Destino:
Solidão
by Ana Claudia dos Santos
Capítulo 14-Encontros Inusitados
Muito assustado, com o coração batendo rápido, ele saiu correndo. Tropeçou no lago, mas levantou-se logo, acelerando o passo. Somente quando esbarrou numa árvore muito grande é que percebeu que seguira um outro caminho, e não conseguia enxergar os pontinhos luminosos do feitiço. Agora ele estava verdadeiramente apavorado. Como voltaria para o castelo?
Severus acendeu sua varinha. O que quer que estivesse assombrando a floresta, já sabia que ele estava ali. Tentou achar o caminho de volta, forçando a vista para encontrar o caminho de luzes, em vão. Já começava a se desesperar quando ouviu algo como um choro baixinho. Seu coração pulava em seu peito. Deveria se aproximar do local da onde vinha o choro? Ou deveria fazer o contrário, fugir na direção oposta?
Sua curiosidade foi maior do que tudo. Aproximou-se devagar de umas árvores baixas, mas não encontrou nada. Só ouvia o som da floresta, um som de folhas e grilos. Já começava a se desesperar novamente, e tinha decidido tentar sair dali de qualquer jeito, quando ouviu o "choro" novamente, mais alto. Vinha do círculo de pedras. Severus foi caminhando, cauteloso, até lá. Conforme ia se aproximando, foi notando uma luz clara e azulada que vinha do centro do círculo. Teve que piscar duas vezes, e espichar um pouco mais o braço que empunhava a varinha, para enxergar melhor a criatura que emitia aquele som.
O que seria? Não parecia um animal. Nem mesmo, pensou ele, com a boca seca, algo real. Era apenas um fiapo de luz azul, em forma de... em forma de... de... Ele não sabia definir o que via.
A "coisa" tinha olhos, mas não tinha palpebras. Não tinha nariz. Mas tinha uma boca, se é que se podia chamar de boca um orifício escuro da onde vinha um som baixinho e desesperador. Tinha braços, mas não pernas. E estava presa a uma pedra, que parecia ter sido colocada de propósito, junto a uma flor estranha muito branca. Severus teve a sensação de que se tirasse a pedra dali do centro, a "coisa" se libertaria. Mas não conseguia achar coragem para agir. Novamente ouviu o som. Era um lamento triste e parecia dizer "me ajude...". Reunindo toda a sua coragem, ele aproximou-se da luz e rapidamente tirou a pedra do meio do círculo.
Imediatamente sentiu uma dor lancinante na mão esquerda. A pedra queimava sua mão. Largou a pedra, louco de dor, e a seguir sentiu sua mão esfriar. A dor sumira, mas a mão estava insensível. Foi quando ele percebeu a figura à sua frente.
Era o mesmo vulto azulado que estava preso na pedra, porém maior e mais encorpado. Parecia sorrir, ou estar muito aliviado. Severus ficou encarando a criatura por um tempo, que olhava para sua mão. Ele fechou-a, preocupado, mas ela abriu-se involuntariamente. O vulto fantasmagórico emitiu um som estranho, como o de uma flauta, e o menino sentiu a sensibilidade ir voltando a sua mão. Uma fumacinha surgiu ao redor da criatura, e esta desapareceu.
Completamente atordoado, ele se lembrou de que deveria voltar, mas tinha perdido a trilha. Por motivos não muito claros ainda, Severus se sentia um pouco menos medroso depois do episódio da libertação do estranho ser azulado. Caminhou por um caminho, depois por outro, até perceber que voltara ao círculo de pedras, só que não achava o laguinho no qual caíra. Seria o mesmo círculo? Estava preso em um labirinto. Desesperado, deu-se conta de que Fuligem não estava mais ali com ele. Não sabia mais o que fazer. Estava completamente perdido e não sabia onde o seu gato se encontrava. Suando frio, ele pensou em gritar, em deixar que todos soubessem que ele se embrenhara sozinho e sem permissão na Floresta Proibida. Foi quando ouviu um som familiar, e avistou um bicho preto voando em sua direção...
- Nictus! - ele berrou, tremendo de alegria.
Nictus não se deu ao trabalho de pousar, passou raspando pelo rosto do antigo dono e começou a voar baixinho, pousando em umas árvores de vez em quando. Severus ia atrás, seguindo-o, e respirou aliviado ao notar os pontinhos brilhantes que deixara como trilha. Dali saiu diretamente para a estradinha que ia dar no castelo.
Foi quando deu de cara com a professora Stratas.
Mil coisas se passaram por sua cabeça. A primeira foi que o mapa, felizmente, estava escondido dentro de suas vestes. A segunda, que o feitiço da falsa presença talvez tivesse dado errado. O terceiro foi que o sorrisinho no rosto da professora dizia claramente que ele tinha se dado muito mal.
- Que beleza! - exclamou a Stratas. - Foi mesmo muita sorte dar um passeio por essas bandas e encontrar um aluno fujão...
Então não fora o feitiço que não tinha dado certo.
- Vamos, temos que ter uma conversinha com Dumbledore.
Ela avançou na direção de Severus e agarrou sua orelha.
- Ai, tá machucando - reclamou ele.
- Vai machucar mais se você continuar reclamando, moleque. Ande - sussurrou ela.
Eles caminharam até o castelo, e lágrimas de ódio e dor brotaram nos olhos do garoto. Ela ainda lhe pagaria por essa humilhação. E muito caro. Se não morresse de medo da expulsão, seria capaz de testar o Feitiço do Avesso na professora. Ou do Derretimento. Ou, pensou ele enquanto subia as escadas e rezava para ninguém vê-lo daquele jeito, o Avad...
- O que está acontecendo aqui? - perguntou McNair, que aparecera do nada, os olhos arregalados e um ar de quem havia corrido um bocado.
- Encontrei Snape saindo da Floresta Proibida. Imagino que até você saiba qual é o castigo para um delito dessa natureza, McNair.
Severus notou o tom de sarcasmo da professora. E se espantou quando McNair não reagiu. Aquilo só confirmava o que mais temia: o diretor da Sonserina era um idiota.
- Hã... Sei. E você está indo aonde com ele? Vai contar a Dumbledore?
Stratas largou a orelha de Severus, que respirou fundo, tentando não dizer nenhum palavrão. Se McNair não fosse completamente imbecil...
- O que você acha? - provocou ela.
- Acho que você não deveria fazer isso.
- E por quê?
- Ué. Porque o garoto pode ser expulso.
O estômago de Severus revirou. Expulso?
- Pois é exatamente isso que eu quero que aconteça - explicou calmamente a professora de Poções. Ela virou-se, os olhos faiscando:
- Vamos, me siga.
Ele tratou de obedecer, não sem antes lançar um olhar
emburrado para McNair. O mínimo que uma pessoa com cérebro humano poderia ter
feito era dizer que fôra ele quem mandara Severus ali. Era o que ele faria no
lugar de McNair.
A sala do diretor era circular e Severus sentiu que havia muita força mágica por ali. Como ele sentia, não saberia dizer. Talvez um pequeno formigamento na planta dos pés, uma sensação de vazio quando tentava focalizar algum detalhe de um móvel, tudo isso parecia emanar magia.
Mas a sala estava vazia.
- Droga - exclamou Stratas. - Eu tinha certeza de que Dumbledore já tinha saído da festa! - disse, olhando para o menino com um pouco de mais de ódio do que o habitual.
- Fique aqui - continuou ela. - Dumbledore não pode estar muito longe.
E desceu as escadas, apressada, deixando Severus, cansado, triste e preocupado, sentado em uma cadeira. Ele ficou parado por alguns minutos. Olhou para a palma da mão, que estava azul, mas já perfeitamente sensível e sem qualquer dor. Apalpou os bolsos da veste e sentiu as skinberries. Pelo menos tinha dado certo. Restava saber se iriam revistá-lo ou não.
Não adiantava fugir, ele sabia. E, talvez, não fosse expulso. Afinal, ele estava somente preocupado com seu gato. O pior era que agora ele realmente estava preocupado com Fuligem. Tanto fizera que o gato realmente se perdera... Uma lembrança lhe aliviou os pensamentos, a de que Nictus provavelmente ajudaria Fuligem a sair da floresta. Severus conhecia seu morcego, e sabia que ele não seria ciumento a ponto de fazer o antigo dono sofrer quando podia ajudá-lo.
Como um fantasma que surge do nada, Dumbledore apareceu na sua frente. Por um instante, Severus se questionou sobre o que lera em "Hogwarts, Uma História" sobre não ser possível aparatar e desaparatar por ali.
Mas Dumbledore tinha o semblante sério. Sentou-se em frente ao garoto.
- Ele corria ao sair da Floresta, Alvo. Deve ter se perdido por lá. Procurando alguma coisa, provavelmente - falou Stratas, com a voz mais suave que encontrara, mas ainda assim cheia de raiva.
Severus não perdeu tempo.
- Eu estava procurando meu gato...
Dumbledore parecia um pouco mais aliviado. Não parecia querer expulsar ninguém de Hogwarts.
- Isso é o que você diz - resmungou a professora.
- Zilka... Deixe-me a sós com ele, por favor.
- M-mas, Alvo...
- Amanhã eu lhe comunico o que resolvi, por favor. E também não incomode McNair. Deixe que eu resolvo tudo.
Severus podia sentir a professora murchar, notando que seria muito pouco provável Severus ser expulso se McNair não fosse chamado.
- Muito bem. Amanhã conversamos então.
E saiu, não sem antes lançar um olhar de desprezo e antipatia para Severus.
Dumbledore o analisava. Severus abaixou os olhos. Por alguma razão, achava que não ia conseguir sustentar uma mentira durante muito tempo olhando nos olhos do diretor.
- Eu... estava procurando meu gatinho...
- Na floresta? - perguntou Dumbledore, calmamente.
Ele teve uma idéia.
- Não. Na verdade eu achei que tinha visto Fuligem lá fora e me aventurei. Fui procurando ele por todo lado e de repente estava lá, pertinho da entrada da floresta.
- Sei.
Severus suspirou.
- Foi... foi quando eu ouvi um berro, um gemido, uma coisa estranha.
Os olhos de Dumbledore brilharam um pouquinho.
- O quê?
- É... - continuou Severus que, sabendo que aquela parte era totalmente verídica, aproveitou para olhar diretamente para o diretor. - Eu não sabia o que fazer. Então quando ouvi um choro estranho, resolvi ver o que era... Tinha um vulto azul, como um fantasma, mas não era humano... Um círculo de pedras... Eu peguei a pedra...
Severus mostrou a palma da mão esquerda que estava ainda meio azulada. Dumbledore franziu a testa.
- Um y'eashti. Aprisionado... - disse ele.
- Um o quê? - perguntou Severus, sinceramente curioso.
- Um espírito da floresta - disse Dumbledore, rapidamente. - Um espírito de proteção. Só pode ser aprisionado durante o Hallowe'en, e geralmente é necessária uma flor... A Flor-Dente-de-Leite.
- Tinha uma flor esquisita no centro do círculo, ao lado da pedra - disse Severus, totalmente esquecido da ameaça de expulsão.
- Sim, sim... Então foi mesmo proposital... Mas quem precisaria de uma proteção desse tipo aqui em Hogwarts?
Dumbledore ficou durante algum tempo pensativo, olhando para o nada. A seguir, levantou-se. Severus fez o mesmo.
- Vamos, vou levá-lo para Madame Pomfrey, que deixará sua mão normal novamente.
Severus respirou aliviado. Mas não por muito tempo.
- Direi a Zilka para que providencie uma detenção para você,
Severus. Se eu não fizer isso ela vai me perseguir pelos corredores durante
mais de uma semana, reclamando.
Aliviado por não ter sido expulso, feliz por ter conseguido as skinberries, intrigado com a tal estória do espírito da floresta, e morrendo de fome, Severus foi, já com a mão devidamente curada, para o dormitório, se sentindo feliz. Sabia de um feitiço de amadurecimento que faria as frutas ficarem perfeitas para a poção. Só não descobrira ainda um lugar para prepará-la. Até o caldeirão ele daria um jeito, podendo reduzi-lo. Mas precisava de um lugar onde pudesse deixar um caldeirão cozinhando por horas a fio, sem correr perigo de ser descoberto. Bocejando e sentindo o estômago doer, vestiu os pijamas, sem prestar atenção na conversa animada de Lucius Malfoy, Edward Wilkes e David Weil. Guardou, com cuidado para ninguém ver, as skinberries dentro de seu ursinho, e deitou-se. Estava quase adormecendo quando se lembrou de Fuligem. Onde estaria seu gato agora? Mais uma preocupação! E ainda teria de cumprir detenção, e tudo por causa da nojenta da Stratas! Mas ele tinha certeza de que resolveria tudo nos dias seguintes.
Durante o sono, sonhou com vários y'eashtis dançando
alegremente ao redor de uma fogueira azulada, onde um grande caldeirão fazia
uma poção horrível borbulhar. Um dos espíritos o chamava, mas ele não
queria ir. Por fim, aproximou-se e verificou que, na verdade, dentro do caldeirão
havia água, uma água cristalina, e ele se via refletido nela. Suas feições
estavam estranhas, ele parecia mais velho, e Severus sentiu uma angústia
enorme, uma sensação de tristeza muito forte, e lágrimas escorriam de sua
face para dentro do caldeirão, que começou a derreter, enquanto os y'eashtis
vibravam com uns barulhos estranhos, como música. Suando frio, ele acordou,
sobressaltado. Somente depois de vários minutos conseguiu adormecer novamente.