luvas e foi imitando o professor, conseguindo um bom resultado logo de cara.
- Muito bem - exclamou Miller, contente. - Aqui estão os
potinhos. Com sua ajuda vamos triplicar o rendimento de sumo de "solta-línguas".
À tardinha, o humor de Severus já tinha melhorado. Sonserina ganhara da Corvinal. Ele já havia cumprido sua detenção, e com louvor. Conseguira juntar, sozinho, setenta e quatro potinhos cheios de sumo.
Na verdade, conseguira juntar setenta e cinco potes. Um deles estava devidamente guardado dentro de seu malão...
Mas o que mais o havia deixado feliz fora o fato de finalmente ter descoberto um lugar perfeito para preparar sua poção. Logo depois do almoço, a caminho da biblioteca, descobrira que o caminho que sempre seguira tinha mudado, de alguma forma, e que estava em uma parte da escola que não conhecia.
Um pouco apreensivo, ele percorreu os corredores do que parecia uma ala abandonada de Hogwarts. Aqui, uma sala cheia de teia de aranhas, ali uma passagem na qual faltavam diversas tábuas. Com cuidado, pulou as tábuas restantes. E a seguir encontrou um banheiro masculino, abandonado como o resto. Era perfeito! As tábuas eram um problema, pois planejava ir até ali à noite, mas nada que um bom feitiço de sustentação não resolvesse. Animado, ele fez o caminho de volta bem atentamente, até onde se perdera. E foi mais animado ainda que descobriu que era só dar uma volta e apanhar outro corredor, e estava no caminho para as masmorras.
Durante o resto da tarde e à noite, ele ficou maquinando como
e o quê fazer para preparar a poção ali. Já com o plano da poção bem
arquitetado, ele passou a bolar um outro plano...